A SAGA DE ZEUS - O DESPERTAR
2 Capítulo II - O Despertar de Athena
O mundo estava silencioso. Athena permanecia de olhos fechados, flutuando entre ecos distantes de vozes que ainda não reconhecia. Sussurros masculinos, gritos longínquos, lembranças fragmentadas — tudo se misturava na penumbra de sua mente. Então, uma luz dourada e intensa atravessou a escuridão como uma flecha divina, penetrando em seu coração adormecido.
Ela viu Aiolos, o Cavaleiro de Sagitário, fugindo do Grande Mestre, a Armadura reluzindo como o sol. Em seus braços, o bebê que ela fora, protegida com a coragem pura de quem carrega o destino do mundo. A imagem se fixou em sua memória, um grito silencioso de sacrifício e bravura, atravessando o tempo e espaço.
As vozes dos cavaleiros, o grito de Seiya, o impacto das palavras do testamento de Aiolos, a centelha de seu próprio cosmos vindo do Santuário, e a força de laços humanos antigos… tudo isso se condensou em uma fagulha brilhante dentro de Athena. Um brilho suficiente para quebrar o bloqueio imposto por Apolo e reacender sua memória divina. Cada sacrifício, cada luta, cada lealdade e dor se tornaram claros em sua mente. Ela ergueu a cabeça e seus olhos se incendiaram com o cosmos de uma deusa.
Ainda atônita, Athena procurou por uma ligação, qualquer sinal de alguém que pudesse ajudá-la a retomar o caminho. Um cosmo puro e sereno pulsava não muito longe, numa vila próxima ao Santuário. O cosmo de Seiya não podia ser sentido, mas havia outro — forte, puro, verdadeiro. Ela avançou em direção à cabana que irradiava aquela energia, e dentro, viu um homem loiro de longos cabelos, curando uma velha senhora com as mãos. Quando ele se virou, o coração de Athena se encheu de emoção.
Flashback
Em seu último momento de lucidez, diante de Apolo que aceitava seu sacrifício para torná-la mortal, Athena enviou a maior parte de seu cosmos para revitalizar os Cavaleiros de Ouro que haviam se entregado no Muro das Lamentações. Ela os deu nova vida, renovando o elo sagrado que os unia, mesmo enquanto perdia parte de sua divindade.
Fim do Flashback
Ela sussurrou, com a voz embargada:
— Shaka! Você está vivo! Meus esforços não foram em vão!
O homem, que já não se chamava Shaka, olhou surpreso. A aura que emanava dele era calma, serena, quase divina — e ainda assim, a simples presença de Athena fez com que algo despertasse nele. Ela se aproximou, os olhos marejados, estendeu as mãos. O toque dela incendiou o cosmo adormecido do Cavaleiro de Ouro de Virgem, trazendo de volta todas as suas memórias e poder. A cabana se iluminou com uma luz intensa, e uma paz profunda tomou todos os presentes.
Ele se ajoelhou, reverente, e seu olhar era de pura lealdade.
— Eu o farei, minha Deusa.
Doando parte de seu cosmo a Athena, os dois saíram da cabana e seguiram em silêncio, de mãos dadas, seguindo as centelhas que indicavam os cavaleiros próximos. A primeira presença os guiou até Marin, que acabava de encontrar Seiya e o cuidava instintivamente. Athena correu para ele, lágrimas brotando, mas parou ao ver a expressão vazia do jovem.
— Esse rapaz está inconsciente… parece um morto-vivo, respira, mas não nos escuta… quem são vocês? — indagou Marin, ainda confusa.
Athena tocou suas mãos. No instante em que seus dedos se encontraram, a memória de Marin retornou, violenta e clara. Ela olhou para o rosto pálido de Seiya, os olhos se enchendo de lágrimas que não caíam, e murmurou, rouca:
— O que fizeram com você…?
Marin virou-se para Shaka, indignada.
— Quem fez isso com ele? Você é o cavaleiro mais sábio… não consegue ver quem fez isso?
A voz de Shaka era serena, firme:
— Há um selo em Seiya que o mantém inconsciente. Nem mesmo meu cosmo consegue penetrar.
Juntos, conduziram Seiya de volta ao Santuário, agora reduzido a ruínas, com o vento soprando poeira e lembranças entre colunas quebradas. Ali, a missão verdadeira se iniciava: entender o que havia acontecido e reunir os cavaleiros restantes.
