Reza uma lenda no continente de Deta que os deuses deixaram uma dádiva como prova de sua misericórdia para com os mortais que habitavam aquele mundo. Duzentos anos atrás, uma devastadora guerra entre os três reinos que formavam aquele continente, motivada pela ganância de seus reis, sedentos por domínio e poder, mergulhou aquele lugar no caos total. Diante de tão grave situação, os deuses se viram obrigados a interferir no conflito e evitar a destruição total para a qual aquele lugar estava sendo conduzido.

Um mensageiro chamado Lewod, enviado pelos deuses, fez um acordo com os reinos de Garon, Cresth e Neppor, representados por seus respectivos monarcas. Estes, embora respeitassem o mensageiro, manifestaram indignação por haver interferência divina. Entretanto, foi deixado claro que a guerra estava fazendo o continente de Deta caminhar a passos largos para um apocalipse total, devido à poderosa magia que os magos dos três reinos invocavam, magia esta que alimentou o espírito maligno responsável por instigar aquele conflito.

Esse espírito maligno, conjurado por um deus caído chamado Mundar, tomou a forma de um grande dragão negro, que começou a queimar várias cidades e vilarejos dos três reinos. Diante disso, o mensageiro propôs o fim do confronto e que os três se aliassem para derrotar aquela ameaça ainda maior.

Valgol, o grande dragão negro, era a ameaça que deveria ser combatida... Ou aconteceria de fato uma grande hecatombe.

Os três reis cederam após uma exaustiva negociação, deixando finalmente suas diferenças de lado. O mensageiro dos deuses conseguira fazê-los enxergar que a guerra entre eles só deixava a criatura horrenda mais e mais poderosa, e que inocentes pagavam caro pelas ambições mesquinhas de seus governantes. Com isso, Garon, Cresth e Neppor uniram suas forças para vencer aquela criatura.

Após um combate intenso, Valgol foi derrotado pelos três reis, que lideraram seus cavaleiros e seus magos para a batalha definitiva. E os três magos receberam do mensageiro dos deuses a Rosa do Caos, uma raríssima flor dourada que deu-lhes grande poder para selar o dragão negro e o deus caído, cujos nomes jamais deveriam ser pronunciados novamente.

Os deuses deixaram uma mensagem aos mortais, de que jamais deveriam voltar a entrar em guerra, ou talvez Deta não resistisse a outro confronto de tamanho porte. Seria a única vez que interfeririam nos conflitos dos mortais, pois cabia aos mesmos fazerem todo o possível para não chegarem novamente a tal ponto.

Deveriam estar fortes, pois o selo, embora poderoso, poderia se romper caso o desejo por sangue derramado voltasse a ter níveis tão exacerbados quanto naquela época. E era preciso ainda mais cautela, visto que a Rosa do Caos só voltaria a desabrochar dentro de dois séculos.

*

― Milady? – uma voz feminina, vinda de uma mulher de meia-idade, chamava-lhe a atenção. Milady?

Nenhuma resposta... A menos que um ronco ecoando pela ampla sala na qual ficava a biblioteca repleta de livros e pergaminhos fosse considerada como tal. O autor – na verdade, a autora – daquele sonoro ronco era uma jovem de dezoito anos, com cabelos negros ondulados e pele levemente acobreada. Aparentemente, ela estava dormindo fazia algum tempo, o que irritava sua tutora e a fazia bufar de indignação.

Não era a primeira vez que a jovem fazia isso e, ao que tudo indicava, poderia não ser a última. Toda vez que havia uma festividade no castelo, no dia seguinte ela estava em um nível insuportável de preguiça e tédio, especialmente nas lições de História do reino de Neppor e nas aulas de etiqueta.

Educar aquela jovem dama não era nada fácil, dada a sua personalidade impetuosa, que se acentuava cada vez mais com o passar dos anos. Mas, ainda assim, ela não se curvaria à única herdeira da família. Sua missão era fazer com que ela fosse versada em conhecimentos gerais e em como se portar como uma dama. Não que ela chegasse a enfiar o dedo no nariz em público ou falasse impropérios na frente de outras pessoas, mas seu comportamento não era como o das outras damas de famílias importantes.

