A Saga de Ares - Santuário de Sangue
57 Capítulo 52 — Guerra em Atlântida: O bruxo do mar
Notas iniciais
Capítulo 52 — Guerra em Atlântida: O bruxo do mar
Grécia — Templo do Grande Mestre — Meio-dia do 2º dia
— Você não para de olhar para esse espelho. — disse Ares, de braços cruzados, parado na porta do quarto. Ele estava observando Afrodite, que vinha passando o dia sentada de frente para o espelho que lhe mostrava a entrada do Olimpo.
A deusa olhou para ele e voltou a encarar o espelho.
— Dois dias. Fazem dois dias que os portões do Olimpo não são abertos. Ninguém entra e ninguém sai. Mensageiros de outros deuses chegam até o portão e são recebidos pela guarda celestial, mas não entram no Olimpo. Apenas deixam a mensagem e vão embora. — disse Afrodite.
— E você acha que é por minha causa?
— Depois que a corça enviada por Ártemis passou pelo portão, o Olimpo foi lacrado. Parece que Apolo ordenou uma formação de defesa. Tem fileiras de anjos armados a cada dez metros acima da grande muralha, cercando todo o monte. E isso tudo depois do seu discurso.
Ares deu um curto sorriso abafado e caminhou até sua amante, segurando-a no braço e puxando para si, mas sem ser de forma agressiva. Afrodite era a única pessoa que o sanguinário deus da guerra tratava com ternura. Mesmo em seus momentos mais raivosos, apenas a deusa do amor o acalmava.
— São precauções de guerra, minha querida. Se eu estivesse no lugar de Apolo teria feito o mesmo. Ele não sabe se pode confiar em mim como aliado, ou se deve me ver como um ambicioso que tentará dominar o Olimpo. É inteligente da parte dele tomar essas medidas. Agora... — ele colocou a mão no rosto da deusa e a olhou nos olhos. — Temos coisas mais importantes para nos preocuparmos. Apolo não vai me atacar. Ainda mais agora que estou indo para Atlântida. Aquela criança mimada e esquentada vai esperar o resultado de Atlântida e o prazo de nove dias para tomar qualquer decisão contra mim.
Afrodite enrugou o cenho e afastou a mão de Ares do seu rosto. Havia algo diferente nele. Seu coração estava batendo fora da harmonia que ela sempre sentia.
— Você vai agora para Atlântida?
Ares se afastou e foi até a janela. Do alto da montanha dava para ver todo o Santuário, o vilarejo e o litoral. Os navios trazidos por Phobos já estavam se deslocando para o mediterrâneo.
— Daqui a algumas horas. Anteros foi na frente, para o Estreito de Gibraltar, dar início ao rompimento do selo que abrirá a passagem para Atlântida. Os berserkers escolhidos por Deimos para liderarem as frotas já estão posicionados e se deslocando para lá.
— Vai levar Deimos? E quanto a Phobos?
— Irei. É de uma máquina de guerra que eu mais preciso agora, e não de um líder diplomático. Seu filho favorito ficará aqui no Santuário com você.
— Ares... — chamou a deusa, e por um momento Ares pareceu desconfiado.— Você subestima demais o Phobos. Talvez, pelo fato de já ter passado centenas de anos desde a última verdadeira manifestação dele, você tenha esquecido do verdadeiro poder de Phobos. Existe um motivo para até mesmo Deimos teme-lo. Ser o deus do terror, capaz de provocar pavor em um grupo de pessoas, não é difícil. Mas dominar o medo que existe em cada um de nós, é algo complexo e Phobos domina isso muito bem.
— Não tenho tempo para perder com isso, com possibilidades.
Um berserker bateu na porta e a abriu. Era um jovem negro, de olhos vermelhos, lábios carnudos, cabelos prateados com fios alaranjados e estava vestido com traje militar, indicando sua posição como general, e botas de onyx, mas era novo demais se comparado com os outros berserkers do exército de Ares.
— Senhor Ares! Senhorita Afrodite! Sélestat de Vapula, do exército do Terror, se apresentando. Perdoem-me por interrompe-los, mas está na hora de partirmos, Senhor Ares.
Ares se afastou da janela e caminhou até Afrodite para lhe dar um beijo no rosto, mas a deusa virou o rosto.
— Cuide-se. — disse a deusa.
Ares franziu o cenho e saiu, fechando a porta.
— O último navio está esperando pelo senhor no cais. — disse o berserker.
O deus sorriu.
— Senhor?! — O berserker estranhou a expressão do deus.— Eu falei algo de errado?
— Não foi nada. Vamos!!
...
No cais, restava apenas um acinzentado navio de guerra russo ancorado. Os demais já tinham partido e dava para vê-los ao longe. Próximo ao navio que aguardava o deus da guerra, estava um grupo de soldados berserkers, Phobos e o deus do vinho.
— Você demorou. — disse Dionísio para Ares. — Deimos partiu liderando os generais. E a essa altura, Anteros já deve estar perto de romper o selo.
— Não pretendia ir ao lado de Deimos e tão pouco na frente dele. — respondeu o deus.— Deixarei que ele lidere a frota até lá. Ele já sabe o que deve fazer.
— Espero que o seu plano não falhe. — disse Dionísio.
— Se seguirem com o que foi planejado, não vai falhar. Todos já estão devidamente posicionados. Phobos, tome cuidado com o Olimpo. Não acho que Apolo fará qualquer ataque na minha ausência, mas você deve ficar atento. Tome algumas medidas se for necessário.
— Sim senhor.
O deus da guerra dirigiu-se para o navio acompanhado pelo General e Dionísio. Os soldados recolheram a rampa e o navio logo partiu. Do cais, Phobos continuou a observar o navio até que ele se tornasse um simples ponto cinza no horizonte.
