A Seleção da Herdeira
30 O dia depois de amanhã | A Elite
Notas iniciais
Eu quero te roubar pra mim
Eu que não sei pedir nada
Meu caminho é meio perdido
Mas que perder seja o melhor destino
Agora não vou mais mudar
Minha procura por si só
Já era o que eu queria achar
Quando você chama meu nome
Eu que também não sei aonde estou
Pra mim que tudo era saudade
Agora seja lá o que for
Eu só quero saber em qual rua
A minha vida vai encostar na tua
Eu só quero saber em qual rua
A minha vida vai encostar na tua
E saiba que forte eu sei chegar
Mesmo se eu perder o rumo
E saiba que forte eu sei chegar
Se for preciso eu sumo
— Encostar na Tua, Ana Carolina
— E quando nós comemoramos a independência de Panem, senhor Peeta Mellark? — A professora de história do País perguntou, e eu nem tinha notado o quadro todo cheio de coisas que eu deveria copiar. Estou tão absorto em pensamentos, que não reparei.
— Hã? — murmurei, despertando, enquanto todos os outros riram. — Perdão. Qual foi a pergunta?
A professora pareceu um pouco irritada. Posso fazer nada.
— Eu perguntei quando nós comemoramos a independência de Panem.
— Ah... vinte e cinco de setembro? — chutei, dando de ombros, realmente tentando pensar qual é o dia, mas não faço a menor ideia.
— Sim, acertou — disse, suspirando. — Agora, abram na página 149 do livro e façam todos os exercícios objetivos, os discursivos são para amanhã, tragam pronto. Não vou tolerar desculpas.
Quase olhei para o lado, para perguntar para Finnick se poderia me dizer o que ele acha de dividirmos as questões, mas ele não está aqui. E a ardência no meu rosto é só mais uma recordação dos meus pensamentos.
Suspirei, balançando a cabeça em negativa, porque queria muito ter alguém para conversar, mas ninguém gostaria de falar comigo, ainda mais depois do que aconteceu três dias atrás no estádio. Até mesmo Gale parece mais sério comigo, e tudo mais. Não entendi muita coisa, e ao mesmo tempo, entendi tudo.
Não é todo dia que a Princesa interrompe um evento de punição ao vivo e o seu mentor entra na sua frente disposto a levar um tiro por você.
Que se dane todo mundo também, não vim pra causar bem-estar. Se não for para causar um caos, nem quero estar aqui. Ultimamente esse é o meu mantra.
Ao terminar da aula, quase levantei as mãos para o Céu, e fui o segundo a sair, caminhando para o meu quarto, aproveitando que os meus amigos não estariam lá e sim ocupados com algumas organizações para a festa que os trabalhadores do palácio dão todo o ano. Katniss me chamou para ir, e eu quero ir se for com ela, mas ainda estou tão mal por causa de tudo o que aconteceu! E também por não ter tido tempo suficiente para conversar com todos da minha família, não foi o suficiente, mas eu daria tudo para ver a Princesa agora.
Porém, não consigo deixar de imaginar a aflição que deve estar sendo para ela depois de tudo o o que aconteceu, a sua mãe é quem me preocupa, no final de tudo, com seus olhos frios como um iceberg, cheios de maldade, em um piscar. Mas como ela me deixou um bilhete, e eu mesmo disse que esperaria por dois dias para achar um modo de ficar muito aborrecido com ela depois de tudo, não consigo ficar tanto tempo longe dela, é como uma droga viciante.
Parei em uma parte que tinha quatro poltronas, a caminho do meu quarto, mas ainda tinha uns dez minutos caminhando até lá. Arranquei uma folha, e escrevi em uma letra melhorzinha, para ela entender, já que minha caligrafia é um lixo, e acho que é por eu ser o único canhoto que conheço, mas com a mão direita eu sequer consigo fazer uma linha reta.
"Oi, Princesa! *mão na orelha* é importante. Podemos marcar naquele nosso lugar quando você tiver uma sexta-feira à noite e sábado de manhã livres? Só me avisa antes. Sou muito ocupado. De seu amigo, Peeta."
