― Eu disse que jamais cairia para o inimigo antes que você voltasse pra mim... Meu querido, Opala.

July mirou o centro da batalha que ocorria lá embaixo. Ele ergueu uma de suas correntes, encheu o peito de ar, flexionou o joelhos e sentiu uma tensão no ar. Foi a primeira vez que seu sorriso doce e inocente desapareceu do seu rosto, ainda mais porque, todo o espaço ao seu redor tornou-se avermelhado.

― Não pode ser! ― disse o cavaleiro de prata, sentindo aquela enorme intenção assassina. ―Ele não pode ter sobrevivido.

Saraivada do Escaravelho! ― ele ouviu a voz de Beon sair do meio do grande aglomerado de fumaça no ar.

July começou a girar a sua corrente para proteger-se dos vários projéteis que cortavam o ar em alta velocidade, mas a visão avermelhada camuflava os balaços e alguns deles atingiram o corpo do filho do grande mestre. As duas pernas e ambos os braços foram picados pelo escaravelho.

O cavaleiro de Cérbero despencou daquele pilar rochoso e colidiu violentamente contra o chão. Beon surgiu pouco tempo depois, assustando a todos que ainda lutavam contra os Shabits, porque ele havia sobrevivido ao ataque mais poderoso do cão infernal.

― Eu entendi que não poderei matar vocês sem pagar o meu preço, certo? ― Beon estava completamente maltrapilho. Várias partes da sua escultura estava destruídas e trincadas. O sangue escorria pelos membros superiores, cabeça e boca, mas ele não deixava de demonstrar seu sorriso sádico e sua intenção assassina. ― Você destruiu a minha escultura que eu tanto me orgulho. Agora é minha vez de destruir tudo que você ama, cavaleiro de Athena.

July tentava se virar, mas sentia o veneno do escaravelho paralisando todos os seus movimentos. Não acreditava que iria morrer daquele jeito.

― Eu lhe acertei quatro ferroadas, logo, imagino que você tenha perdido toda a tenacidade múscular. Se você uma pessoa comum, seus pulmões não responderiam mais e você morreria sufocado, porém eu espero que você resista a pelo menos, mais três delas. Quero vê-lo agonizar antes de morrer!

― AH! ― gritou o Cérbero sentindo a dolorida ferroada em suas costas. ― PARE!

― Isso mesmo, cavaleiro de Athena! Implore por sua vida! Mostre-me a sua humanidade! ― o sorriso sádico abria-se conforme as lágrimas do cérbero regavam o chão. ― Oh! Parece que seus pulmões começaram a falhar...Está difícil para implorar, certo? Vou aplicar as outras duas ferroadas ao mesmo tempo.

Fúria do Camaleão!

Beon desviou-se a tempo, mas viu um chicote passar rente ao seu rosto, cortando-lhe superficialmente a bochecha direita. Ele olhou à sua frente e notou que June de Camaleão estava diante do seu filho.

― Parece que o instinto materno é mais forte. Abandonou mesmo os seus pupilos para morrerem para os Shabits?

― Eu só cansei da sua voz mesmo! ― o egípcio não entendeu a fala da mestra. ― O que eu vou fazer com July por ter perdido para um lixo como você, será muito pior que essas suas ferroadas.

― Lixo? Olhe-se no espelho amazona de bronze. Você não pode co...

A cosmo energia de June expandiu-se quebrando a intenção assassina do escaravelho. A fina energia com de areia percorreu todo o corpo da camaleoa, mas sobretudo, o seu chicote. Beon ficou tenso e resolveu enviar a sua saraivada de agulhas.

―Agora posso ver claramente o seu ataque... FÚRIA DO CAMALEÃO!

A esposa do grande mestre começou a girar o seu chicote que desenhava a sua constelação no ar. June conseguiu rebater as agulhadas e ainda atingiu o peito do guerreiro egiício que cuspiu uma quantidade considerável de sangue. Beon foi lançado para trás e caiu com grande estrondo contra o chão.

― ARION! ― gritou ela para o seu escolhido ao sacrifício. ― Depressa! Corra para a bahia e vença o desafio de Andrômeda.

O rapaz olhou seus amigos mortos, o esforço de Yuna para destruir os últimos Shabits e para a sua namorada a quem ele protegia com todas as suas forças.