Ela possuía certos comportamentos considerados meio masculinos, provavelmente por influência de seu pai, que fizera questão de estar presente o máximo possível na educação da filha. Ficara viúvo tão logo a jovem nascera e recusou-se a contrair um novo matrimônio, ficando assim sua filha como sua única herdeira. Por consequência, ele ensinava-lhe secretamente a esgrimir e a montar estratégias, bem como no tocante à administração de todas as coisas referentes à família.

Mas ainda assim, ela não deveria agir da forma que agia, era uma dama e já tivera dois noivados fracassados. Ambos terminaram por desistência dos pretendentes, que não conseguiam lidar com seu temperamento. Era vergonhoso o nome da família estar na boca até da plebe por conta da herdeira de gênio difícil, responsável por tantos mexericos.

Iria fazê-la se comportar como uma dama, custe o que custar!

― LADY ABBIE VAUGHAN, ACORDE!

Abbie esfregou os olhos e encarou preguiçosamente sua tutora:

― A senhora poderia fazer umas aulas menos enfadonhas, está sempre repetindo várias vezes o mesmo tema... Eu já conheço essa lenda da Rosa do Caos, do dragão e do deus caído cujo nome não pode ser pronunciado. Para que falar a cada ano a respeito, mas com outras palavras? É só uma lenda, e eu deveria estar aprendendo a administrar melhor os assuntos da família, além de ajudar meu pai a defender nossas terras de uma eventual guerra.

― Na verdade, deveria aprender a se portar como uma dama apta para o casamento, deveria se ater aos deveres domésticos. A administração fica a cargo de quem vier a ser seu marido. Às mulheres cabe o papel que lhes foi dado, Milady.

― Sra. Merrick, eu estou me esforçando o máximo que posso em ser uma dama perfeita.

― É mesmo? Pois não parece.

― Eu não sou obrigada a ficar aqui para ouvir seus sermões. – Abbie se levantou da cadeira onde estava sentada. – Podemos dar por encerradas as lições de hoje.

Antes que a Sra. Merrick – uma mulher de cerca de quarenta e cinco anos, alta e esguia, e cabelos negros lisos presos num coque austero, assim como os traços de seu rosto – protestasse, a jovem Vaughan caminhou apressadamente para o pátio. Sabia que Grace Merrick iria mais uma vez reportar seu comportamento rebelde ao pai, Lorde Arwel Vaughan, e mais uma vez não daria em nada.

O Senhor do Vale da Prata não era do tipo que dava atenção a qualquer reclamaçãozinha da tutora que designara a sua filha. Ela estava ali para versar a jovem Abbie em conhecimentos gerais, não para transformá-la em uma noiva de um prometido que inexistia. Pelo menos, ainda não, depois de duas tentativas fracassadas de noivado.

O homem alto, de pele acobreada, cabelos curtos e encaracolados e olhos castanhos decidira dar um tempo antes de procurar outro pretendente para a filha. Ela precisava de um pouco de liberdade, por isso não a chamara enquanto montava em um cavalo e seguia para a cidade logo abaixo de onde moravam.

Não se preocupava, pois conhecia-a o suficiente para saber que ela dificilmente teria problemas naquela área. Havia quem a defendesse quando ela não conseguisse fazê-lo.

*

O Vale da Prata era uma região que há algum tempo já deixara de justificar o nome que tinha. Até dois séculos atrás, possuía várias minas de prata que eram o orgulho de todo o reino de Neppor. Com o passar dos anos, as minas foram se esgotando e o Vale precisou se apoiar em outras atividades para não colapsar economicamente. A principal base passou a ser o comércio não só da prata das poucas minas remanescentes em atividade, como também englobava a forja de aço para espadas. E, em meio a isso, era forte a presença de tavernas.

Em uma dessas tavernas, estava um homem de estatura mediana, pele clara levemente bronzeada, cabelos ruivos presos em um rabo-de-cavalo e olhos verdes. Seu rosto exibia um ar compenetrado enquanto bebia o conteúdo da caneca que recebera. Estava descansando de sua jornada e gostava de observar as peculiaridades de cada local que visitava ou revisitava.

