A Rosa do Deserto

2 Intrigas e Promessas


C A P Í T U L O II

Intrigas e Promessas


O perfume denso de incenso e âmbar pairava no ar como um véu invisível, misturando-se ao aroma adocicado de rosas frescas espalhadas pelo chão de mármore branco. Pequenos lampiões oscilavam com a brisa quente da noite, projetando sombras douradas nas paredes entalhadas com arabescos. O harém imperial era um lugar de beleza e opulência, mas também de segredos e disputas silenciosas.

Mulheres reclinavam-se sobre almofadas de veludo carmesim, sussurrando entre si em um murmúrio baixo, quase hipnótico. Algumas tomavam chá de hortelã servido em delicadas taças de vidro, outras beliscavam tâmaras e pistaches de bandejas de prata. O calor da noite era suavizado por escravas abanando leques ornamentados, embora nem mesmo o vento pudesse dissipar a tensão que pairava no salão.

Ino Yamanaka estava sentada entre as novas odaliscas, as mãos cruzadas sobre o colo em uma postura impecável. Seu vestido de seda dourada, embora simples comparado ao das favoritas, realçava seus cabelos claros e os olhos azuis vibrantes. Um véu de gaze fina cobria seu rosto parcialmente, mas não escondia sua expressão serena e calculista.

Ela sabia que estava sendo observada.

Mei Terumi, a joia do harém, se erguia como uma rainha sem coroa. Os cabelos ruivos brilhavam sob a luz tremeluzente das lâmpadas a óleo, adornados por grampos de ouro cravejados de safiras. Seu vestido azul-celeste esvoaçava ao redor de seu corpo, cada fio da seda reforçando sua posição superior. Mas o que mais chamava atenção era o olhar afiado, calculista, que avaliava cada movimento ao seu redor.

E agora, esse olhar pousava sobre Ino.

— Ouvi dizer que você conta histórias, Yamanaka. — A voz de Mei era doce como mel, mas carregada de um tom cortante, um desafio velado. — Talvez possa entreter as meninas esta noite.

Silêncio.

As outras mulheres trocaram olhares. Algumas sorrisos sutis se formaram nos lábios pintados, outras apenas aguardavam o desenrolar da cena.

Ino manteve a postura impecável, mas sentiu o peso do teste imposto diante dela. Sabia que recuar significava ser marcada como fraca. Enfrentar Mei abertamente era arriscado. Precisava de um meio-termo.

— Apenas se minha senhora desejar. — Sua voz saiu firme, mas serena. Calculada. — Contar histórias exige um público atento.

Uma provocação sutil.

O salão encheu-se de risadas baixas. Algumas odaliscas trocaram olhares, divertidas. O jogo havia começado.

Mei manteve o sorriso, mas seus dedos tocaram distraidamente os brincos de pérola, um pequeno gesto que Ino interpretou como um sinal de irritação velada.

— Então escutem, minhas queridas. — Ela fez um gesto elegante com a mão. — Talvez nossa nova irmã tenha algo valioso a ensinar.

Ino inspirou fundo, sentindo o olhar de dezenas de mulheres sobre ela. Mas não era apenas para elas que contaria aquela história. Mei a testava, e ela responderia da única maneira possível: com inteligência.

A história que escolhera não era apenas um conto para entreter. Era um espelho.

— Havia uma vez um falcão, criado dentro da gaiola de um grande rei.

A gaiola era dourada, incrustada de pedras preciosas, e os servos do rei traziam os melhores alimentos ao falcão, limpavam suas penas e sussurravam o quanto ele era especial.

Ino deslizou os dedos pelo tecido fino de seu véu, sentindo o toque macio da seda. Ela também vivia cercada de luxo.

— E o falcão acreditava que era livre, porque o rei lhe dizia que sim.

As odaliscas escutavam em silêncio. Algumas apenas pela beleza da história, mas Mei... Mei escutava de verdade.

— Mas um dia, ao olhar para o céu, o falcão viu outros como ele, voando sem correntes.

O salão ficou ainda mais silencioso.

Ino pousou os olhos sobre Mei, observando sua expressão indecifrável.

— Então percebeu que, embora tivesse tudo... nunca havia voado de verdade.

E Ino sabia exatamente como era viver assim.

A gaiola do harém era feita de ouro e seda, mas ainda era uma gaiola.

Mei girou o cálice de vinho nos dedos. Seus lábios curvaram-se levemente.

— Interessante. — Seus olhos brilharam com algo perigoso. — Mas me pergunto... o que aconteceu quando o falcão acordou?