Por favor! ― ela balbuciou, enquanto balançava a cabeça negativamente.

― Desculpa Íris! Eu preciso fazer isso!

― Não, não precisa! ― a garota de cabelos esverdeados atingiu a sua cabeça com uma rocha no chão e ele desmaiou na hora. ― Você não vai morrer por minha causa.

A menina levantou vendo o caos ao seu redor e encarou a sua mestra que mesmo de máscara, ela tinha certeza que a encarava com ódio.

― Eu farei o sacrifício.

― Deixe de ser idiota, Iris! Todos sabem que você não...

Tanto June, quando Yuna pararam para observar a garota de cabelos esverdeados. Ela exibia um cosmo rosado brilhante que produzia lufadas de ar por todos os lados. June engasgou e Yuna se surpreendeu, percebendo que aquela menina não só havia despertado o seu cosmo, mas como ela tinha um controle absurdo do mesmo. Já que conseguiu ocultá-lo de seus olhos.

Ninguém vai fazer sacrifício algum! ― A jovem ouviu a voz do escaravelho ao pé do seu ouvido. ― MORRA!

Iris trincou os dentes de ódio e seu cosmo explodiu. Beon ficou assustado ao notar que todas as suas ferroadas ficaram retidas numa parede de ar rente a pele da garota.

― Eu posso ver! ― Yuna via claramente a imagem da constelação daquela princesa acorrentada ao seu destino. ― Aquele cosmo, aquela manipulação...

― São as nebulosas de Andrômeda! ― confirmou June.

― Não se gabe porque conseguiu parar o meu ataque!

― Você vai me pagar por colocar a minha família em risco!

Beon não entendeu quando aquelas nebulosas que seguravam suas agulhas, explodiram e acorrentaram o seu corpo.

― Fique aí como um bom rapaz! Caso contrário, eu darei ordem a que as correntes nebulosas se tornem uma grande tempestade. ― ela riu que o inimigo não conseguia se mexer direito dentro das nebulosas. ― Eu já volto!

DIVINE TORNADO! ― yuna destruiu o último Shabit. ― JULY

A garota viu que os aspirantes sobreviventes se socorriam, então, a loira de águia correu até o rapaz e o colocou numa posição mais favorável para respirar.

― D-desculpa, Yuna... ― ele respirava desesperadamente. ― Eu me desculdei e agora to todo ferrado.

― Para de sorrir o tempo todo! ― o rapaz encarou os olhos tristes da menina. ― Você não precisa ser legal ou forte o tempo todo. Desculpa não ter ficado ao seu lado.

― Não se culpe... Eu não pretendo morrer até ele voltar pra mim...

― Ele?

― Meu Opala... ― ele começou a perder os sentidos. ― O amor da minha vida.

― July? JULY! ― A garota desesperou-se.

Ela sentiu uma mão em seu ombro e notou ser June. As lágrimas corriam pelo seu rosto, então, a jovem amazona de bronze as limpou.

― Leve Iris para o sacrifício. Eu não tenho dúvidas que ela é a herdeira de Andrômeda. Ela realmente herdará o legado do pai dela.

― Ela é sua filha também?

― Entendeu porque minha vida é um inferno? ― perguntou a aspirante.

Yuna riu do humor negro, mas lançou um último olhar preocupado a July. Bastou que Beon grunhisse para que ambas guerreiras corressem para a bahia da ilha. June começou a elevar a sua cosmo energia e vigiava o cavaleiro de escaravelho, seriamente.

[ ***]

Yuna corria junto a Iris em direção a praia e a loira via a determinação tristonha da filha de Shun e sentia um aperto em seu coração.

― Sim, eu continuo odiando Athena, mas não vou aguentar ficar parada e ver minha família sendo massacrada.

― O que Athena lhe fez?

― Eu conto nos dedos de uma mão, as vezes que eu fiquei frente a frente com o meu pai. Crescer na ilha de Andromeda é o mesmo que morrer e ser condenado ao inferno cristão, Yuna. Arion foi a única coisa que diminuiu um pouco a dor que eu sinto, eu não poderia deixá-lo morrer no meu lugar.

