A Seleção da Herdeira
46 Lágrimas no Paraíso | A Escolha
Notas iniciais
Você saberia meu nome
se eu o visse no paraíso?
Você seria o mesmo
se eu o visse no paraíso?
Eu devo ser forte e seguir em frente
Porque eu sei
Que não pertenço
Aqui no paraíso
Você seguraria minha mão
se eu o visse no paraíso?
Você me ajudaria a ficar em pé
se eu o visse no paraíso?
Encontrarei meu caminho
Pela noite e pelo dia
Porque eu sei
Que não posso ficar
Aqui no paraíso
— Tears in Heaven, Eric Clapton

Katniss, mais uma vez, mostrou seu coração incrível, permitindo que eu ficasse em casa por dois dias, que eu passasse a véspera de natal em casa.
— Infelizmente não posso deixar que fique lá por mais tempo — disse, fazendo carinho em meu cabelo, e eu somente fechei meus olhos, agradecendo por seu imenso favor de permitir, ainda, que eu fosse com Delly, Stefan e Layla para casa, no avião real. — Minhas avós estão chegando, com pessoas da realeza da Austrália, Inglaterra, e logo será o anúncio, as festas, e você vai precisar estar aqui.
Balancei a cabeça, abrindo meus olhos, retribuindo seu abraço. Seu perfume ficou na minha roupa.
— Por favor, não fica se desculpando, você está fazendo demais já — ralei, mas não de forma rude. — Obrigado.
Apenas balançou a cabeça dela, e me deu um beijo na bochecha, dizendo que está tudo bem, e que ela está comigo em pensamentos. Nem precisava que dissesse isso, porque dá´para sentir. Katniss é maravilhosa, e soa impecável até quando eu não consigo ver nada além de lágrimas.
Entrei no aerodeslizador, passando pelos três, e me sentei na última poltrona disponível, me sentindo terrivelmente mal, com a roupa do velório em um cabide na cadeira da frente para eu me trocar para ir na igreja batista principal de Chicago.
Katniss proibiu a imprensa, por respeito e consideração de todos nós, mas eu sinto que nem em um momento como esse eu vou ter como respirar e me despedir do jeito certo da minha mãe.
O voo demoraria cinco horas e meia, e eu estava completamente cansado, por ter ficado entre um cochilo e outro, mesmo com meus amigos dormindo ao meu lado, mas consegui dormir as últimas três horas seguidas por causa de Cato, que pediu um chá específico, e Gale ofereceu um comprimido que toma para dormir, por ter problemas sérios com isso, então consegui. Agora são quatro e quarenta da madrugada, para poder dar tempo para que consigamos chegar a tempo de pegar a cerimônia, e eu fiquei observando aos poucos o sol nascer, no horizonte, tão longe, e eu fui me tocar que faz seis meses hoje que eu estou na Seleção.
Seis meses que eu não vou para casa, que eu não tinha assistido um nascer do Sol, seis meses que eu mudei completamente, e não me atentei para o quanto as coisas mudaram nesse tempo.
— Peeta, você precisa comer alguma coisa — Delly disse, se sentando na poltrona ao lado, mas não era ao lado da minha, mas no outro lado do corredor. — Ainda temos mais três horas de voo. Tenta comer alguma coisa.
Neguei com a cabeça, me acomodando melhor na poltrona, e aproveitando que o casaco que uso tem capuz, cobri ainda melhor meu cabelo, e me sentei bem confortavelmente, com os pés na mesinha.
— Não quero comer nada — respondi, dando de ombros, olhando para ela, que está com o nariz vermelho, e olhos bem mais âmbar que o habitual. — Conseguiu falar com a Amélia?
Dessa vez foi a vez dela de negar, balançando a cabeça.
— Desligado, assim como o residencial e do tio Sam. Devem ter sido aconselhados, porque a imprensa só fala disso agora. Mas fica bem, porque com certeza eles estarão lá.
— Obrigado por tentar ligar. De qualquer forma, eu não quero falar com ninguém ainda, e não estou com fome — falei. — Pode comer o que era para mim, eu realmente não vou comer nada agora. Acho até errado pedir para que eu coma alguma coisa.
