A Seleção de Bella Miller
28 A vida é uma surpresa
Notas iniciais
Tentava enxergar ou deslumbrar algo na escuridão. Meus olhos chegavam a arder de tanto se arregalarem. Sem contar o cheiro. Insuportável. Austin me metia em cada roubada!
― Aí! ― dilui, quando minha cabeça bateu em algo duro e rochoso.
― Caramba, fica quieta garota. Eles vão nos ouvir.
―Nós estamos no esgoto, imbecil. Ninguém vai nos ouvir. ―reclamei.
― Que seja!
Eu estava com raiva, muita raiva. Não foi isto que Austin me prometeu quando nos tornamos “amigos”. Olha onde estou agora, no esgoto. Estava muito escuro, e o fedor era horrível. Parecia que havia uma conferência de mortos ali.
― Austin ―grunhi manhosa.
― O que foi, Bella?
― Tem alguma coisa na minha perna.
E não menti. Realmente havia uma coisa pastosa e nojenta rastejando pela minha perna, neste momento agradeci pela escuridão. Pois, não saberia reagir bem ao ver o que rastejava pela minha pele.
― Não tem nada na sua perna, vamos.
Sua voz ecoava irritada, mas não me importava. Ele me colocou nessa, agora aguenta.
― Austin, Austin, está subindo, me ajuda ― derramei pequenas lagrimas ilustrativas, realmente a coisa estava subindo.
Ouvi os passos de Austin se aproximar, até sua respiração estar junto a minha. Mordi a língua para não soltar um grito, minha pele queimava onde o bicho se rastejava.
― Por favor, Austin, está queimando.
― Tudo bem, acalme-se. Se pelo menos você não tivesse deixado a lanterna cair, agora nós estaríamos ‘lá e você não estaria com uma coisa na sua perna.
Soltei um soluço rouco, enquanto Austin rasgava um pedaço de pano, que certamente seria da sua camiseta.
― Seja o que for, eu vou puxar. Talvez doa, talvez não.
Antes que pudesse concordar ou me preparar, uma dor arrastada seguiu na minha perna esquerda.
Ai. Ai, ai, ai.
Seja o que for, espero que Austin tenha tirado. Porque, ‘porra, doeu.
― Prontinho!
Senti o sorriso de Austin sem nem ao menos precisar de claridade.
― Aí ― soltei novamente um soluço rouco.
― Consegue andar, beija-flor?
Ele ainda sorria. Idiota...
― Babaca, você me paga. Eu vou te arrebentar.
Infelizmente minhas palavras não vieram a virar realidade. Minha perna ainda doía, o túnel ou seja lá o que for, era pequeno demais, ou seja, nada de matar Austin.
― Bom, acho que isso foi um sim.
― Você está tão engraçadinho, alteza ― ironizei, enquanto continuávamos nossa caminhada.
As vezes esbarrava nas pedras rochosas, o cheiro e a escuridão não nos beneficiavam. Fora o fato de ser péssima em caminhadas.
Austin ia na frente, tentando de alguma forma nos guiar, o que estava sendo um desastre já que tinha a impressão de estar andando em círculos.
― Austin, nós estamos andando em círculo.
Reclamei, depois do que se pareceram horas dentro daquele inferno.
― Não reclama, garota.
― Não me chama de garota. Eu odeio. ― Esbravejei.
― Garota.
― Babaca.
― Idiota.
― Estupido.
― Linda.
Calei-me, até porque a brincadeira estava indo longe demais. Austin e eu, somos amigos. Nada mais que bons amigos.
― Estou cansada e com sono.
― Meu Deus, Bella, você parece uma criança mimada.
― Meu corpo está dolorido, eu apenas estou reclamando, Senhor ranzinza.
Austin se virou para mim e começou a rir. Eu comecei a rir. E naquele momento, éramos dois adolescentes idiotas, rindo, tentando de alguma forma entrar em uma área restrita ao governo e invadir seu histórico.
― Senhor Ranzinza, é? ― Sua voz exalava sarcasmo, ele estava feliz. ― Senhorita Audrey Hepburn.*
― Ei ― protestei ― eu não sou mimada.
― E eu não sou o príncipe. ―ele colocou a mão no busto, enfatizando ser cênico.
Andamos por cerca de 20 minutos, pra mim a impressão era de ainda estar andando em círculos, mas Austin teimava que aquele era o caminho e todo blábláblá de ‘macho alfa.
Chegamos ao fim do túnel, não era bem o fim, tinha apenas uma passagem no interior da nave. Faltava apenas abrir a passagem e pronto estaríamos novamente no castelo...o único problema era que o buraco se encontrava no meio do esgoto, onde a cachoeira de coisas sanitárias escoria.
Como diz o ditado: Alegria de pobre dura pouco.
No caso da minha, durou apenas 5 segundos, mesmo.
― Sinto muito, Príncipe, mais eu não vou entrar aí.
Austin apenas bufou e começou a andar de um lado para o outro. Como se de alguma forma andar, fosse faze-lo voar ― ironizou meu subconsciente.
