A Saga de Ares - Santuário de Sangue
41 Capítulo 38 - O labirinto de Gêmeos. As cinzas de Fênix.
Notas iniciais
Capítulo 38: O labirinto de Gêmeos. As cinzas de Fênix.
Casa de Touro — Santuário
— Virgem?! — disse Ápis, surpreso, olhando para o deserto que o cercava. — Para onde você me levou?
Shalom olhou para o deserto.
— Para o Monte da Expiação. Vim lhe mostrar os reinos do mundo. — os olhos castanhos de Shalom brilharam em dourado. — Olhe Ápis! — Ápis olhou para o deserto e o vento levantou a areia, agitando-a, e formando um redemoinho. A terra tremeu e logo o turbilhão se desfez. No lugar do deserto surgiu uma cidade em guerra. Soldados de países vizinhos se enfrentando, aviões lançando bombas em área residencial matando civis, pessoas feridas chorando em meio aos escombros, gritando por socorro dentro dos apartamentos e no meio das ruas, berserkers apoiando os soldados na matança, casas incendiadas e ruas lotadas de destroços. — Eu lhe trouxe aqui para abrir os seus olhos e livra-lo de qualquer dúvida que cerca e acorrenta o seu coração. — Ápis estava com os olhos arregalados, surpreso. Ele queria não acreditar que aquilo estava acontecendo. — Abra bem os olhos Ápis!
— Isso é...
— Uma das inúmeras guerras que está se espalhando pela face da Terra.
A imagem da cidade mudou. Da duna de areia surgiu a Casa Branca. Com metade de sua estrutura destruída, paredes chamuscadas e o teto desabado. No jardim, centenas de corpos de soldados americanos e berserkers estavam espalhados e se amontoando. Os corpos estavam em decomposição, com a pele esverdeada, secreção escorrendo, vermes corroendo as feridas e moscas formando uma nuvem negra em cima dos corpos. Corvos e urubus sobrevoavam a área grasnando.
Um carro do exército americano parou na entrada da casa presidencial e soldados armados desceram acompanhando um homem alto e esguio, de cabelo escuro curto e vestindo um sobretudo preto e botas pretas de couro. O homem caminhou até e corpos e enrugou o cenho ao sentir o cheiro fétido. Com a mão tampando o nariz, ele se abaixou ao lado de um berserker e olhou curiosamente para a onyx que vestia o soldado.
— O deus menor da guerra, Enyalios, deu início a uma guerra mundial. A terceira grande guerra. Você deve saber melhor do que eu que essa guerra deixará uma profunda ferida, que afetara as próximas gerações. Os homens estão sendo corrompidos pelos deuses da guerra e sendo incentivados a guerrear, matando sem misericórdia. É uma guerra sem limites. — explicou Shalom
Ápis, incrédulo, cedeu de joelhos.
— Eu... Eu sabia que algo não estava correto, mas... — ele tirou o elmo o posou no chão. — Não tinha ideia que a situação estava nessa proporção.
— Não se culpe. Você é um tipo de homem que honra as suas promessas, sendo fiel ao que diz até o fim. Os deuses prometeram proteger a raça humana e você acreditou nas palavras deles, mas agora... — Shalom olhou para Ápis ajoelhado no chão e de cabeça baixa. — Você já pode quebrar a promessa sem qualquer relutância. A humanidade precisa ser salva, Ápis.
— Então Seiya... O que Seiya disse é verdade? — perguntou Ápis, segurando o elmo com força. — Atena pode mesmo ser salva?
— Sim, é verdade. — confirmou Shalom — Neste momento Seiya está na Alemanha indo até Thanatos para convencê-lo a abrir as Portas do Tártaro. Atena sendo salva, teremos a oportunidade de derrotar Ares e salvar a Terra.
Uma sensação envolveu o coração de Ápis. Ele sentia que havia fracassado em seu dever como cavaleiro. Mesmo sendo tão poderoso e estando em meio a elite do Santuário, deixou ser ludibriado por promessas vazias enquanto a paz era ameaçada e pessoas inocentes morriam. Enquanto outros cavaleiros, como Jake e Kastor, notaram a verdade a respeito de Ares e agiram, ele permaneceu cego por causa de uma promessa. O sentimento de vergonha e de decepção tomou o lugar do orgulho. Talvez Seiya estivesse certo ao dizer que Ápis se quer se aproximava do que seu antecessor foi.
Notando as emoções de Ápis, a armadura de Touro brilhou e se desmontou, abandonando o seu corpo. Ápis ergueu a cabeça assustado com a reação da armadura.
— Não! Não pode ser! A minha armadura está... Saindo do meu corpo!
— A armadura de Touro está abandonando o corpo de Ápis. — disse Shalom, que observava surpreso.
A armadura se montou tomando a forma de um touro.
— Mas... Mas porquê?
O rosto de Ápis estava face a face com o rosto da armadura de Touro. Era como se ela lhe olhasse nos olhos e lhe compreende-se. Shalom, que tem a habilidade de ler os corações das pessoas, viu o conflito que crescia dentro de Ápis. Inseguro consigo mesmo.
— Ela não lhe abandonou. — concluiu Shalom. — A armadura compreende sua frustração. Talvez ela só queira...
O cosmo da armadura se elevou dando forma a um homem alto e forte de pele morena e longos cabelos escuros. Apesar do grande tamanho ser intimidador, o homem esboçava um sorriso largo e feliz. Ápis não conhecia aquele homem, mas ele lembrou, que de alguma forma, ele já havia sentido aquela mesma presença enquanto vestia a armadura de Touro. Enquanto treinava e desenvolvia as suas técnicas.
Ápis arregalou os olhos ao se lembrar de um dia ter visto aquele homem através de um sonho. No sonho, aquele estava aplicando o “Grande Chifre” contra um oponente que estava saindo das sombras vestindo uma armadura espectral e exalando uma fragrância fétida. Foi assim que ele aprendeu a técnica. No início ele havia pensado que tinha se tratado de apenas um sonho, mas agora ele tinha certeza que não foi um sonho. Foi apenas uma das lembranças guardada na armadura de ouro. Aquele homem só podia ser “ele”. Ápis se recompôs ajoelhado e abaixou a cabeça.
— Senhor Aldebaran!
As armaduras de ouro guardam as lembranças dos seus usuários e passam para a próxima geração. É através dessas lembranças que técnicas são transmitidas de geração em geração. Essas lembranças também servem para que o antecessor julgue se seu sucessor é digno de vestir a armadura, e assim se eventualmente o coração do atual Cavaleiro de Ouro for dominado pelo mal, a própria armadura irá rejeita-lo.
— A vontade da armadura tomou a forma do antecessor de Ápis! — pensou Shalom.
Aldebaran sorriu e pousou sua mão na cabeça de Ápis. Ainda que fosse apenas uma lembrança projetada através do cosmo, Ápis podia sentir o peso da mão de Aldebaran e do seu grandioso cosmo.
— Não se culpe, rapaz. — disse Aldebaran. — Não pode ficar se martirizando por causa da maldade de outras pessoas. O seu coração integro é fiel ao que promete e isso não é um defeito, é uma virtude. Poucas são as pessoas que depositam confiança em outra, cumprem suas promessas e tem bons olhos com o seu próximo. Contudo, existe pessoas que se aproveitam dessa bondade, mas você não deve se corromper por causa dessas pessoas. Deve permanecer integro em meios aos homens de coração corrupto. Você não é o errado. Eu sei o que é essa sensação ao saber que foi enganado e achar que não cumpriu com o seu dever de Cavaleiro. Passei treze anos da minha vida protegendo uma Atena que não estava no Santuário, mas foi Seiya e os outros jovens cavaleiros que me mostraram a verdade.
— Senhor, eu...
Aldebaran olhou para trás e viu a imagem da guerra que estava manchando a Terra com sangue.
— Não sei a dimensão dessa guerra, a qual parece ser bastante séria, mas sei que não é obstáculo para alguém como você. A armadura de Touro não lhe abandonou, mas ela espera que você a use sem qualquer dúvida no seu coração. — Concluiu Aldebaran, cruzando os braços e sorrindo. Seu corpo então começou a se desfazer. — Levante-se Touro! Você é mais forte em pé. Tão forte quanto possa imaginar. — Aldebaran gargalhou e olhou para Shalom. — Meu Deus... Você transborda tanto cosmo. Vejo que Shaka iria se orgulhar por tê-lo como sucessor. Só não invente de enfrentar três Cavaleiros de Ouro ao mesmo tempo. — Aldebaran sorriu. — Não deu muito certo na última vez.
A imagem de Aldebaran se desfez levando seu largo sorriso.
— Ápis? — chamou Shalom, se voltando para ele.
Ápis se levantou e estendeu a mão para a armadura de Touro.