— Ok, tudo bem, entendi que você quer ficar sozinho, e quer pensar, mas por favor, se lembre que eu estou aqui. Literalmente, Peeta — tocou meu braço, apertando levemente, para eu olhar novamente para ela. Engraçado, se fosse para qualquer outro motivo que eu estivesse voltando para casa, quatro meses atrás, esse aperto faria meu coração acelerar desesperadamente, mas agora fez com que eu ficasse em paz, porque apenas uma pessoa faz com que dispare de uma forma diferente de todas as outras.
— Eu sei… valeu — agradeci, em uma voz baixa e fraca. Eu não sei como agradecê-la, também. Minhas dívidas são infindáveis com as pessoas ao meu redor.
Ela, então, voltou para seu assento, ao lado, realmente, de Stefan, e ele a abraçou, o que me fez ficar internamente interrogado, mas novamente minha mente me trouxe à tona sobre o que está acontecendo comigo, e eu me desliguei novamente, colocando os headphones que ganhei quando entrei para a Seleção, também, e deixei em uma Playlist aleatória.
Even When It Hurts tocou, de uma banda que era chamada Hillsong United, e eu dormi ao final, tendo de alguma forma meu coração descansado por isso.
*
— Não vamos conseguir chegar na hora — Stefan avisou, com uma expressão arrasada. — Além de muita neve, o local está totalmente cercado por repórteres. Vamos precisar pegar um retorno.
— O quê? Mas o que eles têm haver com a minha vida e o velório da minha mãe? Isso não faz o menor sentido! — exclamei, ficando com uma sensação ainda maior de gelo na barriga. — Não consigo entender isso.
— Eles vão fazer qualquer coisa por uma foto sua, Peeta. Quem não sabe que você será o Escolhido? Ou ao menos o muito mais provável? Uma foto sua e da sua família custa uma fortuna para uma revista hoje — Delly disse, indignada com o fato, mas me disse de uma maneira bem clara, para que eu pudesse entender. Katniss avisou-me ontem, e eu não tinha parado para pensar nisso. — Mas olhe pelo lado positivo, você ainda vai estar lá, esse é o mais importante.
Suspirei, me aceitando como um fracassado, escorando-me no banco do carro. Não é uma limusine, na verdade, é bem mais discreto, embora caiba oito pessoas, uma de frente para a outra, é realmente discreto, branco, e passa pela neve sem muitos problemas, mas não é brincadeira quando neva em Illinois.
O resto do percurso foi silencioso, mas eu pude ir olhando Chicago debaixo da neve, parecia estranha, mesmo que muita coisa tenha permanecido a mesma.
Delly segurou minha mão, e me deu um de seus meio sorrisos que fazem com que eu me sinta bem, pela familiaridade que me causam.
Então o toque de seu Smarter quebrou o silêncio.
— Oi, Dean — Dells falou, atendendo em um tom baixo. — Ok, eu sei onde fica. … Uhum, sei … entendi… ok… na porta? Ok. Tudo bem… céus… Jesus, Dean… Tudo bem. Muito obrigada.
Eu, Layla e Stefan ficamos encarando Delly com belas interrogações no rosto, sem saber o que aquela conversa esquisita tinha significado, porque ela não colocou no alto-falante.
— Acontece que estamos cercados por jornalistas, então vamos ter que passar pelo centro de Chicago, para então irmos para a igreja, e Peeta, não vai ter a menor condição de você ficar perto da sua família, porque a igreja está cheia, então você vai ter que ficar em uma parte separada, onde o Dean disse que fica quem precisa manusear os equipamentos, mas você ainda vai poder ver sua família, embora só vá poder falar com eles em casa agora.
Como assim?, foi bem a minha expressão facial para tentar compreender a seriedade que está sendo tudo isso.
— Tem repórteres até na porta da igreja? É isso mesmo? — Layla perguntou, por mim. Agradeci ela com um olhar.
— Sim, em todo o lugar. A situação está pior do que a gente imaginou — Stefan disse, e nós não entendemos. — Olhem aquilo ali.
O motorista entendeu as novas direções, mas passamos porque já estava no nosso percurso, e porque queríamos ver o quão grave era a situação.