Nas montanhas isoladas da Mongólia, Mu de Áries trabalhava, concentrado, construindo uma cerca. O vento frio soprava pelas planícies, carregando a sensação de que algo grandioso estava prestes a acontecer. Cada martelada parecia ecoar pelos vales, como se anunciasse uma presença que ele ainda não podia compreender.
De repente, diante dele, surgiu Shaka, o Cavaleiro de Virgem. Mu ergueu os olhos, surpreso e cauteloso. Shaka, sem uma palavra, levantou a mão, e uma onda dourada de cosmo se espalhou em direção a Mu. O selo que apagava suas memórias resistia, e o corpo e a mente de Mu lutavam contra aquela onda de lembranças, cada centelha despertando fragmentos de sua verdadeira vida.
O processo foi lento, extenuante, e exigiu toda a concentração de Shaka. Mas finalmente, o cosmo de Mu irrompeu, brilhante e intenso, restaurando sua consciência e seu poder.
— Shaka… como me encontrou? Então Athena realmente nos concedeu uma nova vida! — A voz de Mu tremia, carregada de emoção. — A minha paz era uma ilusão…
— Nosso cosmo é um fio, Mu. Ele nos conecta. Não é um sonho. Fomos agraciados mais uma vez por Athena. Agora, nossa missão é reunir nossos irmãos — respondeu Shaka, com firmeza e serenidade, como se cada palavra fosse uma lei gravada no cosmo.
Mu sentiu seu corpo e seu cosmo queimarem em gratidão.
— Farei tudo para honrá-la! Vamos encontrá-los!
Partiram juntos, guiados pelas centelhas de cosmo de cada cavaleiro. Não demorou para que Mu sentisse o cosmo forte e bondoso de Aldebaran, vivendo como pescador em uma vila italiana, cercado por crianças que o adoravam. Ao tocar seu cosmo, Mu trouxe de volta todas as lembranças do Cavaleiro de Touro, e a emoção encheu o ar como um sopro divino.
No Egito, entre as sombras das pirâmides, Milo de Escorpião fotografava as ruínas, alheio ao poder que vibrava ao seu redor. Shaka aproximou-se silencioso. Ao cumprimentá-lo e tocar seu cosmo, Milo arregalou os olhos. Uma agulha escarlate brilhou em sua visão, despertando-o para tudo que havia esquecido. O deslumbramento se misturava à determinação; o antigo Cavaleiro de Escorpião recuperava sua essência.
Na Casa de Leão, os quatro Cavaleiros de Ouro — Mu, Shaka, Milo e Aldebaran — reuniram-se, suas armaduras douradas refletindo a luz do sol poente. A presença de Athena ainda pairava em seus corações.
— Athena nos deu uma nova vida — disse Shaka, a voz carregada de reverência e solenidade.
— Mas por quê? — indagou Milo, ainda absorvendo a magnitude da situação.
— Porque ela acreditou em nós — respondeu Mu, firme, sem ocultar a emoção que queimava dentro dele. — E a guerra ainda não terminou.
O silêncio tomou o salão. O nome de Aiolia ecoou entre eles, ausente, mas presente, como um rugido que nunca se apagaria. Mu prometeu encontrá-lo. Shaka apenas assentiu, entendendo o laço que unia os Cavaleiros de Ouro.
Longe dali, à beira do Rio Ganges, Aiolia de Leão vagava sem memórias. A água refletia o céu, e uma voz distante ecoava em sua mente:
— O testamento… vá atrás do testamento…
Enquanto isso, a busca pelos Cavaleiros de Bronze começava. Shun trabalhava em uma floricultura próxima ao Santuário, cuidando das flores com delicadeza. Quando Shaka e Mu chegaram, o coração do jovem se encheu de uma sensação estranha, um pressentimento que o fez sorrir, mesmo sem compreender totalmente.
— Sua alma anseia por algo mais — disse Shaka. — Sua vida de paz é uma ilusão. O seu cosmo, mesmo adormecido, clama pela luta.
— Não sei do que fala… — murmurou Shun, a voz baixa, quase um sussurro. — Mas a sua presença, e a de vocês, me traz uma sensação estranha… uma paz.
— Nossas vozes ecoam o som das correntes que um dia você usou para proteger a todos nós — completou Mu, com a suavidade de quem entende a profundidade de cada gesto.