Era a primeira vez que estava naquelas paragens. Nunca passara pelo Vale da Prata, o qual não lhe parecia tão atraente ou pitoresco... Embora tivesse pistas de que não fora sempre assim. Era como se buscasse por um novo auge após perder o anterior.

Ouviu um barulho de confusão vindo do lado de fora. Assim como todos da taverna, correu até a entrada para saber do que se tratava e se deparou com um homem robusto tentando intimidar uma jovem.

― Ora, ora... O que uma coisinha delicada como você está fazendo aqui?

A jovem havia acabado de descer de seu cavalo. Vestia uma capa por cima de seu vestido e aparentava não temer o homem, que prosseguiu:

― Aqui não é lugar para garotas como você. Deveria estar em casa fazendo suas obrigações.

― E se eu não quiser?

― Mostrarei por que esta área não é lugar para menininhas.

A jovem revirou os olhos com expressão entediada:

― Eu venho aqui para poder dar uma volta e espairecer e você me aparece com o mesmo discurso de sempre. Será que não aprende que eu não me importo com as suas bobagens e nem com as suas ameaças vazias?

― Deveria se importar – um sorriso com dentes faltantes surgiu em meio à barba cerrada e desgrenhada, enquanto meia dúzia de homens tão sujos e maltrapilhos como ele a cercavam. – Pois aqui não é lugar para uma menininha como Milady.

― Se sabe que sou uma dama, então deveria me deixar em paz.

― E deixar de conseguir um resgate polpudo vindo do Lorde Vaughan? Sem chance, garota!

Os homens que cercavam a jovem Lady Vaughan avançaram sobre ela, que se esquivou graciosamente de cada ataque, como um espadachim faria em um duelo. Entretanto, um deles se aproximou tentando agarrá-la, mas em resposta, recebeu um corte na mão. Abbie tinha consigo uma adaga sem a qual nunca saía para canto algum. Não era tão raro uma mulher portar algo semelhante, mas era bastante incomum que houvesse aquele tipo de reação.

O que os forasteiros não sabiam é que mulheres não tinham muita segurança ao andar por aquelas bandas, pois era bastante comum haver relatos de mulheres molestadas... E a jovem Lady Vaughan não pretendia ser mais uma vítima, tampouco limitar seu espírito livre.

Quando os outros homens avançaram contra Abbie, alguém entrou na sua frente e derrubou todos com um único golpe de espada. Era um homem ruivo que, ao ver os outros caírem, continuou em posição de combate para uma eventual reação, a qual não ocorreu. Não ocorrera a reação dos homens, mas sim a da dama:

― Por que você se intrometeu? Eu tinha a situação sob controle!

― Você é uma dama, não acho que daria conta de enfrentar meia dúzia de homens... Ainda mais com uma adaguinha dessas!

― Não menospreze minha adaga, ela vale mais do que a sua espada, tenho certeza!

Num movimento rápido, o ruivo tirou a lâmina das mãos dela, observando-a com atenção.

― É. Muito bonita e bem afiada. Mas ainda assim prefiro minha espada. Ela é meio velha, mas me ajuda nas minhas andanças para encontrar um tesouro.

― E que tipo de tesouro é esse?

― Um tesouro que evite uma nova tragédia.

― Então você acredita em lendas? – Abbie perguntou com algo de desdém enquanto caminhava para montar em seu cavalo.

― E Milady não? – o andarilho espadachim deu um sorriso divertido. – Olha, há coisas ditas nas lendas que podem ser ou ter sido reais. Não é bom ser tão cética.

― Antes ser cética do que crédulo demais. Até parece que um dragão maligno vai mesmo despertar para trazer caos e destruição.

*

No meio da madrugada, um som de grandes explosões ecoou de tal modo que era impossível alguém continuar dormindo. Abbie se levantou de um salto e correu para a direção de onde vinha aquele barulho. Tudo o que viu foi um clarão avermelhado de labaredas se espalhando por tudo. Foi quando uma rajada de fogo atingiu de forma certeira o castelo, fazendo com que a correria aumentasse assustadoramente, assim como a gritaria e o pânico.

Foi quando viu o que lhe parecia inacreditável.