Não é um exagero, mas deve haver algo como umas cinquenta pessoas com câmeras e filmadoras, com microfones na porta da igreja. Eu quis chorar bem mais por conta disso. Humilhante é saber que eu teria problemas para me despedir da minha própria mãe.
Mas ao invés de chorar, eu somente suspirei outra vez, profundamente, querendo afundar no banco do carro. Meus três amigos ficaram sem sequer ter o que dizer, mas eu também não saberia o que dizer ou falar para alguém em uma situação como essa.
As instruções que Dean deu foram tomadas, e eu pude ficar observando a província onde eu fui criado, e o lugar que eu pensei que fosse gastar toda a minha vida.
O inverno passado havia sido o pior inverno das nossas vidas, porque Ben, por ser bem pequeno, teve uma pneumonia muito grave, e por nós não termos dinheiro nem para manter todos nós nos alimentando com o mínimo, cuidamos dele em casa, e meu pai ficou extremamente doente, não podendo trabalhar.
E como se não bastasse isso, não havia emprego, então nós nos mantemos aos grandes trancos e barrancos, passando fome, tendo que beber água quente para disfarçar a fome, pelo menos para eu, minha mãe e Amélia, para que os outros pudessem comer alguma coisa.
Outras lágrimas vieram nos meus olhos, mas eu não quis chorar na frente de mais ninguém mais. Já foi suficiente ontem. O problema é que eu me mantenho segurando tudo dentro de mim até não poder aguentar nem mais uma gota dentro de mim.
Depois de vinte minutos, o motorista parou perto, e ainda sim tinha algumas pessoas, mas das quais eu podia reconhecer, como a dona Deise, mãe do Dean, e umas irmãs de oração da igreja. Então, o próprio Dean, mas eu quase não o reconheci por causa do óculos de grau, toca e o casaco, já que aqui está nevando um pouco, mas a nevasca aparentemente foi anteontem.
— Vem, vamos sair aqui, e andar um pouco para os fundos, mas é o melhor caminho, para podermos conseguir entrar — Delly sugeriu, e eu apenas assenti, sendo o primeiro a sair.
— Peeta! — A senhora Daise veio me abraçar, logo quando me viu, e eu abracei ela de volta. Ela, a mãe de Delly e a minha mãe eram grandes amigas. — Eu sinto muito.
Disse, afagando meu cabelo, ainda no abraço. Assenti, escutando suas palavras de conforto.
Ao nos separarmos, eu já chorava outra vez por saber que minha mãe não ia estar mais aqui para falar comigo, e nesses meses só pudemos conversar poucas vezes depois da festa de Halloween, por causa de seu estado sério de saúde, que foi piorando aos poucos.
— Olha, me desculpem, Peeta, mas é melhor você entrar, os pacificadores foram acionados para tirar os jornalistas, mas acabei de receber uma mensagem de que estão vindo para cá porque viram o carro — Não foi preciso Stefan falar outra vez, logo estávamos todos do lado de fora entrando, pelos fundos, e eu me lembro vagamente desse lugar, assim como do próprio Dean, não é estranho, eu conheço, mas um pouco de longe.
— Vocês, podem vir comigo, Delly, vai ser melhor para você ficar perto da Stacey — tia Deise falou, segurando a mão da minha amiga, que assentiu, e Stefan e Layla foram chamados para fazerem o mesmo.
— Por que eu não posso ir para onde meus irmãos estão também? — perguntei para o namorado de Amélia, que foi me guiando para umas escadas.
Ele parou para ponderar, mas rapidamente.
— Bem, seu pai pediu para você não descer, não agora, porque não sabe como o Ben e a Amélia podem reagir — explicou, e eu fiquei surpreso pelas minhas pernas não terem falhado mediante sua afirmação. — Mas vem, daqui você vai poder ver tudo, e também evitar algum alvoroço, e seja pior esse momento do que já é.
Suspirei, assentindo. Mas então parei.
— Você deveria dizer algo assim? Que esse momento é horrível mesmo? — Deu ombros, mas fez uma expressão verdadeiramente pensativa.
— Ah… bem, eu não sei, sinceramente. Mas bom esse momento não é bom, é péssimo. Eu nem sei o que vocês estão sentindo agora, eu sinto tanto, de verdade. Principalmente para você, que ainda tem a questão de que vai voltar para o palácio e ter que agir como se não tivesse acontecido nada. Eu sinto muito mesmo, Peeta.