— Venha! Touro! — gritou ele, elevando o cosmo, e a armadura brilhou respondendo ao chamado de Ápis e se desprendeu, vestindo o seu corpo. Ele segurou o elmo da armadura, pensativo, e em seguida o vestiu. — O que devemos fazer, Shalom?
— Temos que ir ajudar Seiya e os outros. Apressa-los para que cheguem o mais rápido possível no Tártaro. Ares provavelmente irá enviar assassinos ao Tártaro através de Oberon. — explicou Shalom. — Oberon é o deus da escuridão e pode transitar entre os mundo dos vivos e o Tártaro.
— Seiya está indo até Thanatos, mas existe um exército acampado no antigo Castelo de Hades esperando por eles.
— Eu sei disso. Mas Thanatos não está lá. Foi removido para outro local. — explicou Shalom.
Ápis elevou o cosmo e a ilusão de Shalom começou a oscilar. A terra tremeu e se desprendeu, emitindo um brilho entre as rachaduras. Shalom olhou para Ápis sem entender o que estava acontecendo. Ápis estava rompendo a ilusão de Shalom com a pressão do seu cosmo.
— O que está fazendo Ápis? — perguntou Shalom, sentindo que estava sendo repelido.
— Vá ajudar Seiya e os outros, Shalom. Eu vou ficar aqui, como guardião da segunda casa do zodíaco. — Ápis estendeu a mão para Shalom e disparou um golpe que quebrou a ilusão e o fez desaparecer. Daqui a algumas horas, quando o crepúsculo começar, Ares fará o seu discurso para todo o Santuário. — Ápis cerrou o punho. — E eu devo estar lá.
—...—
Castelo de Hades – Alemanha
A Alemanha foi o palco da última guerra santa contra Hades. Hades, o Imperador do Mundo dos mortos, nasceu no Castelo da família Heinstein, lar da família de Pandora. Ao redor do castelo foi erguido uma barreira que repelia qualquer forma de vida, matando plantas, animais e todas as pessoas que habitavam nele, exceto Pandora.
O castelo foi invadido pelos cavaleiros de Atena durante a guerra santa e por isso acabou sendo destruído após os espectros se retirarem seguindo as ordens de Pandora, como uma forma de impedir o avanço dos cavaleiros que queriam ir ao Mundo dos Mortos. Quinze anos depois o castelo foi misteriosamente reconstruído. De acordo com Atena, o castelo acabou se tornando um ambiente vivo após ter ceifado tantas vidas. Agora o castelo estava se preparando para quando Hades voltasse a Terra novamente.
A área ao redor do castelo continuava sem vida. A grama não crescia, as arvore estavam secas e retorcidas, o lago estava seco e a terra estava rachada e infértil. Pássaros e outros animais não se aproximavam do castelo. Qualquer ser vivo simples, que não tivesse um domínio do cosmo, era afastado ou repelido e tinha sua vida sugada pelo castelo.
Phobos e Anteros, após descobrirem o plano dos cavaleiros, enviaram um exército de berserkers e soldados rasos liderados por Polemos, um espirito da guerra e pai de Alala, a deusa personificação do grito de guerra e da vitória. O exército passou dias acampado em tendas ao redor do castelo e do mausoléu, onde acreditasse estar a caixa que contém as almas de Hypnos e Thanatos. Eram milhares de guerreiros trajando onyx negras vigiando o local dia e noite.
Hugo de Corvo, Anatole de Quimera, Ortros e outros três berserkers se reuniram com o exército de Polemos para reforçar a defesa do local, já que a informação que receberam é a de que os cavaleiros estavam se dirigindo para lá e o pégasos havia despertado sua consciência em Seiya.
— Estão se aproximando. — alertou Hugo, sentindo o cosmo dos cavaleiros. Hugo tinha a fama de ser um excelente caçador. Nada fugia dos seus olhos. Ele possui uma poderosa percepção psíquica, capaz inclusive de rastrear cosmos. — Estão tão confiantes.
— Devem estar confiantes achando que venceram. — comentou Ortros.
— É bom que também não fique tão confiante, Ortros. — advertiu Anatole. O berserker, de longos cabelos com tons de azul acinzentado e olhos laranja, estava de braços cruzados encostado no tronco de uma arvore.
— O que foi que você disse? — perguntou Ortros
— Alguns deles podem derrotar você sem dificuldade. — desdenhou o berserker. — Fique se gabando depois da lua de sangue, porque só assim você seria uma ameaça para eles. — os olhos de Anatole ficaram com fendas semelhantes aos olhos de uma serpente. — Não pense que eu não estou sabendo da vergonha que você passou enfrentando os cavaleiros de Atena na Espanha. Eu deveria ter contado ao Senhor Ares. Ele iria arrancar a sua cabeça na mesma hora.
Ortros cerrou o punho.
— Ora, seu...
— Ortros! — chamou Hugo. — Já chega! Não dê ouvidos a Anatole.
— Senhor Hugo! — chamou um soldado berserker. — O senhor Polemos quer falar com o senhor.
Hugo olhou para trás e avistou uma grande tenda vermelha montada com duas bandeiras hasteadas. As bandeiras eram vermelhas e possuíam o símbolo de Ares em dourado. Uma lança e um escudo. Dois soldados berserker faziam a guarda da entrada da tenda.
— O que ele quer? — perguntou Hugo.
— Não sei dizer, senhor. — respondeu o soldado.
— Anatole! Ortos! — Hugo virou-se caminhando para a tenda. — Fiquem de olhos atentos nos arredores.
Hugo caminhou até a tenda e entrou no aposento do espirito da guerra. Polemos estava sentado em um trono polindo uma espada negra de cabo dourado. Mesmo possuindo o título de espirito da guerra, Polemos já foi o deus menor da guerra. Título o qual agora pertence a Enyalios. Independente do título, Polemos é um espirito da guerra, mas é tão poderoso quanto um deus. Ele era o líder dos espíritos, mas devido a um fracasso de Polemos em uma guerra santa, ele perdeu o posto de divindade e de líder e foi rebaixado, passando a ser subordinado de Kydoimos que tomou o seu lugar como líder dos espíritos da guerra.
O elmo de Hugo se desfez em trevas revelando seu curto cabelo verde claro, olhos dourados e pele pálida.
— O senhor me chamou? — perguntou Hugo, olhando para o espaço dentro da tenda.
Do lado esquerdo havia uma grande mesa com o mapa da região e peças marcando os grupos de berserkers, vigilantes e arqueiros que estavam espalhados. Em cima da mesa também havia garrafas de vinho, cálices e um elmo negro com plumas vermelhas.
— Quero saber a necessidade de Ares enviar reforços. — Polemos levantou a cabeça encarando Hugo. Os olhos do deus eram totalmente brancos. De pele negra e curtos cabelos ruivos, Polemos trajava uma onyx negra e uma capa vermelha. — Por acaso ele acha que eu vou falhar novamente?
Polemos se levantou e se dirigiu a mesa, pousando a espada.
— Não é esse o motivo do reforço em seu grupo de berserkers. — respondeu Hugo. — O senhor não ficou sabendo que Kami foi derrotado?
O deus caído olhou para Hugo por cima do ombro.
— Kami de Wendigo? Do exército do Medo? — Polemos parecia surpreso. Ele olhou para o mapa em cima da mesa e pegou uma peça que estava posicionada na fronteira entre França e Alemanha. — Kami fazia parte do meu grupo de berserkers. Tinha a missão de guardar a fronteira entre Alemanha e a França. Quem o derrotou?
— Pégasos. — respondeu Hugo.
— Seiya? — Polemos franziu a testa.
— Não. Aquele que habita no corpo de Seiya e que possui o título de “Matador de deuses”. — corrigiu Hugo.
— Está dizendo que o pégasos da era mitológica despertou?
— Recebemos a informação de que a consciência do pégasos se manifestou em Seiya. — explicou Hugo. — Assim como Atena encarna em um corpo humano a cada geração para combater deuses que ameaçam a Terra, o pégasos da era mitológica a acompanha reencarnando no corpo de um jovem que nasceu tendo a constelação de pégasos como constelação protetora. Guiado pela estrela da esperança. A alma de Seiya é a alma do pégasos. E no fundo da sua mente, a consciência do pégasos está adormecida. Se ele a despertar, todo poder que também está adormecido, vem à tona. Sem esse poder Seiya já é poderoso e temido. Por isso o reforço foi enviado. O Senhor Ares apenas está se precavendo.
— Ares se precavendo? — o tom do deus caído era de ironia. — Diga logo que foi outro deus que orientou ele a isso. Ares não é do tipo que pensa. — Polemos pegou uma jarra de vinho e encheu um dos cálices. — Pégasos já derrotou e matou alguns deuses na era mitológica...
Ele tomou um gole do vinho.
— E depois da era mitológica também. — complementou Hugo.