Valgol.

O dragão negro da lenda da Rosa do Caos. A criatura que foi despertada pelo deus caído, cujo nome não era mencionado havia duzentos anos.

― Então você acredita em lendas? – Abbie perguntou com algo de desdém enquanto caminhava para montar em seu cavalo.

― E Milady não? – o andarilho espadachim deu um sorriso divertido. – Olha, há coisas ditas nas lendas que podem ser ou ter sido reais. Não é bom ser tão cética.

― Antes ser cética do que crédulo demais. Até parece que um dragão maligno vai mesmo despertar para trazer caos e destruição.

Sim, um dragão maligno realmente despertara... E estava destruindo seu lar!

Odiava admitir, mas o andarilho da véspera estava certo e ela fora cética demais... O que significava que sim, as lendas poderiam ser reais! E aquela parte da lenda agora, além de fazer arder aquele lugar com suas labaredas, usava sua cauda para destruir tudo.

― ABBIE! – era a voz de Arwel. – POR AQUI! VENHA POR AQUI!

A jovem Vaughan correu para encontrar seu pai, mas tudo o que sentiu foi uma pancada muito forte, que a fez voar para a direção contrária. Tudo o que sentiu foi suas costas e sua cabeça colidindo contra uma das grossas paredes externas do castelo, feitas de pedra. Depois da dor, sua visão rapidamente se desfocou e escureceu, para em seguida perder por completo os sentidos.

*

Os olhos de Abbie se abriram lentamente, enquanto seu rosto se contorcia em uma leve careta de dor. Ainda se sentia bastante dolorida por conta do impacto que sofrera ao ser arremessada contra uma parede grossa como aquela, mas isso denunciava que pelo menos estava viva. Viva, mas não fazia a menor ideia de onde estava, pois não reconhecia o lugar onde acordara. Ao que tudo indicava, estava em uma tenda.

Como ela fora parar lá?

― Acordou bem na hora. – uma voz masculina dizia enquanto adentrava a tenda. – Trouxe algo para Milady se alimentar.

Reconheceu o homem ruivo da véspera e encarou-o interrogativamente. Com isso, o dono daquela simples tenda respondeu àquela pergunta silenciosa:

― Eu a encontrei desacordada perto das ruínas do castelo. – suspirou pesaroso. – Infelizmente, não sobrou nada e parece que Milady foi a única sobrevivente... Pelo menos foi a única pessoa viva em meio a alguns cadáveres.

Abbie sentia dentro de si uma grande dor, como se tudo houvesse sido arrancado de forma violenta e repentina. Seu coração parecia sangrar após relembrar aquelas cenas de terror vivenciadas tão de perto. Teria realmente perdido todos os que viviam consigo?

Teria perdido principalmente seu pai e ficado praticamente sozinha e sem um lar para onde voltar?

― Milady – o ruivo lhe ofereceu um pouco de chá. – Beba. Isso vai te ajudar.

― Pode me chamar apenas de Abbie. Se perdi tudo, como você diz, o título não tem qualquer sentido.

― Nome fácil de lembrar. Meu nome é Taran.

― Taran, certo? – Abbie sorveu um pouco do chá quente e, de certo modo, o sabor parecia reconfortante. – Como você me encontrou?

― Aquele dragão não tinha como passar despercebido, não acha? – Taran também se serviu do mesmo chá enquanto repartia um pão amanhecido com a jovem. – Achei que conseguiria ajudar alguém a escapar, mas infelizmente cheguei um bocado tarde.

― Estava atrás daquele dragão?

― Mais ou menos. Você já ouviu a lenda da Rosa do Caos?

― Minha tutora me contava todos os anos a mesma lenda... E agora eu percebo que não deveria menosprezar tanto as lendas como vinha fazendo.

― Culpar-se por isso não vai adiantar nada. E eu diria que duvidar é até algo natural, de certo modo. Nós temos a tendência de acreditar somente naquilo que é visível e palpável. Mas sobre o dragão, eu não estava necessariamente atrás dele. Valgol é poderoso demais para ser enfrentado por uma única pessoa... E Mundar é quem deve ser selado novamente, antes que conclua sua vingança eliminando os outros dois magos, descendentes daqueles que o selaram dois séculos atrás.