Destrancou uma porta, revelando uma sala pequena, com aparelhos de computador, som, coisas do gênero.
— Vai começar daqui a pouco, já que não vai ter o sepultamento por causa das cinzas — explicou, com uma expressão de empatia pelo momento. — Então meio que teve aquele momento que todo mundo cumprimenta a família, e a Stacey, como deve saber, ela foi liberada de madrugada do hospital, então deu tempo de chegar a tempo para toda a cerimônia, que não vai demorar mais que trinta minutos.
Assenti, balançando a cabeça.
— Dean, eu vou ficar bem aqui em cima, sozinho. Desce, e fica com a Amélia lá embaixo — eu falei, depois de um tempo, quando vi que ele ficou na sala, depois que eu fiquei de bruços sobre uma janela, que dava para eu ver perfeitamente todo o salão da igreja, principalmente o altar, onde tinha uma foto da minha mãe, sorrindo, e na primeira fileira, todos meus irmãos, Delly e meu pai. Só dá para ver eles de costas, infelizmente, mas para mim é o suficiente. Amélia está sozinha em um canto, na primeira fileira, aparentemente indiferente ao que alguma pessoa estava falando com ela. — Sério, fica lá embaixo com ela. Ela precisa de você lá.
Ele franziu o cenho, em dúvida.
— Eu sei que vocês namoram, e minha irmã nunca teria um relacionamento com alguém que ela não ame, ou que não confie. Quem deveria estar lá embaixo agora era eu, que é o único espaço que falta, mas eu não posso, você sim. Vai lá, eu não vou morrer por estar sozinho na hora do velório da minha mãe, está tudo bem, mas não com ela. E é bom que considere o que eu falo, porque ela é a minha irmã gêmea, e não tem nada que eu não saiba sobre ela, ou ela sobre mim.
— Mas ela disse bem séria que o seu lugar ficasse vazio, a menos que você não obedecesse seu pai e aparecesse lá — ele respondeu.
O olhei entediado.
— Você escutou alguma coisa que eu disse? Está surdo? Quem deveria estar maluco era eu, não você! Eu conheço minha irmã, e quando eu falo que você deve estar lá, é porque você deve estar lá. Ou prefere que eu desça e possa tornar as coisas piores para todo mundo? Acho que não. A última coisa que ela quer é ficar sozinha, pelo amor de Deus, nem em um milhão de anos — ralhei, e ele ficou mais corado do que pelo frio. — Desce. Agora.
Apontei para a porta, e ele só ergueu as mãos, e foi, encostando, deixando a chave em cima da mesinha.
Mesmo dadas circunstâncias, depois que ele saiu, eu dei um sorriso, balançando a cabeça. Posso não estar lá embaixo para abraçar minha irmã, mas ela vai ter alguém que a quer tanto bem como eu e nossa família.
Queria que nós nos revíssemos em outra circunstância, talvez no dia do anúncio nós possamos conversar um pouco melhor e eu possa me desculpar pela minha grosseria.
Daqui, vi ele ir correndo até onde minha irmã estava, e conversando, apontou para onde eu estava. Não sei se ela poderia me ver, mas acenei, sentindo uma vontade de chorar ainda maior, por não poder abraçá-la. Ela estava com os olhos bem esverdeados, daqui eu posso ver, mesmo longe, por conhecer quando seus olhos mudam de cor, por serem como o da nossa mãe, castanhos claros, que dão a impressão de serem verdes em circunstâncias assim.
Ele disse mais alguma coisa. Ela abriu um sorriso, mesmo que no meio das lágrimas, assim como ele, que abraçou ela outra vez, então foram sentar na primeira fileira.
Suspirei, me sentindo feliz por ela. Por outro lado, Delly estava abraçada a Stacey, que estava com a cabeça em seu peito, tremendo, possivelmente pelo choro. Meu pai estava segurando a mão de Amanda, que estava com a cabeça no ombro dele, e Stuart simplesmente parado, fixo na foto da mamãe.