— Mas é apenas um humano com uma alma muito antiga. Nem se quer é um deus. É apenas uma “adaga de blasfêmia” apontada aos deuses e eu estou disposto a encerrar esse ciclo de reencarnação dele. Não preciso de reforços para isso. Phobos e Anteros me enviaram pra este lugar para poderem se livrar de mim. — Polemos segurou firme no cabo de sua espada e encarou a lamina negra. — Até o meu assento na mesa do conselho eles removeram. Mas se eu matar o pégasos, irei tomar o meu lugar por direito. Voltarei a ser o deus menor da guerra e o líder dos espíritos da guerra.
Um trovão ecoou pelo céu em um estrondo. Polemos e Hugo se olharam. Hugo sentiu uma sensação entranha se aproximando do acampamento. O vento começou a soprar forte e a tenda balançava violentamente. Outro trovão ecoou seguindo de outro ainda mais potente. Polemos guardou sua espada na bainha pendura em sua cintura e pegou o seu elmo de plumas vermelhas que estava em cima da mesa, próximo ao mapa.
— Tem uma tempestade se aproximando, Corvo. — disse Polemos.
— O senhor tem medo de trovões? — perguntou o berserker com desdém.
Polemos passou pelo berserker e parou na entrada da tenda olhando para o céu. Nuvens carregadas estavam se aglomerando naquela região. O céu estava nublado, ocultando a luz do sol, e os trovões não paravam de ressoar, cada vez mais potente. Polemos lembrou de uma luta na qual ele enfrentou um homem que vestia uma armadura dourada e manipulava poderosos raios e relâmpagos.
— Não é do trovão que eu tenho medo. — Polemos segurou firme no cabo de sua espada. — É do que geralmente vem depois dele.
— Que estranho. — disse Hugo, desconfiado, saindo da tenda. — Agora a pouco o céu estava limpo. — Um relâmpago dourado brilhou entre as nuvens. — Isso não é uma tempestade normal, senhor Polemos.
— Com certeza não é. — disse Polemos. Ele parecia estar inquieto. — Será esse o destino que as Moiras reservaram para mim?! — pensou o deus caído.
Ortros, o berserker de cão bicéfalo, sentiu cosmos se aproximando rapidamente. Ortros olhou para trás, para Hugo, e acenou com a cabeça. O berserker de Corvo entendeu a mensagem de Ortros e elevou o cosmo. Seiya e os outros estavam se aproximando. O cosmo negro de Hugo materializou seu elmo e penas negras se soltaram de suas asas, unindo-se em um pequeno turbilhão, dando forma a um corvo de olhos vermelhos. A ave pousou no braço de Hugo e em seguida grasnou e voou.
— Não guarde sua espada agora, senhor Polemos. — advertiu Hugo. Ao longe, no topo da colina, onze silhuetas surgiram com seus cosmos elevados. Um trovão ecoou entre as nuvens e em seguida um raio dourado desceu em direção ao castelo de Hades. — Eles chegaram!
— Sabe o que vem depois de um trovão, Corvo? — perguntou o deus caído, desembainhando sua espada negra. — Relâmpagos e raios. — O cosmo vermelho sangue de Polemos se elevou. — Berserkers! Não permitam que eles se aproximem do mausoléu! Arqueiros! Preparem-se para o ataque!
Diante da tenda e do mausoléu, um grupo de mil arqueiros portando flechas e arcos negros apontaram suas flechas para o céu, na mira do percurso que elas deveriam fazer para acertar os cavaleiros rebeldes no topo da colina. Cada flecha foi tomada por chamas vermelhas e os arqueiros elevaram seus pequenos cosmos negros.
— Ataquem! — gritou o berserker que liderava o grupo.
Uma chuva negra de flechas cruzou o campo ressecado. Flechas negras em chamas cobriram a área e alvejaram o alvo com precisão. Polemos e Hugo escutaram as flechas cravando no solo seco e as chamas explodindo, consumindo tudo. Chamas vermelhas cresceram e o calor podia ser sentido de longe. Os arqueiros abaixaram o arco acreditando que a saraivada de flecha em chamas havia sido o suficiente, mas em meio as chamas um cosmo dourado brilhou.
Um deslocamento de ar afastou as chamas, dissipando-as, e revelando uma barreira dourada que cobria os cavaleiros. Jake, o Cavaleiro de Ouro de Leão, estava com o braço direito erguido e elevando o seu cosmo. A barreira era solida e cristalina. Jake havia solidificado seu próprio cosmo afim de criar uma defesa tão resistente quanto Oricalco.
O cosmo que ele emanava era de uma fúria terrível. Os olhos brilhavam tão dourados quanto a sua armadura. Era uma presença tão formidável que os arqueiros e alguns berserkers deram passos para trás temendo-o. Seiya e os demais cavaleiros estavam logo atrás de Jake. Hugo o avistou e estreitou os olhos.
— Mas o que é isso?! — pensou o berserker. Ele sentia que havia algo de estranho neles.
A barreira cristalina começou a trincar e a se partir, formando milhares de cristais. Jake estendeu a mão para frente e liberou uma rajada de cosmo acompanhada pelos inúmeros cristais.
O golpe seguiu pelo campo rasgando o solo seco. Ortros e outros dois berserkers desviaram a tempo, mas o golpe acabou atingindo os arqueiros e alguns berserkers que foram arremessados. A força do golpe não só causou tanto danos nas onyx, mas ainda assim retalhou os berserkers. Os cristais não eram afiados o bastante para atravessar as onyx completamente, mas as partes do corpo que não tinham a proteção eram alvo fácil. A velocidade do golpe não abriu brecha para eles escaparem. Os cristais passavam violentamente rasgando a pele, arrancado braços, pernas, partindo-os ao meio e/ou decepando-os. Após atravessar o pelotão, a rajada seguiu em uma investida direta contra Polemos e Hugo, mas o deus caído interceptou o golpe usando sua espada negra.
— O poder de um Cavaleiro de Ouro é sempre formidável. Não importa qual seja a geração. — elogiou Polemos.
O deus caído olhou para o seu pelotão. Eram centenas de corpos desfigurados espelhados pelo campo. Cabeças ainda rolando e corpos espirrando finos jatos de sangue até não sobrar uma gota no corpo. Os poucos berserkers que sobreviveram ainda se arrastavam. Lutar, ainda que seus braços e pernas sejas arrancados. Era assim que os berserkers agiam. A muito tempo eles abandonaram o medo pela dor de suas feridas e pela morte. Guerreiros imortais sedentos de sangue não tem com o que se preocupar. Eles apenas devem pensar em uma coisa: matar.
— Aquele deve ser o espirito da guerra que foi enviado por Anteros para guardar o mausoléu. — disse Shina. — Mas o cosmo que ele emana... — Polemos os encaravam enquanto seu cosmo fluía violentamente. — é quase divino.
— Você está certa Shina. — disse Kastor. — Nem preciso ter os olhos de Jake para saber que aquele homem é um deus.
— E aquele que está do lado dele... — Jabu cerrou o punho. — É o berserker que nos atacou na Espanha e enfrentou Henry. Ele é tão poderoso a ponto de iniciar uma luta semelhante a uma guerra de mil dias, mas Eros impediu.
— O nome dele é Hugo de Corvo. — disse Plancius.
Hugo sorriu e seus olhos dourados brilharam. O elmo se desfez em trevas e seu cosmo se elevou.
— Ora ora, o que temos aqui... — pensou o berserker, ao olhar para Henry.
Hugo olhou sorrateiramente para o seu corvo, que observava de longe em cima de um galho seco, e seus olhos brilharam. Hugo passou alguma mensagem para ave que em seguida bateu as asas e voou.
Os olhos de Jake notaram que a aura de Hugo emitia uma brilho de desconfiança. Hugo era especialista em rastrear cosmo. Nada passava despercebido diante dos seus olhos.
— Kastor. — Jake o chamou em alerta. — Talvez nem todos os olhos possam ser enganados.
Um outro cosmo se apresentou em campo. Até então nem mesmo Jake o havia notado.
— Vocês não acham que essa ilusão vai funcionar comigo, não é? — perguntou o berserker de Quimera com desdém, se afastando da arvore seca e retorcida.
Anatole é conhecido por ser mestre dos truques ilusórios entre os berserkers do Medo.
— Ilusão? — perguntou Polemos.
— Sim. — confirmou Hugo, com os olhos brilhando. — Eu sabia que tinha algo de estranho neles. Não deixe que seus olhos o enganem, senhor Polemos. Aparentemente temos onze cavaleiros rebeldes diante de nós, mas na verdade são apenas seis. Não é mesmo, Gêmeos?!
Polemos ergueu a sobrancelha.
— O que?!
— Desfaçam já essa ilusão patética! — gritou Anatole, elevando o cosmo.
