A Secret ...

2 Parte 2 ...


Notas iniciais
Lucie e Celine e Jason, pai delas, levam uma vida bem difícil após a queda da Imperium Sanctus...
Lucie, sendo a mais velha, sempre faz de tudo para que ao menos, seu pai e sua irmã tenham certo conforto...
Porém, a noite, em seu quarto, Lucie não consegue impedir o seu desejo, além do amor fraternal, por sua irmã Celine. Mas, o que será dela, agora que Celine descobriu toda a verdade? ...

Lucie lavava as roupas, nas frias águas de um rio próximo da casa. Carregara o cesto com as roupas sujas e, em seguida, colocava-se para começar a árdua tarefa. Porém, ela o realizava de uma forma distraída. Seus olhares, fixos e levemente arregalados, enquanto que sua mente voltava-se para a noite anterior.

Sentia-se muito tensa e, apesar de não ser o jeito natural, estava assustada. Assustada por ter sido descoberta. Em especial, por Celine ter descoberto. Parou suas mãos nas águas do rio e quando pequenas gotas caíam nas costas de suas mãos. Gotas de lágrimas, que brotavam de seu rosto.

“Por que... Por que eu fiz isso...?” Pensou, quase falando em voz alta. Sua mente remeteu-se novamente para a noite anterior.

Celine, com seus olhos abertos, arregalados e assombrados, observando Lucie, que permanecia com os seus lábios unidos aos de sua irmã. Ambas estavam paralisadas, assustadas, uma por ter sido descoberta, e a outra por ter descoberto algo que não esperava. Às pressas e ainda terrivelmente assombrada, Lucie levantou-se da cama, e deixou o quarto, fechando a porta de qualquer jeito. Celine, sem compreender, colocava uma de suas mãos em seus lábios enquanto chamava pelo nome de Lucie, mas esta não se virou para trás.

Esta correu. Correu e agachou-se próxima do fogão de pedra. Queria e desejava desaparecer, colocando ambas as suas mãos contra a sua nuca e seus olhares, ainda arregalados, fixavam-se em único ponto. Em um baixo murmúrio, repetia uma frase.

“O que eu fiz...?”

Permanecia a pensar e torturar-se dentro de si. Queria que tudo não passasse de um pesadelo. Muito real, porém ainda assim, um pesadelo. Mas não o era. Sentia-se terrivelmente culpada. Quando os primeiros gritos dos galos tornavam-se audíveis, ela olhou para a janela, observando que ele começava a ganhar certo brilho e suspirou. Seu pai iria acordar e, se ela não preparasse o café, iria brigar com ela. Engoliu em seco e levantou-se.

Agradecia ao fato que havia uma muda de roupas limpas fora do quarto. Não desejava voltar para ele. Não naquele momento. Em questão de instantes, encontrava-se terminando de abotoar o último botão de seu longo vestido negro e prendia os seus longos cabelos, prendendo-o com uma fita preta.

Acendendo o fogo, pegou uma jarra e rumou em direção para o lado de fora de casa, seguindo em direção a um pequeno curral, onde se encontrava a única vaca que possuíam e pôs-se a ordenhar o leite para o café da manhã. Após alguns minutos, colocava um pouco de palha em uma pequena área, para que a vaca pudesse se alimentar e carregava a jarra para casa, às pressas. Em seguida, colocou a mesma no fogo, para que fervesse, enquanto cortava alguns pedaços de pão, que havia sobrado do dia anterior.

Tão logo o leite ferveu, pegou a jarra e serviu o conteúdo em três canecas de barro e levou duas delas para a sala de jantar, em seguida, trazendo os pães. Porém, antes de acordar e trazer seu pai para comer, serviu-se rapidamente de sua caneca e engoliu o seu pão, quase engasgando com o mesmo, já que sentia algo a pressionar a sua garganta. Sentia o pavor querendo quase sufocá-la. Em seguida, deixou sua caneca na cozinha e seguiu para o quarto de seu pai.

Porém, antes que o fizesse, ela parou, perante a porta fechada do seu quarto e de Celine. Sentia um tremor a crescer dentro de si ao ouvi-lo no mais completo silêncio. “Estará dormindo?” Pensou, mas acreditava que não. Apertou seus olhos e inspirou fundo, expirando em seguida, todo o ar em seus pulmões, caminhando em direção ao quarto de seu pai.

Batendo duas vezes na mesma, ouviu-o resmungar algo e abriu lentamente a porta.

“Está... decente, pai?” Perguntou Lucie, sem olhar para dentro do quarto.

