A Sereia E O Marinheiro

1 Uma canção, a sereia e um quase morto.


Notas iniciais
Enjoy :D O nome da música é My Jolly Sailor bold. Em itálico estão os pensamentos das personagens. Qualquer dúvida, me perguntem.

A pior morte, sem dúvida é por fome. O ácido estomacal corrói aos poucos, de dentro para fora. A dor começa no estômago e vai se alastrando pelo corpo inteiro. Há febre, delírios e a força esvai devagar.

Preso no mar há dias, Caleb não conseguia mais distinguir o que era céu ou terra. Seu mundo azul confundia-o, os tons se misturavam e o sol queimava o corpo. A garganta quase fechada e os olhos constantemente umedecidos pelo desespero. Sentia os dedos gélidos da morte abraçando sua alma.

Fechou os olhos esperando.

Um leve balanço do bote quebrou a mesmice. Abriu os olhos com esforço, suas mãos tocaram o fundo do bote, sentido algo pingar.

Confuso.

No céu límpido não tinha traço de nuvens chuvosas.

Virou a cabeça lentamente e deparou-se com uma mulher. Uma das mais lindas, sem dúvida a mais valiosa delas. Os cabelos lisos escorridos, confundidos com as encostas de corais, de tão vermelhos. Nos olhos duas safiras refletindo sua solidão. Também lábios carnudos que a muito não sorriem, a pele branca como a areia da praia pura. Encantadora, porém triste.

Uma sereia!

Uma morte celestial. Não havia escapatória e, por que não morrer nos braços macios e frios de uma sereia? Sem dúvida, um padecer que reis invejariam!

– Antes de me matar – tentou pronunciar com a voz fraca e baixa, quase um sussurro – Cante para mim.

A voz doce e cristalina, quase angelical se fez presente. Um timbre vicioso e hipnotizante.

– Venha mais perto então, meu doce marinheiro. – o pedido dócil escondia intenções traiçoeiras.

– Não! – negou Caleb veementemente – Cante e depois pode levar minha alma. Esse é meu último pedido.

– Levar sua alma? – a gargalhada dela parecia sinos. – Se é isso que quer, cantarei sua ultima canção, mas antes diga qual seu nome, ousado marujo?

– Caleb.

O Náufrago fechou os olhos esperando. O nervosismo consumia e o sol esquentava-lhe o corpo. Ela começou a mais bonita de todas as canções.

Upon one summer's morning

I carefully did stray

Down by the Walls of Wapping

Where I met a sailor guy.

Conversing with a young lass

Who seem'd to be in pain,

Saying, Caleb¹, when you go

I fear you'll ne'er return again.

My heart is pierced by Cupid

I disdain all glittering gold

There is nothing can console me

But my jolly sailor bold.

His hair it hangs in ringlets

His eyes as black as coal

My happiness attend him

Wherever he may go.

Aquele tom era de tristeza? Teria a sereia amado um marinheiro?

Não! Esses seres não tinham coração.

From Tower Hill to Blackwall

I'll wander, weep and moan

All for my jolly sailor

Until he sails home.

My heart is pierced by Cupid

I disdain all glittering gold

There is nothing can console me

But my jolly sailor bold.

My father is a merchant

The truth I now will tell

And in great London City

In opulence doth dwell.

His fortune doth exceed

300,000 gold

And he frowns upon his daughter

Who loves a sailor bold.

A fig for his riches

His merchandise and gold

True love has grafted my heart

Give me my sailor bold.

My heart is pierced by Cupid

I disdain all glittering gold

There is nothing can console me

But my jolly sailor bold.

Não possuíam coração? Então porque, diabos, ela cantava para ele?

Algo pingava em sua mão. Com esforço ele mirou a sereia que chorava, ali, a cena mais bela e triste de sua miserável vida.

Should he return in pov'rty

From o'er the ocean far

To my tender bosom

I'll press my jolly tar.

My sailor is as smiling

As the pleasant month of May

And often we have wandered

Through Ratcliffe Highway

Many a pretty blooming

Young girl we did behold

Reclining on the bosom

Of her jolly sailor bold.

