A Saga E - A pirâmide Colossal
43 Em nós
A manhã começou fria no vilarejo de São Leo. Três viajantes caminhavam pelo caminho de relva cheia de neve. Os comerciantes já estava a todo vapor vendendo itens de frio, lembranças, chás, chocolate quente, entre outras coisas que pudessem agradar os turistas.
― Acho que vou pegar uma caneca de chocolate! ― disse o cavaleiro mais gordinho entre eles.
― Não estamos de férias, Akira! ― disse o rapaz mais alto e magro dos três.
― Não seja tão sério, Tatsuya! ― repreendeu o rapaz de pele morena e mais baixo dos três.
― Por isso que você é meu melhor amigo, Makoto!
Ambos amigos envolveram seus braços ao redor do pescoço, enquanto o mais alto e sério revirou os olhos sem paciência. Tatsuya se viu obrigado a parar com os seus companheiros em algumas barracas para que o cavaleiro de baleia pudesse matar a sua fome.
― Vamos fazer algumas compras! ― anunciou Makoto.
― O inimigo certamente vai esperar você terminar a sua lista de presentes!
― Mas a Miho passa necessidade com as crianças dela! ― Akira parecia falar sério. ― Imagina a alegria deles, quando virem a quantidade de comida que vamos levar?
Tatsuya ergueu uma sobrancelha em sinal de dúvida, já que Akira, dos três era o mais pão-duro com relação à usar o seu salário de cavaleiro com coisas para os outro, mas resolveu calar-se. Makoto começou a escolher algumas frutas, legumes e verduras frescas, enquanto o guloso cavaleiro de baleia só prestava atenção nos doces. Tatsuya aproveitou uma outra barraca para separar alguns grãos e sementes comestíveis.
― Eu nem ligo para gastar o meu dinheiro com comida! ― disse Akira tirando uma pequena trouxa de dinheiro para pagar a conta.
De repente, o trio de cavaleiros de prata ouviu o som de várias pernas correndo. Os comerciantes começaram a ficar agitados e desempunhavam suas armas de corte. Até que um bando de crianças, vestindo capaz de pano grosseiro começaram a correr entre os turistas como ratos, gritando bem alto.
― O que é isso? ― disse Tatsuya tentando se equilibrar com suas compras ao mesmo tempo que saía da frente das crianças. ― O que esses fedelhos estão fazendo?
― HEI! ESSE É O MEU DINHEIRO! ― gritou o cavaleiro de baleia ao notar que alguém havia passado a mão na sua trouxa de dinheiro. ― Ninguém mexe com o dinheiro da comida de Akira de Baleia!
― Calma Akira! ― alertou Makoto, mas o cavaleiro de baleia já elevava o seu cosmo, completamente revoltado. ― Vejam a fúria da baleia!
O cavaleiro apontou para o mar de crianças e imediatamente, vários geisers brotaram no solo, erguendo cada um dos encapuzados, levantando-os por cerca de três metros. Eles choravam de medo, enquanto o cavaleiro de baleia coloca os punhos na cintura em sinal de orgulho.
― Vamos! Devolvam logo o meu dinheiro ou eu vou jogá-los de cima desse geiser!
― Por favor! ― disse uma menina que parecia ser a mais velha entre as crianças. ― As crianças estão com muito medo... Eu devolverei o seu dinheiro, mas não machuque eles.
― Não... ― o cavaleiro se sentiu culpado. ― Eu só estava....
Akira foi baixando o seu dedo indicador e o geiser ficou bem mais abaixo. As crianças, os comerciantes e os turistas observavam aquela cena abismados e o trio de cavaleiros de prata, aproveitou para se aproximarem das crianças.
― Ei, moço gordinho! ― Makoto e Tatsuya taparam a boca, mas deixaram escapar algumas risadas. ― Que truque é esse?
― Truque? Isso é o meu elemento! Eu posso fazer coisas muito legais usando a água!
― Mas na maior parte você só retém líquido! ― disse Makoto antes de levar um esguicho d’água saído da mão calcanhar de Akira por conta do trocadilho infame. ― Você não tem senso de humor, Akira.
― Mas por que vocês estão roubando turistas? ― foi a vez de Tatsuya se intrometer. ― Não sabem que isso é errado?
― Porque estamos com fome! ― respondeu a mais velha. ― Ninguém aqui ajuda a mama e todos nos odeiam. Então, todos os dias nos arriscamos para conseguir alguma comida para ela.
Os cavaleiros se entreolharam e sentiram seu coração apertar com a realidade daqueles mancebos que assim como eles, deveriam ser orfãos. Porém, o líder do grupo teve um insight e aproximou-se da garotinha que parecia ser a mais velha entre eles.
