A Ruiva Da Floresta
1 A Ruiva da Floresta
Notas iniciais
A garota saltitava pela floresta com seus longos cabelos ruivos como o fogo e suas roupas tão vermelhas quanto um sangue que há tempos fora derramado. Tão feliz quanto uma mãe após o parto de seu primeiro filho, ela também carregava consigo uma cesta de piquenique. No quesito boa aparência, ela definitivamente era a líder, o que faria então com que qualquer um se perguntasse o que ela fazia por ali, visto que só dois tipos de pessoas entravam naquela floresta: as desesperadas, geralmente amedrontadas por causa de estupradores, assassinos, sequestradores ou qualquer outra coisa do gênero; ou insanas, em busca de vítimas para assassinato, para que pudesse descontar sua raiva nos outros, aliviar um pouco sua insanidade. E, acredite em mim, não era difícil achar pessoas assim naquele local. Estas também não diferenciam insanos de desesperados – qualquer um pode ser sua vítima.
Os muitos insanos que observavam a garota – separados, é claro, pois ali era cada um por si, não existiam grupos – começaram a cogitar um terceiro tipo de pessoa que poderia acabar naquela floresta: os perdidos. Mas, obviamente, eles não dariam um comitê de boas-vindas e um tutor para mostrar e ensinar tudo para a garota. Era uma menina bonita, diria que bonita até demais para uma garota de apenas 13 anos. E, ali dentro, aparência era o que importava. O primeiro que a pegasse poderia fazer o que bem entendesse com ela: estuprar, matar, rasgar e tirar toda a pele, enfim, qualquer coisa. Todos ali dentro tinham planos para com ela, portanto, até mesmo matariam para tê-la.
O primeiro, provavelmente tomado por uma ansiedade e excitação fora do comum, veio correndo da forma mais louca e suicida possível, por trás da garotinha. Ela se virou, assustada, pois ele gritava em alto e bom tom, mas tudo o que a pobre menininha conseguiu ver foi um tronco de madeira, com sua ponta afiada por mãos bem habilidosas, acertando em cheio a cabeça daquele que corria em sua direção e um pedaço daquilo que deveria ser o cérebro do corredor insano.
Um outro saiu de trás de um arbusto, mas, antes que pudesse sequer se aproximar da ruiva, levou um forte golpe do pescoço, o que o forçou a cair desmaiado no chão. Foi assim que um terceiro insano surgiu, aparentando ser menos sanguinário e mais tarado, o que podia ser provado pelo fato de ele só ter feito o segundo desmaiar e também pelo olhar malicioso com o qual olhava para a garotinha.
Uma flecha com seu corpo feito de madeira, sua ponta afiada sendo de, provavelmente, ferro – não se sabia onde alguém teria conseguido esse tipo de material ali – e sua outra ponta com um detalhe com pena de corvo acertou em cheio o peito do tarado, que caiu em cima daquele que ele próprio havia acabado de nocautear. Um segunda flecha, idêntica, veio do mesmo lugar, acertando o topo da cabeça do homem desmaiado, deixando apenas a pena de corvo para fora, provavelmente perfurando no mínimo até a garganta.
Não foi possível identificar o dono das flechas, pois logo após o acontecimento, ouviu-se um grito vindo de onde as flechas vieram. Um homem com uma faca na mão, com sangue fresco na lâmina da mesma, saiu de lá. Era óbvio que as flechas não eram dele, afinal, ninguém atira uma flecha só com a mão, muito menos com uma faca. Ele não carregava um arco consigo e o sangue fresco deixava claro que não fazia muito tempo desde sua última vítima. Apenas alguns segundos desde seu último assassinato, para ser mais exato.
Talvez fosse só uma impressão da garotinha, mas aquele definitivamente parecia ser superior a todos os outros que tentaram ataca-la. Não precisava mais do que um olhar para perceber o instinto assassino monstruoso vindo dele. Seu sorriso sádico, então, só piorava ainda mais as primeiras impressões que qualquer um teria sobre ele. Até mesmo a pessoa mais idiota desse mundo perceberia que ele era diferente dos outros. Um diferente ruim.
Mais ninguém apareceu para tentar captura-la desde que aquele homem apareceu, exceto por um rapaz, que na realidade não parecia visar a garota, e sim aquele homem ameaçador. É claro, com um simples movimento o homem enfiou e retirou a faca do peito do rapaz, e este último caiu morto no chão. Finalmente, o assassino começou a se aproximar da garotinha, com sua faca na mão. Ela, com uma expressão assustada, tentava se afastar, mas, no escuro da floresta, tropeçava até mesmo em seus próprios pés. E foi em um desses tropeços que ela caiu de costas no chão, dando a chance que o homem tanto esperava.
Ele finalmente conseguiu se aproximar o suficiente da pobre menininha. Sem pensar duas vezes, ele atacou ela com sua faca. Entretanto, no último segundo antes da faca acertar a testa dela, um sorriso desagradável se abriu em seu rosto e ela se desviou com facilidade. Tirou o pano que cobria sua cesta de piquenique e jogou o que havia dentro direto no rosto do homem que a atacou. Porém, para surpresa de todos que observavam, o que tinha ali dentro não era comida, doces, nem nada relacionado a um piquenique. O que tinha ali dentro era uma cabeça humana, e definitivamente essa cabeça havia sido arrancada à força recentemente.
O assassino não percebeu, mas ela rapidamente tirou uma faca que estava escondida na manga de sua jaqueta vermelha e pulou no pescoço dele, esfaqueando-o até que a cabeça rolasse no chão. Ela ria – uma risada sádica, macabra – ao ver o sangue escorrer do homem que havia acabado de tentar matá-la. Após parar de rir, ela pegou a cabeça pelos cabelos e posicionou-a acima de si, inclinando sua própria cabeça para trás e abrindo a boca, deixando o sangue escorrer direto para sua garganta.
Por fim, ela guardou a cabeça dentro de sua cesta de piquenique, substituindo a anterior, cobriu-a com o mesmo pano de antes, colocou novamente seu sorriso alegre e inocente no rosto e continuou saltitando pela floresta, seguindo seu rumo sabe-se lá para onde. A garotinha que aos olhos de todos parecia tão inocente, não passava de uma psicopata.
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