A Second Change For Us
24 Sensação de déjà vu
Notas iniciais
Era quase fim do ano, acreditava que faltava apenas alguns dias, mas mesmo assim ainda tínhamos aula na academia na parte da manhã, mesmo que a escola nos liberasse a tarde para nos organizarmos para as festas de fim de ano. O natal já havia passado havia pouco mais que 3 dias e a academia estava quase vazia. Vou explicar melhor a situação.
A partir do dia 22, os alunos eram liberados para passar o natal e o ano novo com os parentes, se quisessem é claro, no entanto, por que eu voltaria para Seattle? Silena iria passar o natal e o ano novo com a família de família de Charles, seu namorado. Papai me arrastaria para alguma festa de sorrir-e-acenar.
Eles eram a única família que eu tinha... Preferi permanecer na escola com aulas a mais, dormir na academia, passar as festas aqui e quem sabe a queima de fogos na Baía de San Francisco fosse interessante? Talvez seja até mais empolgante em Paris que só tem a Torre Eiffel brilhando e sem ninguém expressando nitidamente felicidade pelo novo ano.
Continuei a andar até o atalho de uns atrás que encontrei até chegar no bosque. Cada passo era uma tortura, pois eu ainda mancava e meu tornozelo ainda inchava, mas segundo minhas contas restava apenas mais 2 dias de dor, com sorte na virada do ano eu não sentiria mais nada.
Analisei o pequeno bosque que apenas eu sabia da existência. O pequeno riacho lambia preguiçoso a terra suja de folhas caídas, o sol brilhava e mesmo que estivesse um pouco mais frio que nas outras estações a temperatura não ia a menos que 18 graus aqui na Califórnia o que pra mim era uma total surpresa. Do outro lado do país, onde fui criada, já devia estar a três metros abaixo de gelo e neve.
Eu realmente gostei de passar o natal sem toda aquela neve que me fazia usar tantos casacos que eu mal conseguia olhar um palmo a minha frente. Sentei-me à beira da árvore, meu pé enfaixado permanecia em cima da minha bolsa para que de algum jeito ficasse alto e menos dolorido, não sei o porquê mais sempre funcionava. Meus fones de ouvido estavam encaixados em minha orelha e sussurravam a voz dos Beatles cantando Let It Be.
Um ponto ficou focado por mim, não que fosse interessante, eu apenas queria observar o ponto da minha consciência através dele. Lembrei de quando eu tinha apenas 3 ou 4 anos, algo esfaqueou meu peito ao me lembrar da cena. Poderia ser a mil anos atrás, mas ainda doeria com o fogo de mil cálices de vingança.
Era quase meia-noite, eu havia pedido uma Barbie da praia que era bronzeada e vinha com óculos de sol e prancha de surfe. Mamãe sempre sorria toda vez que eu lhe respondia que queria aquilo de natal.
Ela havia saído ontem a tarde, me abraçara e dizia que voltaria no outro dia para que abríssemos meu presente juntas. E eu sorrira, esperava por isso a meses.
Papai havia ido busca-la no aeroporto e dissera para que eu ficasse em casa e me arrumasse junto com Silena. Já fazia tempo demais que ele havia saído, mas eu pensara que nada de ruim pudesse vir a acontecer, era inocente demais para achar isso porque minha irmã havia dito que no natal nada de ruim acontece, e eu acreditei.
Com um barulhinho baixo ouvi papai chegar, mas ele estava... sozinho? Não entendi aquilo, mamãe ia brincar de esconder agora? A gente tinha que abrir os presentes! Eu queria a minha Barbie da praia! Papai vinha tentando esconder seu rosto e eu apenas pensava que era uma de suas brincadeiras, tentei tirar as mãos que cobriam seu rosto feliz de quando saíra, mas quando enfim consegui me livrar delas, ele me puxou para perto dele e me abraçou forte. Algo molhado manchava meu lindo vestidinho verde que mamãe dissera uma vez que ficava lindo em mim.
Eu mal podia respirar, mas ele não me largava e as gotas não paravam de molhar minha roupa nova.
– Me abrace, Pipes. – ele pediu – Apenas me abrace e tudo ficará bem.
Silena nos abraçou também, acho que eles tinham um segredinho e não me contavam, pois ela também chorava. Ele não conseguiu o presente que queria? Era isso? Mesmo assim abracei os dois e disse que tudo iria ficar bem porque aí mamãe nos abraçaria e finalmente abriríamos juntas o meu presente que era a Barbie da Praia que eu tanto pedi.
Uma lágrima escapou de meus olhos ao lembrar daquilo. Uma que foi acompanhada por outra, e outra e quando percebi já soluçava de tanto chorar. Papai descobrira que o jatinho particular de mamãe não havia saído de Paris, que Afrodite nunca chegou a voltar da première... Porque ela morrera uma noite antes do natal. Sem cumprir a promessa, apenas com seu último sorriso doce gravado em minha mente e dizendo que queria me ver de verde porque eu ficaria uma fofura, mais linda do que já era, com ele.
