Notas iniciais
Olá! Faz um tempo que não apareço por aqui, né? Pois é, culpa da vida adulta diminuindo a produtividade, tanto minha quanto da minha beta rs Mas estou de volta com um capítulo novo e com o aviso de que talvez a história passe por mudanças. A temporada final de GoT começou há duas semanas no dia em que estou postando, o que significa que muita coisa vai acontecer e eu posso mudar algumas coisas na história em consequência disso, mas avisarei se acontecer. Aproveitem!

O ranger da porta anunciou que Mhaegen não estava mais sozinha. A mulher engoliu em seco, já acostumada com a rotina, porém a cada vez que Meistre Paxter lhe trazia seus remédios era como uma tortura, assim como fazer qualquer outra coisa também lhe era uma tortura. Os únicos prazeres que Mhaegen Baratheron ainda tinha eram estando próxima de seu marido e sua amiga rainha, ou cultuando o Senhor da Luz.

— Perdão, minha senhora. — O velho meistre pediu com seu tom amigável e pesaroso, como todas as vezes que estava lá para anunciar uma nova dosagem dos remédios. Ao pé da cama, olhando diretamente para as chamas que queimavam na lareira, Mhaegen não respondeu, imersa na dança eterna do fogo que aquecia seu corpo e lhe dava algum tipo de conforto e esperança. Que o Senhor da Luz traga paz ao meu espírito, era sua prece em pensamentos. — Já é hora... — O meistre reafirmou, e ela finalmente quebrou o contato visual com as chamas para sorrir calorosa, ainda que dolorosamente, para o homem ao pé de sua porta.

— Entre, Meistre Paxter. Peço desculpas por fazê-lo esperar. — Suas palavras eram gentis, assim como o velho meistre da Cidadela sempre fora com ela desde seu casamento com Kaeran há tantos verões. Mhaegen era muito grata por ter um meistre tão caridoso cuidando de Ponta Tempestade e acreditava que Paxter, em seus anos de experiência, poderia colocar um pouco de juízo na cabeça de Eddad. Não que aquilo fosse adiantar de algo àquela altura.

Arrastando-se para o centro da cama, Mhaegen ouvia o tilintar da espessa corrente que cercava o pescoço do homem, que trazia consigo uma urna com o que ela presumia ser as várias poções. Ele repousou a urna sobre o móvel ao lado da cama e sorriu gentilmente para a Mhaegen, com as rugas da idade avançada se comprimindo revelando feições de um homem sábio.

— Está se sentindo melhor, minha senhora? — Perguntou, cantarolando uma canção que a mulher vagamente conhecia através de seus filhos.

— O Senhor da Luz me dá forças, obrigada. — Meistre Paxter desaprovava o comentário de Mhaegen, ela sabia. O velho era um verdadeiro devoto dos Sete, assim como a maioria dos de sua ordem. Mesmo assim, o senhor era educado demais para demonstrar qualquer sentimento negativo. Ao contrário, ele assentiu com a cabeça e um sorrisinho no rosto.

— Muito bem. É importante que se mantenha forte. — O meistre misturava algumas ervas e outras coisas que Mhaegen desconhecia em um pote para macerá-las e fazer a pasta que ele aplicava todas as tardes naquela hora. — Sabe... na Campina algumas pessoas sobrevivem vários anos com a praga. Eu rezo aos Sete e ao Senhor da Luz para que a senhora possa desfrutar de longos anos por vir. Aqui, minha senhora. — Ele entregou um frasquinho o qual ela bebeu o conteúdo de uma vez. Havia um acentuado gosto amargo, quase comparado à cerveja que era tão querida por seu marido em Porto Real. Ela não reclamou.

— O Senhor da Luz recebe suas preces?! — Ela exasperou. Seria possível que depois de tantos anos o um tão convicto meistre da Cidadela estivesse se convertendo?

— Entenda, querida, — ele iniciou, parando de macerar as ervas e segurando-lhe as mãos. Benevolente fosse R’hllor! Os sacerdotes e sacerdotisas vermelhos que a visitavam não tinham medo, porém Mhaegen sabia que o Senhor da Luz lhes dava o poder de nunca ficarem doentes. Paxter era o único homem comum que não tinha medo de tocá-la. — R’hllor não é um deus que escolhi seguir. Como um meistre sou fiel à Fé, mas em tantos anos na Cidadela, nunca vi uma única pessoa que provasse tal deus ou outros deuses estivessem certos. — Ele soltou sua mão para acrescentar algo pastoso à mistura. Já era hora, ela sabia. — Assim sendo, se a senhora acredita em outro deus que não os meus, eu hei de rezar para que tanto os Sete quanto o seu Senhor da Luz atendam minhas preces. Quem sabe algum deles atenderá nossas clemencias?