— Senhor Phobos, o senhor mandou me chamar? — perguntou um berserker, sorrindo. Ele tinha a aparência de um coringa, como se tivsse saído de uma carta de baralho. Sua Onyx tinha a forma de um bobo da corte, com guizos pendurados na ombreira e cintura, cochas largas e sapatos pontudos. Seu elmo cobria toda sua cabeça, dividindo-se em cima em dois volumes parecidos com chifres curvados para trás, e cada um trazia um guizo irritante. A máscara perversa que cobria todo o seu rosto, tinha um sorriso largo e sádico, e seus olhos eram estreitos.— Clown de Pennywise, se apresentando.
Phobos virou-se para ele e começou a caminhar em direção ao Santuário.
— Você já ouviu falar na mansão em que o deus Enyalios estava hospedado?
— Sim, senhor! Fica próxima ao Vilarejo de Rodorio. — respondeu Clown, sorrindo novamente. Semelhante a máscara do seu elmo, o berserker não parava de sorrir. Tudo o que falava era acompanhado de uma abafada risada.— Soube que os soldados que estavam lá foram expulsos, e que muitos apareceram mortos nos arredores do vilarejo.
— Sim. Queimados. — confirmou o deus. — Alguns até reduzidos a cinzas.
— Alguns berserkers acreditam que sejam os aldeões criando emboscadas para os soldados rasos. E suspeitamos que alguns cavaleiros de bronze rebeldes estejam ajudando. Afinal, mesmo sendo simples soldados, os ratos do vilarejo não conseguiriam nada sozinhos.
— É verdade, mas... Você está enganado quanto ao resto. Existe uma única pessoa por trás de tudo isso.
— Existe? E o senhor acha que essa pessoa está na mansão onde o senhor Enyalios estava? Porque?
— Exatamente. — Phobos colocou a mão no bolso da calça militar e tirou uma peça de xadrez dourada.— Por causa das informações que Hugo me mandou. Por isso, eu quero que me leve até a mansão. Preciso ter a certeza para depois lhe dar uma missão.
— Sim, meu senhor. — disse Clown se curvando.
—...—
Atlântida — Palácio, centro do país — Algumas horas depois da reunião, 2º dia
Anfitrite, a imperatriz de Atlântida e esposa de Poseidon, estava na sacada do Palácio olhando para os arredores da cidade. Ele estava vestida com um longo vestido azul adornado com pedras de diferentes cores, e seus longos cabelos verde-oceano estavam trançados com cordões de pérolas.
Do alto do palácio dava para ver uma grande arena que se erguia em meio as casas e prédios em pleno centro da capital. Ao longe, três grandes monumentos, semelhantes a pilares, marcam a divisão dos três distritos. O “céu” era como estar diante de um grande aquário. A imensidão do oceano estava separada por uma grossa camada de barreira, e através dela dava para admirar toda as criaturas marinhas que por ali passavam. Dezenas de cardumes, grupos de golfinhos e algumas solitárias baleias. E mesmo estando tão longe da superfície, a luz do sol atravessava as mais profundas águas só para iluminar o país.
Normalmente alguns atlantis se aventuram nadando fora dos limites da barreira, mas sem sofrer com a pressão da água exercida naquela profundidade. Além dessa capacidade de tolerância, os atlantis podem mudar a anatomia do corpo ao entrarem em contato com a água. Semelhantes a sereias.
— Senhorita Anfitrite, a reunião no Quartel General da inteligência imperial no segundo distrito já terminou. — avisou uma jovem mulher que fazia parte da guarda do palácio.
Chamadas de Nereidas, são jovens que se dedicam a servir a imperatriz intimamente, sendo as únicas que tem o direito de estar ao lado de Anfitrite. São quarenta e nove no total, representando as filhas do deus Nereu, o velho mar, que na era mitológica formavam o primeiro grupo de nereidas. As nereidas da guarda real trajam as escamas criadas baseadas nas nereidas mitológicas. Na era mitológica o número era de cinquenta nereidas, mas uma delas era a própria Anfitrite.
De acordo com os costumes de Atlântida, as jovens são escolhidas ainda no ventre da mãe. Ao completar oito meses de gestação, todas as mulheres gravidas devem ser levadas para o terceiro distrito e devem passar por um ritual de conhecimento. Se a criança for uma menina e tiver o destino traçado com o de uma das antigas nereidas, a mãe deve ser levada para o primeiro distrito, onde terá a criança e a deixará para ser treinada a partir do sexto ano de vida. A criança levará o nome dado pelos pais até que conclua o treinamento. Ao concluir, a criança deve abandonar o seu nome e adotar o nome da nereida que ela irá representar. Caso duas ou mais jovens estejam destinadas ao mesmo título, elas deverão lutar entre si até que reste apenas uma.
A jovem que estava diante de Anfitrite tinha longos cabelos e olhos azuis. Sua beleza era quase divina, fazendo jus a lenda sobre o grupo de nereidas. Ela estava trajando uma escama azul esverdeada, que representava a nereida Mélita.
— De acordo com o relatório, o manuseio do Tridente através do senhor Tritão despertou a consciência do Imperador Poseidon por alguns instantes, e sua vontade foi mais uma vez manifestada, escolhendo quatro novos Generais Marinas. — disse Mélita. — São eles o semideus Chrysaor, Sorento de Sirene, Agave de Dragão Marinho e Bedra de Lymnades.
— Agave foi escolhida?! — disse a imperatriz contente — Não esperava menos dela. Quanto a Chrysaor... Ele também?! — havia uma pontada de repudio na voz da imperatriz ao falar o nome do filho da Medusa, uma das amantes de Poseidon. — O que Poseidon espera trazendo o filho daquela mulher até aqui?! E quanto as decisões que foram tomadas?
— O primeiro distrito irá liderar todo o exército sob a supervisão de um dos generais. O segundo distrito ficou responsável pelas rotas estratégicas. O terceiro distrito ficou responsável pelas defesas e monstros marinhos. Os generais estão esperando mais informações sobre a rota que Ares irá tomar. — explicou Mélita.
— Compreendo. Mélita, eu quero que você me faça um favor. Envie um comunicado a uns dos representantes do segundo distrito e ao general de Sirene. Estou marcando uma audiência com eles. Ainda hoje e o mais rápido possível.