“ Não faz isso com você, Piper. Não faz isso, não nessa época.” Minha mente pedia, mas algo dentro de mim teimava em desobedecer essa ordem.
Sabe quando você tenta desesperadamente pensar em algo bom depois que a lembrança ruim resolve poluir sua mente? Eu estava tentando, mas era difícil, eu tinha lembranças boas, mas cada vez que lembrava delas as ruins surgiam do nada. Olhei para meu pé enfaixado... ele me lembrava alguma coisa?
Olhei minhas botinhas brancas com design que me lembrava de uma múmia, pois era cheia de detalhes de enlaçamento. Neve cobria o ringue de patinação á céu aberto, era uma manhã muito bonita numa cidade á pouco mais de 5 quilômetros de Seattle onde o amigo antigo do meu pai morava e iria fazer uma grande festa da virada.
– Vem Piper, vem! – gritava uma das filhas do Sr. Brunner, amigo de meu pai. Ela era da mesma idade que eu, mas era loira com os cabelos lisos e curtos escondendo os olhos castanhos.
Estremeci, mas não de frio. Ela estava me chamando para patinar e eu não sabia, apesar de usar as botinhas brancas de patinação.
– Venha, Pipes, eu e Si iremos de ajudar. – a irmã mais velha dela disse docemente ao lado da minha irmã. Eu gostava dela, ela tinha o cabelo verde esmeralda que um dia fora a cor do meu vestido do meu natal de 5 anos atrás.
Tomei coragem e me apoiei em Silena que me ajudava a patinar. Era pra ser fácil, mas como se ficava em pé sem cair com aqueles troços?
– Vamos lá, Piper. – Silena me olhou doce quando viu que eu já me imaginava caindo de novo – É só você manter os pés longe um do outro, mas não longe demais, e abrir um pouco os braços.
Segui o conselho dela olhando para meus pés. Um pé depois o outro, um pé depois o outro. Pés separados e um pé antes do outros.
– Isso Pipes! – a menininha da minha idade batia palminhas e quando olhei pra trás vi Silena, ela e a menina de cabelo verde apoiadas na amurada. Eu estava patinando SOZINHA! Eu havia conseguido!
Finalmente uma lembrança boa, eu me lembrava daquele dia. Papai ficou orgulhoso de mim e me preparou um dos únicos pratos que conseguia.
Algo com feijão e um tempero picante que não consigo me lembrar agora. Algo fez a música da Beyoncé parar e eu tirava meus fones de ouvido rapidamente. Alguém estava me ligando.
– Alô? – perguntei. Não havia me lembrado de checar quem me ligava.
Pipes! A voz de Jason exclamou Eu preciso... Meio que eu preciso...
– Você precisa do quê?
Pode me encontrar em frente á piscina em 15 minutos? Por favor diga sim. Eu preciso mesmo falar com você.
– Jason... – tentei. Eu gostava da companhia dele, mas eu só queria ficar aqui, sentada nas folhas, ouvindo música e lembrando do passado.
Olha... Não é legal dizer não pra uma pessoa logo no finalzinho do ano. Me dá só trinta minutos.A respiração dele estava forte como se estivesse correndo a maratona Eu tenho que te contar uma coisa.
– Você venceu. – falei. Pude imaginar seu sorriso sedutor e vitorioso através da linha.
– Pipes! – ele gritou animado ao me ver mancando para uma cadeira perto da piscina da academia.
Quase não controlei minha careta ao ouvir o apelido que eu ainda não tinha deixado que ele me chamasse.
– Jason, eu já disse que pra você é Piper.
– Para com isso, Pipes, você me conhece. – ele ri – Não vou parar de te chamar assim só porque você não quer.
Bufei baixinho. Ele havia me chamado ali só pra termos um papo sobre o apelido que eu o proibira de me chamar?
– Jason, olha, eu não quero ser rude, mas eu não estou no clima. – falei apreensiva.
– Jura? Vai me largar aqui? – ele fez uma cara irônica – Vamos lá, McLean! Eu preparei um piquenique pra nós.
A fala dele pesou no meu estomago. Por que o garoto foi fazer piquenique surpresa? Eu estaria melhor sentada na grama e entrando em depressão.
Ele não deixou que eu argumentasse, porque ele sabia que se eu abrisse a boca receberia um “não” bem mal educado da minha parte. Jason me jogou nas suas costas fazendo com que eu sentisse minha blusa descer quase a altura dos meus seios e ter certeza de que ele se aproveitaria da situação pra encarar minha retaguarda.
Tentava espernear como uma criança emburrada sem querer tomar banho, mas ele me conhecia bem demais, ele sussurrou as palavras que me arrependi de ter falado um dia. “Eu te dou uma chance”, era muita sorte dele eu gostar tanto de cumprir minhas promessas.
Quinze minutos depois estávamos no cais e tudo estava deserto, exceto por uma toalha de banho branca jogada no meio da divisão entre o lago e a areia com um bando de comida em cima. Tentei não rir do seu esforço, mas foi simplesmente impossível.
