A Saga E - A pirâmide Colossal
35 Alrisha de Peixes
Shiryu havia guardado a armadura de Libra em sua urna dourada e estava de joelhos à mesa a espera do jantar. Ele olhava Shunrei de costas, pondo o caldo de carne e legumes, aromatizado com ervas e duvidava que realmente uma deusa habitava o corpo de sua esposa.
Sua atenção foi levada ao seu primogenito que olhava incessantemente a porta do humilde casebre. Shoryu encarava a porta, observando atentamente a cachoeira de Rozan. Shiryu sabia que o garoto aguardava que seu irmão caçula adentrasse a porta com aquele sorriso doce, gentil e inocente. Aqueles olhos grandes, brilhantes e assustados.
Shoryu nunca quis tanto ver Ryuho.
― Não se culpe! ― ele baixou a cabeça, mas ainda sim, não conseguia encarar seu pai. ― Parte do que aconteceu foi culpa minha. É por isso que eu não envolvi você, Shoryu. Na verdade...
― Me leva para o santuário! ― Shiryu arregalou os olhos. ― Eu sei que preciso ser julgado como um inimigo de Athena, mas pai... Ver o meu Ryuho lutando daquele jeito... Meu irmão é muito doce e gentil, eu preciso protegê-lo! Não posso deixar que Ryuho se machuque assim de novo.
O ex-Tjesu Heru baixou a cabeça e começou a chorar, copiosamente. Shiryu pousou a mão sobre a cabeça do moreno quase adulto e ele não resistiu. Desabou no colo do pai, sentindo um calor saudoso que há muito tempo não sentia. Ele chorou alto e Shiryu se viu emocionado com o coração exposto de seu primogênito.
Até que o libriano por um breve momento viu pontos estelares nele. Um sorriso surgiu no seu rosto ao reconhecer aquela constelação.
― Sim, meu filho. Eu sei que você vai protegê-lo... ― ele voltou a emocionar-se. ― Mesmo não sendo irmãos de sangue, as constelações guardiões de vocês estão interligadas. Eu sou muito feliz por ser pai de vocês dois.
Shunrei voltou com uma bandeja com os potes com sopa e ficou feliz em ver aquele momento em família. Ela deu uns cinco minutos a mais a eles, mas teve de interromper antes que o janar esfriasse.
― Você usará o corpo da minha esposa para sempre? ― Shiryu não se conteve.
― Meow! ― as pupilas triângularam-se, demonstrando que a deusa dos felinos entrou no comando do receptáculo. ― Claro que não, Shiryu. Eu só pretendo ajudar vocês a vencer esta guerra e em seguida, eu voltarei ao Duat. Respondido?
O ex-dragão assentiu que sim e a deusa baixou a cabeça. Shoryu e o pai ficaram observando intrigados, mas logo Shunrei voltou ao controle, oferecendo suco a eles, como se nada tivesse acontecido.
[ ***]
O grande mestre recebia seus cuidados pessoais proveniente das servas do santuário. Até que ele elevou o seu cosmo e elas perceberam que estava na hora de uma pausa. O som metálico dos passos de alguém trajando uma armadura.
― Eu já iria parabenizá-la em espírito pelo seu rápido domínio sobre a técnica mais básica da sua constelação. Mas por que cobriu todas as entradas do santuário com a essência das Rosas Diabólicas reais, Alrisha de Peixes?
A pisciana se aproximou da escadaria que levaria ao grande mestre e exibiu seu belo e límpido cosmo dourado para comunicar-se com o grande Papa privado dos seus cinco sentidos.
― Suas palavras me deixam lisonjeada, grande mestre, mas não consegui ficar parada vendo as defesas do santuário tão fragilizadas.
― Acha que eu não sei tomar boas decisões, Alrisha?
― Sim, meu senhor.