— Sim, senhora! Irei pessoalmente levar o recado. Licença!
Ao se levantar e virar, Mélita ficou surpresa ao se deparar com Tritão entrando no recinto. O deus agora estava vestido com uma escama dourada, que o representava, por cima do traje militar que ele estava usando anteriormente. Seus cabelos prateados com mechas azuis estavam amarrados em um curto rabo de cavalo.
— Majestade! — disse a nereida, se retirando.
— Mãe?! A senhora marcou uma audiência? O que pretende fazer?
— Não se preocupe. Não vou atrapalhar suas decisões. Apenas tenho uma ideia para debater com o segundo distrito e com o general. E já que está aqui... Mélita me disse que vocês estão aguardando mais informações sobre a rota de Ares... Bem, não vão precisar esperar tanto. Enviei duas das minhas nereidas para o Mar Mediterrâneo. Elas irão descobrir qual rota Ares pretende tomar.
— A senhora não acha isso um pouco arriscado?
Anfitrite abriu a boca para responder, mas uma gigantesca sombra cobriu a cidade. Ao olhar para o “céu”, do outro lado da barreira, as divindades se depararam com um grande turbilhão de água e dentro do turbilhão havia uma criatura gigantesca semelhante a uma serpente, e ela emitia um som semelhante ao de uma baleia.
— Caribdes? — perguntou a imperatriz.
— Pedi a Sehrli, o Almirante do terceiro distrito, que enviasse Caribdes para proteger os arredores de Atlântida. — explicou Tritão.
— E você acredita que Ares chegará até aqui?
— Eu não duvido que suas ambições possam leva-lo tão longe. Ares é conhecido por se levantar mesmo se perder uma das pernas. Enquanto ele puder segurar uma espada ou uma lança... Ele é capaz de tudo. Foi pensando nisso que a Almirante Cunning ordenou a evacuação de emergência dos três distritos e da capital.
— Então está na hora de cortarmos seus dois braços. — disse Anfitrite.
—...—
Mar mediterrâneo, próximo à Ilha Sicília — 2º dia
Uma frota composta por dezenas de navios de guerra russo avançavam em direção ao Estreito de Gibraltar. No alto das torres de cada navio, onde geralmente ficam as antenas de comunicação, havia bandeiras vermelhas marcadas em dourado com o símbolo do deus da guerra. Um elmo emplumado e uma lança.
A frota era formada por navios cruzadores, que são um dos maiores navios de combate, e por navios encouraçados, que são navios blindados e armados com as mais pesadas artilharias de longo alcance e de maior calibre. No centro da frota havia um navio porta-aviões onde Deimos e alguns deuses e berserkers estavam reunidos.
— Senhor Deimos! — chamou um soldado berserker— Recebi um comunicado do navio que ficou esperando o Senhor Ares. Eles acabaram de zarpar. Devemos diminui a velocidade para esperá-lo?
Deimos olhou para o lado e viu a Ilha Sicília, e ao longe o pico do monte Etna. Ele teve a breve sensação de estar sendo observado. Como se dois olhos estivessem pesando sobre ele junto com uma forte pressão cósmica.
— Não! Esperaremos ele mais à frente. Não diminua a velocidade. Mantenha ela. — ordenou o deus, que estava usando trajes militares escuros com detalhes vermelhos. — E avise aos demais navios para se afastarem da Ilha Sicília. Não precisamos arrumar problemas com o ferreiro dos deuses.
— Sim senhor! — disse o soldado.
— Ele está vindo sozinho? — perguntou Éris, se aproximando com um longo vestido roxo escuro. O forte vento agitava seus longos cabelos azuis.
— Não. Dionísio e um dos meus berserkers estão com ele. — respondeu o deus.— Ele... — Deimos se calou repentinamente. — Essa sensação de estar sendo observado... — pensou o deus, e olhou para o monte Etna. — Não... Dessa vez não está vindo do Monte Etna. Nesse ponto estamos longe do alcance dos olhos ‘dele’.
— Deimos?! — disse Éris desconfiada. — Aconteceu alguma coisa?
O deus deu as costas, caminhou até a beira do navio e olhou para a água do mar.
— Eu tive... Eu tive uma leve impressão de estar sendo observado ou... seguido. Talvez seja coisa da minha cabeça. — Mais uma vez a sensação o incomodou.— Ou talvez... — Deimos se desfez em trevas e em seguida reapareceu sobrevoando as águas do mar, e se deparando com duas belas mulheres nadando nas águas próximas ao navio, tentando se esconder dos olhos do exército. — Estamos de fato sendo seguidos!
As duas jovens tinham longos cabelos em diferentes tons de verde e azul, mas debaixo da água a outra parte do cabelo parecia se transformar em tentáculos. Da cintura para cima estavam protegidas por suas respectivas escamas. A parte seca do corpo, como pescoço e rosto, tinha pele humana, mas a parte onde a água batia era instantaneamente coberta por escamas azuladas. Como se o toque da água convertesse a pele humana em escamas de peixe. E no lugar das pernas havia uma longa calda azul com belas barbatanas, também protegidas por peças da escama.
— Sereias? — perguntou Éris.
— Não. São nereidas. Fazem parte da guarda de Anfitrite. — respondeu Deimos.— Mas o que essas belas criaturas estão fazendo tão longe de casa? A imperatriz de vocês as enviou aqui para nos observar? — Elas se viram encurraladas diante do deus do terror. A pressão exercida pela presença de Deimos deixou elas imobilizadas a ponto de não conseguirem pronunciar qualquer palavra. — Olhem só para vocês. Não passam de dois peixes fora da água sem conseguir respirar diante de um deus. — disse Deimos desembainhando sua espada.— Voltem para o buraco de onde vocês vieram e avisem aos almirantes e a sua imperatriz... Ares, o deus da guerra, está a caminho de Atlântida, liderando um grandioso exército rumo ao Atlântico Norte. Mas... Qual a necessidade de tantos olhos para nos observar?! Será que apenas uma de vocês não é suficiente para levar um recado?! — com um rápido movimento, Deimos partiu uma das nereidas ao meio e feriu a outra gravemente. A nereida gritou ao ver o sangue da companheira e o corpo afundando. — Corra, nereida! Nade o mais rápido que você puder. Caso contrário, morrerá no caminho e sua imperatriz morrerá sem saber de onde veio o ataque.