– Tudo bem, tudo bem. Pode rir. – ele falou – Mas em minha defesa, eu não encontrei ninguém que pudesse me emprestar uma toalha de piquenique.
Ele ficava realmente adorável com a cara de envergonhado por não ter atingido a expectativa de piquenique perfeito.
Poderia quebrar seu bico emburrado com um beijo singelo. Oh! Pelos deuses! O que eu estou falando? Ele é a causa de eu ter ficado com a cara inchada por semanas.
– Vamos comer? – perguntei tentando apagar todas as baboseiras da minha cabeça.
– Nossa! – ele exclamou surpreso – Antes ela nem queria vir, e agora, já quer ser a primeira a comer. Pode falar, Pipes, você me ama.
Corri até a toalha e me sentei deixando-o parado a espera da minha resposta. Não era mal educação, é só que, toda vez que ele me olha, toda vez que ele fala comigo, eu não sinto o nojo costumeiro e muito menos o remorso. Eu sinto como se quisesse abraça-lo com força e sentir o toque dos seus lábios. Todas as noites eu rezava pra que fossem apenas gases de uma relação mal digerida na minha cabeça.
– Estou me perguntando se você veio aqui pela comida ou por mim. – ele ri da própria piadinha.
– Na verdade, eu vim pra cá a força porque você insisti em usar minha frase pra tudo.
– É uma frase mágica. – ele falou destampando o pote de cookies de chocolate– Quando eu vou ter acesso a uma garota linda, inteligente e incrível outra vez só usando uma frase?
Aquele piquenique estava me deixando confusa. Jason abria os potes e eu só comia de tudo tentando não retribuir seus olhares e iniciativas de conversa.
Ele me elogiava como sempre fazia e eu lembro de uma vez antes de tudo acontecer Jason falar que ama quando eu coro porque eu transpareço toda a minha personalidade.
– Piper... Me diz uma coisa? – meus olhos se encontraram com seu azul indecifrável e minhas mãos soltaram a manteiga de amendoim.
– Pode falar. – tentei soar confiante, mas óbvio que não funcionou.
– Eu tenho chances com você? – aquilo me atingiu como uma bomba por algum motivo–Eu tô falando isso porque eu estou quase desistindo e eu não quero desistir de você.
Lágrimas escorreram dos meus olhos, meu peito se apertou como toda vez que chegava o dia das mães.
Eu não sabia o que estava sentindo pelo garoto que esmagou meu coração, mas a probabilidade de tê-lo longe beirava a insanidade. Eu o queria ali pra mim, queria ele tentando de todos os meios por mim.
– E-eu... – eu me engasgava com minha própria saliva ao olhar seu sorriso nervoso emoldurado nos lábios cicatrizados.
– Piper. – ele me olhou nos olhos me deixando confusa, perdida e ao mesmo tempo protegida.
– Diz.
– Me diz o que você quer agora. – ele suplicou – Por favor.
Jason Grace, o bad boy da escola, que nunca se humilharia por alguém, que não demonstraria nada em público. Esse mesmo cara me obrigava a olhar em seus olhos cristalinos implorando por uma resposta que definiria todo o resto e o início do ano.
– Me deixa ir. – pedi fraca.
Tudo dentro de mim gritava não e se o meu orgulho fosse uma pessoa estaria com um enorme sorriso no rosto. Tentei sair dali como a mesma boba de sempre, mas ele parecia decidido quando me leu por completo.
Suas mãos ásperas me puxaram pelo pulso e foram até minha cintura me prendendo ali. Meu ser inteiro permanecia em alerta por cada uma de suas ações. Como ele me dominava assim?
– Resposta errada. Não se pode mentir no natal, gata.
O choque inicial me impediu de perceber o que acabara de acontecer, mas ele estava ali, me prendendo e me permitindo o toque impuro de seus lábios.
Sentia meu coração em disparada, minha respiração a base de seus beijos desejosos. Eu não queria que acabasse, queria que durasse até o fim porque era como a chama se acendendo dentro de mim. Meu corpo apoiado no seu. Eu passei menos de um mês sem beijá-lo e mesmo assim entrei em abstinência de seus lábios.
Algo naquele beijo me fez lembrar de uma de nossas lembranças do passado, e diferentes das outras, essa era boa.
O fim da tarde se marcava por um sol descendo pelo horizonte. Jason e eu estávamos admirando a vista pensando em nada e em tudo ao mesmo tempo que alguma música de verão tocava em seu rádio. Uma das poucas vezes que ele cedia e não colocava alguma música dos Beatles pra tocar. Eu batucava o ritmo no painel do carro e ele murmurava a música me admirando.
Aquilo me deixava num misto de vergonha e satisfação.
– O que foi? – perguntei.
Mal acabara de falar e ele me beijou de surpresa como adorava fazer.
– Você é maravilhosa. – ele afirmou com um sorriso radiante – Você é real?
Sorri afirmando. Talvez Jason Grace tenha sido a melhor coisa que já aconteceu em minha vida.

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