De repente, o cosmo de Shun irrompeu. Mu e Shaka não precisaram tocá-lo fisicamente; tocaram sua alma, despertando-o completamente. Um sorriso genuíno iluminou o rosto de Andrômeda. Ele abraçou os Cavaleiros de Ouro, confuso e emocionado, e voltou o olhar para o Santuário. Dentro dele ardia a urgência da missão e a necessidade de proteger Athena.
No Canadá, Hyoga cortava a neve com o machado, cercado pelo frio cortante e pela vastidão branca da floresta. O silêncio era quase absoluto, apenas quebrado pelo ranger da madeira sendo fendida. Mas então, como uma presença inevitável, Shaka surgiu diante dele. Sem falar uma palavra, ergueu a mão, e uma corrente dourada de cosmo se espalhou pelo ar. Pequenas partículas de neve flutuaram, captando a luz dourada, formando um véu cintilante ao redor de Hyoga.
O frio parecia se misturar à memória, cada floco refletindo lembranças que ele não sabia que possuía. Imagens de sua mãe, de Camus, de seus amigos, surgiram com clareza esmagadora, e lágrimas correram por seu rosto.
— A minha mãe… meu mestre… — murmurou, a voz trêmula. — Lembro de tudo! Shaka, como é bom te ver novamente!
Shaka permitiu um breve sorriso, algo raro em sua expressão austera, mas genuíno. O brilho dourado de seu cosmo envolvia Hyoga, devolvendo-lhe não apenas as memórias, mas a essência do Cavaleiro de Cisne.
Enquanto isso, nas montanhas do Tibete, Shiryu treinava diante de um antigo templo. Seus golpes cortavam o ar com a precisão de um dragão vivo, o vento moldando cada movimento. Mu aproximou-se silencioso, observando a força que ainda corria nas veias do Cavaleiro de Dragão. Shiryu abriu os olhos, desconfiado, encarando o estranho que surgira de repente.
— Quem é você? E o que quer? — perguntou, firme, cada palavra carregando cautela e curiosidade.
— O cosmo do dragão chama por você — respondeu Mu, a voz suave, quase um sussurro que parecia sintonizar-se com o vento.
Uma onda de choque atravessou a mente de Shiryu. Sua visão se encheu de flashes do Templo dos Cinco Picos, de Shunrei, de seu mestre, de batalhas e sacrifícios esquecidos. Caindo de joelhos, com a voz embargada:
— Mu… meu amigo… bom te ver novamente… o Templo dos Cinco Picos… Shunrei… Shoryu…
Mu contou tudo o que havia acontecido, cada detalhe da nova vida concedida por Athena. Shiryu, com o coração inflamado pela memória e pela urgência, decidiu imediatamente procurar Shunrei e Shoryu antes de se dirigir ao Santuário, pronto para se unir novamente à batalha.
No Japão, Ikki meditava em um templo solitário. A dor em seu peito era familiar e desconhecida, uma lembrança difusa que o impulsionava a lutar, mesmo sem compreender sua origem. Shaka se aproximou em silêncio, a presença dourada o envolvia como um presságio inevitável.
Ikki percebeu a aproximação, mas não se alterou. Apenas ergueu os olhos, calmo, sua postura firme e serena. Shaka levantou a mão, e uma onda de cosmo dourado envolveu o Cavaleiro de Fênix. Por um instante, Ikki tentou se defender, mas a luz envolvente não era uma ameaça; era a chave para despertar o que havia adormecido.
— Entendi… — disse Ikki, com uma serenidade que contrastava com a intensidade da situação.
— Athena… — sussurrou Shaka, carregando a reverência de quem reconhece a divindade.
— Não me peça para voltar ao Santuário. — A voz de Ikki era firme, solitária, mas carregada de compromisso. — O meu caminho é solitário. Estarei lá quando a Fênix precisar renascer. Envie minhas lembranças a Athena e Shun.
Shaka compreendeu, em silêncio, que havia encontrado não apenas um aliado, mas um amigo indomável, cuja força não seria quebrada por nada.