Kastor deu alguns passos à frente, ficando ao lado de Jake.
— Ilusão? Não sei do que você está falando. — disse Gêmeos. — Não tem ilusão alguma aqui.
Eros, que estava logo atrás, invocou uma rosa negra e disparou um ataque direto contra Anatole. As rosas se multiplicaram e seguiram formando um turbilhão.
O berserker de Quimera pareceu ficar irritado com o ataque.
— Não me faça de idiota, Gêmeos! — o berserker elevou o cosmo e abriu os braços liberando um deslocamento de cosmo que varreu o campo e as rosas, que logo se desfizeram em cosmo. — Um truque falso só surte efeito em que acredita nele. Eu não vou pedir mais uma vez para que a ilusão seja desfeita! — Anatole ergueu o braço e seu cosmo se elevou e se espalhou. — Eu mesmo irei rompê-la!
— Não fale besteiras! — gritou Jabu, avançando contra Anatole, correndo em alta velocidade e concentrando uma grande quantidade de cosmo em suas pernas. Jabu saltou e disparou milhares de chutes. — Galope Relâmpago!
Anatole sorriu e Jake sentiu uma forte ameaça emanando de Anatole.
— Não! Jabu vai acabar sendo atingindo em cheio! — pensou Jake, alarmado. — Jabu, recue! Agora! Caso contrário você será...
Tarde demais. O mão de Anatole estendida para o alto disparou uma onda de cosmo que cobriu toda a área com uma pressão esmagadora.
— Impacto Imperial! — gritou Anatole, disparando sua técnica.
O Impacto Imperial é uma é um golpe versátil. Ele pode ser aplicado por um soco ou chute e resulta em uma grande força esmagadora gerando um impacto mortal. A pressão é tão grande que pode ser capaz de despedaçar o alvo.
Jabu quase recebeu o golpe em cheio e ainda assim foi arremessado violentamente contra o chão, abrindo uma enorme cratera. A pressão era tão absurda que a armadura de unicórnio estava rachando e se despedaçando aos poucos.
— Jabu! — gritou Nachi.
Polemos e Hugo não pareciam se incomodar com a pressão, mas os demais berserkers mais fracos, incluindo Ortros, sentiam que seus corpos seriam esmagados.
A força opressora chegou até Kastor e os outros cavaleiros. Plancius foi o primeiro a cair de joelhos e logo em seguida Nachi e Shina se curvaram.
— O meu corpo... — Shina tentava se levantar, mas a pressão lhe roubava até o ar dos seus pulmões.
Nachi tinha a sensação de que seus ossos iriam se partir caso tentasse ficar em pé. Jake olhou para trás e viu os corpos de Seiya, Shun, Henry, Eros e Alkes começarem a oscilar.
— Kastor! — o leão olhou para o cavaleiro de gêmeos. — Se ele continuar com essa pressão...
Kastor estava tranquilo. Aquela pressão para ele não passava de uma brisa.
— Já não precisamos continuar escondendo. Eles já sabem. — Kastor ergueu os braços elevando o cosmo.
— O que está acontecendo? — pensou Anatole, visivelmente preocupado. O cosmo de Kastor avançou cobrindo a área e anulou o “Impacto Imperial” de Anatole, libertando Plancius e os outros. — Como esse homem pode anular a minha técnica apenas elevando o cosmo?! Isso é... É impossível!!
O chão embaixo de Kastor começou a rachar e a se desprender devido o poderoso cosmo que emanava dele. Seus cabelos negros e sua capa se agitavam com a pressão do seu cosmo. Entre suas mãos ele concentrou seu cosmo que tomou a forma de uma pequena galáxia.
— Que cosmo gigantesco. — pensou Polemos, surpreso com Kastor. — Será que ele é... — o deus arregalou os olhos. — Não acredito!
— Berserkers! — chamou Kastor. — Desapareçam da face da Terra! Sejam consumidos por essa...
Hugo arregalou os olhos.
— Esse golpe é... — O espaço foi tomado pelo cosmo de Kastor e planetas surgiram, rachando, prestes a entrarem em colapso e explodir. — O golpe mais poderoso de Gêmeos! Anatole! Saia já daí!
— Explosão Galáctica!
Kastor estendeu os braços para frente liberando uma poderosa onda de choque explosiva em forma de planetas que atravessaram o espaço com uma detonação arrebatadora, arremessando os berserker para o alto e tragando-os. A detonação do golpe foi tão potente que fez a terra tremer e em seguida ela se despedaçou formando uma cratera gigantesca e fazendo com que uma nuvem de fumaça e poeira subisse ao céu.
... cerca de meia hora atrás ...
Kastor e Jake tiraram o elmo e se ajoelharam diante de Seiya faz.
— Jake e eu temos um plano para despistar os bersekers que estão no Castelo de Hades e garantir a sua chegada em Munique com segurança. — informou Kastor — Gostaria que nos escutasse.
— Tudo bem. E qual é o plano? — perguntou Seiya.
— Ares e os demais deuses e berserkers sabem o que queremos aqui na Alemanha. Thanatos. E que pretendemos chegar até ele antes da lua de sangue, a qual acontecerá hoje à noite. Eles certamente já sabem que chegamos na Alemanha. Jake sentiu que havia berserkers próximos a nós no momento em que enfrentávamos Kami. — disse Kastor. — Neste exato momento eles devem estar nos esperando lá no castelo, mas com certeza vão estranhar caso nós demoremos a chegar.
— Aqui na Alemanha podemos ser encontrados rapidamente. Somos um grupo muito grande e mesmo que nós continuemos ocultando nossos cosmos, podemos ser rastreados. — alertou Jake. — Isso já aconteceu duas vezes com vocês quando o grupo era bem menor. Na Espanha e na floresta da Cordilheira Pirenéus. Se continuarmos indo diretamente até a cidade de Munique, podemos ser seguidos e encurralados lá.
Eles tinham razão. Ocultar o cosmo se torna inútil se você anda em um grupo muito grande. A união acaba deixando um rastro sucinto de cosmo e existe berserkers especialistas em seguir esses finos rastros. Kastor e Jake não sabiam, mas nesse exato momento Hugo estava se dirigindo até o Castelo de Hades junto com um grupo de berserkers poderosos. Hugo é muito perspicaz e com certeza estranharia a demora deles. Isso poderia resultar em uma caçada por toda a Alemanha. Com Ares tão alarmado, berserkers poderiam ser convocados para se espalharem por todo o país até acha-los.
Seiya pensou nos argumentos dos dois cavaleiros de ouro e concordou. Era uma questão delicada. Ele não poderia ignorar caso isso pudesse estragar o plano de Delfos.
— E o que vocês dois aconselham que seja feito? — perguntou Seiya.
— Jake e eu vamos para o Castelo de Hades e seguraremos os berserkers que estão lá. — disse Kastor.
— Não! Isso é loucura. — disse Alkes, reprovando o plano. — Vocês não tem ideia de quantos berserkers podem estar reunidos lá. Pode ser centenas deles. E quanto mais a lua de sangue se aproxima, mais forte eles ficam. Pode ter berserkers do nível de Kami esperando por nós.
— Não esqueçam que um espirito da guerra também está lá. — disse Shina.
— Nós temos um plano, Alkes, e não cabe a você decidir se vamos ou não. — disse Jake, sério. Jake não gosta quando alguém usa um tom arrogante e autoritário para se dirigir a ele. Principalmente se não for um superior. — E sobre o espirito da guerra, Shina, também estamos cientes. — o tom de Jake mudou para um pouco mais agradável ao falar com a amazona de Cobra.
— Seiya, Jake e eu temos uma estratégia para contê-los. Estamos cientes dos riscos, claro, mas o mais importante é que o senhor chegue até Thanatos.
Henry sorriu.
— O.k. Mas o que vai impedir de que os berserkers e o espirito da guerra não virão atrás de Seiya quando eles verem apenas vocês dois chegando lá com essas caras de bunda? — perguntou ele, apoiado de forma despojada no ombro de Eros, que fazia cara feia. — O que vai garantir que vocês não sejam mortos inutilmente?
— Ilusão e distorção dimensional, Henry. — respondeu Kastor, seguro.
Alkes voltou-se para Seiya.
— Isso é muito arriscado, Seiya. — protestou. — As chances de dar certo são mínimas. Não se para um exército assim.
Seiya olhou pensativo para Alkes e em seguida olhou para Shun.
— Shun? O que você acha?
Shun olhou para os companheiros e todos estavam olhando para ele esperando a resposta.
— O que eu acho?! — Shun virou-se para Seiya. — Acho que Alkes tem razão. Não se para um exército de Ares só com dois cavaleiros. Mesmo que sejam Cavaleiros de Ouro poderosos. Eles não devem ir sozinhos. Não concorda?