― Vocês são as crianças da Miho? ― a garota arregalou os olhos. ― Nos leve até ela! E ah! Essa comida que compramos era pra levar pra vocês!
― Mas e quanto ao nosso prejuízo? ― E olhando para trás, viram vários comerciantes portando porretes e facões.
― É verdade que nenhum de vocês ajuda essas crianças? ― perguntou o grande cavaleiro de Girafa.
― Eles são a desgraça desse vilarejo. Eles afastam os turistatas e roubam nossos mantimentos. São piores que ratos.
Makoto nem tentou segurar Tatsuya quando este começou a caminhar na direção dos comerciantes. Eles levantaram a guarda e apontaram seus porretes para o cavaleiro com mais de um metro e oitenta e físico magricela.
Tatsuya encarou-os com um rosto de nojo, mas apenas abriu a mão, oferecendo uma trouxa de dinheiro. Os comerciantes ficaram atônitos achando que o grande homem partiria para briga.
― Nós três também somos orfãos! ― todos lhe deram atenção. ― E a mesma mulher que cuida dessas crianças, cuidou de nós três também. Hoje somos homens de bem, respeitados em nossa cidade e contribuímos para o crescimento do nosso país e planeta. Senão fosse por alguém ter acreditados em nós, lá atrás, nós certamente seríamos o lixo de pessoa que vocês são.
O cavaleiro de Girafa virou suas costas sem termer uma possível retaliação e encontrou o cavaleiro de baleia aos prantos, emocionado. Ele cumprimentou o cavaleiro de Sagita com um soco punho a punho e o trio pegou as compras e começaram a subir com as crianças.
― Nikássia! ― apresentou-se a menina. ― São vocês que vieram me buscar?
― Você é a... ― Makoto se sentiu idiota por não ter percebido antes. ― Seus olhos... São os olhos dele.
― Vocês conheceram o meu pai?
― Somos discípulos dele! ― confirmou o cavaleiro de Girafa. ― E quando crianças, ele era o nosso melhor amigo e herói.
A garota ficou impressionada com a fala dos três grandes homens. Ela deu a mão para o cavaleiro de Sagita e fez várias perguntas sobre quem havia sido o grande cavaleiro de Pégasus.
[ ***]
Seiya havia acabado de desembarcar no Japão. Ele encarou a terra do sol nascente com pesar, porque não queria estar ali. Ele pensou em Saori, pensou em Shaina e por mais que se sentisse culpado pela noite que havia tido com a amazona, ele não se arrependia. Shaina era adulta, mais velha e sabia dos seus sentimentos pela deusa Athena.
Aonde ir? O que fazer? Ele sabia que seus irmãos e companheiros tinham para quem voltar. Shiryu já deveria estar a caminho dos cinco picos antigos e voltar para Shunrei. Hyoga certamente foi a Sibéria como forma de reconectar-se com sua mãe, Shun ficou no santuário e começou o seu treinamento para assumir o lugar de grande mestre e Ikki... Ikki sempre está por aí.
Não queria voltar para a Fundação Graad. Teria do bom e do melhor, porém tudo naquele lugar o lembraria de Saori. Uma boa quantia de dinheiro foi depositada em sua conta e com ela, poderia viver por um bom tempo em um Hotel mediano ou quem sabe comprar um apartamento, mas decidiria isso mais tarde.
Demorou cerca de uma hora e meia dentro do taxí, mas toda a viagem foi uma higiene mental para tentar esquecer os últimos acontecimentos. Quando a viagem acabou, Seiya olhou com carinho aquela casa que um dia acolheu a ele e a sua irmã, Seika. Que mesmo sem memória, ela ficou aos cuidados de sua mestra Marin, enquanto o cavaleiro de Pégasus era expulso do santuário.
Ao sair do carro, as crianças o reconheceram, imediatamente. Makoto, Akira e Tatsuya não eram mais criancinhas e já haviam crescido bastante, principalmente, o futuro cavaleiro de Girafa que até havia mudado o tom da sua voz.
Eles correram para abraçar o Pégasus e ali, todo aquele amor e carinho, era um santo remédio para as suas dores. Seiya largou sua bagagem no gramado do quintal do Orfanato- Filho das Estrelas e começou a correr com as crianças de lá.
― Seiya? ― foi o momento em que as crianças o derrubaram.
Seiya parou para encarar aquela bela voluntária que o havia reconhecido. Há alguns anos, ela foi o receptáculo da deusa maligna Éris que sequestrou Athena, ressucitou cavaleiros para serví-la e quase destruiu o mundo. Desde então, Eiri tinha uma presença esquisita, embora nunca tivesse manifestado o poder da deusa da discórdia.