Sorri, até um pouco orgulhoso por ter saído tão legal a forma que ficou escrito.
Ainda estou chateado, aborrecido, e penso a todo instante a razão de ainda existir punições tão severas assim, tal como achei um completo absurdo todas as família terem sido mandadas para casa antes de falar com os Selecionados. Quero que ela me esclareça muitas coisas, muitas mesmo, porém, algo no fundo do meu coração não deixa que eu deixe-a no vácuo. Algo muito forte é maior do que a minha vontade de demonstrar deste modo a minha indignação.
— Oi, me desculpe, mas a senhorita poderia por favor entregar isto à Princesa Katniss? — pedi, quando fui próximo aos outros quartos, onde Finnick ficava, inclusive. Achei uma criada, que tem os cabelos louros até a cintura, mas contidos em uma trança bem elaborada. Não sei o nome dela, mas sei que é uma das que trabalham pessoalmente para Katniss, pois tem uma cor dourada mas mangas de sua blusa cinza.
A loira sorriu para mim, encantada.
— Claro, pode ter certeza que eu vou entregar isso! Mas já te adianto que ela estava ficando louca na espera de uma resposta sua — sussurrou alto a última parte, pra que eu escute mesmo, mas para que eu saiba que ela sabe de tudo, ou pelo menos parte do que envolve a mim e Katniss. Corei intensamente, sorrindo torto, envergonhado. Nunca sei o que fazer nessas horas.
Ela riu, balançando a cabeça, e foi em direção ao quarto andar em passos apressados, com um sorrisão no rosto.
Me virei, coçando a nuca, ainda corado, e voltei a seguir em direção ao meu quarto.
— Cabeceira da cama — Delly sussurrou, e eu levei um susto, por ela ter passado atrás de mim, vindo de outra direção, fazendo-a abrir um sorriso.
— A gente precisa mesmo conversar — sussurrei também, enquanto ela me ajudava a pegar as coisas que eu deixei cair. — Seu aniversário foi há três dias e não nos falamos nesse meio tempo.
— Pensei que tinha esquecido — sussurrou rapidamente, encenando muito bem que tinha sido acidental tudo do meu estojo cair no chão.
É difícil de acreditar, mas sim. No dia da punição de Finnick e Annie, Delly completou dezoito anos, assim como exatamente duas semanas trabalhando no palácio. No dia mesmo, eu nem consegui me lembrar, por causa de toda a situação, somente na tarde do dia seguinte, e fiquei me sentindo muito culpado, mas Layla e Julia me ajudaram e compraram para mim um cordão com uma pérola azulada com o dinheiro que dei para o presente, só que é difícil encontrar Delly por aí, sinceramente. Graças a Deus, eu a encontrei.
— Como eu poderia me esquecer da data mais esperada do ano para nós dois? — e me levantei, pegando tudo, dando uma olhada dentro de seus olhos únicos, cor âmbar, como se tivessem derretido açúcar neles, quase queimando, e gerou a cor perfeita que são os seus olhos.
Aquele frio na barriga de antes voltou, inesperadamente. Senti um pouco de medo, um arrepio na espinha que foi até a minha nuca.
— Não se atrase — sussurrou de volta, então logo se virou, voltando a caminhar tranquilamente na direção oposta pela qual eu deveria seguir.
Observei-a ir, vendo que a sua raiz ainda estava loira, mas de algum modo, que sei que não foi intencional, pois ela é uma pessoal totalmente decidida, o loiro se misturou ao preto azulado, com mechas, e ficou maravilhosamente perfeito, até mesmo no seu corte na altura dos ombros, que são tão perfeitos como todo o seu corpo, tudo nela se encaixa em seu corpo que se assemelha a um violão, mas discreta como uma flauta.
Voltei a fazer o percurso para o meu quarto, suspirando, balançando a cabeça, começando a pensar no início do nosso namoro, e no quão empolgados estávamos, e continuamos, até ela terminar tudo. Meu coração não sente mais que uma inquietação, embora minha barriga fique gelada quando vejo-a. Só que eu sinto tanta falta de tudo antes...