Ignorando o próprio ferimento, a nereida mergulhou e rapidamente desapareceu nas águas escuras.
— Esse é o momento perfeito! — disse o deus com um sorriso malicioso. — Soldados! Sigam-na! Mas com cautela. Tomem uma determinada distância para que possam segui-la sem serem notados. Os olhos de vocês serão os meus olhos, e a marca posta por Anteros dará a vocês a habilidade de aguentar a pressão e respirar debaixo da água.
— Sim senhor! — gritaram os soldados berserkers, e um pequeno grupo composto por seis homens pularam na água.
— Quero ver até que ponto os atlantis estão se protegendo. — disse Deimos.
—...—
Silkeborg — Dinamarca — 2º dia
— Sinto um forte deslocamento de cosmo. Bastante numeroso. — disse Asterion, olhando as casas vizinhas através da janela da sala. — E é do exército de Ares. Eles estão tomando rumo... Para o Oeste?!
— E você não sabe de nada? — perguntou Shina, sentada no sofá.
— Não. Dessa vez eu não sei. Esses nove dias serão imprevisíveis para nós. Delfos apenas pediu para que esperássemos o retorno dele e de Atena. A Terra pode mergulhar em um oceano de sangue durante esse tempo e... Não podemos fazer nada. — Ele virou-se para Shina e enrugou o cenho. — Você parece estar preocupada. Está assim por causa da guerra ou por causa de Seiya?!
Parecendo um pouco desconfortável, Shina hesitou antes de falar.
— Um pouco das duas coisas. Eu deveria ter ido com ele.
— Entendo. Mas você será mais útil aqui, acredite. Um grupo numeroso no Tártaro só iria atrapalhar Seiya. Você já conversou com Alec? Desde ontem ele parece evitar você. Ou será que os dois estão se evitando?!
— Depois do que aconteceu com Pavlin... Ele não teria coragem para olhar na minha cara novamente. Na verdade... Você, mais do que Alec, é que não deveria ter a audácia de erguer a cabeça para qualquer um de nós.
— Por que se dói tanto por ela? Eram tão próximas assim? — perguntou Asterion, ignorando as outras palavras de Shina.
— Porque fui eu quem a instruiu em seu treinamento! — respondeu Shina. — Eu a treinei e a levantei como saintia de Atena. Parar cuidar da Saori de modo que eu e os outros não poderíamos.
— Compreendo.
— Você fala sem peso algum em suas palavras. — disse Shina, se levantando.— A essa altura quem vive ou quem morre já não faz diferença alguma para você.
— Isso não é verdade, Shina. Apenas compreendo a dimensão maior que essa guerra teria se não fosse o plano de Delfos. Tente entender isso. Algumas mortes infelizmente não pudemos evitar, mas a maioria sim. E isso já é uma vitória. Encarar vocês ontem... Foi difícil para mim. Eu tinha noção do que vocês já tinham enfrentado. Por acaso você acha que a minha consciência está tranquila? Desde o dia em que Delfos bateu na porta da minha casa, não tem um dia que eu não tenha pesadelos com as cenas que eu vi na mente dele. Decisões duras foram tomadas. Não estou arrependido, mas isso não quer dizer que eu não esteja sofrendo também.
— Estou começando a achar que o Santuário não se importa com aqueles que servem a Atena. — disse Jake, entrando na sala. — Desde que Atena esteja bem, não faz diferença matar alguns cavaleiros. Independente se a consciência pesará ou não.
— Jake?! — disse Asterion surpreso.— Você estava ai esse tempo todo?
— Não. Mas ouvi a última parte da conversa.
— O que você disse... Também não é totalmente verdade. — disse o antigo cavaleiro de prata de cães de caça.— O Santuário se importa sim com os que servem Atena. A própria Atena sofre ao perder um dos seus cavaleiros, mesmo ela sabendo que estamos dispostos a morrer por ela. O santuário também protege até mesmo aqueles que possuem alguma ligação com os cavaleiros. Até mesmo ente o próprio grupo. Marin, por exemplo, mesmo sendo uma amazona, ela tem o privilégio de ser protegida por ser a mestra de Seiya. Assim como a irmã mais nova de Seiya, Seika, está sendo protegida no Japão. O Santuário sabe pagar suas dívidas. Mas concordo com você a respeito de Atena ser nossa prioridade. Se nós tivermos que morrer para que ela alcance a vitória, assim será. Se tivermos que matar um dos nossos companheiros para alcançar a vitória... — Asterion cerrou o punho e ergueu o rosto firmemente.— Assim será!!
— E é pensando assim que vocês nos usam?
— São peões em um tabuleiro. Peões não reclamam quando o rei manda eles avançarem mesmo sabendo que eles morrerão. Faz parte do jogo. — disse Asterion.
— Meça suas palavras, Asterion. — disse Jake. — Dessa vez não tem outro cavaleiro de ouro para me deter caso eu avance contra você. E quero lhe lembrar que nenhum outro cavaleiro aqui teria tal capacidade de acompanhar meus movimentos. Nem mesmo você, que foi mestre de Ápis.
— Já chega Jake! — disse Shina. — Não ganhamos nada lutando entre nós. Por mais que a visão de Asterion seja revoltante... Ele apenas está sendo realista e direto.
— E onde estão Jabu e os outros?
— Jabu, Nachi e Plancius foram fazer uma ronda. — respondeu Asterion. — Pedi para darem uma olhada nos arredores. Esta casa recebeu vários selos na tentativa de criar um refúgio seguro e evitar que o exército de Ares nos ache. Também foi uma garantia que Delfos me deu quando aceitei ajuda-lo. Mas hoje de manhã... Algo começou a me incomodar.