Ele sorriu ternamente para ela, reservando a mistura pastosa sobre um pano e a mulher correspondeu o sorriso, virando-se na cama para poder levantar seus robes de dormir, revelando assim as costas com uma extensa mancha amarelo-esverdeada, onde Meistre Paxter aplicou o pano com cuidado, passando algumas ataduras sobre a extensão do pano para segurá-lo firme no lugar.

— O senhor é muito gentil, meistre. Sou muito grata por isso. — Ela respondeu com um sorriso, o que fez o meistre sorrir também. Ele era o único que a fazia sorrir além de seus filhos e seu marido. Mas todos eles estavam tão longe. Ela sabia que era para a própria proteção deles, mas ainda assim sentia um aperto no coração ao saber que ela era a única culpada por seu estado. E aquilo trazia novas preocupações à senhora de Ponta Tempestade. — O senhor não tem medo de se contaminar, Meistre Paxter?

O velho riu alegremente, fazendo Mhaegen rir também, enchendo o quarto de vida novamente, já fazia tanto tempo que ela não se sentia tão viva, e a mulher pensou que talvez estivesse finalmente ficando mais forte graças ao poder do Senhor da Luz. Com certeza a Sacerdotisa Vermelha lhe enviava preces, e por isso também ela era grata.

— Paxter é um nome comum da Campina, minha senhora. — A simplicidade em sua voz a lembrava do próprio meistre que sempre havia cuidado dela e dos irmãos em Derivamarca da Baía de Água Negra. — Passei os anos finais de minha infância e toda a minha vida adulta na Cidadela de Vila Velha. Sobrevivi muitos anos à praga da Campina e acredito eu, em minha humilde vivência, que se fosse meu destino morrer da praga, eu a teria contraído há muito tempo. — Ela podia ver em seus olhos já um pouco leitosos pela idade que suas palavras eram verdadeiras. Mhaegen Baratheon sempre fora muito boa lendo expressões faciais, mas ela também sabia que havia mistério rondando o seu curandeiro, e secretamente sempre desejou descobrir quais eram esses segredos tão bem guardados dentro das paredes da Cidadela. — Pois bem, não precisa se preocupar comigo, minha senhora. Eu ficarei bem, precisamos que a senhora fique mais forte. Quem sabe não poderá viajar até Lannisporto e celebrar o dia do nome de Lorde Lennart?

O semblante de Mhaegen ficou alegre mais uma vez, a festa do dia do nome de Lennart Lannister estava se aproximando e, se ela realmente ficasse mais saudável, quem dera o Senhor da Luz lhe concedesse uma cura, mesmo que temporária, ela poderia visitar seus filhos junto ao tão bondoso Senhor de Rochedo Casterly. Kaeran estaria lá também! Mesmo distante, Mhaegen ainda mantinha contato com sua amiga Elleanore através de corvos, sabia que a comitiva da rainha cavalgaria até as Terras Ocidentais em poucos dias.

— Oh sim, Meistre Paxter, seria maravilhoso. Que o Senhor da Luz possa me trazer essa graça! — Mesmo ciente de sua condição, ela não podia evitar pensar no marido e filhos, eles eram o motivo de ela continuar lutando contra aquela praga que lhe assolara no início daquele verão, há tantos anos.

Mas Mhaegen sabia que não poderia pensar apenas em seus filhos, também tinha que pensar em seu povo, e aquilo escureceu suas feições novamente.

— Lorde Eddad já reuniu o conselho? — Perguntou mais sobriamente, com um aperto no coração, o que sentia sempre que pensava no irmão mais novo de seu marido e nas atrocidades que lhe cercavam. Aquele homem... se ao menos o Senhor da Luz pudesse iluminar sua alma...

O meistre balançou a cabeça em negação. O seu rosto também revelava algo que a Senhora de Ponta Tempestade julgava ser pesar. Deveria ser muito pior para o Meistre passar por aquilo, ela reconheceu, com solidariedade pelo grisalho homem ao pé de sua cama.

— Não, minha senhora. Ele aguarda a minha chegada. — Aquilo pareceu ser o fim da conversa, uma vez que Meistre Paxter se levantou com mais vigor do que aparentava ter e recolheu seus utensílios medicinais para dentro das longas mangas de seu abado cinza.