Ben saiu do lado do meu pai, e foi para o colo de Amélia, que estava na outra ponta, pegando-o no colo. Meu irmãozinho estava com o rosto bem vermelho, também deve ter chorado, e entendido tudo o que estava acontecendo. Me lembrei do que Stuart disse, sobre todos verem Amélia como uma segunda mãe, principalmente para Benjamin, o que agora parecia estranhamente nítido.
Uma voz foi escutada, pedindo para que todos ficassem em silêncio, pois era a hora das homenagens para minha mãe. Aí eu já comecei a chorar, me desligando de tudo mais o que estivesse acontecendo lá embaixo, quando algumas fotos dela passaram em uma tela grande.
Em todas, ela sorria, ao nosso lado, ao lado do meu pai, e é essa imagem que eu quero levar dela comigo para a minha vida.
Enquanto o vídeo passava, eu só pude pensar no quanto nada mais parece fazer sentido se ela não vai estar em casa depois que tudo terminar. Tudo mudou depois do que aconteceu, não faz mais o menor sentido um futuro sem ela, sem ela e meu pai, sem seus sorrisos, sem seus abraços, sem sua presença. Já tive colegas que passaram por isso, e depois de um tempo eles disseram que a dor é a mesma, mas você aprende a lidar, porém, mergulhado nesse sentimento de agora, é como se toda a minha vida fosse baseada em lágrimas, arrependimento de tê-la abraçado e beijado mais, de ter dito pouco o quanto eu a amo, o quanto ela é incrível, o quanto eu a admiro.
Agora, é como se nada mais fizesse sentido. E o que realmente faz se todos os eu te amo que eu deixei para dizer depois nunca mais vão poder ser ditos? Todos os abraços que eu falei que daria quando ela chegasse do trabalho mas não dei, nunca serão repostos. Todos os beijos carinhosos nunca mais vão poder ser trocados, porque agora é tarde demais.
Tarde demais para que eu possa fazer alguma coisa a mais por ela, tarde demais para amá-la. Tarde demais para qualquer coisa que envolva eu e ela sendo mais mãe e filho, ao invés de dois parentes dentro de casa, por suas vidas atarefadas.
Amélia subiu para falar algumas palavras, e eu não esperava que ela fosse quem falaria alguma coisa, mas Stacey, que sempre foi a mais apegada a minha mãe, até na aparência.
Porém, é Amélia quem tomou para si as responsabilidades depois do diagnóstico, então vi como justo ela representar todos os irmãos, já que meu pai parecia que não ia fazer nada, eu pude ver que ele não está chorando, mas pelo o que eu conheço dele, esse é o pior dia de sua vida, e não tem nada que possa mudar isso.
— Não quero falar muito, porque o que eu sinto nesse momento, não tem palavras que possam descrever o que é a dor de perder alguém, principalmente quando essa pessoa é um pai, uma mãe, um irmão, ou um amor — ela falava, olhando para as mãos, outrora para o final do corredor, mas mesmo que nossos olhos não se encontrassem, eu pude me sentir como uma só pessoa com ela, e chorei todas as lágrimas que ela está segurando para poder falar. — Mas como uma última condolência à minha mãe, que merece essa homenagem, eu gostaria de dizer algumas palavras, apenas, de quem ela era. Amiga. Esposa. Ouvinte. Sincera. Graciosa. Radiante. Conselheira — lágrimas escorreram por seus olhos, sorrateiramente, mas ela continuou. — Doce. Graciosa. Paciente. Carinhosa. Amável. Mãe. Suas qualidades são muito mais do que essas, muito mais. Nunca vi, nem uma vez sequer, ela reclamando quando precisava passar a noite acordada para cuidar de alguém, ou quando tinha que tirar de si para poder ajudar e fazer algo por alguém, sem pensar duas vezes. Não tem palavras para representar a falta que ela já faz, e a que vai se fazer, não somente na minha vida, mas na dos meus irmãos, do meu pai, e das pessoas mais próximas. E na das que iriam conhecê-la, mas hoje já não irão, e nem amanhã ou depois.
Olhou, então, para a foto da mamãe, sorrindo, e deu um sorriso torto, com dor para a foto. Mais lágrimas vieram, nela, em mim, nos meus irmãos, então passou o microfone, indo correndo para onde estava, se sentando, mesmo que todos estivessem de pé, e se curvou, chorando, sem que ninguém a condenasse por isso.