— Você acha que eles nos encontraram? — perguntou Alec, entrando na sala. Ao ver que Shina estava lá, ele rapidamente desviou o olhar.
— Não, eu não acho. Mas podem estar procurando por vocês em todos os lugares.
— Eu também irei me juntar a eles. — disse Jake, caminhando até a porta.
— Não! Não faça isso! — disse Asterion, quase gritando.— Não saia dessa casa. Um cosmo do seu nível seria rapidamente sentido. Seria como ligar um farol. Deixe que Plancius e os outros cuidem disso.
Jake soltou o ar e se afastou da porta.
— E quanto ao combate em Jamiel? Shalom ou Kastor mandaram alguma mensagem?
— Nada ainda. — respondeu Asterion.
— Acredito que eles tenham dado conta de tudo. — disse Alec.— Não dá para imaginar aqueles dois tendo qualquer dificuldade em combate. Principalmente o Cavaleiro de Virgem. Eu vi ele lutando, sem armadura, contra o Cavaleiro de Ouro de Capricórnio.
Asterion sorriu.
— É. Shalom é muito poderoso. Mas Alec... — ele sorriu para o líder dos Cavaleiros de Prata.— Não precisa mais chama-la pelo nome da constelação. A essa altura, já podemos chama-la de Tourmaline de Capricórnio.
— O que?!! — disse Shina, bastante surpresa.— Como assim? Capricórnio? Está dizendo que a irmã mais nova de Delfos...
— Um dos doze cavaleiros de ouro. — respondeu Jake.
Asterion olhou curiosamente para ele.
— Você sabia? Como?
— Por mais que ela estivesse ocultando seu cosmo dourado para os demais não perceberem, não tem como ela esconder a aura dos meus olhos. E a sua aura era tão dourada e intensa quanto a luz de uma armadura de ouro. — respondeu Jake.
— Bons olhos, Leão. — disse Asterion, surpreso.— Por orientação de Delfos, que estava concluindo seu treinamento na Grécia, Tourmaline foi enviada para o Japão com o intuito de torna-la uma saintia. Ele só não esperava que a irmã fosse um prodígio e que ela dominasse o sétimo sentido. Tourmaline também dominou uma técnica lendária e em pouco tempo conquistou o direito de se tornar a saintia de bronze de Ave do Paraíso, uma sacerdotisa de Atena, e só então voltou para o Santuário. Anos depois, quando as armaduras de ouro foram enviadas para encontrar aqueles que estavam predestinados a usa-las, Tourmaline foi escolhida pela armadura de ouro de Capricórnio, mas ela não assumiu de imediato a armadura. Só iria assumir depois que o exército de Ares tivesse dominado o Santuário, mas sem revelar sua verdadeira identidade, criando uma camada ilusória que faria os demais enxergarem um homem magro e de cabelos escuros.
— Atena... Ela sabia? — perguntou Shina.
— Provavelmente. Atena passou por um período de treinamento, e quem a ajudou foi Tourmaline. Não é à toa que ela é chamada de “espada de Atena” ou a “lança de Atena”, enquanto Pavlin era o “escudo de Atena”.
O nome de Pavlin causou um desconforto entre Alec e Shina, mas Asterion notou isso tarde mais.
— Desculpa. — disse ele.
—...—
Santuário — Vilarejo de Rodorio — 2º dia
Clown levou Phobos até a mansão como o deus havia pedido. Era uma grande casa cor de salmão de três andares e repleta de janelas.
— Chegamos, senhor! — disse Clown.
— Para um local abandonado, isso aqui está bastante conservado. — disse o deus, vendo a grama aparada e a entrada limpa.— Mais de um mês já se passou desde que Enyalios saiu daqui. Essa casa deveria ser um amontoado de teias de aranha e plantas daninhas. Isso significa que ela realmente está aqui.
— “Ela”, senhor?
Phobos caminhou pausadamente até parar diante da grande porta de entrada da mansão. Ele estendeu a mão para tocar na maçaneta, e faltando poucos centímetros para encostar o dedo, ele sentiu a mansão ser tomada por um cosmo quente, caloroso e ameaçador. Sem dúvidas era cosmo divino. Ele girou a maçaneta e abriu a porta. A pressão cósmica saiu como se estivesse procurando uma brecha para extravasar. Clown sentiu seu corpo ser empurrado para trás, e forçou os pés para não ser arrastado.
Dentro da mansão estava tudo limpo e organizado. A sala era grande e repleta de móveis antigos. As cortinas pesadas fechavam a janela deixando o recinto um pouco escuro. Três grandes sofás marrons estavam no centro formando um U diante da lareira, e na frente da lareira havia uma grande poltrona. As paredes acima eram cobertas de livros e cabeças de animais silvestres empalhados.
Depois de entrarem, Clown fechou a porta e o barulho da porta batendo foi seguido por um fraco pedido de silêncio.
— Não façam barulho. As crianças acabaram de comer e agora estão descansando lá em cima. — disse uma mulher se levantando da poltrona.— Finalmente você veio, filho de Ares.
— Héstia. — disse Phobos, reconhecendo a deusa.
— Demorou para alguém do exército vir até aqui. Principalmente depois que a “colheita” de jovens e crianças do vilarejo foi interrompida.
— A colheita era só uma diversão para Enyalios e alguns berserkers. Quem eles matam ou abusam não faz diferença para o resto do exército. Temos coisas mais importantes para tratar.
— Hm! Então se está aqui, é porque agora a minha presença é algo importante? — perguntou a deusa.
— Sua presença aqui não nos incomoda nenhum pouco, minha senhora. Fique com o vilarejo para si se quiser. Eu vim até aqui por causa disso... — Phobos abriu a palma da mão e fez a peça de xadrez voar até a deusa. — Sabe o que é isso? Um dos meus berserkers pode extrair as mais intimas emoções e pensamentos de uma pessoa. E a forma dessa peça não tem o formato de um leão à toa. Ela pertence a Jake, o Cavaleiro de Ouro de Leão. E foi essa peça que me revelou a sua localidade.