― Eu também odiava as tradições, as lutas e perdi muitos amigos no campo de batalha! ― foi a vez de Iris sentir-se compadecida pela jovem Águia. ― Perdi a minha mestra que morreu tentando me proteger, vi crianças morrendo, vi meus amigos ferindo-se mortalmente, entre outras experiências traumáticas. Coisas que eu jamais desejaria que alguém vivesse, mas ao mesmo tempo, eu me sinto previlegiada por ter vivido tudo isso.

― O quê?

Elas chegaram a praia e Yuna encarou o horizonte.

― Era o destino que estava escrito pra mim. Eu tive que passar por tudo isso, mas eu contribuí para que houvesse paz na Terra e os deuses malignos fossem selados. Se eu tivesse me apegado apenas a minha dor e a tudo que eu sofri, Kouga, Ryuho, Souma e Haruto teriam sofrido muito mais e eu jamais me perdoaria por isso.

― Mas se eu vencer o sacrifício, eu serei apenas uma amazona de bronze.

― Seu pai era o que mesmo? ― a garota mordicou os lábios, sem graça. ― Seu pai e os amigos dele, eu e os meus amigos, todos éramos e somos a patente mais baixa no exército de Athena. O que faz diferença não é o material da sua armadura, Íris e sim, o quanto você queima o seu cosmo.

A caçula de Shun encarou as ondas da maré alta e sorriu pela primeira vez para um possível destino de lutas e sangrento. Ela assentiu para yuna e elas correram para uma pequena canoa.

― PAREM! ― Yuna no reflexo ergueu a sua perna envolta em vento e colidiu contra o ferrão do escaravelho. ― EU NÃO VOU PERMITIR!

― MAMÃE! ― gritou Iris ao ver que o egipicio carregava a camaleoa debaixo do braço.

― Vai Iris! Eu seguro ele!

― Vai mesmo?

Yuna sentiu a sua perna paralisar e notou o furo do escaravelho em sua canela. O sistema nervoso atacou na hora e garota ajoelhou diante do inimigo, sentindo todo o seu corpo estremecer de dor.

― Vocês são mais resistentes do que pensei! ― Beon viu que a menina remava para alto mar e apontou o seu ferrão na direção de Iris. ― Mas tudo tem seu limite!

Ele disparou a sua picada, mas surpreendeu-se com Yuna pulando na frente do ataque e sendo atingida nas costas. A águia caiu sobre a areia, sentindo o ar escapar dos pulmões. A água vinha e molhava o seu rosto, ajudando para que ela se engasgasse.

― Pela barca solar! ― Beon largou June no chão e andou até a Águia levantando-a pelo cabelo. ― Qual é o problema de vocês?

― N-nós somos uma família, Beon... ― o guerreiro surpreendeu-se. ― Nós protegemos uns aos outros.

― Entendo... Então, eu terei o prazer de matar a sua família!

Por mais embassada que a visão de Yuna pudesse estar, ela viu o seu inimigo erguer o seu dedo indicador, mostrando o ferrrão do escaravelho. Beon concentrava todo seu poder nele e preparava-se para dar o golpe de misericórdia.

― O quê? ― ele sentiu uma cosmo energia poderosíssima. ― O que está acontecendo no oceano?

O céu azul e a luz do sol converteram-se num tom rosado desde o horizonte. Beon parecia ter sido pego em sua própria intensão assassina de escaravelho. Ele assustou-se ao perceber que as ondas do mar pareciam sangue de tão vermelhas.

― Aquela maldita deve ter alcançado a armadura! Eu vou acabar com você e depois com ela, antes que ela se torne um problema pra mim! Saraivada do...

De repente, algo emergiu do mar. Beon se viu preso por uma corrente branca com ponta circular. Ele praguejou em egípicio antigo e encarou o mar com nítido ódio.

― Quem está aí? Quem ousa me atrapalhar mais uma vez?

Pouco a pouco, a dona da corrente foi se revelando através de um cosmo poderoso e sublime. As águas se abriam para que a nova amazona de Andrômeda passasse a pés enxutos. Yuna encarou Iris e se esforçou para sorrir, mas só até ser lançada para o lado, como um pedaço de carne.

― Então, você conseguiu? Não faz diferença! É só mais uma inútil que eu terei de matar!

― Tenta sorte, seu lixo!

― SARAIVADA DO ESCARAVELHO!