Outras duas pessoas foram falar, mas eu confesso que não prestei atenção, mesmo que uma delas tenha sido a mãe de Delly, que era a melhor amiga da minha mãe, e a outra a própria mãe do Dean. Vieram os aplausos, então, começou a tocar a música favorita da minha mãe, para encerrar a cerimônia.
De tantas músicas, sua favorita é Amazing Grace, uma muito, muito antiga, de antes dos Dias Escuros, que foi a Quarta Guerra Mundial.
Maravilhosa Graça, oh quão doce é o som
Que salvou um miserável como eu
Eu estava perdido, mas agora eu me encontrei
Eu estava cego, mas agora eu vejo.
Quando estivermos lá há 10 mil anos,
Brilhantes como a luz do sol,
Não teremos menos dias para cantar louvores a Deus
Do que quando, quando começamos no princípio
Por muitos perigos, labutas e armadilhas,
Eu já passei
A graça de Jesus me trouxe seguro, tão distante,
E a graça me levará para casa.
Maravilhosa Graça, oh quão doce é o som
Que salvou um miserável como eu
Eu estava perdido, mas agora eu me encontrei
Eu estava cego, mas agora eu vejo.
Eu sinceramente fiquei soluçando de chorar enquanto o coral cantava tão bem a música, e eu antes via esse louvor como algo uma música bonita, sobre alguém que foi resgatado, algo como o filho pródigo, que saiu de casa, mas caindo em si volta, mas não encarei dessa forma, enquanto todos na igreja acompanhavam, e estava lindo, minha mãe estaria completamente feliz se estivesse aqui.
Consegui entender melhor a visão da música. É sobre alguém que enfim alcançou a redenção, para alguém que passou a vida em escuridão, mas depois de vislumbrar o amor de Deus, enfim descansou. Minha mãe já era cristã antes que eu nascesse, antes mesmo que ela se casasse, então ela já havia sido alcançada por esse amor, mas agora ela desfruta plenamente de todos os seus esforços em vida, agora ela usufrui da parte da música que diz:
A graça de Jesus me trouxe seguro, tão distante,
E a graça me levará para casa.
Sim, ela agora está em casa. Para mim, meus irmãos, meu pai, infelizmente, não é a nossa casa, mas é uma outra casa, em um lugar mil vezes melhor do que esse, e isso me trouxe uma paz que eu não sei de onde mais poderia ter vindo a não ser de Deus.
Tossi, de tanto chorar, e me sentei no chão da sala, cobrindo meu rosto com minhas mãos, porque sei também que os meus irmão vão precisar de mim depois daqui. Já passei tempo demais longe, agora eu preciso ajudar eles no que eu puder.
E o coral cantou, para finalizar, mais uma vez, o refrão, e a parte favorita da minha mãe:
Maravilhosa Graça, oh quão doce é o som
Que salvou um miserável como eu
Eu estava perdido, mas agora eu me encontrei
Eu estava cego, mas agora eu vejo.
Ah, Graça. Graça… Graça…
Memórias minhas com minha mãe me vieram com toda a força à minha mente, como um filme, e essa música como o plano de fundo. Me lembrei das vezes que ela se sacrificou por mim, por meus irmãos, de todos os nossos abraços, de todas as vezes que ela disse que me amava.
Por conta da quantidade de irmãos, nós nunca fomos o tipo de mãe e filho muito unidos, ou algo parecido, mas eu sabia que ela me amava, e a paz em meu coração, é de que, mesmo que eu não tenha dito tantas vezes o quanto eu a amava, eu sei que ela sabia que eu a amava, e o que me motivou na Seleção, o que me fez me inscrever na Seleção, foi para tentar ajudar e ela, e melhorar sua vida, mesmo com o diagnóstico.
Mas às vezes não é suficiente, quase sempre não é suficiente, mesmo que a gente faça o possível para que seja.
Stefan entrou na sala, sozinho com Layla, que veio me abraçar. Eu apenas passei os dedos debaixo dos meus olhos, para tirar as lágrimas.
— Não quero ir embora agora — falei, pondo minha cabeça no ombro da garota, que se sentou ao meu lado. Stefan se sentou na minha frente, e parecia ter chorado também, mesmo sem nem ter conhecido minha mãe.