— E o que espera com isso?
Phobos sorriu.
— Ficar um passo a frente deles. Essa peça não apenas revelou a sua influência ajudando o cavaleiro de Leão, mas também revelou todos os passos que Jake fez com o grupo de Seiya, e todas as informações que eles compartilharam. Inclusive, ela me revela onde seu precioso jovem está nesse momento junto com um grupo de rebeldes.
— Se tem todas essas informações, então porque veio até aqui? Já não é informação suficiente para estar vários passos na frente dele e dos demais? — Héstia parecia estar nervosa, temendo pela segurança de Jake, e para o seu azar Phobos estava percebendo isso.
— Estou aqui porque não tem como eu encontrar a irmã de Seiya, por exemplo, se a senhora estiver protegendo ela. Eu vi a senhora aparecendo diante dos cavaleiros para alertar o Cavaleiro de Peixes sobre o ataque que iria ocorrer na casa dele. Eu vi que a senhora prometeu a Seiya que protegeria a irmã dele. Como eu disse antes, sua presença aqui não nos incomoda, mas passará a ser um incomodo se a senhora continuar a se intrometer nessa guerra. Estou caçando Seika a alguns dias e só agora eu entendo porque eu não a encontrei ainda. — Phobos sorriu e recolheu a peça de xadrez de Jake. Um tabuleiro de surgiu ao seu lado trazendo algumas peças dadas por Hugo, e o deus pousou a peça dourada no tabuleiro.— Deusa Héstia, não é de meu interesse tê-la como uma inimiga. Seria uma infelicidade para nós dois. Por isso torço para que a senhora coopere comigo. Agora me diga, onde está a irmã de Seiya? Em que parte do Japão ela se esconde?
— Se veio aqui atrás dessa informação... Está perdendo seu tempo. Não irei dizer o paradeiro dela. Agora, saia desta casa! — disse a deusa, um pouco alterada.
Phobos deu mais um singelo sorriso. Ele parecia cada vez mais tranquilo e sua voz estava cada vez mais serena, ao contrário de Héstia que parecia estar cada vez mais prestes a perder o controle.
— A senhora sabe que eu vou mata-lo, não é? Ele é um rebelde. Mais cedo ou mais tarde isso vai acontecer e será da mais dolorosa maneira possível. Eu sei que a senhora disse que iria protege-lo, mas...
Héstia se moveu tão rápido que Phobos quase não conseguiu acompanha-la. Clown tentou proteger o seu deus, mas a deusa lançou o berserker contra a parede usando apenas sua força de vontade, enquanto segurava Phobos pelo pescoço.
— Não ouse tocar um dedo nele!! — disse a deusa.
— Eu não posso prometer isso. — disse o deus, e Héstia apertou ainda mais o seu pescoço.— É incrível como a deusa do lar se torna violenta quando alguém ameaça tocar em seus protegidos. É como uma mãe furiosa ao ver que alguém teve a ousadia de bater em seu filho. Esse é o seu maior medo, Héstia? Ver um dos seus amados sendo morto? — Phobos sorriu mais uma vez e seus olhos brilharam. A deusa arregalou os olhos e aos poucos relaxou o braço e soltou o pescoço do deus. — O amor nos torna tão vulneráveis, não é?! Ele muitas vezes é a pólvora do medo, causando em estrago enorme enquanto as chamas consomem tudo. Ele abre todas as brechas que existe em nós. Nos obriga a tomar decisões desesperadas, e graças a isso o medo nos abre outras possibilidades, como a de sermos controlados por outra pessoa e a agir por impulso para obter algo desesperadamente. Independentemente do quão forte a gente seja, não tem como fugir disso. Em outras palavras, diante do medo, não importa se você é um adulto ou uma criança, todos se tornam indefesos paralisados diante do que mais teme.
O deus do medo se afastou, deixando a deusa paralisada como uma criança coulrofobica diante de um palhaço.
— Você está sendo vítima do meu Verum Revelatum. Seja lá o que estiver vendo, são seus maiores medos. E o medo é algo que consome a todos. Mesmo você sendo uma Olimpiana, não é exceção. Contudo, infelizmente o efeito do meu golpe não irá durar muito em você justamente por ser uma Olimpiana, então... Não tenho tempo a perder. Me diga Héstia, onde está Seika?
A deusa se curvou colocando as mãos na cabeça. Ela estava hesitando com todas as forças para não falar, mas as imagens em sua cabeça estavam torturando ela por dentro. As milhares de imagens perturbadoras machucavam ela tanto quanto o golpe de uma espada. Os deuses dependem dos humanos querendo ou não, e a deusa do lar não é diferente. Ela tira suas forças dos lares que vivem em comunhão. O oposto disso lhe enfraquece. Brigas, desentendimentos, abusos, explorações vulgares, separações e mortes. Tudo aquilo que rompe um lar, rompe as forças da deusa que deveria protege-lo.
— Vou lhe perguntar mais uma vez... Onde está Seika?
As imagens se intensificaram e com isso as dores também aumentaram. A mente já estava tratando como algo físico, e estava sendo refletido diretamente em seu corpo. Manchas de sangue começaram a surgir no vestido de Héstia, e lagrimas de sangue começaram a escorrer em seu rosto.
— Pare com isso! Por favor! Pare com isso!
— Então coopere comigo. Não me agrada machuca-la. Onde está Seika?! Responda Héstia! — gritou o deus.
— Ela está na região de Kanto, na província de Chiba!! Agora afaste de mim essas imagens!! — pediu a deusa desesperadamente.
Phobos olhou para Clown.
— Já sabe onde ir, não é? Vá, mate quem estiver com ela, mas traga ela viva.
O berserker sorriu e desapareceu.