Seiya sorriu e acenou com a cabeça.
— O que?! Seiya! — protestou Alkes.
— Está decidido, Alkes. — disse Seiya, firme. Alkes respirou fundo e cerrou o punho. — Kastor. Jake. Eu autorizo o plano, mas vocês não vão sozinhos. — Seiya se virou para os demais. — Shina, Jabu, Nachi e Plancius. Vocês vão acompanhar Kastor e Jake, dando auxilio no plano deles.
Todos acenaram com a cabeça e se curvaram, assim como Kastor e Jake.
— Sim senhor. — disse Plancius.
— Vamos seguir para o castelo sem ocultar os nossos cosmos. Chamando a atenção dos berserkers. — explicou Kastor. — Isso já abrirá caminho livre até Munique.
— Entendi. — Seiya acenou com a cabeça. — Confio em vocês. Matem todos os berserkers. Não se arrisquem subestimando eles. — Seiya advertiu. — Quanto mais tempo vocês proporcionarem na luta, mais tempo eles terão para ficarem fortes devido a aproximação da segunda lua. Lutem com a intenção de matar logo no primeiro golpe. Não economizem cosmo. Entenderam?!
— “Sim!” — responderam unânimes.
Kastor e Jake se levantaram e cada um vestiu seu elmo.
— Licença. — pediu Kastor, voltando-se para Jake e os outros. — Vamos!
O grupo seguiu trajando suas respectivas armaduras e elevando seus cosmos. Na medida que eles avançavam, o céu ficava nublado e nuvens carregadas se formavam. Jake estava manipulado o tempo com o seu cosmo, anunciando a chegada deles. Trovões ecoavam e relâmpagos dourados brilhavam entre as nuvens negras.
— Seiya, isso foi uma atitude muito precipitada. — questionou Alkes. — Você tem ideia do quanto isso pode arruinar o plano que Delfos planejou? A nossa missão era irmos juntos até Thanatos. Não recebemos ordens para nos dividirmos.
Seiya elevou o cosmo sutilmente e vestiu a armadura de ouro de Sagitário.
— Já tomei a minha decisão, Alkes! Se preocupe apenas com Thanatos agora. — Seiya virou para ele. — Mais alguma coisa?
Alkes abaixou a cabeça.
— Não, senhor.
— Então vamos!
Seiya correu e os demais o seguiram. Henry sorriu.
— Quem tem cu tem medo. — debochou o canceriano.
—...—
Santuário – Prisão de Oubliette
Ikki foi levado às masmorras e preso por grossas correntes negras à parede da mais profunda, escura e gélida cela. Desde a hora em que ele chegou não parou de ser chicoteado. Os berserkers o batiam até rasgar a pele e em seguida jogavam uma mistura de ambrosia e enxofre. A mistura fazia com que a pele de Ikki sarasse rapidamente, mas o enxofre fazia com que o processo de cura fosse doloroso. Quando o corpo estava sarado, eles davam continuidade com as torturas.
— Vamos deixar o desgraçado se curar. — disse um berserker jogando a mistura no corpo de Ikki, fazendo ele gritar de dor. Os berserkers zombavam, se divertindo.
Os berserkers saíram da cela e deixaram Ikki para trás. O cavaleiro de fênix tentou ficar em uma posição mais confortável possível, mas com os braços esticados pelas correntes, ele só conseguia ficar sentado ou ajoelhado. As vezes ficava tanto tempo na mesma posição que isso acabava ferindo seus joelhos e abrindo ulceras em seus glúteos.
Ikki respirou fundo e soltou o ar. Ele teria alguns minutos de descanso até que eles voltassem. Ultimamente cada minuto de paz era aproveitado ao máximo. Ikki estava prestes a cochilar quando escutou passos no corredor indo em direção a sua cela. Ao abrir os olhos ele se deparou com um homem de cabelos negros, olhos azuis e pele pálida trajando um sobretudo militar preto e por baixo uma onyx negra.
— Phobos, deus do medo. — disse Ikki. — Veio me fazer uma visita?
— Você está em uma situação deplorável, Fênix. — disse Phobos, analisando o corpo de Ikki repleto de feridas.
— Já tive dias piores. Já foi desintegrado por um golpe? Eu já. — respondeu o cavaleiro. — O que você quer comigo?
— Quero que você me tire uma dúvida. — Phobos tirou um pergaminho do bolso do sobretudo e abriu, mostrando a Ikki um relatório. — Esse relatório foi feito por Hugo, um dos meus berserkers, o qual eu coloquei para caça-lo. Aqui diz que você esteve na província de Messina, na Ilha Sicília. Mais precisamente no Monte Etna. — Phobos levantou a cabeça de Ikki apoiando o seu dedo no queixo do cavaleiro. — O que você foi fazer lá? Quem você estava procurando?
Ikki olhou nos olhos de Phobos. Os olhos do deus estavam inquietos. Era como se ele procurasse algo em Ikki, mas não achasse. Por um breve momento, Ikki teve a impressão de que Phobos estava tentando invadir a sua mente através do seu poder de medo, mas medo era algo que não afligia Ikki tão fácil assim.
— Não adianta. Não vou responder nada. — Ikki esboçou um sorriso de deboche. — Se não conseguiram arrancar de mim uma informação se quer a respeito da minha missão e do plano de Delfos, o que te faz acreditar que você vai conseguir tirar algo de mim sobre isso?
Phobos cerrou o punho e aplicou um soco no rosto de Ikki, lançando o cavaleiro contra a parede e pressionando a cabeça de Ikki com o pé.
— Não deboche de mim! — exclamou Phobos. — Eu posso fazer um furo na sua cabeça obrigando você a falar. Nem que para isso você morra no processo.
— Mas infelizmente o Senhor Ares não iria gostar nada disso. Não é mesmo, senhor Phobos?! — perguntou Kydoimos, acompanhado de dois berserkers. — O Senhor Ares solicita a vossa presença no Coliseu e eu tenho a ordem de levar o fênix.
Phobos tirou o pé de cima da cabeça de Ikki, guardou o relatório no bolso e saiu da cela.
Kydoimos sorriu.
— Pela primeira vez você ficou feliz ao ouvir minha voz, não é fênix? Tenho boas notícias. Hoje as sessões de tortura irão parar. Hoje é o dia da sua execução. — Ikki olhou para Kydoimos com os olhos tomados por ódio. — Adoro quando me olha assim. Vocês dois... — Kydoimos virou-se para os berserkers. — Mexam-se! Levem-no para o Coliseu.
—...—
Alemanha – Castelo de Hades.
Enquanto a nuvem de fumaça e poeira subia ao céu, Jake correu para resgatar Jabu que estava caído.
— Você está bem Jabu? — Jake o levantou e o apoiou no ombro.
— Estou. — Jabu olhou para trás. — E o berserker?
— Deve ter sido consumido pelo golpe de Kastor. Ninguém sobreviveria a um golpe daquele. Agora vamos... — Jake caminhou levando Jabu. — Temos que ir até o... — Jake se calou ao sentir uma cosmo energia acesa em meio a fumaça e os destroços.
Ele se virou lentamente e aguçou os olhos. Não era apenas uma cosmo energia. Havia cinco cosmos e eles cresciam cada vez mais. Uma sensação de alerta tomou o seu corpo e em seguida surgiu um guerreiro de onyx negra e elmo emplumado portando uma espada negra nas mãos. O golpe de espada foi desferido e atingiu Jake e Jabu, lançando os dois cavaleiros para trás e que logo caíram no chão com um corte no peito. A armadura de bronze de Jabu se despedaçou, mas a armadura de ouro apenas ficou com um corte no peito.
Jake se levantou cambaleando e ficou na frente de Jabu, protegendo-o.
— Você é...
— Eu sou Polemos, o espirito da guerra. — apresentou-se o deus caído.
— E também é o antigo deus menor da guerra. — disse Kastor, caminhando até Jake. — Por isso sobreviveu ao meu golpe.
— Não foi apenas ele quem sobreviveu, Kastor. — avisou Jake.
O cosmo de Polemos se elevou e dissipou a nuvem de fumaça e poeira, revelando Anatole, ajoelhado com a testa sangrando e alguns danos em sua onyx, Hugo, Ortros e o outro berserkers que veio com eles. Os demais berserkers estavam mortos e muitos foram desintegrados, restando apenas suas onyx vazias e danificadas.
— Parece que o único berserker que prestava no grupo que veio comigo era o Kami. — disse Polemos, comentando sobre os outros berserkers mortos. — O resto não passavam de encosto. — o deus caído olhou para os cavaleiros e depois focou em Kastor. — Onde está o pégasos e os outros cavaleiros?
— Isso ainda não é obvio? — perguntou Kastor. — Foram encontrar Thanatos.
Polemos arregalou os olhos surpreso.