O cosmo dourado do grande mestre, outrora, calmo e tranquilo, começou a liberar uma rajada de ar desgovernado como a sua famosa tempestade nebulosa. Alrisha manteve sua cabeça baixa, mas um sorriso emposto.
― Eu sei que foi insubordinação minha e posso ser punida como o senhor desejar. Não me importo nem de passar o resto dos meus dias presa no cabo sunion, mas eu precisava fazer alguma coisa! ― Shun foi se acalmando e a amazona viu que tinha espaço para continuar a falar. ― Tudo que sobrou para proteger o santuário, foi o servo inseguro de Mú e o filho tempestuoso de Marte. A grande parte dos cavaleiros de prata e os bronze prodígios sairam para missões e...
― Eu sei exatamente quais são as nossas atuais condições, Alrisha.
― Por isso, venho lhe pedir permissão para treinar os soldados rasos.
― O quê? Ficou tanto tempo reclusa na ordem de nike que esqueceu que os soldados rasos são aspirantes de cavaleiros que não deram certo?
― Tenho motivos para acreditar que nem todos tenham falhado, grande mestre. Eu pretendo fazer uma seleção para descobrir qual deles tem o cosmo adormecido dentro de si.
Shun parecia desconfiado. Ele encarava a pisciana recém admitida em seu exército e lembrou-se de que foi ele que matou o mestre dela. E se ela quiser se vingar? E se fosse uma traidora?
― Na atual condição do santuário, os soldados rasos não possuem qualquer serventia. Eu já dei ordens para que os cavaleiros de bronze restantes, montassem guarda em alguns pontos de entrada e saída de civis do santuário. No restante, eu espalhei as rosas diabólicas reias. Mas diga-me o senhor: Caso todos os cavaleiros voltem de suas missões com sucesso e crendo que não teremos mais baixas por conta de ataques do inimigo, o senhor teria as 88 armaduras ao seu dispor?
O mestre continuou em silêncio. Shun sabia que as missões poderiam ser um sucesso, mas sabia que o inimigo talvez atacasse. Não gostaria de admitir, mas a pisciana tinha razão.
― E como você pretende treiná-los? ― Alrisha riu e mexendo em sua nuca, trouxe uma rosa vermelha, oferecendo-a ao grande Papa. ― É esse o seu plano? Você irá submetê-los ao veneno das rosas diabólicas?
― Tempos desesperados, atitudes desesperadas! ― o cosmo de Shun desestabilizou-se novamente. ― Estamos em guerra, grande mestre. O mundo pode ruir, o santuário quase caiu, portanto, se fizermos mais alguns sacrifícios a fim de realmente reforçarmos as nossas defesas, não consigo ver como um preço tão caro.
― Você usará os duzentos soldados rasos que temos hoje?
― Sim! Pretendo expor todos eles ao veneno das rosas diabólicas reais. Aqueles que possuirem cosmo ativo, apenas perderão os cinco sentidos e os recuperarão em alguns dias. A esses, eu treinarei pessoalmente para que possam vestir uma armadura de bronze ao menos.
― E eu carregarei o sangue dos homens que morrerão! ― Alrisha baixou a cabeça e se esforçou para não rir do mestre pacifista. ― Saia antes que eu mude de idéia, Alrisha. Esta é a primeira e a última vez que eu lhe dou ouvidos. Qualquer atitude sua sem uma ordem devida minha, será considerada revolta.
― Aceito de bom grado o peso dos seus ombros e qualquer sentença que o senhor me estipule! ― a amazona apagou o seu cosmo, levantou-se e virou suas costas. ― O senhor sabe que há chances de não ter ninguém entre esses duzentos soldados rasos com cosmo, certo?
― Saia de minha presença, Alrisha de Peixes! ― vociferou.
Já de costas, a amazona sorriu e atendeu a ordem do grande mestre. Shun tremia por dentro e por fora e ao perceber que o cosmo da pisciana já estava longe o suficiente, permitiu-se chorar de vergonha, de decepção e de nojo de si mesmo.
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