O Santuário jazia em ruínas, um silêncio pesado pendendo sobre cada coluna quebrada e sobre o mármore rachado. Athena, agora plenamente consciente de sua divindade, segurava a mão de Seiya, sentindo a fraca pulsação de seu cosmo lutando contra o selo que o mantinha aprisionado. A expressão de dor do Cavaleiro de Pégaso refletia todos os sacrifícios, todas as batalhas, todas as lágrimas vertidas em nome da justiça e da proteção da Terra. Ao lado dela, Shun e Hyoga permaneciam em vigília, seus olhos marejados, absorvendo a gravidade daquele momento.
— Por quê, Athena? — perguntou Shun, a voz carregada de incredulidade e pesar. — Por que o Seiya… Ele já sofreu tanto… Já se sacrificou tantas vezes por nós…
Hyoga ergueu os olhos, sentindo o frio do arrependimento e da impotência:
— É como se a dor dele fosse uma barreira. Uma barreira impenetrável.
Shiryu chegou ao local, seus passos silenciosos mas pesados, como se cada golpe de seu coração fosse um eco do mundo perdido. Aproximou-se de Seiya, inclinando-se sobre ele, e uma única lágrima deslizou de seus olhos, traçando o caminho de sua preocupação e desespero.
— Você novamente se sacrificou por nós… — murmurou, a voz embargada, carregada de reverência.
Shiryu voltou seu olhar para Athena, seus olhos implorando respostas, cheios de desespero.
— Athena, precisamos fazer algo! — exigiu, a urgência e a aflição em cada palavra.
Athena sentiu o peso de seu próprio fracasso, a impotência de quem perdeu grande parte de seus poderes, mas ainda carregava a chama da esperança divina:
— Precisamos, Shiryu… eu sei… mas não consigo pensar em nada… A última coisa que me lembro é de conseguir enviar meu cosmo para que Milo, Aldebaran, Aiolia, Mu e Shaka tivessem uma nova vida, momentos antes de Apolo apagar nossas memórias e me tornar mortal… — sua voz trêmula, carregada de dor e lembrança.
Shun engoliu em seco, lembrando-se das lacunas deixadas na memória:
— Então… existem cinco Cavaleiros de Ouro vivos… mas Aiolia… não vi ele! O que aconteceu?
— E os outros, Athena? E meu mestre Dohko? — indagou Shiryu, ainda perplexo e preocupado.
— Os outros… infelizmente, não consegui. — Athena respirou fundo, o peito pesado. — Eles aceitaram a vida oferecida por Hades e não tiveram uma nova chance. Mas após o sacrifício no Muro das Lamentações, pude encontrar seus corpos e as almas que ainda iluminavam o submundo. Dohko… ele não quis ter uma nova vida.
— Como assim… mestre? — Shiryu murmurou, com os olhos marejados.
— Quando toquei sua alma, Dohko disse que, por causa da Misopethamenos, seu corpo não suportaria muito tempo, mesmo revivido por uma Deusa. Ele cedeu sua centelha de cosmo aos irmãos Cavaleiros de Ouro, e então eu senti a marca do tigre, seu cosmo voando em busca de sua estrela regente…
Shiryu, os olhos inundados de lágrimas, apenas conseguiu murmurar:
— Mestre… até nesse momento, continua grandioso…
Hyoga sentiu o peso de tudo, a lembrança de seu mestre, das batalhas, de Seiya… sua voz saiu carregada de emoção:
— Mestre Camus… e os outros… se sacrificaram duas vezes por nós! E Seiya! Temos que fazer algo, amigos… Saori, tem que haver algo que possamos fazer!
Athena, ainda segurando a mão de Seiya, sentiu seu cosmo pulsar, mesmo em fraqueza:
— Apolo está envolvido nisso… Mas não vou desistir! Irei até o fim do Universo para encontrar respostas! Não possuo mais meus poderes, mas… algo me diz que Zeus não permitiu que Apolo tomasse minha divindade completamente… Ainda não sei… não sei o que o Olimpo planeja.
Ela respirou fundo, os olhos marejados, mas firmes.
— Meus cavaleiros… não devem sofrer mais. Seiya será protegido… sua irmã, Seika, retomou a consciência e está a caminho do Santuário. Enquanto isso, Mu e Shaka me ajudarão a encontrar respostas. Sei que não vão desistir de Seiya, então Shun, Hyoga, Shiryu… vocês me guiarão no caminho! Vamos salvar Seiya!
Os cavaleiros assentiram, a determinação estampada em seus olhos, antes de se afastarem de Saori. E quando desapareceram da vista, Athena caiu de joelhos, os soluços ecoando pelo Santuário em ruínas, a dor e a esperança entrelaçadas em cada batida de seu coração.
