Notas iniciais
Mais um capítulo de ASDP, espero que gostem. D:
Boa leitura :*

A primeira coisa que sentiu foi frio. Muito frio. Seu corpo estava gelado e, ao tentar mover-se, notou que estava molhado também. Algo escorria por todo seu corpo, como se estivesse debaixo de um chuveiro, mas notou que estava deitado. “Como é possível?” – pensou.

Abriu os olhos com dificuldade, se sentindo debilitado e sendo cegado por um momento pela luz excessiva. Teve que apertar os olhos e abri-los mais devagar ainda, se adaptando devagar à luminosidade. Não estava no escuro? Por que de repente estava claro?

As memórias começavam a voltar. Estava em um local completamente escuro. Podia ouvir risadinhas, e vozes que lhe falavam coisas como virar um guerreiro... Uma cobra envolvendo seu corpo... Sentado no chão, coisas felpudas subindo por sua pele, algo afiado roçando em seu corpo e, no meio de toda aquela cegueira devido ao escuro, um par de luzes vermelhas. Mas e depois... O que vinha? Haviam conversado, mas não se lembrava bem sobre o que. E bem quando lembrava de ter encerrado a conversa... Não lembrava de mais nada. Era como se faltasse um pedaço de algo.

Já começava a acreditar que tudo não passava de um sonho, quando resolveu sentar-se, espreguiçando-se, e foi então que entendeu o motivo de ter se sentido frio e molhado: estava deitado em cima de uma pedra, dentro de um rio, sendo molhado cada vez que a água se chocava com força contra a pedra. De seu joelho para baixo, estava completamente dentro do rio, e quase escorregou de susto.

Tentando evitar de se molhar mais, dobrou as pernas, abraçando os joelhos e ficando no ponto mais alto da pedra, sentindo a água bater em suas costas toda vez que colidia violentamente com a pedra, estremecendo. Já devia estar com hipotermia, de tanto tempo exposto ao frio. Será que estava morto?

— O que faz sentado no meio do rio? – uma voz interrompeu seus devaneios, assustando-o de modo que escorregou da pedra, caindo no rio, ralando os joelhos nos cascalhos. Era um rio consideravelmente raso já que, de quatro, a água batia pouco acima de seus cotovelos.

— Eu apenas... – ergueu os olhos para responder, e deu de cara com um homem. Mas não era um homem comum. Era um homem de cabelos loiro-escuros, alto, musculoso, charmoso, com olhos vermelhos, dentes afiados, orelhas de coelhinho de pelúcia, e garras pequeninas, porém afiadas. Sorria de modo sacana. – Apenas acordei aqui.

— Oh, então é você meu novo discípulo? Hazel? – arqueou uma sobrancelha, dando alguns passos e entrando no rio, indo na direção do menino.

— Como sabe meu nome? – o garoto recuou assustado, sentado nos cascalhos, tremendo pelo frio, com os lábios roxos e a blusa ficando encharcada.

— Oras, como... Se é meu discípulo, como poderia instruí-lo sem saber seu nome? – riu debochado, puxando Hazel pelo braço e pegando-o com facilidade no colo. – Venha, temos que trocar sua roupa e aquecê-lo, ou o mestre me castiga por deixá-lo adoecer... – apesar da gravidade do que falara, o homem não parecia nem um pouco preocupado com a saúde de Hazel, ainda mais sorrindo daquele jeito.

— Moço, eu sei andar... – franziu o cenho, meio irritado com a atitude do homem, batendo os dentes de frio, segurando seus ombros inconscientemente.

— Aham... Do jeito que está, se eu te ponho de pé, você cai deitado no chão com a perna adormecida – riu ao imaginar isso, subindo uns degraus que haviam para subir a elevação que tinha ao lado do rio.

Hazel ficou emburrado, admitindo internamente que o homem tinha razão. Mas, por algum motivo, ser seu discípulo lhe dava arrepios. Algo ali não era bom. A mente de Hazel o alertava disso.

— Mas você ainda não me disse seu nome... – lembrou-se Hazel, agarrado à sua blusa, tremendo violentamente.