— Irei libertar você. — disse Phobos se voltando para Héstia e se aproximando da deusa. — Mas antes eu tenho mais uma coisa para lhe pedir. Você disse que as crianças estão lá em cima, não foi?! Depois que eu sair dessa casa, eu quero que você... — ele cochichou algumas palavras no ouvido da deusa e se afastou. — Mas seja rápida. Antes que meu golpe perca o efeito.
O tabuleiro de xadrez desapareceu e o deus se retirou da casa, saindo pela porta da frente. Ao longe, vindo do oceano, Phobos avistou uma luz azul subindo ao céu.
— Parece que Anteros conseguiu. — disse sorrindo.
No mesmo instante houve uma explosão vindo de trás. As janelas da mansão explodiram em centenas de pedaços e as chamas romperam por toda a parte. Em meio as chamas de um dos quartos, duas pequenas sombras agitadas pareciam gritar, mas o som crepitante das chamas na madeira da casa abafava qualquer outro som vindo da casa, exceto o choro de uma deusa. Outra explosão ocorreu e as chamas se intensificaram.
O deus do medo olhou para a casa por cima do ombro sem tirar o sorriso do rosto. Ele deu mais alguns passos e se dissolveu em trevas, indo em direção ao Santuário.
—...—
Atlântida — Palácio, centro do país — 2º dia
O pedido de Anfitrite foi atendido com urgência, e a audiência estava acontecendo. No centro do grande salão do palácio, diante de Anfitrite, sentada no trono, e de Tritão a sua direita, estavam o General Marina Sorento de Sirene e a Almirante do segundo distrito, que foi pessoalmente ao invés de enviar um representante.
A imperatriz estava discutindo com eles uma estratégia para a guerra quando um barulho do outro lado da grande porta interrompeu a conversa. Eles tentaram voltar ao debate, mas a agitação se intensificou. Os guardas já estavam prestes a ir até a porta, mas ela foi aberta repentinamente uma nereida encharcada de sangue entrou cambaleando. Os guardas e outras nereidas tentavam segura-la, mas agitada, ela afastava quem se aproximasse dela e repetia incansavelmente que queria falar com Anfitrite.
— Céus! Climene?! Mas o que foi que aconteceu com você?! — perguntou Anfitrite assustada, levantando-se do trono. — E onde está Efyra?
— Senhorita Anfitrite!! Senhorita... — a nereida estava prestes a tombar, quando Sorento se adiantou e a segurou. — Nós fomos atacadas! Nós... Efyra está... Eu preciso falar... Preciso...
Sua voz estava cansada e respirar parecia uma grande dificuldade. Sorento afastou o braço e viu que ela havia sido golpeada na lateral do golpe, e provavelmente afetou alguns órgãos internos. Ela estava perdendo bastante sangue.
— Calma. Você já está diante da imperatriz. — disse Sorento, tentando acalma-la. — Agora fale pausadamente. O que aconteceu? Vocês foram atacadas? Por quem?
— Deimos... Deimos e Ares... Eles estão vindo... Eles estão... Eles estão vindo pelo Atlântico Norte. — disse ela, ofegante. Sorento olhou um pouco assustado para Cunning, que correspondeu com a mesma preocupação no olhar. — O selo... O selo de Gibraltar... Está sendo rompido. Eles... Eles virão pelo Norte! Ares... Deimos... Éris... Anteros... E berserkers. Estão em uma grande frota. Eles...
A nereida se calou, e seu silêncio sinalizou a sua morte. O seu pulmão relaxou, expulsando seu último folego, e seus olhos se fecharam.
Anfitrite cerrou o punho e em seguida estendeu a mão para Tritão.
— Me dê o tridente. — disse ela com um tom de voz diferente. Ela estava séria. Os músculos do seu rosto estavam bastante rígidos.
— Mãe?! — disse Tritão, passando o Tridente.
Ao tocar no tridente, o cosmo de Anfitrite se elevou de maneira grandiosa e espantadora. Tão imponente quanto a estátua de Poseidon atrás do trono. Seus longos cabelos se agitaram de tal forma que os cordões de perolas se romperam. Os cristais azuis que enfeitavam e iluminavam o grande salão, refletiram a luz do cosmo da imperatriz. Todo o país foi coberto por um cosmo azul, e o cosmo seguiu se expandindo por todo oceano. As águas do mar e do oceano agora emitiam um só brilho.
—...—
Estreito de Gibraltar — Entre a Espanha e Marrocos — 2º dia
Anteros conseguiu romper o selo como havia prometido, e a passagem para o outro lado do véu surgiu na forma de duas estatuas de soldados atlantis, uma em cada extremidade da passagem, e entre elas se ergueu uma grande coluna de luz azul.
— Atlântida está do outro lado. — disse Anteros, que agora estava no navio porta-aviões junto com Deimos e os outros.
— Então o que estão esperando? — perguntou Ares, em um outro navio que estava parado ao lado do porta-aviões.
Uma rampa foi posta entre as duas embarcações, e o deus da guerra atravessou acompanhado por Dionísio e pelo berserker de Deimos.
— Estávamos esperando pelo senhor. — respondeu Deimos.
— Ignorem a minha presença! Ordene o avanço da frota.
— Sim senhor! Guardas! Formação de invasão!
As frotas começaram a se organizar enfileiradas para passar pelo estreito, mas algo chamou a atenção dos tripulantes. A água do mar começou a brilhar e um poderoso cosmo se espalhou, e através do cosmo uma voz ecoou. Como se viesse do fundo do mar.
“Afaste-se Ares! Não ouse mover seus navios através desse portal”
O deus da guerra enrugou o cenho.
— Uma voz de mulher? Essa voz... — o deus sorriu. — Então é verdade. Você é quem está comandando os Oceanos no lugar de Poseidon!
“Eu sou a Imperatriz de Atlântida, Anfitrite. Seu exército se quer invadiu o meu país, mas já ceifaram duas pessoas do meu povo. Detenha suas ambições agora mesmo, Ares! Antes que isso termine em uma guerra.”