Mas toda vez que penso na vara cortando as costas de Finnick, assim como cortou as mãos de Annie, percebo que poderia ter sido nós dois lá. Eu não sei se conseguiria viver sabendo que Delly está sendo açoitada ao meu lado. Na verdade, eu sei que não saberia lidar com isso. Consigo imaginar a dor de Finnick, que queria virar o rosto para não ver Annie sofrendo, mas o seu amor fazia ele permanecer olhando para mostrar que ainda estava ali.
Eu não sei o que faria se fosse Katniss no lugar da ruiva, mas provavelmente desejaria morrer da forma mais lenta só para não vê-la chorar e sofrer tanto. Katniss... Delly... Eu devo estar ficando louco. Na verdade, é isso o que eu acho que sou. Louco, completamente louco.
Abri a porta do meu quarto, cansado, já que são quase quatro horas da tarde, e nós estamos estudando desde às oito da manhã. Peguei o bilhete de Delly, que estava escondido entre os travesseiros. Deitei-me na cama de barriga pra baixo, e abri.
"Na sala de sempre, às 21h24min"
— Quanta exatidão — murmurei, sorrindo. Quero mesmo ir vê-la, e dar um presente de aniversário, embora não a veja mais como namorada, eu a via como uma melhor amiga, o que ela sempre foi depois de Amélia.
Só que às vezes eu sinto tanta falta das nossas noites mais diferentes no sótão, onde eu podia beijá-la, e ela podia me beijar, podíamos deixar as coisa fluírem com tranquilidade, por não haver razão de temer a ida de alguém até ali. Sinto falta do jeito que conduzíamos as coisas e o futuro era um grande vácuo cheio de milhões de sonhos, mas nós sabíamos que faríamos tudo juntos.
Com Katniss, o futuro é instável em todos os sentidos. Em uma manhã, podemos acordar entre beijos e abraços, enquanto na outra, ela estar em outro país ou trabalhando e ficarmos sem nos ver por mais de uma semana, não concordando em absolutamente nada. Sem contar que ela pode mudar de opinião e se casar com Gale, quem sabe. Ou Cato. Ou Blane. Só que eu não sei se consigo parar de pensar em seus olhos cinzas com fios azulados perfeitos, redondos, cheios de tantos sentimentos, emoções, pensamentos.
— Peeta! — Stefan exclamou, entrando do nada no quarto com suas irmãs, com um sorriso enorme no rosto. Levei um susto, porque ainda estava com o papel de Delly em mãos. — Tem uma coisa para você!
— Ah, claro, claro — respondi, internamente assustado, amassando apressado o papel nas minhas mãos, depois de rasgar no meio, lancei na lixeira e me sentei na cama, cruzando as pernas no meio da cama. — O que vocês têm pra hoje?
Perguntei, sorrindo torto, cruzando os braços.
— A princesa pediu para que te avisar: Mas é claro, querido. Colar do Tordo. — Layla disse, com um sorriso contagiante. — Ela passou isso para Madge, que nos disse isso, para dizermos para você. E também pediu para dizer que o buscará depois do Jornal Oficial, para preparar uma mochila com coisas essenciais.
Sorri, entendendo toda a mensagem, principalmente a do colar do Tordo.
— Muito obrigado, era o que eu estava precisando escutar — falei, sincero. — Quando foi que ela disse isso?
— Há cinco minutos. Viemos quase voando — Julia disse, um pouco ofegante, sentando-se ma cadeira de frente para o espelho, mas a virou na minha direção. — Vem cá, nós ouvimos um boato sobre casamento, e uma foto circulando de vocês saindo poucos quase meia hora no dia da festa de Halloween, voltando todos sorrisos. O que é verdade?
Olhei para seus irmãos, que se aproximaram um pouco mais, curiosos para saberem o que de fato tem acontecido. Ontem eu não falei com ninguém, pois dormi muito, e depois eu coloquei em dia algumas lições que acumularam, só pedi a ajuda das meninas para comprarem a coisa mais bonita que vissem, assim como a mais discreta, para eu presentear a Delly.