“Sim... estou...” Disse Jason, em uma voz pesada por conta do sono e cansaço. Erguendo a cabeça parcialmente e tentando disfarçar sua expressão ao máximo, Lucie entrou no quarto e o ajudou a se levantar.

Conforme seguiam pelo corredor, Lucie virou-se novamente para a porta do seu quarto e pensou se deveria bater. Sentiu-se tentada a não o fazê-lo, porém seu pai certamente desconfiaria, já que ele sempre soube que ambas eram bastante próximas. Inspirando profundamente e com a mão a tremer, conforme a levantava, realizou duas batidas na porta.

“Mana... o café... está servido...” Disse Lucie, com a voz pesada. Porém nada. Nenhum som ou sequer resposta. Seu pai a observou, sem compreender, especialmente pelo fato que Celine sempre ou respondia, ou podia escutar os sons de passos. Forçando uma séria expressão, a sua costumeira expressão, Lucie virou-se para o seu pai.

“Vamos, pai... Celine não dormiu bem... a noite...” Disse Lucie, ficando levemente cabisbaixa. Sem compreender, Jason a observou, curioso.

“Ela está bem?” Perguntou e Lucie concordou lentamente.

“S-Sim... nada... demais...” Respondera Lucie, de uma forma meio seca. Sonolento e sentindo suas pernas a incomodarem, seu pai dera de ombros.

“Entendo. Bom, me ajude até a mesa, então?” Pediu Jason, com uma expressão séria. Lucie concordou e o ajudou com que ele se sentasse. Ele estranhou, no entanto, ao avistar apenas duas canecas e dois pedaços de pães à mesa. Virou-se para a filha.

“Você não vai tomar café?” Perguntou Jason, sério. Lucie negou com a cabeça.

“E-eu... já tomei, mais cedo.” Respondeu Lucie. Tentava disfarçar seus olhares, porém sentia o seu corpo inteiro a tremer, enquanto que ela tentava ‘lutar’ contra isso. Seu pai a observou, sem compreender: não era algo comum, ela fazer tais atitudes. Percebendo, no entanto, que seu pai a observava, virou-se para a porta de saída de casa.

“Acordei... mais cedo... para... lavar as roupas. Tem muitas e, queria adiantar o serviço, pai. Perdoe-me...” Disse Lucie, de forma séria e seu pai inspirou fundo. Seu pai a estudou, não compreendendo, enquanto que ela pedia. Ela desejava que ele não a questionasse mais. Sentia uma forte vontade de chorar, porém lutava ao seu extremo.

“Tudo bem. Creio que... Celine me ajude até o quarto, depois. Vá...” Disse Jason, tentando ser educado, porém o seu tom de voz era forte e um tanto quanto severo, que Lucie concordou lentamente com a cabeça e foi para o lado de fora de casa.

Tão logo sentiu, no entanto, aquele frio ar da manhã a banhar o seu corpo, sentia-se parcialmente em paz, porém apenas por poucos instantes. A preocupação e o medo ainda a dominavam e sentiu vontade de chorar e colocar todo aquele desespero para fora de si, porém não o queria fazer ali. Esperaria até que chegasse perto do rio, onde certamente ninguém a veria.

Lucie suspirou profundamente. Suas lágrimas, ainda a verterem de seus olhos, misturando-se as águas que passavam por aquele rio. Apesar de sua mente a culpá-la constantemente, sentia-se em certa paz ao ver que agora estava sozinha. Sentia também o cansaço da noite não dormida a pesar-lhe, mas não poderia nem pensar em dormir àquela hora. Ainda havia muito a ser feito naquele dia. Lentamente, continuava a lavar aquelas roupas.

Celine ajudou seu pai a voltar para o quarto, enquanto que seus pensamentos continuavam distantes. A imagem de sua irmã a beijar-lhe os seus lábios e as lágrimas que vertiam de seus olhos encontrava-se impressa em sua mente. Não compreendia porque ela havia feito tal ato e, ao lembrar-se dos ensinamentos de seu pai, sobre que tal ato era proibido, algo que era digno de culpa sob os rigores da Imperium Sanctus. Tal ‘pecado’ iria fazer com que as almas de ambas fossem arremessadas em Tenebrae. Engoliu em seco. Sentia medo por si, porém, bem maior por conta de sua irmã. Em sua forma ingênua de ser, temia por sua irmã. Tão logo terminou de tomar o seu café, e pôs-se a rezar, pedindo por clemência por ambas.

Nas primeiras horas do entardecer, Lucie terminara de lavar as roupas e, extremamente exausta, as colocou no varal às pressas. Sentia-se zonza de sono, porém sua mente permanecia fixo naquele momento, no medo e na culpa que a atormentava constantemente. Assim que acabou de colocar as roupas, deixou o cesto recostado próximo da entrada da casa e entrou.

