A Segunda Seleção.
17 Perdão e culpa
Notas iniciais
O céu estava prestes a descarregar gotículas de água, quando o avião em que nos encontrávamos pousou, Talison me ajudou a descer as escadas enquanto eu segurava meu vestido que se alevantava com o vento forte e insistente.
Filipe, o irmão adotivo de meu futuro marido estava mais para trás caminhando, ele me olhava de relance, me deixando atordoada.
Eu não sabia dizer o porquê de eu ter correspondido aquele beijo, era algo que me arrastava, que me faia sentir voando para o céu e ao mesmo tempo caindo livremente para o inferno, será que era assim a sensação de um beijo de alguém que não sabíamos que tinhamos um sentimento estranho?
Olhei para minha mãe que abraçada a meu pai, parecia tão feliz e apaixonada, como se aquele dia que eles tinham se apaixonado, tivesse sido vivido ontem mesmo.
Fiquei com uma enorme vontade de saber se em algum momento ela estivera indecisa em relação ao meu pai.
Queria perguntar para ela, se era errado sentir uma vontade incontrolável se estar com alguém que sabia que nem deveria notar, queria dos conselhos dela e ouvir o seu julgamento do que acontecera.
Entramos no castelo poucos segundos depois de a chuva começar a cair, as gotas pessadas batiam de frente com as janelas e escorregavam até grama, como um tiro que não acertou o alvo. Subi para meu quarto nos braços de Talison, que continuava o mais silencioso possível e impossível, eu pensei na hipotése de contar para ele, aí lembrei que ele é meu irmão....então, não.
Ele me colocou cuidadosamente em cima da cama, e eu senti que poderia desmaiar de cansaço e então invés de sair, como toda a pessoa sensata faria, ele ficou lá parado me olhando como se soubesse que eu precisava de ajuda eu alguma coisa.
– O que você quer? — perguntei me virando de costas para ele.
Não ouvi resposta, Talison era daquele tipo que só falava quando achasse necessário e que quando abria a boca, apenas besteira saía.
– Eu...eu sinto muito pela Jô. — eu não disse que apenas besteira saia da boca dele?
– Eu sei que vocês eram próximas, e que de alguma maneira....se eu tivesse pedido desculpas na hora certa, aquilo não ia ter acontecido.
Virei-me para ele, surpresa de que ele se lembrasse que havíamos brigado naquela noite, que se ele tivesse calado aquela maldita boca talvez agora eu não me sentisse tão culpada.
– Não o culpo pelo o que aconteceu, mano; Apenas peço que da próxima vez, mantenha essa maldita boca fechada. — resmunguei com indiferença, tentando fazer parecer que eu não estava arrasada.
Então ele começou a caminhar em direção a porta de meu quarto, seu passos eram lentos e eu queria empurrá-lo para que ele se apreçasse de uma vez.Mas quando sua mão tocou a maçaneta, ele virou a cabeça para meu lado.
Os cachos ruivos pularam descontrolados e os olhos castanhos estavam marejados, ele me olhou com força. Nunca eu o vira assim, prestes a ter um colapso sentimental.
– Eu sei que tudo o que está acontecendo é culpa minha, sei que se eu tivesse lhe tratado bem, desde o momento em que as garotas chegaram aqui, tudo estaria melhor, sei que quando não enxotei aquela Lennara, eu te desafiei. Sei que estou errado e que isso não vai virar num acerto tão cedo; me desculpe....apenas me desculpe e me deixei dormir pelo menos uma noite, sem ter que acordar e me sentir mais culpado ainda mais.
E então ele parou de falar, as lágrimas corriam desimpedidas pelo seu rosto pálido e seus dentes estavam travados e suas mãos fechadas firmemente como se estivesse esmagando meus pulsos.
– Eu me arrependi e tenho tentado ser um irmão melhor, mas eu não sei o que fazer para que você possa me perdoar, para que eu consiga me perdoar!
Ele se sentou no chão frio e polido de meu quarto, os olhos correndo de um lado para o outro.
– Apenas saia de meu quarto e me deixe dormir em paz. — respondi fria, deitando-me embaixo das cobertas, sentindo meus músculos gritarem.