— Oh... Pensei que meu mestre havia lhe dito meu nome. Bem, não importa, você não deve lembrar de nada mesmo – riu meio alto, parecendo com os bichinhos de pelúcia que Hazel havia visto dentro daquela sala escura, o que o fez se arrepiar todo, querendo pular do colo do homem e sair correndo. – Está certo... Meu nome é Auriol.

Algo na mente de Hazel sofreu um abalo, e ele quase lembrou de algo, mas a memória estava selada por algo que não seria quebrado por simples esforço humano. Então continuava faltando um pedaço.

— Auriol... Que nome engraçado – foi tudo que conseguiu pensar para comentar.

— E Hazel não é nome de menina, por um acaso? – Auriol não se abalou, dando uma risada debochada, já chegando na porta de sua casa.

— Eu sei disso... – o garoto ficou emburrado, desviando os olhos para a casa do outro, levando um susto.

Era uma casa consideravelmente pequena, mas com dois andares, e uma fachada de pedra, parecendo algo como uma cabana misturada a um estilo meio medieval. A porta tinha o tamanho certo para Auriol passar sem bater a cabeça, e as janelas eram pequenas demais para algo muito maior que cabeças passarem. Uma pessoa, por exemplo, jamais conseguiria passar. Aquelas janelas pareciam mais escotilhas.

A porta era de madeira, com uma maçaneta de aço e várias trancas complicadas, fazendo parecer mais a porta de uma prisão, e até o capacho do lugar parecia perigoso. O teto era feito de telhas, mas as telhas não pareciam ser do material correto, e sim de um bem mais resistente. Que diabo de casa era aquela?

— O que foi? – o homem perguntou, sussurrando em seu ouvido. – Já vai ficar com medo? Ainda nem entramos na casa... – enquanto falava, segurava Hazel com um braço, e com o outro ia abrindo as várias trancas, girando a maçaneta e chutando a porta.

— Não é me... – parou de falar, observando o interior da casa. Bem em frente à porta, tinha uma escada que conduzia ao andar de cima. Do lado direito, você ia parar direto na sala e do lado esquerdo, você ia direto para a cozinha. E tudo parecia feito de madeira e pedra.

— Fecha a boca, temos uma dama aqui dentro... – Auriol fechou a porta, sentando Hazel no chão e pendurando algo num gancho que tinha bem na porta, começando a trancar tudo de novo, dessa vez fechando alguns ferrolhos também. – Yulia, ajuda o garoto a subir e prepara um banho quente para ele! Eu preciso preencher uns papéis para mandar hoje para o mestre! – berrou, com a voz ecoando pela casa inteira, fazendo Hazel se encolher, de frio e acuado. Ia viver com aquele louco?

De repente veio correndo da sala uma menina, de cabelos negros e lisos que escorriam até o meio das costas, olhos azuis e pele bronzeada, vestindo um vestido branco, quase transparente, que lhe vinha somente até metade da coxa, tomara que caia. No cabelo, uma presilha prateada pequena. Não devia ter mais que doze anos.

— Garoto? – se agachou perto de Hazel, estendendo-lhe a mão. – Vamos subir?

Auriol chegou por trás da menina, agarrando-a pelo braço com força e puxando-a para cima, fazendo-a olhar para ele.

— Yulia, não cumprimenta mais seu marido? – sorria sádico, apertando mais seu braço, sabendo que ficaria um hematoma depois.

A menina fez uma careta de dor, respirou fundo e, com o rosto mais feliz que conseguia fazer, saudou o homem:

— Seja bem-vindo em casa, meu senhor, Auriol – e fez uma reverência desajeitada, de costas para Hazel, que conseguiu visualizar algumas marcas de chicotada nas costas da menina quando seu cabelo escorreu para o lado.

— Bom... – tomou seus lábios por um momento, finalmente largando-a. – Agora rápido com isso, que não tenho o dia todo – e se dirigiu para a sala, abrindo uma porta e entrando em um escritório, trancando-se.

Assim que Auriol saiu de vista, a menina mostrou-lhe o dedo do meio, segura de que ele não veria, esfregando os lábios como se pudesse retirar os resquícios do beijo, virando-se para Hazel:

— É o menino discípulo de meu marido? Hazel?