Ao entrar, no entanto, sentiu seu corpo paralisar. Sua irmã, de joelhos, rezava em um tom de voz baixo, porém virou-se para Lucie, surpresa ao vê-la ali, ao seu lado. Ambas, no entanto, não conseguiam falar nada.

Celine percebia que Lucie abaixara a cabeça e podia, nitidamente, perceber que o corpo dela tremia, enquanto tentava manter-se em seu costumeiro jeito de ser. Assim como Lucie, Celine nada conseguia dizer, apenas a observava, com os seus olhos arregalados e preocupados.

Lucie, apesar de cabisbaixa, a observava. Tremia. Sentia o seu corpo tremer por inteiro. Sentia vontade de dizer desculpas. Inúmeras desculpas, como se tais palavras apagassem, de uma forma mágica, os eventos da noite, porém sabia que isso seria impossível e permaneceu imóvel, tentando imaginar algo a dizer, pelo menos. Tentaria se explicar.

Porém, devido ao cansaço que a dominava, mais o estado de espírito em que se encontrava, Lucie sentia sua visão a turvar-se, assim como podia sentir uma tontura. Sentia-se fraca e colocou uma mão em sua testa, como se tentasse equilibrar-se, mas logo sua visão escureceu por completo e, em instantes, sentiu uma leve sensação, como se estivesse a flutuar. Em questão de segundos, sentiu seu corpo chocar-se contra o chão, porém nada conseguia ver ou sentir. Estava desmaiada.

Lentamente, sentia-se como estivesse a despertar de um pesado sono. Suas pálpebras demoravam-se a se abrirem, ao mesmo tempo em que suas vistas, inicialmente, ainda encontravam-se embaçadas. Piscou algumas vezes, no entanto, ao ouvir vozes. A princípio pareciam tão longes e distantes, porém aos poucos se tornavam mais próximas e, tão logo sua visão voltou ao normal, pode compreender quem estava falando.

“D-doutor... ela vai... ficar bem, né?” Perguntou Celine, olhando um homem de certa idade, que carregava uma pequena maleta de couro. Esse sorriu e deu dois tapas de leve no ombro dela.

“Vai... ela só... precisa descansar um pouco...” Disse o homem e logo sorriu ao perceber que Lucie abriu os olhos, prestando atenção nos dois. Aos poucos Lucie percebia que estava no quarto delas, coberta com o lençol.

“Veja... eu não havia dito? Ela já está desperta...” Disse o homem, apontando em direção de Lucie. Celine virou-se, observando sua irmã e exibiu um sorriso de alívio e satisfação, enquanto que seus olhos exibiam uma expressão emocionada. Pareciam quase brilharem e, em seguida, esta correu em direção, abraçando-a fortemente.

“Ah... Celine...” Começou a dizer Lucie, porém, dentro de si, sentir aquele abraço parecia aquecer e acalmar aquele desespero que sentira o dia inteiro. Sentiu vontade de chorar, porém controlou-se.

O senhor sorriu, cumprimentando as duas e, em seguida, deixou as duas, fechando a porta do quarto. Lucie ainda era abraçada por Celine e podia sentir o seu rosto corar brevemente, enquanto podia sentir certa umidade em seu ombro direito, onde Celine encostara o seu rosto. Surpresa, Lucie virou-se parcialmente para o lado e pode perceber que esta estava chorando.

“Chorando... após o que eu fiz?” Pensou Lucie, ainda meio surpresa. Lentamente, ergueu sua mão esquerda e acariciou a cabeça da irmã, penalizada por ela.

“Nunca!” Disse, em prantos, Celine. “Nunca mais! Nunca mais me assuste assim, de novo, mana!” Continuou, exibindo o seu rosto umedecido pelas lágrimas, que caíam copiosamente. Lucie a observou e sentiu um aperto no seu peito.

“Mana... eu... me perdoe... por ontem. E-eu não... consegui evitar...” Disse Lucie, começando a ficar entristecida e Celine a observou por algum tempo, porém negou com a cabeça, enquanto coçava as vistas, tentando secar as lágrimas.

“E-está... tudo bem, mana... v-você só... demonstrou carinho por mim...” Respondeu Celine, exibindo um breve sorriso, porém Lucie negou com a cabeça, com uma expressão transtornada. Sem compreender, Celine a observou.