Ouvi o silêncio dele, como se fosse algo normal, ouvi seus suspiros e pude sentir suas lágrimas, como se nossa o fio que nos unisse fosse perfeito e nem as facas mais afiadas fosse capaz de cortar.
Ouvi seus passos e senti quando seu corpo leve deitou-se ao lado do meu, seus braços fortes circularam minha cintura e me levaram junto a ele, como a vários meses atrás, quando eu podia sentir que em algum lugar de meu coração eu amava mais do que qualquer pessoa, o meu irmão.
– Eu te amo. — ouvi ele sussurrar e então a visão de tulipas vermelhas, marcharam meus olhos.
Eu consegui sentir a macies de suas pétalas e a doçuras de seus caules e folhas e o vermelho, tão mágico, capaz de saturar todas as feridas e fazer nascer algo novo e tão belo quanto o último em seu lugar.
– Eu também te amo, meu irmão. — eu falei baixinho, ouvindo o som de nossos corações, como a orquestra de um esplêndido maestro.
~~X~~
– Precisamos de um novo baile. — mamãe me comunicou avidamente, entrando em meu quarto de supetão.
– Como? — disse, como se eu não tivesse entendido .
Mamãe suspirou, mas seus olhos continuavam brilhando animadamente. Ela me ajudou a alevantar da cama e enquanto eu vestia meu robe, ela tagarelava rapidamente.
– Eu estava pensando, ontem a noite, então eu tive uma ideia, seu irmão está fazendo essa seleção ser a mais demorada em séculos, então eu quero que o baile seja mágico e épico, como nunca virão em toda a Illéa. Nós vamos fazer esse baile entrar para a história. Suspirei exageradamente, mamãe quando colocava algo na cabeça...era impossível.
– Então o que acha? — ela perguntou, saindo de meu closet com um vestido negro.
Olhei para ela e pensei se aquilo poderia ser bom, poderia acabar com aquilo o mais rápido possível, e pelos seus olhos brilhantes e exitantes, é claro que seria mais rápido.
– O Baile vai durar mais ou menos, quatro semanas para ficar pronto, e até lá , com certeza apenas duas garotas irão sobrar. — ela falou, fazendo o vestido deslizar pelo meu corpo.
– Quantas garotas tem agora, mesmo? — perguntei, sentindo como era ruim ficar cinco meses desligada do mundo.
– Dezessete. — ela respondeu, radiante.
Meu Deus, como meu irmão era indeciso, era como dar dois bolos para ele, um de coco ( que ele odeia) e um de chocolate ( que ele ama) e ver ele quase morrendo para se decidir qual ficar.
E pensando em meu irmão, onde ele estava. Ou será que a noite passada havia apenas sido uma ilusão caótica que os remédios horríveis faziam eu ter?
Eu esperava que não, era difícil admitir isso, mas aquela simples declaração fez com que a noite não tivesse sido tão difícil.
Me olhei no espelho, vendo o simples e delicado vestido negro ressaltar meu cabelos. Ele parecia uma das criações das criadas de minha mãe, ele era liso e o decote tinha pequenos detalhes de flores e pedrinhas negras, mamãe me fez calçar uma sapatilha negra com uma pequena pomba dourada perto do peito do pé, ela pegou duas mechas de meu cabelo e fez uma coroa de tranças e colocou uma coroa de diamante em cima.
– Está linda. — ela disse, massageando meus ombros.
– Eu pareço estar de luto. — resmunguei, nunca gostara muito da cor preta, ela me faia sentir tãoo feliz.
– É só por alguns dias. É necessário.- mamãe falou docemente. Observei que ela não estava toda vestida de preto.
– Apenas você irá ficar de luto, por ela, pela proximidade de vocês duas.- ela explicou, me ajudando a ir até a porta e me levando pelos corredores iluminados docilmente pelo sol.
– Mãe? Você gostava de alguém antes de se apaixonar por papai? — ouvi-me dizer, antes que eu tivesse tempo para raciocinar.
Mamãe parou e por um momento vi que ela estava incomodada e surpresa pela pergunta, ela mexeu os lábios e me olhou receosa.