— S-sim... – tinha os olhos arregalados, surpreso com as marcas nas costas da menina, levantando devagar, ainda tremendo de frio, mas bem menos, pelo interior da casa ser quente. – Desculpe a pergunta... Mas ele é mesmo seu marido? Você parece tão nova...

— Bem... – suspirou, puxando Hazel pelo braço em direção à escada. – Eu tinha que escolher. Ou me tornava mulher dele, ou guerreira, ou então era devorada pelos bichos de pelúcia. Me tornar mulher dele não me pareceu ruim... Até chegar aqui, claro.

— Mas você parece tão nova... A ideia de casar não te assustou? – o garoto a seguia como podia, tremendo e sendo arrastado escadaria acima, deixando uma trilha molhada pelo caminho, pingando.

— Assustou... Mas não queria virar um bichinho de pelúcia maníaco e devorador de almas como eles – suspirou, abrindo a porta do banheiro, caminhando até a banheira, que parecia um ofurô do jeito que era. – E, por favor, pare de comentar que sou nova... Tenho doze anos, mas sou uma menina forte – e sorriu de leve para Hazel, apertando em um botão e puxando uma alavanca, acionando a água, que começou a inundar a banheira com velocidade impressionante.

“Doze...” – pensou ele, se sentindo, de certa forma, menos só. – “Apenas um ano mais nova que eu... Acho que podemos ser amigos...”.

— Desculpe-me, esqueci seu nome... Qual é mesmo? – se aproximou da menina, tremendo menos de frio, vendo a banheira enchendo rapidamente, já quase passando da metade. Queria desesperadamente entrar na água, mas achou mais educado esperar.

— Yulia, muito prazer – sorriu simpática, passando a ponta dos dedos pela água quente, que já começava a fazer as paredes do banheiro suarem, e o único espelho visível embaçar. – E, por favor, Hazel... Não enfrente Auriol como eu enfrento às vezes. Aqui, pessoas rebeldes não são bem vistas, e sofrem muito.

— Então... – ficou constrangido, mas estava curioso demais para se refrear. – É por enfrentá-lo que tem essas... Marcas nas costas...?

A garota ficou paralisada, e Hazel chegou a achar que deixaria a banheira transbordar, mas ela se virou e empurrou a alavanca de volta, com o botão voltando ao normal, travando a alavanca, e a água parou, pouco antes de chegar ao ponto de transbordar.

— Hazel, vou ser bem sincera com você, porque não acho justo você chegar aqui como eu cheguei, sem nenhuma explicação – ela o olhava séria, e ele notou em seus olhos profunda solidão e mágoa. Arrepiou-se todo. – Aqui, pessoas como o Auriol, servos do mestre da dimensão, tem o poder de te mandar fazer algo, e se você não obedecer, te punirem como acharem melhor. Auriol gosta de açoitar, espancar, afogar e humilhar quem o desobedece. Eu não sabia disso, e no início o desobedecia a toda hora. Das primeiras vezes ele foi tolerante, mas quando resolveu finalmente me punir... – se encolheu toda, como se relembrasse o dia. – Enfim, seja lá que for que ele pedir, procure não desobedecer. Por favor.

— Ok... – o menino ficou até arrependido de perguntar, um pouco confuso, e muito receoso. Obedecer não era bem seu forte, mas poderia tentar se a garota estava assim tão preocupada com ele. – Vou fazer meu melhor, prometo.

— Bom... – ela pareceu mais calma. – Bom, seu banho está pronto. Vou sair para lhe dar privacidade e cozinhar o jantar. Qualquer coisa, só apertar esse botão aqui — e apontou um botão que ficava na parede interna da banheira.

— Obrigado, Yulia – agradeceu Hazel, feliz pela menina ser tão gentil com ele.

— De nada – ela ruborizou, saindo em seguida, fechando a porta.

Sozinho, Hazel despiu-se, entrando na banheira. Tinha a água bem quente, que imediatamente aqueceu seu corpo gelado, causando uma sensação de conforto enorme, apesar de queimar um pouco. Deitou-se, praticamente, e relaxou.

Coisa que não voltaria a fazer tão cedo.

Notas finais
E então, gente, reviews? =D
Beijos :*
Suh
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.