Pensei bem no que ia dizer.
— Não sei se posso contar. Não sei como vai ficar a nossa situação... — admiti. — Depois do que aconteceu eu diria sim agora. Mas vocês não podem falar nada disso com ninguém, por favor — falei mais forte o nada, e eles assentiram, compreendendo. — Mas eu disse sim. Ela também. Porém, eu não faço a menor ideia do que vai acontecer...
Terminei, em um suspiro, balançando a cabeça.
— Estou falando muito, perturbando vocês. Perdão — desculpei-me imediatamente, no entanto, eles riram.
— Que perturbar o quê! A gente não faz nada com a nossa vida! — Julia falou, me jogando um travesseirinho no rosto, fazendo-me rir também, mas isso fez doer a minha bochecha, para onde levei a mão, mas doeu mais, e eu ri mais um pouco por estar ardendo. Eles riram da minha cara, pegando um pano gelado.
— Isso queima! Isso queima! — exclamei, me esquivando, mas Layla já estava na minha cama, com Julia me segurando, e Stefan molhando o pano, obrigando-as a colocarem no meu rosto. Ri mais, por mais que estivesse ardendo.
— Eu não estou nem aí! Você vai casar com a Princesa, precisa estar lindo nas fotos! Está pensando o quê? Que vai usar maquiagem pra cobrir isso?! — Layla exclamou, rindo. — Anda, para de gracinha!
— O queeeeeê...? Não! Ai, ai! Aaaaaai! — gritei falsamente, me jogando na cama, tentando me esquivar melhor, achando tudo divertido. — Eu vou pedir para mudar de criados!
— Muda! Muda mesmo! E a gente vai dar na sua cara! — Julia disse, levando na brincadeira, assim como a irmã, que puxou o balde com água fria da mão do Stefan e jogou em mim, molhando a cama, minha cabeça toda e a minha barriga, assim como um pouco das costas. Quase me afoguei.
— ISSO QUEIMAAAAAAA! — reclamei, dando um pulo, ficando de pé na cama, boquiaberto, sentindo a água trincada escorrer em mim, enquanto minha respiração estava ofegante. — Não acredito! Eu vou ficar resfriado! E no sábado eu tenho um encontro!
Eles riram alto, sentando-se na minha cama, depois que eu desci da cama e busquei uma toalha, pondo em meu pescoço.
— A Princesa ama você tanto quanto você ama ela, então vai te aceitar assim, não te preocupa — Stefan comentou, com uma cara maliciosa. — Amantes desafortunados.
— Na cadeia! — debati, fingindo raiva, acertando uma toalhada nele, que riu mais, caindo na cama. — Abusados.
— Abusados nada! Você vai ser um príncipe consorte, Peeta! Vai ser Rei! Nossa! Desde o começo nós sabíamos que seria você! — Layla disse, com um sorrisão, sentada bem à vontade, com as pernas cruzadas. Fiquei ainda mais à vontade para continuar falando.
— Para de falar um negócio desses! Céus! Eu não dou conta nem desses devereszinhos militares, imagina que LOUCURA vai ser eu administrando tudo! Vou acabar levando o país à falência!
Eles riram.
— Você precisava estar na cozinha assistindo ao vivo a você mesmo quando tudo aconteceu! Todo mundo parou, congelou, petrificou na frente da televisão quando você foi lá, Peeta! — Stefan disse.
— Nós já sabemos quem você é, e que não há quem fosse ser melhor para ter uma atitude assim. Você se responsabiliza pelas coisas mais práticas, e a princesa pelas mais nesse sentido de resolver no papel, e aí vocês trocam. Não importa. Vai ser tudo incrível, você vai ser o melhor rei, se você quiser.
Parei quieto, e me sentei na cama, refletindo nas palavras de Julia. Meu pai também me disse que eu posso ser qualquer coisa que eu quiser, se eu quiser. Eu quero, mas tenho tanto medo... Não pensei nessas responsabilidades mesmo quando aceitei o "pedido" de casamento que a Katniss me fez. Só na parte diante das câmeras, e sei que ia falhar. Antes de ser, eu já estraguei tudo. E se ainda não está estragado e destruído, vai ficar, porque estamos se tratando de mim.