– Porque a pergunta? — ela estreitou os olhos.
– Nada, apenas....curiosidade.- menti sem temor, olhando firmemente para os mesmos olhos azuis, que eu via a dezenove anos toda vez que olhava no espelho.
Por alguns segundos ela pareceu desconfiar do que eu havia dito, mas depois me olhou e relaxou.
Ela pensou por alguns instantes, seus olhos ganharam um brilho e ficaram distantes, ela sorriu tristemente e seus braços ao meu redor apertaram-me.
– Teve uma pessoa, eu o amava muito, mas não podíamos ficar juntos, ele tentou fazer com que eu o escolhesse e eu quis escolhe-lho, mas de alguma maneira, mesmo eu me sentindo obrigada a ter que participado da Seleção, eu me apaixonei por seu pai....e eu escolhi ele e eu pensei que ele não me escolheria, havia uma garota que realmente era melhor que eu, mas acho que....o destino queria que ficássemos juntos.
Ouvi ela com atenção, e em meu interior me perguntei se de alguma forma Lucas fosse para mim, como ela era para papai. Mas eu não ouvi resposta, apenas um vazio oco e sem fundo, que me fazia temer se algum dia a resposta viesse a tona.
– Então eu acho que apesar de eu ter gostado daquele garoto, o homem que eu a principio não ia muito com a cara, se mostrou o meu verdadeiro amor. — ela disse me balançando de um lado para o outro.
Senti a indireta pinicar.
Mas eu não tinha muita certeza disso, do mesmo modo como Talison, Lucas se mostrara atencioso e culpado, eu não sabia o que pensar, garotos faziam com que meus neurônios parassem de funcionar.
Descemos até a pequena sala que tinha antes dos dois grandes salões e eu sentei para respirar um pouco, o ar na sala corria livre e desimpedido e eu senti o cheiro das flores que mamãe cultivava.
Ouvi vários passos, como o bater de assas de um beija-flor e então várias meninas desceram as escadas que levava ao segundo andar, todas estavam radiantes. Seus rosto eram como pequenas velas juntas, seus vestidos extravagantes davam uma cor exagerada ao salão neutro, suas vozes eram cheias de vida, elas riam como pequenas hienas e eu senti que eram elas que impediram meu irmão de ter um ataque enquanto eu estava fora.
Elas ficaram quietas quando me viram, se curvaram e algumas ousaram a me cumprimentar pelo meu primeiro nome, com os olhos marejados, as suas cabeças e seus olhos cheios de compaixão e pena por mim, entraram no Salão para o Café da manhã.
Me alevantei sozinha e segui elas, as portas eram pesadas, mas mesmo assim eu as empurrei e me senti na minha cadeira, vendo elas tagarelarem alto e não parecerem as damas que conseguiam fingir ser, perto de Talison.
Como elas conseguiam ser tão falsas? Elas apenas queriam um nome conhecido! Elas não percebiam que pareciam marionetes, que faziam tudo para agradá-lo sendo que ele não conseguia ver qual era a mais sincera!
Vi Lennara que falava baixinho com uma garota morena linda e depois olhei para Alice, algumas cadeiras depois.
Sorri um pouquinho ao ver como ela se sentia perdida no meio daquele caos de fofoca, seus cabelos caiam naturalmente pelas costas e seu vestido era branco e delicado como um botão de rosa desabrochando depois de uma chuva fina.
Ela olhou para mim e acenou levemente e eu sorri mais um pouquinho, seus olhos azuis majestosos estavam tristes e um pouquinho caídos, como se algo horrível estivesse acontecendo atrás daquelas portas.
Ouve um estrondo quando meus familiares entraram, Filipe olhou de relance para mim e eu me atrevi a sorrir para ele e então Lucas me viu e seu rosto se iluminou, e eu me senti caindo dentro de um poço sem fundo e sem escolha.
Então Talison apareceu e as bocas das garotas se calaram imediatamente, seus vestidos foram alisados, e seus cabelos colocados perto dos rostos elas olharam para Talison e eu vi os olhos dele e de Alice se encontrarem.
Era imprensão minha ou o nome de minha futura cunhada já estava decidido?
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