“Não foi... apenas carinho.” Disse Lucie, virando o rosto em direção contrária ao de Celine, que continuava a observá-la, confusa. “Foi bem mais... do que isso...” Continuou, dando apenas certa pausa, enquanto fechava brevemente sua expressão, mas seu rosto corou.

“Eu não... sei como e quando comecei... a nutrir esse... sentimento. Mana, eu tentei... juro que tentei impedir isso, mas os dias se passavam e só agravava...” Continuava Lucie. Podia agora sentir as lágrimas a quererem brotar em seus olhos, porém engoliu em seco, tentando novamente fazer-se de forte.

“Celine... eu... te amo...” Confessara Lucie, virando o seu rosto na direção de sua irmã. Celine sentiu um aperto em seu peito: os olhares de Lucie exibiam sua costumeira seriedade, porém, ao mesmo tempo, estavam diferentes. Pareciam expressar uma completa sinceridade e, ao mesmo tempo, carinho. Porém ela apertou os seus olhos.

“Não quis... confessar isso para você, antes... pois temia perder sua companhia e... também não queria que sentisse raiva, ou medo, de mim, após ter... conhecimento... de tal fato... Por isso... peço-lhe: se não sentes o mesmo por mim, apenas... não me abandone. E-eu... não... conseguirei viver sem você.” Concluiu Lucie. Celine a observava e mal podia reconhecer sua irmã. Porém, não era por algo monstruoso: ela nunca conhecera aquele lado de sua irmã, mesmo quando a mãe delas falecera e a casa da família havia se tornado naquela humilde morada que elas viviam atualmente.

Celine também lembrava que Lucie era sempre o seu bastião de força e esperança. Quando as coisas estavam desesperadoras para elas, Lucie sempre sorriu e segurou a sua mão, apoiando-a e encorajando-a. Sentiu o peito apertar e sua garganta a fechar-se.

Lucie permanecia a observá-la, porém Celine percebia que ela piscava algumas vezes, parecendo que lutava contra uma sonolência que a dominava, mas logo abria os seus olhos. Celine compreendera que ela estava realmente exausta, mas lutava para se manter desperta. Percebia que ela queria a resposta de sua parte.

Porém Celine sentia medo. Seu pai sempre disse que era errado e monstruoso, quando ouvia falar das fundadoras do Cerysismo. “... Aquela ‘maldita’ religião que derrubou os nossos conceitos morais e religiosos!” Dizia o pai delas, todas as vezes que algum assunto levava por esse caminho. Mas havia algo.

Havia algo que Celine sentia bem dentro de si e não sabia explicar. E tal situação com Lucie trazia a tona tal questionamento.

Segurando a mão de Lucie, Celine a aproximou de seus lábios e deu um delicado beijo em sua mão. Lucie a observou e não pode impedir um leve rubor em seu rosto e sentia que seus pulmões cediam. Parecia como que algo, que antes a impedia de respirar, houvesse sido removido e seu corpo relaxara, sentindo seus músculos leves e, ao mesmo tempo, um breve sorriso emocionado formou-se em seu rosto.

“Mana... eu... não vou lhe abandonar...” Disse Celine, exibindo um sorriso preocupado e Lucie sorriu. Sorriu de uma forma tão bela, que Celine nunca havia visto e isso tocou bem fundo em seu coração.

Em instantes, Lucie voltara a adormecer profundamente. Celine não pode deixar de sorrir ao vê-la tão calma e tranqüila, coisa que ela raramente havia visto em sua irmã. Lentamente, a cobriu e afastou-se.

Precisava fazer a janta para o seu pai. Mas não apenas isso.

Precisava pensar...

- Continua -

Notas finais
Esse capítulo me deu certo trabalho, em pensar como ocorreria a fala entre elas. Imaginei que, quando fazemos algo e acabamos por ser descobertos nessa atividade, sentimos a necessidade de justificar-se... E imaginei que Lucie estava tentando encontrar uma forma de ir para o quarto e conversar com sua irmã. Porém, ao mesmo tempo, não poderia deixar que seu pai descobrisse também... ou sequer desconfiasse que estava havendo algo errado.

Então decidi pelo 'desmaio' de cansaço por parte dela, para ser a 'chave' para haver a conversa.

Imaginei também, quase vividamente, a cena em que elas conversam no quarto... e achei que foi perfeita tal cena, especialmente com Celine, sendo compreensiva, mesmo com os medos que o pai delas sempre lhe ensinou. Afinal, Celine é a mais nova e adora a irmã... sempre a pedir que ela lesse um livro para si e gostar de quando elas estão juntas, preparando-se para dormir.

Creio que, até relendo a história, creio que deixei de explicar que elas até conversam sobre várias coisas, momentos antes de dormirem.