― Do que você está rindo? ― ele perguntou constantemente irritado.
― De você, você anda como se por magica seus pés fosse criar assas e você sairia voando por aquele buraco.
Suas orbitas dilatadas se direcionaram para mim, senti sua ira se transformar em desapontamento.
― Eu prometi a você que iriamos procurar pela sua mãe, eu não descumpro promessas, Bella, você deveria saber disso.
Ele se sentou ao meu lado, sua cabeça se fundou entre suas pernas. Ficamos em silencio, eu entendia sua frustação. Mas eu tinha que saber...
― Autin?
― Sim...
― Você se casou com Grace.
Aquilo não foi uma pergunta, nem uma afirmação. Até porque eu não sabia de nada. Os minutos iam se passando, Austin não falava nada, apenas ficava com a cabeça baixa.
― Não, nós não nos casamos. Eu já fui apaixonado por ela. ― seu olhar se direcionou para mim, e senti uma pontada de dor ao saber que ele a amou... ― eu já fui louco por ela, eu pensava que a amava. Mas...me enganei.
Ele se calou, e me repreendi por ser tão curiosa.
― Por que?
― Quando a gente ama, sacrifica a própria vida em nome da pessoa. Não era assim com Grace, de certa forma eu gostava dela, mas gostar não é amar. Não do jeito que eu te amo, não do jeito em que daria minha vida por você.
Ele falava sério, seus olhos passavam isso.
― Você não vai morrer, se é isto que está insinuando.
Tentei colocar um pouco de sarcasmos na voz, mas na verdade estava abalada. Abalada por suas palavras.
― Você não sabe o dia de amanhã, querida.
― Credo, Austin, você está me assustando.
Ele abriu a boca para falar mas a fechou assim que um aparelho celular que ele carregava começou a apitar.
Ligação On
“Thomas.”
“Estamos aqui”
...
“Sim, venha nos buscar, traga cordas”
...
“Okay”
E desligou.
― Quem era?
Perguntei, enquanto ele se levantava.
― Um amigo. Ele vai vir nos pegar.
Assenti, encerrando o assunto. A única coisa que sabia era que eles não haviam se casado, Austin não a amava, pelo menos não como a mim. Uma partizinha arrogante de mim adorava todo aquele amor, aquela obsessão...Acho que deveria acabar com este lado...
Depois de alguns minutos, um homem apareceu entre a abertura, na parede rochosa. Ele não falou muito, apenas colocou a cabeça entre a abertura e deu as coordenadas necessárias para Austin. Uma corda foi lançada entre o buraco, com esforço Austin conseguiu pegar a corda. Um batente de ferro estava solto, pelo mar sanitário. Ele posicionou a lancha sobre o meio da passagem, amarrou uma corda entre as nossas cinturas. Nos enlaçando.
Ai. Ai, ai, ai.
Austin estava sem camisa, de forma que seu tórax se mantinha enlaçado sobre meu corpo. Estávamos relativamente perto, se me aproximasse milímetros era capaz de beija-lo. Espantei os pensamentos importunos e me concentrei em sair daquele lugar fétido.
O homem, ao qual não sabia a identidade, nos puxou para cima e logo estamos em terra firme. Puxei o máximo que consegui de ar puro... Minhas roupas estavam fétidas, e minha perna esquerda se mantinha um vergão avermelhado. Caramba!
― Bella― Austin me chamou.
Desviei o olhar da minha perna horrível e foquei os olhos no homem que havia nos salvado. Era um rapaz, forte, bonito, muito bonito... Olhos verdes, pele clara, e cabelos castanhos. Um pedaço de mal caminho, ironizou meu subconsciente.
― Este é Thomas, Thomas Leger.
Seus olhos verdes se desviaram para mim, e senti meu rosto esquentar. Seu olhar era de pura malicia.
― Prazer, Bella.
Estendi a mão, a qual ele aferiu um casto beijo.
― Uau. Austin não me falou que você era tão ‘gostosa.
― Cale a boca, Thomas, antes que eu a cale por você.
O tom de Austin era rouco, autoritário...Seu olhar pesava em Thomas, que apenas ria, me fazendo corar mais ainda.
Caminhamos novamente enquanto Thomas nos explicava o que fasearíamos: O guarda ao qual ele havia chapado despertaria em cerca de trinta minutos. Tempo que teríamos na sala. Charlie estaria nos esperando no segundo corredor a direita. Era simples: Entrar, pesquisar e sair. Nada poderia dar errado.
― Boa sorte! ― desejou-nos por fim.
Andamos entre alguns corredores, e paramos em uma porta de madeira branca. Três guardas que certamente seriam os que Thomas se referiu como “chapados” estavam prostrados no chão do corredor, totalmente desacordados. Austin não tinha acesso aquela sala, por isso, todo aquele confinamento e o plano infalível.
Entramos na sala. Computadores. Era a palavra que definia a sala. Em todas as direções se encontravam computadores. Se tivéssemos tempo, com certeza pediria a Austin para poder fuxicar em toda aquela tecnologia. Mas, como o moreno de olhos verdes nos direcionou, fomos ao segundo corredor.