Ino sorriu.

— Isso, minha senhora, depende de quem conta a história.

O silêncio se estendeu. Nenhuma das duas recuou.

E naquele instante, Mei entendeu que Ino não seria apenas mais uma odalisca. Quando a reunião se dispersou, Mei retirou-se para seus aposentos. Mas a mente dela não descansava.

Ela caminhou pelo quarto luxuoso, tocando distraidamente os tecidos de seda pendurados no dossel da cama. Lembranças antigas vinham à tona.

Antes de ser a favorita do sultão, Mei fora apenas uma peça no jogo de um homem poderoso. Um presente enviado por um rei estrangeiro, entregue ao harém imperial como um símbolo de aliança.

Ela chegou ao palácio ainda jovem, cheia de medo, mas aprendeu rápido. Sobreviveu.

Agora, olhava para Ino Yamanaka e via alguém que lembrava muito a si mesma naquela época. Mas havia uma diferença.

Ino não queria apenas sobreviver.

Ela queria jogar.

Mei pegou uma adaga delicada da mesa, passando o dedo pela lâmina. Se Ino queria entrar nesse jogo... ela teria que aprender que não havia espaço para duas rainhas.

(...)

A taverna era um antro de sombras. Homens negociavam acordos em sussurros, enquanto moedas trocavam de mãos sob as mesas de madeira envelhecidas.

Neji leu o pergaminho outra vez, os olhos treinados captando cada detalhe.

— Isso é... impossível — murmurou.

Shikamaru suspirou, recostando-se na cadeira.

— Você sabe que não é.

Neji apertou o pergaminho. A traição era mais profunda do que ele imaginava.

Desde jovem, fora treinado para observar sem ser visto, escutar sem ser notado. Como um falcão da noite, coletava informações para proteger o império.

Mas agora, percebia que o inimigo estava dentro do próprio conselho imperial.

Ele olhou para Shikamaru.

— Quem mais sabe disso?

— Ninguém. Ainda. Mas precisamos ser rápidos.

Neji olhou para fora da taverna. Se aquilo viesse à tona, o império poderia ruir antes mesmo da guerra começar.

E ele não permitiria isso.

(...)

No silêncio de um escritório iluminado apenas por velas, um homem passava os dedos pelo pergaminho idêntico ao que Neji encontrara.

Seus olhos eram afiados, sua expressão impenetrável.

Ele não era um traidor.

Não... Ele apenas sabia que os tempos estavam mudando.

Gaara era um governante forte, mas nem sempre os mais fortes eram os melhores para um império.

E a guerra se aproximava.

Ele dobrou o pergaminho, colocando-o dentro de um compartimento secreto. Havia um novo futuro se formando, e ele garantiria estar do lado certo quando o império mudasse.

(...)

Enquanto Gaara observa Ino indo embora de seus aposentos, seu olhar permanece nela por mais tempo do que deveria.

E então, a memória o atinge.

Ele se lembra de uma noite em sua juventude, quando ainda era apenas um príncipe moldado pelas mãos frias do conselho imperial.

Naquela época, ele não entendia o significado do desejo, do anseio.

Mas seu corpo se lembrava de uma sensação parecida — um vislumbre do impossível.

Houve uma vez uma concubina mais velha, uma mulher de olhos castanhos como deserto Saara, cabelos loiros e pele chara que o olhou sem medo. Seu nome era Tsunade Senju.

Ela não tentou seduzi-lo, não tentou bajulá-lo. Apenas sorriu — um sorriso calculado, misterioso, como se soubesse de segredos que ele ainda não havia descoberto sobre si mesmo.

E por um instante, ele quis saber o que significava aquele sorriso.

Ele se aproximou, jovem, inexperiente, mas sedento por respostas.

Ela não recuou.

— O poder é solitário, jovem senhor. — Sua voz foi um sussurro contra o silêncio da noite. — Mas às vezes... alguém aparece para testá-lo.

O olhar dela o queimou por dentro, mas antes que ele pudesse perguntar o que aquilo significava, ela desapareceu.

No dia seguinte, ele soube que a mulher havia sido enviada para outro harém, longe da capital.

Ele nunca mais a viu.

Mas a sensação ficou. A curiosidade. O desejo de entender.

O flashback desaparece, e Gaara pisca, voltando ao agora.

Ele percebe que está olhando para a porta por onde Ino saiu.

E ela também tinha sorrido para ele.

Diferente, mas igual. Um sorriso cheio de segredos.

E pela primeira vez em muito tempo, Gaara sente que está sendo testado novamente.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.