— Mas isso não muda o fato que o rei e a rainha estão furiosos comigo. Não foi dado close neles, foi? — negaram. — Eu pelo menos estava no meu melhor ângulo? Porque doeu demais aquela vara no meu rosto, espero ao menos que tenham dado o close certo na minha cara.
Eles riram.
— Você só pode ser doido, cara — Stefan falou. — Parecia que estavam gravando uma cena de filme de super-herói. Não se preocupe.
— Deram o close certissímo! — Layla disse, me dando um abraço carinhoso, que devolvi, sorrindo. — Não fica triste. E se a Princesa não te escolher, a gente mata a outra escolha.
Comecei a rir, totalmente à vontade, e fechei meus olhos, sentindo meu corpo leve. Levei toda minha vida para fazer amigos, mas quando fiz, foram os melhores que eu poderia imaginar pra mim.
...
Passo por algumas pessoas, da forma mais natural possível, mas não há mais que quatro durante todo o meu rápido e curto percurso de cinco minutos até a sala que Delly combinou. Entrei, dando uma discreta olhada nos lugares ao meu redor, então entrei, tocando no bolso, para ter certeza de que o presente estava ali ainda.
Fechei a porta silenciosamente, esgueirando-me para o centro da sala que está quase totalmente escura, com exceção da luz que entra pela janela, iluminando calmamente, mas só um pouco, pois é a luz da Lua.
— Delly? — sussurrei, quase em um murmúrio. O relógio marcava o horário certo que ela me entregou.
— Oi, Pepe — respondeu, dando-me um susto sobrenatural quando me abraçou pelas costas, cercando minha cintura com seus braços. Ela começou a rir, afastando-se, enquanto eu tentei recuperar o ar perdido, com uma mão no peito.
— Nossa! Nossa! Nossa! — exclamei baixo, ainda estarrecido. — Quase que eu te xingo, filha da mãe!
— Ah, eu só estava brincando! — debateu, e eu vi sua silhueta, tanto a do corpo como a do sorriso. — Vem, sente-se aqui, trouxe uma parada que prepararam para mim.
Ela se sentou no chão, sobre um tapete macio, e eu me sentei ao seu lado, sorrindo.
— Então, comece me contando o que se passa nessa sua cabeça louca — pediu, me passando um prato com um pedaço grande torta de morango, mas duas colheres, para nós dois dividirmos.
— Poderia ter sido a gente, sabia? — falei, baixo. Pensei nisso depois que entrei na ambulância. — Mas na hora eu não conseguia pensar nisso. Só no quanto era injusto.
Ela ergueu os olhos para mim, e os mesmos estavam na direção certa da pouca luz que a Lua nos dava de presente.
— Se fosse nós dois, como seria depois? — perguntou. Estava abatida, e o sorriso tinha saído de seus olhos, que carregavam uma tristeza.
— Eu ficaria com você — falei, como se fosse óbvio, mas falei sem ironia, pois não fui sarcástico ou irônico.
— Simples assim? — perguntou mais uma vez, com a voz balançada. — Peeta...
Ela ia chorar, e eu não queria que ela chorasse.
Coloquei o prato para um pouco longe, mas ainda alcançável se eu me inclinasse, e a trouxe para os meus braços, aninhando-a, escondendo meu rosto na curva de seu pescoço, desejando parar com tudo o que deixa ela triste.
— Eu fiquei com medo de matarem você, ou de você se machucar ainda mais — falou, dando um soluço alto, molhando meu ombro com suas lágrimas, mas eu não me importava, só a abraçava apertado, sem cogitar em nenhum momento sobre sair dali. — Eu quase morri de susto, você é maluco, Peeta? Qual é o seu problema?!
E chorou mais, abraçando-me mais forte pelo pescoço. Meu coração bateu acelerado no peito, de desespero, de amor, de preocupação, tudo por ela.