Ele caminhou até a porta da câmara, onde se virou antes de tocar a maçaneta e fez uma leve reverência à mulher. — Minha senhora. — Um esboço de sorriso brilhou no canto da boca do meistre antes de ele virar-se novamente e sair após abrir a porta, fechando-a atrás de si.

Em seu leito, Mhaegen podia sentir o aperto em seu coração crescer. Ela sabia que Eddad não havia nascido para governar e precisava agir em nome de seu esposo, mas não ousava enfrentar a fúria do cunhado, que levava ao pé da letra as palavras de sua casa. — Nossa é a Fúria —, ela repetiu em desdém.

Decidiu-se por levantar. Sentia-se forte e o próprio Meistre Paxter lhe assegurara de que ela realmente estava mais saudável. E sem pestanejar dirigiu-se à janela, imaginando que tipo de coisas o conselho de Lorde Eddad Baratheon estava discutindo aos sussurros. Deveria ser algo bastante importante para que o próprio Baratheon estivesse presente. Ele nunca comparecia às reuniões do conselho e, honestamente, Mhaegen não sabia se o que lhe dava mais medo era ele nunca participar das reuniões e deixar as Terras da Tempestade à mercê de homens menos sabidos ou ele estar presente e decidir as coisas à sua maneira bruta e inconveniente.

À janela, Mhaegen observava os passos do meistre mexendo em seus cabelos platinados, tentando decidir o que fazer. Seus instintos diziam claramente para ela se juntar aos membros do conselho de Lorde Eddad, mas a razão dizia que ela não seria bem-vinda por conta de sua enfermidade. A vista de sua janela dava para o horizonte longínquo, com o sol iluminando o mar azul sob o penhasco no qual o castelo se ergueu na Baía dos Naufrágios. Era uma bela visão, que a lembrava do penhasco de Derivamarca, onde Mhaegen cresceu. Seu cunhado gostava de dizer que esse era o motivo de ter reservado aquela torre especificamente para ela, mas Mhaegen sabia que não. Mesmo nunca tendo declarado abertamente, Eddad Baratheon odiava a cunhada por estar doente. Seu isolamento na torre mais distante e alta de Ponta Tempestade não era para seus confortos, mas sim para os confortos do lorde, ela bem sabia.

Mas não mais.

Engolindo em seco, a Senhora de Ponta Tempestade colocou em seu rosto uma expressão imponente, olhando-se no espelho e sentindo-se devidamente satisfeita com o brilho determinado em seu olhar. Sim, ela se sentia, mesmo que por apenas aqueles segundos, completamente revigorada.

O fogo que ardia em seu peito, entretanto, começou a cessar quando Mhaegen ainda estava descendo as escadas espirais de sua torre e, ao chegar à base, o peito ardia em dor com o esforço. Mas ela não iria se dar por vencida. Lembrou-se das palavras que adotara para si quando casou-se com Kaeran. Aquilo pareceu dar forças à mulher, que seguiu seu caminho firmemente, passando sem ser vista pelos empregados do castelo, mas trazendo um rastro de “Minha senhora” surpreso de cada cavaleiro que guardava o forte.

Sua breve jornada findou-se quando as portas da câmara se abriram. Ela podia ver que os três homens já estavam em seus devidos lugares, deixando apenas uma cadeira vazia. Eddad sentava-se em uma das pontas da mesa, com Meistre Paxter imediatamente ao seu lado esquerdo. Junto a eles também havia Sor Dormand, o mestre de armas, sentando-se ao lado do meistre. A cadeira vazia ficava imediatamente à direita do assento de seu marido e pertencia ao próprio Lorde Eddad como castelão de Ponta Tempestade, porém, esse ocupava o lugar do senhor do castelo na ausência de Lorde Kaeran.

As expressões de surpresa não puderam ser contidas, e Mhaegen percebeu um esboço de sorriso nos lábios do velho meistre, que se levantou junto de Sor Dormand em sinal de respeito.

— Meus senhores. — Cumprimentou, ascendendo ao assento que seria de seu cunhado, parando atrás da cadeira e repousando os braços delicadamente sobre o encosto de madeira. — Muita gentileza de vocês comparecerem ao conselho de seu senhor. Sei que Lorde Eddad está tão contente como meu marido estaria se fosse ele em seu lugar. — Ela girou o rosto, fazendo contato com cada um, sorrindo grandemente para os conselheiros de seu marido, repousando o olhar sobre os tempestuosos olhos negros de Eddad.