No Olimpo, a fúria de Apolo crescia, sua arrogância e desprezo pela irmã manifestando-se em cada centelha de seu cosmo. Quando percebeu que Athena havia despertado, mesmo com pouca energia, o desespero e a raiva se entrelaçaram em um grito silencioso que atravessou dimensões. Imediatamente, ele enviou Linus, seu filho semideus, ao Santuário, através de um portal brilhante, carregando consigo a ordem de subjugar os Cavaleiros de Ouro e trazer Athena de volta, submissa à sua vontade.
Linus surgiu em meio às ruínas, sua presença imponente e melódica preenchendo o espaço, e sua voz ecoou, fria e calculada, sobre o mármore quebrado:
— Cavaleiros de Ouro… Eu sou Linus, filho de Apolo, mestre da música e da poesia. Meu pai, o deus do Sol, me enviou para acabar com esta afronta. Entreguem a deusa Athena e se submetam à vontade do Olimpo!
Shaka deu um passo à frente, os olhos semicerrados, sua postura serena irradiando cosmo puro. Cada fibra de seu ser emanava controle absoluto, e sua voz soou como o eco de uma verdade antiga:
— A única vontade a que nos submetemos é a de Athena. Nenhuma melodia de Apolo nos fará traí-la!
Linus sorriu, a arrogância refletida em sua aura sônica. Com um gesto amplo, suas mãos se ergueram, e notas distorcidas de uma sinfonia divina atravessaram o ar, formando ondas de energia que vibravam com o poder de apagar memórias e destruir cosmos:
Aldebaran, firme como uma muralha, foi atingido pelo “Acorde do Caos”. O impacto percorreu sua Armadura de Ouro, rachando o metal, e o gigante de Touro caiu de joelhos, o sangue escorrendo da boca.
Milo reagiu, disparando sua Agulha Escarlate, mas antes que pudesse sequer completar o movimento, Linus entoou o “Verso do Desespero”. As palavras penetraram em sua mente como lâminas invisíveis, paralisando-o. Uma dor aguda o consumiu, e ele desabou inconsciente, seu corpo se contorcendo sob o efeito da melodia.
Mu de Áries ergueu seu braço, conjurando a Muralha de Cristal para proteger seus aliados. Mas Linus apenas sorriu. A sinfonia se transformou em uma “Fuga da Dissolução”, uma onda de caos que desfez o cosmo de Mu, fragmentando sua barreira e deixando o Cavaleiro exausto e ferido, incapaz de se manter de pé.
— Sua música é de dor… — sussurrou Shaka, a voz baixa, mas ressoando por todo o Santuário, carregada de julgamento.
— E a sua, Cavaleiro de Virgem… — respondeu Linus, triunfante — será a do silêncio!
Linus concentrou seu cosmo, a melodia final tomando forma. As notas dançavam no ar como lâminas de energia, atingindo Shaka de frente. O Cavaleiro de Ouro, mais próximo de um deus do que de um mortal, sentiu sua mente ser atacada, seu cosmo drenado pelo poder da “Ópera Final”. Por um instante, os cosmos se chocaram, e o Santuário tremeu sob o impacto de tamanha força.
Shaka caiu, lacrimejando, mas ainda consciente, mantendo o corpo sob controle. Ele resistiu mais tempo que qualquer outro, mas seu cosmo era drenado rapidamente por Linus. O semideus se aproximou, preparando o golpe final, confiante em sua vitória.
No entanto, no instante em que ergueu a mão, um rasgo no tecido do cosmos se formou. Uma luz avassaladora, carregada de trovão e lei, desceu sobre o Santuário, paralisando Linus no ar. A essência do universo irrompia com um poder supremo, fazendo com que todo o espaço tremesse:
— APOLO! — a voz de Zeus ecoou, trovão e julgamento simultaneamente, atravessando cada pedra e coluna do Santuário.
Linus congelou, a música estancando nos lábios, enquanto Athena ergueu o rosto, surpresa e assustada.
— Pai… o senhor… despertou? — sussurrou, a voz embargada.
No Olimpo, Apolo sentiu o terror gelar suas veias. O poder de Zeus esmagava sua fúria, reduzindo sua arrogância a impotência.