— Viemos também falar sobre isso, está tudo bem, só vamos poder sair daqui em quinze minutos, os pacificadores estão controlando a situação dos jornalistas — Stefan explicou e eu assenti.
— Vocês podem me dizer se é normal se sentir assim? — perguntei.
— Bem… — Stefan começou, suspirando. — Infelizmente é. As nossas vidas parecem perder o sentido quando algo assim nos acontece... — disse. — É normal desejar que nada tivesse acontecido, se arrepender das coisas simples e que fizeram vocês perder tempo bem um com o outro. E aí fica vindo com tudo na sua mente de que não tem mais nada o que se possa fazer. Agora, vai parecer que é o fim do mundo.
— Mas nem é — Layla completou a fala do irmão, afagando meus cabelos, que estão completamente bagunçados, com os cachos, porque eu não passei uma escova. — É só agora. Às vezes a eternidade dura um segundo, e a dor como essa, de um luto, a mesma coisa, com essa sensação de que o mundo está acabando, mas não está. Fica em paz. Pelo o que pudemos assistir, pelo o que escutamos lá embaixo, sua mãe está salva, Peeta, e mesmo que pareça difícil, é melhor assim do que se ela continuasse aqui.
Stefan assentiu.
— Não que esse seja um consolo, mas infelizmente muita gente parte, e não tem a paz que você e sua família tem, de que ela voltou para casa, como disse no louvor que tocou agora pouco. Alguém que ama uma música dessas já sabia que não era daqui — ele prossegiu.
Layla concordou.
— Agora, tudo o que você tiver que chorar, chora, o que tiver que soluçar, soluça, passe mal. É um direito que você tem, não importa o que aconteça, você tem esse direito, pode e deve fazer isso, não guarde nada para você. Apenas se lembre que não é o fim, a história dela acabou, mas a sua, dos seus irmãos, está começando, e não é isso que pode parar. Não seria o que ela gostaria que fizesse — Layla acrescentou.
Assenti, me sentindo melhor, mas sabia que em casa, quando eu tivesse que olhar nos olhos dos meus irmãos, tudo voltaria, porque eu sinto como se tivesse abandonado eles.
— Gente, vamos, conseguiram controlar os repórteres, Peeta vai poder passar em paz — Delly avisou, abrindo a porta, com os cabelos voando, por causa do vento gelado que entrou, através da janela que eu estava vendo tudo.
Descemos, com os irmãos na frente, ela pegou minha mão, e me deu um meio sorriso, abraçando-me pela cintura. Retribui o abraço, mesmo que pelos ombros. Ter recebido a notícia sem ela não teria nunca sido a mesma coisa.
— Como a Stacey está? — perguntei, baixo, passando pelo enorme corredor da frente da igreja.
— Está mal, mas ela parece que está melhor depois do que o Dean conversou com ela, a Mandy e a Mel. Pelo menos não está com sintomas de que vai passar mal de novo, o choque já passou. Stuart que está muito estranho, ele não falou nada, e ela me disse que ele não fala desde que soube da notícia. Bem… foi ele quem descobriu.
Como se uma nuvem cobrisse o rosto de Delly quando ela mencionou isso, como se tivesse algo que eu sinto que não vou gostar de saber, mas é claro que vai ser a primeira coisa que eu vou querer saber depois que a poeira abaixar, porque não está fazendo sentido algum o que aconteceu com a minha mãe.
Nos separamos, por causa de tudo, e ela apenas apertou um pouco mais a minha mão, antes de soltar. Eu entendo muito bem isso, é um estou com você, e sinceramente eu não sei como agradecer a Deus e a eles por isso.
Quando estava saindo da igreja, aparentemente alguém contou por onde nós iríamos sair, e apareceram vários jornalistas, com câmeras, flashes, e eu fiquei perdido.
— Ah, meu Deus! — Layla exclamou, andando rápido, e como todos meus amigos, cobri o rosto com as mãos, e eu nunca imaginei que um dia precisasse passar por uma situação dessas. Stefan segurou no meu pulso, e Delly no outro, me ajudando, porque eu estava sendo sufocado, literalmente, por causa de tantas pessoas ao meu redor, gritando perguntas ofensivas, sobre, por exemplo, se a minha mãe havia tentado suicídio, ou se meus irmãos deixaram ela ir para uma clínica, outras sobre casamento, coroação, e eu chorei antes de entrar no carro, porque eu me senti violado.