Eddad Baratheon levantou-se por fim. O seu sorriso entre os negros cabelos revoltos de sua grossa barba que misturavam-se aos longos cabelos desgrenhados e selvagens parecia se perder em meio as palavras que ele retumbava em falsa cortesia. — Minha irmã! É uma ótima surpresa vê-la tão disposta. Que todos os deuses permitam que essa bênção seja duradoura. — Seria muito gentil de sua parte, se ele não tivesse estendido os braços em um cumprimento e então retraído-os rapidamente, em visível desconforto. Sinceramente? Mhaegen não o julgava. Não por isso, ao menos. Ela, afinal de contas, portava a Praga, mesmo que já de maneira controlada.

— Que o verdadeiro e único deus lance essa luz sobre nós. — Respondeu brevemente. — Meus senhores, gostaria de compartilhar com vocês a feliz notícia de que estou me recuperando. Meistre Paxter é prova disso. Me sinto forte novamente, e acredito que o Senhor da Luz será bom e prevenirá minha doença de se espalhar. — As palavras de Mhaegen eram serenas e solenes, ela era a Senhora de Ponta Tempestade, mesmo que seu cunhado tomasse as decisões em seu lugar. — Com isso, creio que é meu dever como esposa de vosso senhor participar ativamente das questões que regem as Terras da Tempestade, portanto, a partir de hoje, irei me juntar a vocês em todas as reuniões do conselho de Lorde Eddad.

De forma alguma Mhaegen Velaryon iria permitir que as atrocidades de seu cunhado tivessem continuidade. Ela precisava dar um basta, e estava se deliciando ao saber que Eddad não tinha como negar-lhe esse direito concedido no dia em que se casou com Kaeran. Claramente o homem iria tentar dissuadi-la a permanecer em seus aposentos descansando, mas Mhaegen sabia que Meistre Paxter iria tomar seu partido e, se Sor Dormand fosse inteligente o bastante para perceber que era hora de agir, também se juntaria a ela.

Mhaegen sabia que, sendo um cavaleiro, Sor Dormand era um homem difícil de se dobrar, mas ele era também mestre de armas, conhecia bem o ofício de um ferreiro. Até o mais duro aço podia ser dobrado com a quantidade certa de calor aplicada. Sabia também que, em temperaturas extremamente frias, o metal não poderia resistir e se quebraria em um milhão de pedaços como vidro, e era exatamente isso que ela fazia. Sua paixão pelas Terras da Tempestade só não era maior do que a paixão que sentia pelo bem-estar do marido e dos filhos, ardia como o próprio fogo que o Senhor da Luz incarnava, mas o olhar violeta-azulado penetrante dela aos olhos do cavaleiro era frígido e caótico.

O silêncio reinou por apenas alguns segundos na câmara, ela acreditava ser o bastante para transmitir sua mensagem ao homem logo antes de Lorde Eddad tomar a palavra, tentando convencê-la a “não tomar medidas drásticas logo agora que estava se recuperando”.

— Meu lorde, perdoe-me, mas acredito que Lady Mhaegen deveria tomar seu lugar de direito. — Sor Dormand manteve-se sóbrio enquanto falava. Desde que Mhaegen havia conhecido o cavaleiro, sempre teve um tom solene que inspirava respeito. Ela apreciava isso nele, confiava que ele era um homem justo e honrado, e um ótimo mestre de armas, como ela observou através de anos de treinamento de seu querido Elliot. — Meistre Paxter pode dizer melhor que eu, mas acredito que exercitar a mente e o corpo faz bem para a recuperação de nossa senhora.

O meistre, até então silencioso, assentiu com a cabeça em seus humildes robes cinzentos, fazendo a corrente de vários metais tilintar com o movimento.

— Faz bem para o corpo e a mente, de fato. Não tenho objeções, minha senhora. Minha Senhora será sempre bem-vinda em nosso pequeno conselho.

O sorriso nos lábios da Lady Velaryon era triunfante. Lorde Eddad não poderia negar sua presença, não quando seus dois conselheiros concordavam com a posição de direito imposta por Mhaegen. Sem aguardar mais pronunciamentos, ela puxou a cadeira e sentou-se, pronta para dar início à reunião, não iria mais tolerar a forma negligente com a qual seu cunhado tratava o lar de seu marido e seus filhos e, se estivesse certa, Willa concordaria com ela.

E Mhaegen nunca estava errada.

Notas finais
É isso, chegamos ao fim do capítulo. Se puderem comentar, especular, deixar alguma teoria eu vou adorar então já agradeço e até a próxima!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.