— IMPOSSÍVEL! — gritou, a voz ecoando pelo Santuário, mesmo à distância. — Meu pai! O que o trouxe de volta?! O Selo Cósmico… foi quebrado!
Zeus, o soberano de deuses e homens, respondeu com a calma de quem julga além das fraquezas mortais:
— Apolo, o que fizeste a Atena e aos seus cavaleiros é um ato vil. A verdadeira blasfêmia é aquela que levou a este caos. Usaste tua fúria contra tua própria irmã, arriscando a integridade de toda a existência!
Apolo, tremendo, mas com sua indignação inflamando seu orgulho, respondeu:
— A afronta não é minha, Pai! É dela! Atena se aliou a Chronos, o Deus primordial, voltou no tempo e alterou o fluxo temporal para salvar a vida de um mortal! Ela destruiu Hades, aprisionou Poseidon, e agora… se humilha por aquele verme! É inadmissível! Desafiou todas as regras do Olimpo!
Zeus permaneceu silencioso por um instante, seu olhar atravessando cada espaço, cada ser, cada intenção.
— Athena… — disse finalmente, sua voz carregada de autoridade e justiça — diga-me: por que você fez isso? Por que se aliou a Chronos para salvar este humano?
Athena se ergueu, cambaleante, o rosto manchado de lágrimas, mas os olhos brilhando com dignidade e determinação.
— Pedi ajuda a Chronos para salvar Seiya da maldição da espada de Hades, Pai! Ele sacrificou sua vida por mim na última Guerra Santa. Eu não podia deixá-lo morrer. Meu dever é proteger a Terra e, para isso, devo proteger aqueles que dão suas vidas por ela.
Zeus, seus olhos de trovão fixos no corpo frágil de Seiya, falou com firmeza absoluta:
— Para proteger a Terra, você se aliou a Chronos, uma força primordial do tempo? Arriscou quebrar o Eixo Cósmico para salvar um mortal? O que realmente se esconde por trás disso?
Ele pousou seu olhar sobre Seiya, a punição e o julgamento sendo um só, frio e severo.
— A punição deve ser compatível com a transgressão. Athena, o selo no corpo deste mortal não será removido. Ele permanecerá como lembrança de que tuas ações trouxeram caos. Tu não retirarás o selo até que o verdadeiro perigo seja compreendido. A impotência de ver teu campeão sofrer será tua penitência.
— E quanto a você, Apolo — continuou, a voz de Zeus tornando-se corte judicial — está proibido de intervir na Terra. Retorne ao Olimpo. Reúna os deuses do Panteão. Precisamos entender quais perigos causaram tal instabilidade ao equilíbrio cósmico, forçando-me a despertar.
Linus, derrotado pelo poder absoluto de Zeus, retornou ao portal dimensional, carregando consigo o confronto incompleto contra Shaka.
Apolo, tomado pela ira e humilhação, sentiu o ódio subir por suas veias, planejando a vingança silenciosa contra todos que se interpusessem em seu caminho:
— Não serei mais o Deus do Sol, ou o Deus da Luz… — murmurou, em pensamento. — Serei o Deus do Esquecimento. Caçarei as forças primordiais, encontrarei o Oblivium, e então serei senhor do mundo. Pai, não mereces mais governar… assim como fiz com Cronos, tirarei você do trono!
E, no instante em que a voz de Zeus se silenciou, um tremor gélido percorreu o Santuário. Não vinha da Terra… era o cosmo, puro e absoluto, vibrando com um poder que transcendia os limites do espaço.
Longe dali, Julian Solo observava. A Ânfora de Athena rachou violentamente, como se a energia divina dentro dela não pudesse mais ser contida. O despertar de Zeus rompeu o segundo selo mais poderoso, e a alma de Poseidon foi imediatamente transportada ao Olimpo.
O Deus dos Mares se materializou, humano em forma, divino em essência, imponente e furioso. Porém, a presença de Zeus impedia qualquer retorno à Terra ou aos mares. Poseidon foi obrigado a concentrar seu domínio nos Mares Celestes do Reino dos Céus, tornando-se uma força furiosa e incontrolável dentro da própria sede de Zeus.
O Olimpo agora ostentava um equilíbrio instável e mortal: Zeus, Apolo e Poseidon — considerados os mais poderosos do panteão — confinados, observando e calculando cada movimento, cada centelha de cosmo que ousasse perturbar a ordem do Universo.
Fale com o autor