― Olá Eiri! ― sorriu, gentilmente. ― E não. Hyoga, não veio comigo.
Seiya abriu um sorriso canastrão e os três adolescentes que já demonstravam sinais de puberdade, sabiam o porquê da voluntária ter ficado tão vermelha com o comentário implicante. Eiri preferiu se retirar e todos cairam na gargalhada.
― Eu já volto pessoal. Vou guardar a minha mochila e falar com a Miho! ― e sob um coral de descontentamento, o ex-Pégasus adentrou o orfanato. ― Esse lugar não mudou nada.
Miho provavelmente estava na cozinha preparando o jantar, então, o cavaleiro de sagitário decidiu fazer um tour que despertou várias lembranças da sua infância. Até que seu tour terminou na grande cozinha do orfanato.
Fazia cinco anos desde que Seiya voltou do santuário e toda essa guerra começou. Miho já era maior de idade, seus cabelos haviam crescido e Seiya a viu de costas lavando louça e notou rapidamente o quadril largo que a garota havia ganhado.
― Você engordou em Miho? ― brincou com seu tom paspalho de sempre, mas assustou-se quando a garota deixou um prato cair. ― Tá tudo bem com você?
Miho se virou e parecia que via um fantasma. Seu rosto estava inundado por lágrimas e ela chutou os cacos do prato no chão e correu para abraçar Seiya que se surpreendeu com o gesto da menina.
― Aquele eclipse... ― ele sabia que ela falava do eclipse eterno de Hades. ― Eu sabia que era algo ruim... Eu pensei em você... mas você voltou pra mim, Seiya... Digo! Para nós!
A garota se afastou do amigo de infância, limpou suas lágrimas e pegou uma vassoura e uma pá para varrer a cozinha.
― E pelo visto, miho... Eu vim para ficar durante um tempo... ― a jovem corou e arregalou os seus olhos de costas para ele. ― Eu não queria ficar na Fundação Graad. Você acha que teria problema em ficar aqui? Eu posso ajudar vocês com trabalhos braçais, acho que estão precisando de uma pintura e umas reformas. Posso até bancar a reforma, depois da guerra contra Hades, eu...
― Eu adoraria que você ficasse conosco!
Seiya respirou aliviado e correu lá para fora para continuar a brincar com as crianças. Miho terminou de varrer e voltou ao fogão para terminar o jantar. A garota chegou a se beliscar só para ter certeza de aquilo não era um sonho.
[ ***]
O trio de cavaleiros de prata sentou a porta do casebre no alto da pedra de Sao Leo e dividiam uma garrafa de vinho, gargalhando alto. Miho havia acabado o almoço, mas partiu o grande pedaço de queijo para aperitivos e também para dar de café as suas crianças.
― Eu criei vocês para se tornarem homens de bem e não bêbados!
― Deixa de ser chata, Miho! ― vociferou Makoto. ― Bebe com a gente!
― Eles são os cavaleiros protegidos pelas estrelas? ― perguntou Nikássia com desdém. ― Eles podem fazer alguns truques, mas olha...
― Eles são fortes, minha filha. Só estão alegres por me ver.
― Nós herdamos o bom humor do seu pai! ― disse Akira. ― Ele era incrível. Não importa que guerra sangrenta, ele tivesse enfrentado, ele sempre voltava para o nosso orfanato para brincar com a gente.
― Quando ele teve que voltar ao santuário, nós insistimos que ele nos levasse! ― lembrou Tatsuya. ― Ele falou que o santuário não era um playground e que pessoas até morriam durante o treinamento, mas nada nos assustou. Se fosse com o Seiya nós aceitaríamos passar por qualquer provação.
― Mas se ele era tão corajoso e forte... Por que ele me abandonou e não escolheu me proteger?
Um grande clima pesado se instaurou. Makoto fechou a garrafa de vinho e pediu para que o legado de Seiya se sentasse em seu lado. Makoto começou a contar qual era o verdadeiro plano dos pais de Nikássia.
Eles deixaram a filha amada na mão da única pessoa desconhecida e confiável que o antigo dourado de sagitário conhecia. Nikássia tinha apenas dois anos, quando Marte chegou a Terra e causou aquela grande guerra. Foram doze anos que o santuário ficou sob o domínio dos marcianos.
― E por que ele não veio me buscar? Por que ele esperou tanto tempo?
― Porque ele foi levado como refém de Marte! ― a garoto arregalou os olhos. ― Seiya ficou doze anos em coma, servindo de alimento para o planeta de Marte. A nova geração de cavaleiros conseguiu salvá-lo e o ajudaram a derrotar Marte, mas logo em seguida, veio o renascimento da deusa Pallas.