— Calma, shhhhh... Eu estou bem, eu estou bem, e bem aqui na sua frente, não precisa chorar, está tudo bem — garanti, a um ponto de chorar também. Suas lágrimas são as minhas lágrimas também.
Procurei por sua mão, colocando entre nós, entrelaçando os nossos dedos. Ela olhou para isso, e eu olhei para ela, que olhou para mim, parando de chorar, mas só um pouco.
— Está tudo bem — garanti, baixo, sem quebrar os nossos olhares. — Eu ainda amo você, e faria qualquer coisa pela sua vida, está me ouvindo? Eu fiz aquilo porque ninguém merece sofrer em nome do amor.
— Mas... mas... — chorou mais, deitando a cabeça no meu peito, sem separar nossas mãos. — Você sabe que não sente o mesmo por mim, e eu devagarzinho vou aceitando isso, sabia? Mas sua vida e bem-estar sempre são totalmente importantes para mim, mais do que o meu. Por favor, por favor, Peeta, não faz mais algo assim.
Pediu, fazendo carinho na lateral da minha cintura com a mão que não estava entrelaçada a minha.
— Eu prometo, não vou mais — prometi, beijando o alto de sua cabeça, fazendo carinho em suas costas. — Você é a minha melhor amiga, e a pessoa mais próxima que eu tenho aqui no palácio, Delly. Não há nada que possa mudar isso.
Garanti, sem acrescentar mais nada, porque eu não posso. Não há mais nada para acrescentar entre a gente, como foi quatro anos atrás. Posso mudar muito facilmente sobre o que sinto pela Katniss, mas em algo, ao menos, estou convicto: eu e a Princesa de Panem somos bem mais que bons amigos. E por mais que eu e Delly tenhamos essa relação também, de um pouco mais que amigos, a cada dia que passa isso é aceito por nós dois.
Mas faz tanta falta em momentos assim...
Guardei para mim o suspiro cansado e triste, buscando em meu bolso uma caixinha discreta, e abri um pequeno sorriso torto.
— Delly, tenho um presente para você — falei, sorrindo. Ela fungou, esfregando os olhos, esperta, para ver que presente era, me fazendo rir. — Não pode ser algo maior, porém... É do fundo do coração.
Ela pegou com cuidado a caixinha da minha mão, sorrindo, ajeitando-se melhor em meu colo, com a cabeça apoiada em meu peito, enquanto eu ainda a sustentava com um braço atrás das suas costas.
— Peeta... — disse, baixo, mas abrindo um sorriso largo e lindo, cheio de sinceridade. — Coloca em mim, coloca, coloca!
Ri, assentindo, me sentindo orgulhoso por ela ter gostado, então, com ela segurando os cabelos, coloquei o cordão em seu pescoço, observando seu pescoço branco, e sentindo seu perfume de frutas, que me fizeram fechar os olhos por uns instantes, sentindo a fragrância suave que acordava milhares e milhares de lembranças em mim.
Era como um pedido explícito para um beijo na sua nuca, e virá-la, alcançando seus lábios finos e lindos, dificilmente cobertos por batom.
“Katniss”, lembrei a mim mesmo, voltando para a realidade. Finnick e Annie, lembrei-me mais uma vez, tocando nas mãos de Delly com carinho, esboçando um sorriso no canto do rosto, cheio de carinho, e ela soltou os cabelos, voltando a se acomodar em meu colo, com o rosto em meu peito, segurando a pérola que combinava muito bem com a cor de sua pele, e sorriu para mim.
— Muito obrigada. Foi o segundo presente que ganhei, mas eu amei — disse. — Eu estava precisando mesmo de um cordão. Ver a Katniss com tantos me deixa enciumada, mas, eu não pegaria nenhum por esse. Nenhumzinho!
Ri, fechando meus olhos, assentindo, e quando os abri, beijei sua bochecha, segurando seu rosto com cuidado.
— Não pude escolher, porque não posso sair do palácio, mas só em saber que gostou, é muito importante, e vale como se eu mesmo tivesse ido escolher a dedo. Foi de coração.