Quando a porta do carro fechou, o motorista acelerou, fazendo neve voar, e todos nós ficamos sem ter o que dizer.
— O que é que foi isso que aconteceu?! — Stefan perguntou, exasperado. — Quanta falta de respeito! E a princesa deixou bem claro, em um comunicado oficial que estava completamente proibida a presença da impressa! Peeta, eles machucaram você?
Neguei, limpando meus olhos. Eu nem consegui falar alguma coisa. Foi tão assustador os últimos segundos, que eu sequer tenho o que dizer.
— Pelo menos nós conseguimos entrar a tempo. Mas não fique mal, acho que focaram tanto em proteger a sua família disso, que houve uma falta nesse final — Layla falou.
— Eles chegaram bem e saíram sem esse assédio todo? — Delly assentiu, imediatamente.
— Katniss fez questão de pedir para que mais alguns guardas à paisana fossem dar suporte para eles na entrada e saída, e o rei, quando soube, inclusive deu punição de dois dias detidos para quem tentar, sabe, se aproximar para assediar dessa forma algum dos seus irmãos e o tio Sam. Fica tranquilo quanto a isso. Vieram dessa forma para cima de você porque não chegaram nos seus irmãos.
Suspirei, arrasado, mais do que eu estava, porém carregava a paz de que meus irmãos não tiveram que passar por isso. Pelo menos isso, graças a Deus.
Então, o resto da viagem, que durou meia hora, realmente o silêncio se fez presente, cada um preso em si mesmo. Encostei minha cabeça na janela do carro, vendo as ruas, que eu conheço bem, mas que, dadas circunstâncias, nem se eu estivesse afim de andar por aqui eu conseguiria, por causa dos enlouquecidos dos repórteres.
Quando, enfim, o carro parou na minha casa, eu nem podia acreditar que realmente era a minha casa, onde eu havia crescido, passado toda a minha vida, até ir para o palácio. É a minha casa, mas não soou como minha, mas ao mesmo tempo sim, como se o tempo não tivesse passado, e tudo o que aconteceu nos últimos meses tivesse sido apenas um vulto. Como se eu tivesse ido apenas trocar de roupa, e voltado em um carro novo.
Saí sozinho, sem dizer nada, e eles não vieram atrás de mim, embora eu soubesse que fossem dormir aqui, hoje e amanhã. Certos passos temos que dar sozinhos.
Passei pelo jardim, com seis tipos de flores diferentes, cada uma representava um de nós, e resistiam, mesmo sob a neve, de uma forma bonita.
A casa não tinha mudado muita coisa por fora, a não ser a cor, e que estava melhor apresentável, com uma porta nova, que nós não teríamos condições para comprar se não tivesse sido a mesada da Seleção. Não bati. Apenas toquei na maçaneta, e ela estava gelada, congelada, por causa do frio negativo que fazia, explicando a touca na minha cabeça, e o cachecol no meu pescoço. Mas não foi o fato de estar congelando a maçaneta que fez meu estômago gelar. Foi o fato de que eu finalmente estava voltando para casa. Era meu maior desejo desde o começo, que eu nunca quis ir para o palácio, que agora é como se fosse a minha casa, e vai se tornar, em pouco tempo, mas aqui ainda é um lugar especial. É o meu lar.
Abri, devagar, sentindo outra vez meus olhos se encherem d’água, tirei minha toca, segurando em uma mão.
Então, vi todos os meus irmãos na sala, Ben no colo do meu pai, Amélia sentada no chão, todos com roupas de frio, mas não mais as da igreja. Estavam esperando por mim.
— Me perdoem por todo o tempo que eu passei fora — falei. — Me perdoem.
Stacey foi a primeira a correr na minha direção, depois todo mundo fez a mesma coisa, nos envolvendo em um abraço coletivo em família, com lágrimas.
Mas aqui estávamos nós, juntos. Mesmo sem minha mãe, ainda somos isso, uma família. E eu soube que seria muito difícil sem ela, mas nós ainda temos uns aos outros, o que é suficiente.
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