― “Outros dois”? E o terceiro?

― O terceiro sou eu. Taran Seagha, descendente de Hansel Seagha, o mago do reino de Neppor que ajudou a derrotá-los. Estou em busca da Rosa do Caos para novamente selá-los!

*

Abbie optou por seguir Taran em sua jornada, por ele ter-lhe salvo a vida. Embora tivesse motivos de sobra para se lamentar de suas perdas, a jovem Vaughan não queria se deixar abater. Pensava em, de algum modo, contribuir para que a busca do Seagha pela Rosa do Caos fosse bem-sucedida e desejava que mais ninguém passasse pela dolorosa perda pela qual passara. Antes de seguirem caminho, os dois regressaram às ruínas do castelo no Vale da Prata. Todas as esperanças que tinha de que pelo menos seu pai, Lorde Arwel Vaughan, estivesse vivo, viraram cinzas como grande parte do castelo onde vivia. Ela lamentara a morte do pai e, ajudada pelo andarilho, sepultou-o para que ao menos seu cadáver repousasse de forma digna.

Deixaram o Vale da Prata e seguiram até onde estaria a Rosa do Caos. Segundo Taran, era em uma caverna que se localizava na fronteira entre os reinos de Neppor, Garon e Cresth.

Passaram por vários lugares que haviam sido atingidos por um rastro de destruição, enquanto o rei continuava relutante em acreditar no ressurgimento de Mundar e Valgol. Era de conhecimento geral que o monarca era um grande cético e covarde, que não se importava com outras coisas a não ser com a sua vida de libertino e se divertir com as intrigas palacianas.

Os dois percorreram várias paisagens, enfrentando ladrões, intempéries e outros percalços, até chegarem à chamada “Tríplice Fronteira”. Havia, sim, algumas cavernas no local e Taran não possuía nenhuma informação precisa de que caverna abrigava a tal Rosa do Caos. Foi preciso cautela para explorar cada entrada, até encontrar a direção para ela.

Abbie, desde que partira do Vale da Prata, passara a usar uma muda de roupas que Taran trazia consigo. Sua camisola não era a melhor indumentária para longos e longos dias de andanças, e foi preciso que sua roupa se rasgasse ao se enroscar em um galho seco para que ela se convencesse de que teria que usar outra roupa. O ruivo sempre se mostrara bastante respeitoso para com a jovem, ambos decidiram se focar na busca pela Rosa do Caos e evitar qualquer tipo de envolvimento sentimental, o que evitava algumas situações potencialmente íntimas.

Após uma longa e cautelosa caminhada, os dois avistaram uma luz dourada. Prosseguiram até entrarem em uma galeria bastante espaçosa, onde encontraram uma roseira. Nela, havia um botão prestes a florescer. E, diante dela, uma fumaça negra surgiu, formando uma silhueta humana, que se solidificou na forma de um homem de armadura negra, pele pálida, cabelos platinados e olhos penetrantes na cor azul-claro.

― Para ter acesso a esta flor, terá que passar por cima do meu cadáver... E não creio que estejam em condições de fazê-lo.

― E quem é você para nos subestimar? – Abbie sorriu de forma desafiadora. – Enfrentamos vários ladrões e toda sorte de foras-da-lei para vir até aqui. Não será um homem de armadura que vai nos deter, e...

A jovem sentiu lhe taparem a boca. Era Taran, que tinha uma expressão bastante apreensiva, aparentando saber o que ocorria. E, enquanto essa cena acontecia, mais dois homens chegaram, junto a seus respectivos companheiros de jornada, tal como o ruivo lhe contara. Eram os magos dos reinos de Garon e Cresth.

― Ora essa... – o homem de armadura negra sorriu sarcasticamente. – Vocês realmente pretendem repetir o que seus antepassados fizeram duzentos anos atrás? Desta vez eu, Mundar, não deixarei ninguém entrar no meu caminho! Ninguém vai atrapalhar meus planos de moldar este mundo à minha imagem e semelhança!