— O que?! Mas os deuses gêmeos estão selados dentro do mausoléu!
— Eles foram removidos de lá a muito tempo. — disse Jake. — Vocês passaram dias aqui acampados protegendo um mausoléu vazio que apenas possuía uma barreira de Atena criada para enganar vocês.
— E porque está nos contando tudo isso? — perguntou Hugo, desconfiado.
Kastor sorriu.
— Isso é uma coisa que eu aprendi com o Henry: “Não temos motivos para temer em contar alguns segredos aos mortos.” — Kastor, Jake e os demais elevaram o cosmo. — Seus olhos não conseguiram notar, Hugo? Vocês morrerão aqui!
Irado, Hugo abriu suas asas negras e elevou o seu cosmo.
— Não diga tolices, Gêmeos! Irei caçar Seiya e os outros! Seja lá onde eles estiverem!
— Vai é? — Kastor elevou o cosmo e estralou os dedos. As nuvens carregadas de tempestade foram dissipadas, revelando uma cúpula quadriculada onde o universo se distorcia. — Outra dimensão.
Polemos olhou curioso.
— Então você nos isolou dentro desse pequeno espaço? Você sabe que isso não é obstáculo para mim. — Polemos elevou o seu cosmo e ergueu sua espada. — Posso cortar o espaço-tempo e desfazer essa sua técnica.
— Sinta-se à vontade. — disse Kastor. — Não é apenas uma simples distorção dimensional. Estamos em um labirinto. Ainda que essa cúpula seja desfeita, vocês seriam sugados pelo labirinto por direções diferentes e se perderiam por toda a eternidade. Essa é uma técnica que estava registrada em um dos livros da casa de gêmeos. É uma técnica que geralmente é usada pelo Grande Mestre como uma barreira final para proteger Atena de qualquer invasor, e isso inclui os deuses. Essa técnica se chama Labirinto dos deuses. Os únicos que podem sair desse labirinto é quem o criou e quem utilizar o “Fio de Ariadne”.
Hugo cerrou o punho.
— Desgraçado! Como ousa nos enganar?!
— Eu vou rasga-lo em dois. — ameaçou Anatole, se levantando.
Os berserkers elevaram seus cosmos e ficaram em posição de ataque. De um lado os berserkers liderados por Polemos, e do outro lado os cavaleiros liderados por Jake e Kastor.
Jake elevou o cosmo trazendo as nuvens de tempestade. Trovões rugiam nas nuvens e relâmpagos dourados brilhavam seguidos por raios.
— Lembrem-se do que Seiya nos alertou. Não subestimem eles. — avisou Jake.
— Exatamente. Com a lua se aproximando, eles vão ficando mais fortes a cada minuto. — disse Kastor.
Polemos guardou a espada na bainha.
— Não vou usar uma espada contra um homem desarmado. — disse o antigo deus menor da guerra. — Você será o meu oponente, gêmeos.
Com os cosmos elevados, ambos os lados partiram para o ataque, dando início a uma feroz batalha.
Jake avançou como um raio dourado e segurou no pescoço de um berserker. O guerreiro de Ares se quer teve tempo para reagir. A mão de Jake o segurava firme enquanto ele avançava indo de encontro com a parede do castelo de Hades e concentrava o cosmo entre a sua mão e o pescoço do berserker. O impacto voraz abriu um buraco na parede do castelo. A dor aguda fez o berserker arregalar os olhos e abrir a boca em um grito mudo cuspindo sangue, melando o rosto de Jake. A mão de Jake brilhou e seu cosmo se elevou.
— Morra! Capsula do Poder!
O golpe foi aplicado com a mão que estava segurando no pescoço do berserker, destruindo uma parte de sua onyx e rasgando a sua carne, até que seu corpo se desprendeu de sua cabeça e caiu no chão. Foi tudo muito rápido. Todos olharam impressionados. Em poucos segundos um berserker já tinha sido abatido.
— Com apenas uma mão?! — disse Plancius, surpreso.
— Ele é tão poderoso quanto Aiolia. — disse Shina.
—“Lutem com a intenção de matar logo no primeiro golpe.” — disse Jake. — Foi isso o que Seiya nos orientou.
Anatole olhou espantado.
— Ele matou um berserker... com apenas uma investida. — pensou o berserker.
— Eu cuidarei do leão. — disse Hugo. — Mate os outros, Anatole.
Ignorando os outros, Kastor e Polemos se moveram direto para a luta. Com punhos cerrados, ambos atacaram um ao outro e seus punhos rasparam e bateram. Polemos conseguia acompanhar a velocidade de Kastor, e Kastor conseguia acompanhar a força do deus caído. Os socos e chutes eram tão fortes que provocavam fortes batidas de impacto, fazendo até o chão rachar e se desprender.
Em um momento de descuido, Polemos girou e chutou Kastor no abdômen, jogando o cavaleiro de gêmeos contra a parede do mausoléu, deixando um buraco causado pelo impacto. Rapidamente Kastor se levantou recuperando o folego e se preparou para uma nova investida, mas Polemos já estava em cima dele com o punho cerrado descendo em um novo ataque. Kastor cruzou os braços parando o punho do deus e aplicou-lhe um chute. Polemos desviou do golpe lançando o corpo para trás e dando e salto.
— Lutando com você não me resta dúvidas. Você é um dos Dióscuros, que em grego quer dizer “Filhos de Zeus”. — disse Polemos. — Você é Kastor. Aquele que na era mitológica era o irmão mortal de Pollux, mas que agora compartilha da imortalidade do irmão. Sendo assim um semideus.
— Como foi que você notou? — perguntou Kastor, sério. — Não foi só por causa do meu nome.
— Com certeza não foi só por causa do seu nome. No início eu pensava que fosse o Cavaleiro de Leão, mas ai... Você desfez as nuvens de tempestade. — respondeu Polemos. — Aquilo não foi apenas um estralar de dedos. O Leão dourado provoca tempestades por influência do cosmo dele, mas você, você desfez a tempestade apenas com o seu desejo. Controlou genuinamente. Sem precisar elevar o cosmo para anular. Não é a primeira vez que eu enfrento um filho de Zeus. — Polemos elevou o cosmo. — Na era mitológica eu fui derrotado por um Cavaleiro de Ouro que manipulava raios porque era um semideus, filho de Zeus. Foi nessa luta que eu fracassei quando estava prestes a matar Atena e desde então sou humilhado carregando o título de ser um deus caído. — os olhos brancos de Polemos brilharam e se tornaram vermelhos. — Eu não vou perder mais uma vez para um filho de Zeus!
Gritou o deus partindo para um ataque.
— Morra Kastor!
Com o cosmo concentrando em seu punho, Polemos liberou uma sequência de socos na velocidade da luz. Tão ágil quanto Polemos, Kastor se defendeu de todos os socos, mas foi pego de surpresa no momento em que Polemos surgiu atrás dele. No momento em que Kastor se virou, Polemos lhe aplicou um chute, lançando Kastor para o alto e arrancando o elmo. O deus saltou no mesmo instante e aplicou um soco no peito de Kastor, o empurrando contra o chão com uma força terrível formando uma cratera. O golpe foi tão potente que trincou o peito da armadura de ouro de gêmeos
— Mesmo sendo um semideus, seu poder jamais irá se comparar com o de um deus. — Polemos olhou para o dano no peito da armadura. — Se você está vivo é graças ao poder da sua armadura.
Kastor se levantou cambaleando.
— Está enganado.
— O que disse?!
— Se estou vivo é graças ao meu poder. — disse Kastor. — A armadura de ouro não me protege sozinha. — Kastor abriu os braços e uma galáxia se formou diante dele. — Comparado ao poder de um deus, só me resta uma paço para alcançar! Seja tragado pela Explosão Galáctica!
— Idiota! O passo que separa você dos deuses é largo demais. — Polemos estendeu a mão e parou o golpe, contendo a galáxia na palma da mão. — Se essa sua técnica não funcionou antes, o que te faz acreditar que funcionaria na segunda vez?! Sinta na pele um golpe de verdade! Sinta o poder de um deus! — Polemos elevou o seu cosmo tornando a galáxia vermelha e a repeliu. A explosão galáctica se inverteu e atingiu Kastor em cheio. O geminiano foi arremessado e caiu inconsciente. Polemos sorriu. — Se as Moiras achavam que meu destino seria cair mais uma vez pelas mãos de um filho de Zeus, elas se enganaram. — Polemos virou-se no momento em que um raio caiu próximo ao castelo de Hades. — Hugo?!
—...—
Santuário – Grécia
Phobos estava caminhando em direção ao Coliseu e já podia escutar os gritos eufóricos que vinha do público. O coliseu estava lotado de cavaleiros, aspirantes, soldados, servos do Santuário, pessoas do vilarejo e berserkers. Ares promoveu um torneio de vida ou morte, onde guerreiros iriam lutar até que um caísse sem vida.