Ela sorriu mais, assentindo. Fica linda na luz da Lua, como sempre ficou.
— Eu sei que foi, por isso te agradeço. Agora eu sinto que o meu aniversário foi especial e de verdade, porque você sempre me deu presentes! Mesmo que uma foto, ou alguma fruta que não tínhamos em Sant Cloud. Obrigada. — Piscou, sorrindo torto, então fechou os olhos, suspirando fundo, com sono.
— Eu deveria me importar com quem foi o primeiro a te dar um presente? — indaguei, com ciúmes.
— Sim, deveria... Gosto muito dessa pessoa — disse, sorrindo torto, olhando esperta para mim.
— E qual é o nome? — perguntei, semicerrando os olhos, desconfiado.
— Não estou pronta para te dizer, hoje não... Mas você provavelmente vai gostar, quando os nossos sentimentos se estabilizarem, seja para qual lado nós dois seguirmos.
Então, antes que eu pudesse falar algo idiota, ela deitou em meu colo, com as pernas pendendo para um lado, e a cabeça pro outro, mas a segurei, trazendo para a curva do meu pescoço, sentindo melhor do que nunca o seu perfume.
Parece não importar o que aconteça, sempre tocaremos no assunto de nosso relacionamento.
— Mas você acha que pode namorar essa pessoa? — perguntei, fazendo carinho casto em sua coxa com a ponta dos meus dedos, pensando nela com outro rapaz, feliz. Isso me deixa muito enciumado, mas feliz por ela estar achando seu caminho, assim como eu tento encontrar o meu.
— Acho. Basta ele me pedir que eu tenho quase certeza de que vou aceitar, mas não acho legal falar disso com você. Sabe como é, né... Você é o meu ex, e eu ainda posso ouvir seu coração um pouco acelerado com minha presença, da mesma forma que eu fico quando estou com você. Não é justo aceitar, mas é a melhor alternativa de superar.
Incrível que nossa relação é tão boa, e somos tão íntimos um do outro que nem sequer temos vergonha realmente de falar esse tipo de coisa um na cara do outro.
— E já se beijaram pra valer? Não que me interesse, mas... — Ela riu, bem sonolenta.
— Sim, duas vezes, mas, Peeta, você já viu a princesa de mais de perto. Calado.
Ri, assentindo, beijando sua bochecha, e foi o bastante para mim, acomodando-a ainda melhor em meu colo, sentindo um frio na barriga por ela, por Katniss e os beijos, mas não deixei isso claro. Estou com sono demais também para poder demonstrar algo assim.
— Acho melhor irmos para os nossos quartos — falei, quase dormindo, com muito esforço mantendo meus olhos abertos. Delly ressonava baixinho, um pouco encolhida, mesmo que com a Lua rastejando em seu rosto lindo, não a impediu e nem tampouco a segurou de dormir feito uma criança no meu colo. — Mas que droga...
Murmurei, por estar com tanto sono, que fico sem forças para deitá-la no sofá, tão pouco me mexer.
— Por favor, Dells, acorda aí — pedi, chacoalhando-a um pouco, me sentindo culpado por ter que fazer isso.
— Hm — murmurou, se mexendo, insatisfeita.
— Acorda! — falei mais alto, e ela abriu os olhos, avermelhados em volta da íris, ficando irritada, mas lenta e sonolenta.
— Pode nem cair no sono nessa droga — balbuciou, se levantando, quase caindo, e eu riria se não estivesse com a mesma quantidade de sono. — Tchau, vou ver se marco pra gente se falar melhor.
Concordei com um aceno, e ela saiu, esfregando os olhos com força, suspirando, encostando a porta. Esperei – com muita, muita, muita dificuldade – cinco minutos, e fui para meu quarto, onde me deitei na cama, cobrindo-me quase que por inteiro, mas não liguei muito.
Só fui acordado pela manhã, com o Sol fortíssimo do lado de fora ardendo sobre mim, mas isso não me irritou, porque eu estava de bom humor, afinal, eu vou passar o final de semana com a Princesa.
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