― Então, eu fui sendo empurrada para segundo plano por todo esse tempo? Sempre vai haver alguém tentando matar vocês. Se vocês esperarem um tempo de paz para estar com as pessoas que vocês amam, vocês só irão abandoná-los, mesmo que achem que estão protegendo eles!
As lágrimas percorriam o rosto da jovem menina e molhavam a relva. O trio de cavaleiros de pratas baixaram suas cabeças e deixaram a garota desabafar.
― Achamos vocês! ― uma voz gutural e viceral interrompeu a melâncolia de Nikássia.
Makoto olhou por cima do ombro e notou que vários comerciantes subiam o caminho até o orfanato ainda portanto seus porretes e facões. Em seus rostos, estava esculpida a fúria e a sede de sangue.
― O que querem aqui? Esse homens pagaram com todo o dinheiro que tinham!
― Vocês só podem pagar com o sangue de vocês!
― Não são eles! ― vociferou Tatsuya ao sentir uma onda de cosmo percorrendo os corpos daquelas pessoas. ― É o inimigo.
Os aldeões soltaram uma gargalhada sinsitra e de repente, suas peles rasgaram-se, revelando aqueles bonecos egípcios sem expressões faciais que portavam kopeshs afiadíssimas.
― TODOS PARA DENTRO, AGORA! ― gritou Miho.
― SAGITA! ― gritou Makoto.
― BALEIA! ― gritou Akira.
― GIRAFA! ― gritou Tatsuya.
O trio de cavaleiros foram vestidos por suas armaduras e partiram para o combate contra os Shabits. Os soldados de barro pareciam mais ágeis e resistente aos golpes que normalmente. Eles abriram um sorriso e começaram a elevar seus cosmos, conjurando seus elementos.
Cada dedo de Makoto inflamou-se e com a outra mão, ele fez o movimento de puxar para trás, como se estivesse com um arco nas mãos. Podia-se ver a sua constelação atrás dele e imediatamente, o elemento fogo formou um arco flamejante.
― Essa missão é muito especial para nós! ― disse o garoto vendo os soldados de barro atacando. ― Eu não vou deixar que nada aconteça com a memória de Seiya!
Uma saraivada de flechas flamejantes começou a atingir os bonecos que eram incendiados, instantaneamente. Já Akira, envolveu seus punhos com o elemento água e correu para o meio dos bonecos golpeando-os com movimentos de boxe.
― Esses punhos foram fortificado pelo cara mais forte que eu conheci! ― vociferou ele, enquanto explodia a parte superior dos bonecos.
Já Tatsuya girava a perna direita, enquanto o cosmo marrom percorria por todo o seu corpo. Ele bateu com o calcanhar no chão e estacas de terra atingiram, suspenderam e destruíram os bonecos de barro.
― Sua fé, sua alma e sua vontade descansa em nós!
Nikássia encarou a cena de guerra à sua frente e acreditava que tudo aquilo fosse um pesadelo. Homens que travavam batalhas mortais e usavam técnicas sobre humanas realmente existiam. E queriam leva-la para se tornar um deles?
― Malditos cavaleiros de Athena! ― uma voz ecoou dos céus.
― Essa voz... ― Miho não podia acreditar.
Uma passagem para o Duat se abriu no céu azul e dela, saiu uma jovem garota que deveria ter ultrapassado a casa dos vinte anos. Ela tinha um cabelo azul longo, usava uma escultura bela que lembrava o vestido de uma rainha. As ombreiras, peitoral em forma de top, cinturão que lembravam as dunas do Egito e um véu branco que caía até suas canelas. Em sua cabeça, uma coroa de três andares e várias pedras preciosas.
Seus olhos eram azuis e ela usava um par de óculos quadrados. Ela encarava os cavaleiros de prata com nojo, mas sobretudo para a protegida deles.
― Finalmente o destino me deu a oportunidade de te destruir irmã!
― Celeris! ― chamou Miho. ― Você não pode ter se aliado ao amigo só por rancor.
― Athena e seus cavaleiros podres sempre foram meus inimigos. A mestra Isis só me deu a oportunidade, percebendo meu potencial e minha força. Eu não sou como o fraco do meu pai.
― Saiba que vamos impedí-la, guerreira egípcia!
Makoto calou-se e assim como ele, Akira e Tatsuya se curvaram sem intenção. A pressão espiritual do poder daquela guerreira era absurda e Nikássia e Miho estavam com a cara rente ao chão.
― Essa posição é a correta para vassalos como vocês! ― ela conjurou uma lança dourada. ― Vocês estão de frente para uma rainha! Saudem, sirvam e sejam agradecidos por morrerem nas mãos de Celeris de Cleopatra.
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