A Saga E - A pirâmide Colossal
32 Ore porque os deuses ouvem
Cinco picos antigos de Rozan.

Era final de tarde. Shunrei impregnava o que lhe restava de força para terminar de lavar o resto das roupas de cama nas rochas, à margem do rio. Normalmente parava de trabalhar mais cedo, mas como Shiryu lhe enviou a mensagem de que estava voltando para casa, ela queria receber seu marido e filho com tudo perfeito.
Pena que sua coluna já não era mais a mesma. Ela levantou-se e alongou o corpo para tirar aquele incômodo. Riu de si mesma e parou para admirar as marcas de idade em seu rosto, refletidas na água cristalina daquele rio.
E quando percebeu, estava envolta de nostalgia. Foi subindo o seu olhar rio acima e viu a grande cachoeira de Rozan. A mesma que nasceu devido a uma chuva de meteoros. Suas águas eram consideradas sagradas e ao longo das eras, elas banhavam a armadura de bronze de dragão que descansava no fundo das águas.
Shunrei lembrou-se da sua infância com Shiryu. Quando o viu pela primeira vez. Se apaixonou por ele naquele momento e jurou a si mesma, que faria de tudo ao seu alcance para fazê-lo feliz. Shiryu e o Mestra Ancião eram como a sua família e hoje, casada com o amor da sua vida, criou uma nova família com ele.
Inclusive... Estava na hora de orar por eles.

― Por favor... Traga Shiryu e Ryuho para casa em segurança. Por favor...
Sempre orava assim. Não eram rezas direcionadas a uma divindade específica. A fé de Shunrei transcendia o cosmos e se endereçava a quem quisesse ajudar. Nunca teve certeza de que era ouvida, mas orar pelo seu amado que sempre estava envolvido em batalhas mortais era um modo de acalmar a sua alma.
Até que um dia, há vinte anos atrás, Shiryu voltou para casa. Ele a agradeceu porque sem as orações dela, ele teria morrido pelas mãos de Máscara da Morte— o antigo cavaleiro de câncer. Foi ali que Shunrei finalmente tomou coragem para revelar sobre seus sentimentos e Shiryu se sentiu no dever de pedí-la em casamento.
Desde então, nunca mais cessou de orar. Era a sua maneira de participar da batalha. De lutar ao lado de seu amado...e agora, ao lado de seu filho também.
― Você disse Shiryu? ― os olhos se abriram arregalados.
Shunrei continuou ajoelhada sobre o solo pedregoso, de dedos entrelaçados, mas a cabeça virava de um lado para o outro a procura da dona daquela voz. A principio acreditou que fosse coisa da sua cabeça, mas ao ver que seu corpo era envolvido por um cosmo dourado, a esposa do santo de Libra começou a assustar-se.
― A humana ora e quando é atendida fica com medo? Eu estou aqui pra proteger Shiryu, mas não posso fazer isso sem a sua ajuda.
― Quem está aí? Por que quer proteger o Shiryu?
― Porque... Eu prometi a ele. ― Shunrei sentiu um tom de vergonha naquela voz. ― Mas fui mandada para uma dimensão muito longe e estou fraca. Preciso de um corpo para lutar novamente.
Shunrei se colocou de pé e colocou a mão em seu peito. Ela estava receosa, mas algo dentro de si, lhe dava certeza dos sentimentos daquela entidade.
― Eles já sabem que sua família está vindo. ― A garota arregalou os olhos. ― Não temos muito tempo.
― Eu aceito com uma condição! ― a entidade emudeceu-se. ― Que eu possa estar consciente para poder lutar. Eu quero lutar ao lado de Shiryu, senão nada feito.
Um pequeno silêncio se formou e por alguns segundos o único som era da cachoeira ao seu lado. Um vento fresco começou a soprar e balançar a grande e grossa trança de cabelos que já exibiam alguns fios brancos.
― Eu aceito suas condições. Você é forte de espírito. Gostei de você.
Shunrei sorriu e abriu os braços. De repente, uma passagem dimensionou se abriu no meio da cachoeira que antes, servia como lacre para as 108 estrelas de Hades. Shunrei encarava aquele vórtex interdimensional com seriedade, exibindo um cosmo que não era seu.
Então aquela passagem se fechou. A esposa do santo de Libra baixou os seus braços, nitidamente, decepcionada. Então, tocou o seu ventre. Sentia algo se remexendo dentro de si. Havia algo diferente.
― AHHHH!!! ― shunrei liberou um grito de alma como se estivesse pegando fogo por dentro. ― ESTÁ DOENDO.
― Aguente querida! Vamos juntas salvar o Shiryu! Por favor, aguente!
Shunrei caiu de joelhos com as duas mãos na garganta como se estivesse pegando fogo. A mulher suava frio e chorava de dor. Parecia que algo consumia a sua alma.
― Shiryu... Por Shiryu...
― Isso é... ― a entidade parecia surpresa ao ver uma fina camada de energia cintilante e azulada percorrendo o corpo da mulher. ― Cosmo?
― Batalha atrás de batalha deles... Como eu poderia ficar apenas aqui, cuidando da casa e orando? Eu, filha do cavaleiro de ouro de Libra, precisava despertar o meu próprio cosmo.
― Vamos! Eleve o seu cosmo e salve a sua vida!
Cortes profundos começaram a aparecer na pele da jovem. O sangue começou a vazar sangue e ela via suas mãos pegando fogo.
― Eu preciso sair ou você vai morrer. Foi um erro, me perdoe, Shunrei.
― NÃO! ― exclamou a jovem, tapando o seu olho direito. ― EU VOU LUTAR AO LADO DA MINHA FAMÍLIA.
Shunrei liberou um novo urro de alma e a correnteza da cachoeira de Rozan respondeu a ela. O cosmo esverdeado parecia uma torrente de águas furiosas que expurgou o efeito colateral da possessão.
― Uma humana expurgou as chamas divinas?
― E agora? ― Shunrei pressionava o olho direito e respirava ofegantemente. ― O que faremos?
― Vamos ao encontro deles, querida! ― Shunrei era envolta por um esmagor poder dourado e divino. ― Bastet está morrendo de saudades do mestre Shiryu.
Shunrei começou a descer do pico da rocha e caminhava em direção a saída dos cinco picos. Finalmente tirou as mãos da frente do olho que não queimava mais, até porque havia um olho amarelado e felino em seu lugar.
― Eu estou indo, Shiryu, Ryuho! ― dizia a mãe de família determinada. ― Vamos Srta Bastet.
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