DEFESA CIRCULAR! ― Iris recolheu a sua corrente a tempo e a mesma subiu até o alto da sua cabeça, girando e formando uma espiral defensiva que repeliu todos os dardos do inimigo. ― Eu vi você disparar suas ferroadas diversas vezes, eu sei exatamente como me defender do seu ataque.

― Vamos ver como você se sai contra a minha intensão assasina! ― Beon tingiu a praia de vermelho e os reflexos da amazona começaram a responder ao medo que estava sentindo. As palavras de Yuna retornaram a sua mente e Iris começou a queimar o seu cosmo. ― Ceda ao medo, você não tem como vencer.

― Vencerá aquele que mais queimar o seu cosmo! ― A garota ergueu a mão direira e Beon notou que a corrente enrolada naquele braço tinha ponta triângular. ― E deixe-me te contar algo, Beon! As correntes de Andrômeda são especiais. Elas conseguem percorrer espaços e dimensões diferentes. Se eu queimar o meu cosmo acima do seu, eu tenho certeza que posso atravessar essa dimensão que é a sua intensão assassina.

― Não pode ser... Você decifrou o meu ataque só de ver?

― Eu o odiei a vida toda, mas agora... eu preciso que me ajude papai ! ― a corrente triângular respondeu ao cosmo e disparou-se para o céu avermelhado. ― ENCONTRE O INIMIGO! NÃO IMPORTA QUÃO LONGE E EM QUE DIMENSÃO ELE ESTEJA! VOE! CORRENTE DE ANDRÔMEDA!!!!

Como um tiro para o céu, a corrente triângular voou, sumindo no meio das nuvens. Beon ficou assustado com o poder que a recém condecorada amazona possuia. Ele ficou olhando para todos os lados, mas surpreendeu-se ao notar que uma passagem para o Duat abriu-se a sua frente.

Ele tentou repelir a corrente, mas movimentando-se como uma serpente, ela retalhou o restante da escultura do inimigo e atravessou o seu peito, mortalmente. Beon voou alguns metros para trás e a sua dimensão partiu-se, liberando os movimentos de Iris.

― N-não é possível... ― ele encarava o céu azul da ilha de Andrômeda com pavor. ― Perdão, mestra Serket.

A nova amazona de Andrômda assistiu o inimigo dissolver-se e misturar-se com a areia da praia e depois ela correu para socorrer a sua mãe e Yuna.

[ ***]

Yuna acordou algumas horas depois e assustou-se com o teto da tenda de June. Ela virou-se para a direita e respirou aliviada ao ver July desacordado, mas respirando. Ela estranhou que ao seu lado, havia um jovem rapaz de cabelos azulados e rebeldes, mas ele mantinha o pe do cabelo raspado a máquina zero. Ele usava as roupas de aspirante a cavaleiro e segurava a mão do loiro com fervor.

― Opala? ― ela chutou e percebeu que obteve a atenção do mesmo. ― Ele está bem?

― Estável... ― respondeu com muito mal humor. ― July é um idiota!

―N-não diga isso... ― ela sofreu para sentar-se. ― Ele estava ansioso para te ver.

June de camaleão adentrou a sua tenda e parecia nova em folha. Iris estava as suas costas e exibia o cristal da armadura de andrômeda como um pingente em seu pescoço. Yuna sorriu orgulhosa e a garota devolveu o sorriso.

― Fico feliz que tenha acordado, Yuna. Amanhã de manhã. você seguirá com Iris, Columba, Arion e serão escoltados pelos dois cavaleiros de prata, aqui, presentes.

― Cavaleiro de prata?

― Eu sou Opala — o cavaleiro de prata de auriga!

― E também o primo mais mal humorado que eu tenho! ― Iris o agarrou e o menino ficou ainda mais humorado. ― Aé, você não gosta que as pessoas saibam, certo?

Yuna ficou ali sem entender nada e um silêncio vergonhoso encheu a tenda. Opala cruzou os braços e desviou o olhar para o outro lado.

― Eu sou filho do cavaleiro lendário de Fênix, mas você deve conhecê-lo como: Ikki de Leão.

Yuna não sabia pelo que ficava mais surpresa. Se era por conhecer mais um herdeiro do legado dos cavaleiros lendários ou se por descobrir que July era apaixonado ou mantinha um relacionamento com seu próprio primo.