No meio da arena dois soldados robustos se enfrentavam com espadas. Um vestia uma simples armadura de ferro e o outro apenas os adereços de couro de treinamento. O guerreiro de armadura era mais veloz e ágil com o manuseio da espada. Ele atacava e avançava, enquanto o outro lutador recuava temendo o corte da espada. Seus golpes não tinham mais controle. Cada investida que ele tentava aplicar era na base do desespero e o público vibrava quando as espadas se chocavam e rangiam. Estava suado e ensanguentado. Todas as vezes que ele abaixava a guarda, o soldado de armadura lhe provocava um corte profundo rasgando sua pele e derramando sangue no chão da arena.
Ares e os outros deuses apreciavam a selvageria em um espaço privilegiado chamado “tribuna imperial”. Uma estrutura que separava os deuses das pessoas sentadas nas arquibancadas. Sentando no trono central estava Ares, vestindo uma onyx semelhante as armaduras clássicas dos gregos antigos. Do seu lado esquerdo havia uma pequena mesa com cálices, frutas, vinho e o elmo de Ares. Um elmo negro com um rubi no centro e plumas vermelhas. Do seu lado direito estava Afrodite, a formosa deusa do amor, com seus longos e loiros cabelos em uma longa trança caindo sobre seus seios fartos. Adornada com um colar de safira, brincos e braceletes de ouro, a deusa da beleza vestia um longo vestido lilás com fios dourados. Esbanjando uma beleza imponente com seus lábios avermelhados e olhos encantadoramente azuis, digna de ser adorada como a mais bela entre todas as divindades do Olimpo. Dionísio estava sentado ao seu lado vestindo um manto grego verde claro com detalhes lilás e uma coroa de louro de ouro na cabeça.
Atrás deles estavam os assentos dos demais deuses. Deimos estava em pé, encostado na parede, com os olhos atentos fazendo a guarda junto com Draco. Ênio estava sentada ao lado de Oberon, Alala, Anteros e Ênio. Cada um vestindo sua respectiva vestimenta de guerra, exceto Alala, que trajava um vestido grego branco com adornos de ouro. Phobos entrou na tribuna e sentou ao lado de Alala.
O público vibrou quando o soldado de armadura girou em um ataque de espada e cortou o braço do outro soldado. O mesmo braço que ele usava para empunhar a espada. Sangue jorrou demasiadamente, encharcando o solo seco do coliseu. Com um olhar assustado, o soldado apenas esperou a morte vir pelo fio da espada do inimigo. O guerreiro de armadura chutou-lhe o ventre e desferiu um golpe mortal de espada, fazendo as tripas caírem. Desesperadamente o soldado levou a mão à barriga para conter o corte e caiu de joelhos. Olhando para o guerreiro de armadura, ele pediu misericórdia, mas o soldado desferiu outro golpe de espada, mas agora foi no pescoço do soldado, quase arrancando a cabeça. O público gritou comemorando com a carnificina. Com o sangue espirrando pelo ferimento, o pobre soldado caiu perdendo a consciência, revirando os olhos e tendo crises de hisparmos até seu coração parar de bater.
Ares aplaudiu a barbárie e levantou o cálice de vinho para o soldado vencedor.
— Olhe só pra você Ares... — disse Dionísio sorrindo. — Bebendo feito uma porca enquanto os miseráveis se matam.
Ares sorriu.
— O que posso fazer, meu amigo? Só sei me divertir assim. Sangue, bebida... — Ares olhou pra Afrodite esboçando um sorriso cafajeste. — e mulher.
— Você deixou ele bêbado. — disse Afrodite para Dionísio, cochichando. — Você é louco.
— Deveria me agradecer. — disse Dionísio com um sorriso pervertido. — Estou lhe garantindo uma noite inesquecível. Amanhã não vai nem conseguir se sentar.
Afrodite sorriu.
Soldados entraram na arena para remover o corpo do soldado morto. Eles o arrastaram sem compaixão. As trombetas então tocaram anunciando a entrada de um novo lutador. O portão de ferro rangeu e se abriu. Dele saiu um homem ferido se arrastando. Grossas correntes estavam presas em seus punhos e ele estava sendo levado por dois berserkers que logo tiraram as correntes e se retiram da arena. O homem estava desarmado, vestindo apenas uma calça escura e rasgada, e gerou uma reação de espanto no público ao vê-lo.
— Não acredito que seja ele! — disse um cavaleiro.
— Esse cosmo... Sem dúvidas é ele. — disse um soldado.
Ares pareceu ficar contente quando avistou e reconheceu o homem e logo se levantou.
— Prestem atenção! — gritou Ares e o coliseu ficou em silêncio. — Este homem é ninguém menos do que Ikki de Fênix. — murmúrios podiam ser ouvidos. Eles diziam “Impossível!”, “Aquele é o fênix?!”, “Não acredito!”. — Ele é um dos lendários cavaleiros que lutaram diretamente contra Poseidon e Hades nas ultimas guerras santas e que milagrosamente sobreviveram. Agora ele é condenado pelos deuses do Olimpo pelo crime de ter se voltado contra a vontade dos deuses. Existe um meio melhor de pagar esse crime sem ser com a própria vida?!
O portão rangeu e dois homens armados entraram na arena. Um trajava a armadura de prata Cérbero e trazia em uma suas mãos uma corrente negra com dois pontiagudos globos de ferro, um em cada ponta. Dorie de Cérbero. Um homem alto, de pele clara, cabelos longos ruivos e olhos cinzas. Vítima da manipulação de Anteros. O outro estava usando uma onyx negra e portava uma lança. Um homem de porte médio, pele pálida como a dos demais berserkers, olhos vermelhos e cabelos curtos castanho.
— Claro que para matar um homem tão poderoso, não poderia colocar soldados rasos para enfrenta-lo. Por isso escolhemos um cavaleiro de prata e um berserker. Ou será que para matar um morto-vivo seja necessário mais do que isso?! Fênix! — chamou Ares, gritando. Ikki olhou cerrando os olhos. — Quando estiver morrendo, não se esqueça de olhar pra mim. Eu quero ver a vida abandonando a cor dos seus olhos. Mas não morra rápido. Me anime antes. Agora ataquem!
Dada a ordem, o berserker foi o primeiro a atacar. Ele avançou com a lança e Ikki se desviou faltando poucos centímetros para ela afundar em seu peito. Ele se abaixou no exato momento em que o berserker girou com a lança e Cérbero lançou o globo de ferro. As duas armas passaram zunindo sobre sua cabeça.
Ikki não sabia até quando conseguiria evita-los. Depois de tantas sessões de tortura ele já não sabia mais o que era elevar o cosmo. Seu corpo foi envenenado e ele chegou a perdeu os sentidos temporariamente. Ainda estava se recuperando dos danos provocados pelo veneno de hidra. Naquele dia sua pele foi rasgada e curada tantas vezes que havia se tornado tão grossa que sentia dificuldades para se locomover. Suas pernas pareciam que a qualquer momento iriam falhar devido as ulceras formadas na região lombar e na região posterior do quadríceps femoral.
Dorie elevou o cosmo e girou o globo de ferro lançando em seguida contra Ikki. O globo pontiagudo se multiplicou e avançou. Ikki tentou desviar, mas seu corpo não foi rápido o suficiente e ele recebeu o golpe em cheio sendo jogado violentamente contra a parede. Aproveitando da situação, o berserker corre e saltou preparando sua lança e a enterrando no centro do peito de Ikki, perfurando seu osso esterno*. A dor foi agonizante. Ikki gritou de dor e quase desmaiou. O berserker o levantou segurando-o pelo pescoço e o jogou para o meio da arena, onde Ikki caiu embolando e cuspindo sangue.
Ares sorriu se divertindo.
— Espero que o Olimpo esteja vendo isso. — disse Ares. — Principalmente Apolo. Esse será o destino de todos aqueles que se colocarem no meu caminho.
Ênio e Éris olharam satisfeitas para Ares. Com o deus da guerra ativo no lugar de Phobos e Deimos, as verdadeiras guerras sangrentas iriam começar.
Dorie correu girando o globo e desceu contra as costas de Ikki várias vezes, rasgando sua carne e espirrando sangue. Ikki já não sentia dor. Seu sistema nervoso já não sinalizava mais os danos que o seu corpo recebia. Aos poucos ele iria perder a consciência e morreria. Talvez fosse melhor ele simplesmente fechar os olhos e desistir, mas foi ao fechar os olhos que ele se lembrou de uma pessoa. Uma menina. Uma linda jovem de cabelos loiros e olhos verdes.
— Esmeralda? — pensou Ikki. — Saia daqui Esmeralda! Esse lugar... Esse lugar é perigoso.