My heart is pierced by Cupid

I disdain all glittering gold

There is nothing can console me

But my jolly sailor bold.

My name it is Hinata¹

A merchant's daughter fair

And I have left my parents

And three thousand pounds a year

Come all you pretty fair maids

Whoever you may be

Who love a jolly sailor

That plows the raging sea

While up aloft in storm

From me his absence mourn

And firmly pray arrive the day

He's never more to roam.

My heart is pierced by Cupid

I disdain all glittering gold

There is nothing can console me

But my jolly sailor bold.

My heart is pierced by Cupid

I disdain all glittering gold

There is nothing can console me

But my jolly sailor bold.

Ele sorriu fraco, acariciando o rosto gelado. Murmurou suas ultimas palavras.

– Linda canção, seu marinheiro voltará.

Ele caiu em sono como não fazia há muito tempo. Sonhou com a sereia, a canção e o mar. No sonho ele era seu ousado e alegre homem do mar.

(...)

Sentiu a areia sob seu dedo, o frescor da maresia e a cálida luz lunar.

Mas o quê? Eu deveria ter morrido.

Franziu o cenho pensativo e ouviu uma risada travessa.

– Ainda dorme, meu marujo? – perguntou a voz divertida.

– O que? – levantou-se em um salto.

Observou-a deitada no quebra-mar. A calda dobrada para cima, como se fossem pernas. Nos lábios o mais bonito sorriso que já vira. O obres brilhavam satisfeitos pela cara confusa e maravilhada do homem loiro.

Observou-o atentamente. A camisa branca rasgada e transparente pela água, calças marrons desgastadas e esburacadas. Ele não tinha sapatos. Reparou nos dedos do pé e olhou-os confusa.

Para quê servem aquelas coisas pequenininhas e estranhas?

Não se lembrava de ver os pés dele, franziu o cenho procurando resquícios em sua memória centenária.

– Por que me deixou viver? – perguntou olhando na mesma direção que ela.

O que tem de errado com seus dedos dos pés?

– Preferia ter morrido? – esticou o braço lentamente enquanto falava. Todos os movimentos deveriam ser lentos para não assustar Caleb, aquele homem estranho.

Tocou suavemente as pontas dos dedos dos pés dele.

De súbito ele pulou e se afastou.

O que foi aquilo?

A sereia percebeu o espanto dele, como um animal assustado que procura se afastar ao máximo do predador. Se o loiro corresse, tudo estaria perdido. Seus lábios tremeram ante a possibilidade. Ele tinha de deixar seus medos de lado, crenças estúpidas inventadas por homens egoístas.

– Eu não irei te devorar. É só... – mordeu os lábios avermelhados e olhou para o lado – seu sorriso me lembra do dele.

Nesse momento ela parecera quase humana, se Caleb conseguisse ignorar a calda negra. Uma figura tão frágil, uma mulher quebrada. Era quase palpável a tristeza dela.

– Sinto muito – murmurou a melhor coisa que pôde pensar – Talvez eu o conheça, como ele é?

– Ele se foi há 100 anos – o sorriso triste dela poderia derreter um coração de gelo – Um dia ele atracou em uma cidade e nunca mais voltou.

De novo as palavras faltaram.

– Ele conheceu uma mulher e se casou. – continuou, como se confidenciasse um segredo.

No final, todos eles preferiam as mulheres terrenas e perecíveis ao seu amor. Perdera a conta de quantos aportaram na terra prometendo retornar o mais rápido possível e nunca voltaram.

Sereias não cantam para atrair os marinheiros para a morte. Elas cantam na esperança de que seus amores retornem, sendo sua voz um guia seguro, como os faróis das encostas são nos dias chuvosos. Uma prece camuflada, um pedido para os marujos nunca encontrarem outra, para se lembrarem do amor oferecido por elas.

A sereia pareceu pensativa por um momento.

- Caleb, você quer ser meu doce marinheiro?

Notas finais
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