— Não recebeu a minha mensagem? A minha lança não deixou claro a minha intenção? Guerra é justamente o que eu quero nesse momento. — disse o deus. — Mas lhe darei uma outra alternativa. Curve-se para mim, ofereça as mulheres do seu país para os homens do meu exército, me dê seus homens como escravos e soldados e oferte para mim todas as suas riquezas, e então eu pouparei Atlântida de uma carnificina.
“É muita ousadia de sua parte me fazer esse tipo de oferta, deus da guerra!” — disse Anfitrite furiosa.
— A proposta foi lançada! — gritou o deus, elevando o cosmo.— Decida, Anfitrite. Escravidão ou guerra?
“Meu país jamais se submeteria a uma escravidão! Desde a era mitológica eu prometi proteger o meu povo. Prometi que jamais permitiria que qualquer deus terrestre e ambicioso provocasse qualquer mal a eles! Não sou mulher de romper as minhas promessas. Portanto, tem noção do que está fazendo, Ares?! Este é o último aviso. Se não quiser ser destronado, largue suas lanças e recue com seus navios! ”
— Nos render? Que idiotice. Chega de ficar perdendo tempo com isso! Já que não vai se curvar por vontade própria, se curvarão no fio da espada! — gritou o deus.— Deimos, agora!!
“Idiota! Pagará caro pela sua imaturidade! Generais e Almirantes de toda Atlântida, eu declaro GUERRA!!!”
— Frota! Avançar!! — gritou o deus do terror.
Seguido pelo grito do exército, os navios avançaram em total velocidade e começaram a atravessar a estreita passagem. Do outro lado do véu, onde a mitologia pulsa tão viva quanto na era mitológica, estava o Oceano atlântico norte como ele verdadeiramente é. Violento e agitado, com ondas incrivelmente altas. O céu estava pesadamente nublado, nuvens intensamente carregadas e não havia mais continentes. Era uma imensidão de água sem fim.
[Pegue seu fone de ouvido, dê play no vídeo deste link e depois volte a ler a fanfic. Os eventos seguintes se completam com a trilha sonora desse vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=cg0TQyjdHJ0 ]
Enquanto o vento soprava intensamente e o céu trovejava, as fortes ondas escuras, com mais de quinze metros de altura, agitavam os navios como se fossem folhas secas jogadas na correnteza de um rio.
— Senhor Ares! — gritou um berserker. — Se continuarmos assim... Iremos afundar!
— Não se acovardem agora! — gritou o deus. — Lembrem-se da marca posta em vocês. Mesmo que afundem, não morrerão. Agora tratem de manter a frota em curso firme!
— Ares! — chamou Dionísio, com seus longos cabelos vinhos sendo agitados pelo forte vento. — Você não está escutando esse som?! Essa... Essa música... Zeus do céu! Como ela é linda!
Ares enrugou o cenho para o deus do vinho. Ele estava prestes a dizer que não estava escutando música alguma, que era só um devaneio de Dionísio, mas só então ele notou. Não só ele, mas também todos os deuses, berserkers e soldados. Todos pareciam tomados pela melodia. Parecia ser a voz de uma mulher cantando acompanhada por batidas sincronizadas de tambores. Uma melodia lenta e bela. Encantadora até mesmo para o sangrento deus da guerra, mas não havia ninguém ali aparentemente. Só um oceano violento tentando afunda-los a qualquer custo. A melodia então mudou, e a voz solitária foi acompanhada por um coral. Um numeroso coral.
— Mas de onde está vindo essa música?! — perguntou Deimos.
— Mas o que diabos é aquilo?!! — disse Éris, surpresa.
Ao longe, surgindo de uma onda gigante, um numeroso exército de marinas armados com lanças e escudos, e montados em cavalos marinhos colossais equipados com peças de escamas azuis. Os animais eram metade cavalo até o centro do corpo, pois a parte posterior era uma enorme cauda de peixe. Das patas dianteiras brotavam volumosas e encantadoras barbatanas. Eles não tinham pelos. Todo o corpo era coberto por escama prateada, mas que emitia várias cores diferentes como um arco íris.
O som dos tambores vinha de uma fileira de marinas que tocavam os instrumentos sem perder a sincronia naquele agitado oceano e entoavam o cântico como uma oração.
Atrás do exército emergiu uma carruagem grande puxada por quatro cavalos marinhos. Tritão, o herdeiro de Poseidon, estava segurando as rédeas com a mão esquerda enquanto levava o tridente na mão direita. Ao seu lado direito estava Agave, a general marina do Atlântico norte, e ao seu lado esquerdo estava Moshchnost, o velho Almirante do primeiro distrito.
Mas o que mais chamou a atenção foi a bela criatura que sobrevoava na frente do exército marinho. Havia um "anjo" de asas douradas pairando acima das águas turbulentas do oceano. Era um homem de expressão serena, cabelos lilás e trajava uma indumentária dourada com tons alaranjados. E em uma das mãos ele segurava uma flauta, encostada na boca. Era ele o autor daquela melodia.
— Aos tripulantes dessas embarcações que seguem em direção a sepultura nesse agitado Oceano... Atlântida lhes oferece um cortejo fúnebre. Sinfonia final da morte!
—...—
Referências:
* Sélestat de Vapula: Sélestat é um personagem criado baseado em um leitor da fanfic. Uma pequena homenagem. O nome vem de uma comunidade francesa, onde nasceu Heinrich Kraemer, o criador do livro de demonologia cristã chamado "Malleus Maleficarum". Vapula é uma das criaturas presentes nesse livro.
* Pennywise: A Onyx de Pennywise é uma referência ao palhaço de mesmo nome da fantástica obra "IT: A coisa", do escritor americano Stephen King, o mestre dos livros de terror. Na obra, Pennywise adota a aparência de um palhaço, mas ele tem a capacidade de tomar a forma daquilo que a pessoa mais sente medo.
* Coulrofobia: é o termo psiquiátrico que é usado para aqueles que têm medo de palhaços. A paralisação de Héstia diante de suas fobias é semelhante ao ataque de pânico de algumas pessoas (eu) diante de um palhaço.
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