Não era muito preciso para definir o garotinho que se encontrava sentado em umas das diversas poltronas. Um menininho gordinho, com os cabelos caramelados, olhinhos azuis e bochechas coradas e com um grande pote de chocolate nas mãos. Aquele era Charlie.
― Eaí, dude?
Austin se aproximou do garoto e eles fizeram o que se pareceu um “toque”.
― Essa é a garota? ― ele perguntou, colocando uma porção exagerada de chocolate na boca.
―Oi, sou Bella.
― Charlie, o gênio da tecnologia, muito prazer.
Sua voz era engraçada. Ele tinha o que? Dez? Onze anos?
― Não temos tempo para papinho, gênio. Ande logo com isso. ― Austin bufou, irritado. Isso era ciúmes, serio? Ciúmes de uma criança?
Charlie revirou os olhos, e ligou o que se pareceu uma nova tecnologia de computador, não era parecido com o velhinho de casa e muito menos com o notebook de Taynara.
― Cara― Charlie começou a falar, enquanto selecionava senhas que apareciam na tela. ― Estamos invadindo restrições do governo, se minha mãe descobrir isso ela me mata.
― Marlee não vai descobrir nada.
Ai. Ai, ai, ai.
Aquele garotinho era filho de Marlee. Então os cachinhos dourados foram herdados da mãe.
― Meu pai iria me esquartejar, e iria ficar meses de castigo.
Oh, Deus. Ele era tão fofinho. Tive que me controlar para não sair apertando aquelas bochechinhas gorduchas e coradas.
― Eu estou te dando oitenta e nove potes de nutella, seu gordo. O que você quer mais? ― perguntou Austin, incrédulo.
― Uns cem resolveria o problema.
Ri, com a sua fofura. Sua voz era muito bonitinha. E caramba, chega. Estou muito mimosinha.
Os dois continuaram sua pequena discussão até a tela ser liberada.
― Por onde começamos? ― Charlie indagou.
― Podemos começar pelo nome de sua mãe.
― Anna Milton Miller. ― disse.
Charlie digitou o nome e uma busca começou, em menos de segundos várias fichas apareceram na tela. Droga, como vamos achar ela no meio de tantas outras mulheres com o mesmo nome!
― Vamos passar horas procurando ― suspirei.
― Não se preocupe, gata. Aprenda com o gênio.
Charlie digitou as semelhanças que estávamos procurando: Casada, Moradia: Dover, Parentesco: Anna Bella Miller, Estado de orbito: 1975-2000.
Não encontrado... Não encontrado...Não encontrado...
― Deve haver alguma coisa errada ― Austin disse, pensativo.
Mas não tinha nada de errado, tudo estava certo. Era para aparecer a ficha de minha mãe. Era para aparecer ela, era...era...
― Talvez ela não esteja registrada com o sobrenome do seu pai. ― Charlie se manifestou, digitando novamente o nome de mamãe só que agora sem o Miller.
Nada encontrado...Droga, o que havia de errado?
― Droga ― Austin bufou.
― E se buscássemos a minha ficha? ― perguntei, esperançosa.
Preenchemos o campo obrigatório, dessa vez com as minhas restrições. Sem delongas, Charlie fez a busca em meu parentesco, uma longa lista de nomes manifestou a tela: Taynara, Papai, tia Clove, Vovó Nancy... Buscamos entre os responsáveis legais e lá apareceu aquele o nome ao qual tanto esperávamos:
Anna Milton Miller.
Charlie clicou no nome prestigiado, e novamente aquelas duas palavrinhas apareceram...
Não encontrado.
Senti meu estomago embrulhar, aquilo significava o que, que minha mãe não existia?
― Não entendo. ― Não era apenas o garotinho gênio que estava frustrado...e confuso.
― Vá em opções, algum relato deve estar aí.
Permanecia calada, até porque não sabia o que falar. Austin estava descumprindo a ordem, e invadindo o sistema de seu próprio governo, Charlie era apenas uma criança e estava metido em tudo isso. Thomas, ele poderia ser julgado, ele dopou três guardas. E...tudo por mim. Se alguma coisa acontecesse a eles, a culpa seria minha.
― Você tem alguma foto da sua mãe? Nós podemos escaneá la e buscarmos no banco de dados. ― Charlie pediu.
Havia apenas uma foto. Um colar. Era a única coisa que ela havia deixado para mim. Uma pequena gargantilha com uma foto dentro. Talvez sirva para alguma coisa.
Entreguei a foto ao garoto, enquanto o mesmo a depositava em uma máquina ao lado do computador. A máquina começou a escarniar a foto. Carregamento 100%
A vida é uma surpresa...
Dessa vez as duas palavrinhas não apareceram, e sim a foto de uma mulher bonita. Os cabelos dourados e a face de anjo eram semelhantes aos meus. O sorriso doce e carismático, era semelhante ao meu...
O único problema era o nome:
Ashley. Ashley, Ashley, Ashley...E pode apostar que o sobrenome não era Milton e muito menos Miller.
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