— Ikki! — o olhar dela era de aflição. Ela parecia preocupada e com lagrimas nos olhos. — Ikki levante-se, por favor! Você não pode se entregar. Lembre-se do que você já passou na Ilha da Rainha da Morte! Se ficar se ferindo desse jeito sem reagir você vai acabar morrendo, Ikki.
— Esmeralda... Eu não... Eu não tenho forças.
— Lembre-se de quem você é. Você é a ave fênix. Você é a criatura mitológica que renasce das cinzas. — Esmeralda esboçou um doce sorriso. — Feridas para você não é motivo para desistir. É motivo para bater as asas e levantar voo. Sempre mais poderoso do que antes. Vamos Ikki! Levante-se! Queime o seu cosmo mais uma vez e voe.
Dionísio se inclinou curioso.
— Ares... Eu acho que ele tá morto. Sério. — Dionísio olhou espantado pra Ares. — Se ele não morreu, eu mesmo vou lá mata-lo porque é impossível sobreviver.
Ares sorriu.
Dorie e o berserker se prepararam para o último ataque. Cada um de um lado, deixando Ikki no meio deles. Ambos elevaram seus cosmos e prepararam suas armas olhando para Ares, esperando um sinal. O deus da guerra se levantou e deu a ordem de execução. Doris e o berserker atacaram Ikki mortalmente.
Ares virou-se para sentar-se, mas parou quando Afrodite se levantou espantada e Dionísio deixou o cálice de vinho cair no chão. O público fez uma expressão de espanto também. Uma cosmo energia se elevou no coliseu emanando um forte calor. Ao virar-se, Ares se deparou com o centro da arena em chamas. Altas labaredas alimentada por um cosmo ardente. Em meio as chamas estava Ikki ajoelhado segurando a lança do berserker com uma mão e o globo de ferro com a outra.
— Não acredito! — disse Afrodite.
Os deuses se levantaram surpresos.
Dorie e o berserker estavam paralisados em meio ao poderoso cosmo que emanava de Ikki.
— Esse cosmo... — o berserker gaguejou. — Como pode?
Ikki levantou-se vagarosamente e seu cosmo se materializou na armadura de fênix. O crepitar do cosmo emitia sons parecidos com o de uma fênix.
— Retiro o que disse sobre eu ir matar ele. — disse Dionísio. — Ele simplesmente renasceu das cinzas. O corpo está sem nenhuma ferida e a armadura que estava trancada na Sala do Grande Mestre... agora está protegendo o corpo de Ikki com uma energia formidável.
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— Esse desgraçado!
O berserker deu um passo para trás.
— Mas... Como? Você estava quase morto!!
Ikki puxou a lança e desferiu um chute arremessando violentamente o berserker contra a arquibancada. A lança caiu no chão e Ikki a pisou, quebrando-a ao meio. Dorie estava prestes a atacar quando Ikki quebrou o globo de ferro com uma mão e aplicou o golpe Fantasma de Fênix com a outra mão que estava livre. Dorie caiu no chão gritando e colocando a mão na cabeça.
— Acorde Cérbero! — gritou Ikki. — Liberte-se desse feitiço!
Anteros se agitou.
— Mas o que ele está fazendo? — o deus da manipulação estava preocupado. — Não acredito que esse homem...
— Ele está libertando o cavaleiro de Cérbero do seu golpe de manipulação, Anteros. — disse Phobos.
Anteros cerrou o punho.
— Desgraçado! — Anteros virou-se pra Ares. — Senhor Ares, o senhor deve pará-lo!
Mas Ares ignorou Anteros. A ira de Ares fazia dele um deus surdo e cego para os outros. Ikki deu as costas para Dorie e virou-se para ficar frente a frente com Ares. Ikki era a única pessoa que Ares agora enxergava. Dorie se levantou cambaleando e com a mão na cabeça.
— Você está bem, Cérbero? — perguntou ele.
— Estou sim, senhor.
— Ótimo! Ouça bem o que eu vou lhe dizer. Melhor... — Ikki elevou o cosmo. — Ouçam bem, todos vocês que estão presentes no Coliseu!! Ares não é e jamais será o deus guardião da Terra!! Atena é e sempre será a única guardiã!! Atena será resgatada do Tártaro e voltará para o Santuário acompanhada de seus cavaleiros para derrubar de uma vez por todas as ambições de Ares!! Os cavaleiros e soldados que não estiverem sendo manipulados por Anteros ou ameaçados pelo medo de Phobos e estiverem apoiando Ares por livre e espontânea vontade, serão vistos como traidores e serão mortos! Não por Atena, mas por mim, pois não iremos tolerar traidores entre nós! E isso... — Ikki olhou para os cavaleiros de ouro que estavam reunidos na lateral do “tribunal imperial” fazendo a guarda dos deuses. — É uma promessa! Para todos. E isso inclui vocês, Cavaleiros de Ouro. — Ikki encarou Ares em seguida. — Mas isso é só depois que você estiver morto, Ares!
Ares cerrou o punho até sangue escorrer entre seus dedos.
— Insolente! Então quer dizer que durante todo esse tempo que você passou preso, você podia se libertar?
— Não enquanto aquelas correntes estivessem presas em meus punhos. — respondeu Ikki. — Se meu cosmo não estivesse sido drenado, eu já teria me libertado. Seu erro, Ares, foi ter achado que eu já estava sem esperança, mas eu vou lhe dizer uma coisa... — Ikki cerrou o punho e as chamas que estavam em sua volta cresceram. — Nem todas as pessoas caem nesses seus truques baratos! Não é com torturas ou ameaças que você vai arrancar de mim o desejo de viver ou a esperança. Não enquanto eu ainda tiver a minha “ancora”. — As chamas se agitaram e deu forma a uma majestosa fênix.
Afrodite olhou para Ares preocupada. Ares estava tão irado que Afrodite podia sentir a raiva fluindo através do seu cosmo.
— Você pode falar a besteira que quiser, fênix! Atena... Nunca... Voltará! — gritou o deus. — E mesmo que ela volte, farei questão de matá-la pessoalmente de um modo tão brutal, que ela vai passar milênios para reencarnar!! Não tem Atena, Hilda, cavaleiros lendários ou seja lá quem for para me tirar do controle da Terra. EU SOU O DEUS QUE CONTROLA ESTE MUNDO!
O cosmo de Ares explodiu e seus olhos se tornaram vermelhos. Os deuses quase foram arremessados contra a parede. Afrodite se segurou no trono e Dionísio segurou-se em um pilar.
Ikki ficou em posição de ataque.
— Então, antes de eu ir ajudar Seiya e os outros, talvez cabe a mim mostrar que você está enganado. — o punho de Ikki foi tomado por chamas agressivas e ele o cerrou. — Um soco já deve ser o bastante.
—...—
Alemanha – Munique – Gliptoteca
Correndo, Seiya e os outros chegaram a uma grande praça que ficava entre três estruturas de arquitetura grega. Cada uma representando uma das ordens clássicas da arquitetura. Do lado direito a Gliptoteca com arquitetura Jônico, do lado esquerdo o edifício das “Coleção Nacional de Antiguidade” com arquitetura Coríntio e do outro lado da grande praça, de frente para eles entre os dois edifícios, estava o Propíleos com arquitetura Dórico.
Varias pessoas se divertiam na praça. Casais namoravam sentados nos bancos debaixo das arvores, crianças corriam segurando balões, jovens passeavam conversando... Eram pessoas normais levando suas vidas sem saber que estava acontecendo uma guerra santa. Pessoas inocentes que nem imaginavam que deuses estavam lutando. Ou que o deus da morte e do sono estavam tão perto deles.
— Finalmente chegamos — disse Seiya. Ele e os outros estavam vestindo suas roupas civis para se misturarem com a multidão.
— O museu fecha daqui a alguns minutos. — disse Alkes.
— Vamos entrar e nos esconder até que todos tenham saído. — disse Shun. — Não podemos arriscar a vida dos civis.
Henry olhou para a Gliptoteca. Ele podia sentir um sucinto cosmo sombrio e frio emanando de lá.
— A impressão que eu tenho... é de que estou prestes a cair no buraco do Yomotsu. — disse ele.
Seiya olhou para Henry e em seguida olhou para a Gliptoteca.
— Eu sei como é. — disse ele. — Quando você fica cara a cara com Thanatos, frente a frente com aquele que é a personificação da morte... Você nota o quanto sua vida não vale nada e que pode ser tomada em um piscar de olhos.
Eros passou por eles e parou.
— Vamos!
Seiya acenou com a cabeça. Eles caminharam em direção a Gliptoteca e entraram no edifício. Estavam indo, literalmente, em direção à Morte.
—...—
Osso esterno*: é o osso que fica entre as costelas, no centro do peito, e serve de sustentação para as costelas e clavículas.
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