Abbie arregalou os olhos, pois se lembrara da lenda! Estavam todos diante de Mundar, o deus caído, que se interpunha entre eles e a Rosa do Caos.

― Abbie – Taran murmurou em seu ouvido, de tal modo que somente ela ouvisse. – Na nossa jornada, você mostrou ser muito ágil. Você irá, junto com Anton e Thure, colher a Rosa do Caos já aberta. Não falta muito para isso acontecer. Dorin, Magnar e eu distrairemos Mundar. Posso contar com você?

A jovem Vaughan assentiu afirmativamente enquanto Taran sacava sua espada. Esse era o sinal para que ela fosse ao encontro dos outros dois homens para poder colocar o plano em prática. A rosa começou a desabrochar, emitindo um brilho tão dourado quanto suas pétalas delicadas, porém firmes. Diante de Abbie, Anton e Thure, surgiram três sombras que assumiram a forma de três homens, que atacaram o trio.

Taran passou seu dedo indicador pela lâmina da espada que carregava consigo, invocando um feitiço para poder golpear Mundar. O mesmo ritual foi executado por Dorin, que carregava consigo uma lança, e Magnar, que portava uma besta devidamente carregada com flechas. Os três magos estavam preparados desde sempre para poder lidar com situações de batalha, sobretudo contra seres sobrenaturais, como era o caso do adversário, um deus caído.

Anton e Thure estavam armados com espadas e atacaram os dois soldados das trevas, colidindo lâminas contra lâminas. Abbie, com sua adaga, buscava bloquear a espada inimiga ao mesmo tempo em que se esquivava das investidas inimigas. Não era fácil, mas com o que aprendera com o pai para se defender e o que Taran lhe ensinara do básico para ter o mínimo de noção para lutar, conseguia tirar o máximo de seu corpo esguio.

Magnar deu o primeiro ataque com a lança, da qual Mundar se esquivou sem muita dificuldade. Mesmo assim, o mago de Garon girou-a e tentou novamente perfurar o deus caído. Enquanto isso ocorria, Dorin disparou um tiro com sua besta, sem muito sucesso. O alvo se mexia bastante com o ataque, mas servia para distrair o inimigo. Mais um disparo, e Mundar se desviou de tal modo que Taran buscou aproveitar sua distração para desferir um golpe, bloqueado pela espada do homem de preto.

Abbie, enquanto isso, alcançou a roseira, cuja flor concluía seu desabrochar. Usou a adaga para um rápido golpe, que a separou do caule. Precisava correr e alcançar seu companheiro de jornada, para que ele e os outros dois magos pudessem invocar a magia de selamento. E não só isso, pois de certa forma vingaria todos os que foram mortos por Mundar e seu dragão Valgol. Thure e Anton conseguiram distrair os adversários enquanto ela conseguia chegar até Taran, mas o deus caído percebeu a movimentação e agarrou-lhe fortemente pelo pescoço.

― Ora, ora... Para uma mulher, você tem muita coragem!

Mesmo sem conseguir falar, a jovem sorriu confiante, pois jogara a Rosa do Caos para que seus dois companheiros de luta pegassem. Thure conseguiu pegar e jogou para Anton, que conseguiu entregar para Taran. Dorin e Magnar já correram até o ruivo e os três seguravam a Rosa do Caos recém-desabrochada enquanto proferiam um encantamento no idioma arcaico. A rosa se iluminou fortemente, sua poderosa luz dourada tomou todo o ambiente e Mundar não tivera tempo de reagir. No mesmo instante, o deus caído virava pó e certamente o dragão Valgol também teria o mesmo destino, visto que um era ligado misticamente ao outro.

Caída no chão e recuperando o fôlego, Abbie viu a Rosa do Caos se despedaçando e um redemoinho varrendo o pó negro, junto com as pétalas douradas, para o alto, onde sumiram...

... Tal como a lenda relatava que ocorrera dois séculos antes. Lenda essa que, se não visse com os próprios olhos, jamais acreditaria.

Como Taran lhe dissera quando se conheceram, havia coisas ditas nas lendas que podiam ser ou ter sido reais.

Não era bom ser totalmente cética.

Notas finais
Obrigada a quem leu, espero que tenham gostado! ;)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!