Aburame Shino era o rei da "cara de paisagem". Aos vinte e sete anos, ele levava a vida no modo estoico, dando aulas para o ensino médio e mantendo aquele ar misterioso que deixava os outros professores sem saber se ele estava meditando ou só entediado. Mas a verdade é que, por trás das golas altas e do jeito fechado, Shino era o cara mais dedicado do mundo; seus alunos sabiam que podiam contar com ele para qualquer coisa, mesmo que o "obrigado" dele viesse em forma de um silêncio confortável.

Já Kiba era o exato oposto: se Shino era o silêncio, o Inuzuka era o volume no máximo. Aos vinte e seis anos, ele era a alma do canil da Polícia Militar de Konoha. Entre adestrar cães com a Dona Tsume e apostar corrida com Akamaru, o dia dele era um caos barulhento de risadas e latidos. No batalhão, todo mundo conhecia o brilho dele; Kiba era aquele tipo de pessoa apaixonante que não pedia licença para entrar na sua vida, ele simplesmente chegava, fazia uma piada, dava um sorriso e pronto, você já caía de amores.

Há um ano e meio, após quase dez anos de namoro, essas duas forças opostas da natureza encontraram um equilíbrio perfeito, finalmente morando juntas. Amigos e familiares os definiriam como um casal apaixonado e inspirador, onde o entusiasmo de Kiba puxava Shino para o mundo, e a estabilidade de Shino era o porto seguro para Kiba ancorar.

Toda sexta-feira esses dois tinham como rotina um ritual sagrado. Kiba, juntamente com seu fiel amigo canino, Akamaru, saía do trabalho e, antes de seguir para a casinha que dividia com Shino, parava na esquina do quartel da PM. Ali, um senhorzinho carismático com seu carrinho de rosas, as mais bonitas da região nas palavras do senhor de idade avançada, vendia suas beldades.

— Rapazes… —Como era costume, com um sorrisão e muita simpatia, o idoso cumprimentava cão e tutor e logo em seguida propunha — E o mimo do maridão, Kiba-kun, vamos levar hoje?

Bom de lábia, o idosinho balançava delicadamente uma rosa vermelha no ar e, sem hesitar em ceder à tentação, Kiba, já tirando a carteira do bolso, respondia animado:

— Só se for agora! De-me a rosa mais bonita que o senhor tiver nesse carrinho para o meu Shino!

— Garoto esperto, tem que agradar mesmo o digníssimo! Aqui sua rosa, a mais bela para o seu Shinão!

De posse da rosa, assim que chegava em casa, Kiba deixava para trás um exausto Akamaru, que praticamente desmaiava no genkan e seguia ali até segunda ordem; já ele, cheio de energia mesmo depois de um turno estressante o no canil, após tirar os sapatos, calçava suas surippas e ia ligeiro ao encontro do maridão, que quase sempre estava lendo um livro ou corrigindo artigos no sofá. Com uma delicadeza que contrastava com sua natureza expansiva, o adestrador depositava um selinho na rosa que trazia em sua destra antes de entregá-la ao grande amor da sua vida.

— Para o melhor marido de Konohagakure! — ele sempre dizia com a voz retumbante tão característica; só então o Inuzuka beijava os lábios de Shino.

O Aburame, homem de poucas reações externas, sempre recebia a flor com um aceno leve e um murmúrio de agradecimento, mas a sensação de que seu coração aquecia ao receber aquele mimo era algo que Kiba notava em sua aura. A rosa sempre ia para um pequeno vaso de cerâmica ao lado do porta-retratos na estante da sala, onde estava a foto de quando os dois oficializaram a união estável, sob as bênçãos dos seus familiares e amigos.

Todavia, naquela sexta-feira, a rotina foi quebrada.

Kiba chegou sozinho e, com as chaves na mão, foi até o sofá, onde Shino corrigia alguns exercícios e beijou o marido com o entusiasmo rotineiro. Fazendo questão de dizer em alto e bom som que estava varado de fome. O Inuzuka foi direto para a cozinha um segundo depois, no intuito de preparar um delicioso lanchinho para o casal iniciar o final de semana como os dois mereciam, contudo… Shino notou. Não havia flor, nem selinho prévio na pétala. Não havia nada.

A falta da rosa era como a ausência de um ruído constante, e o silêncio era ensurdecedor para os parâmetros do Aburame. O semblante dele permaneceu inalterado, o estoico professor não reclamaria de um mimo esquecido, mas, por dentro, uma minúscula semente de dúvida foi plantada. Ele pensou: talvez seu esposo estivesse apenas estressado com coisas do trabalho. No entanto, o sábado teve seu início e fim, o domingo ocorreu com tranquilidade e outra semana começou; com ela, uma nova sexta-feira chegou, e depois dela veio outra, e outras…

A ausência da rosa tornou-se um padrão. Uma, duas, três, quatro semanas. O pequeno vaso de cerâmica permaneceu vazio, exceto pela poeira e pela atípica expectativa latente no coração de Aburame Shino.

Kiba ainda era o mesmo: risonho, carinhoso, sempre puxando Shino para abraços e beijos. O amor era palpável nos gestos e no dia a dia. Eles cozinhavam juntos, preparavam lanchinhos e faziam massagem nos pés um do outro após longos e exaustivos dias de trabalho. Aos finais de semana, o casal tirava um tempo para dar uma volta no parque arborizado com Akamaru. Tudo estava igual, e todos ainda os viam como um casal apaixonado e inspirador.

Mas, Shino não conseguia evitar que a dúvida crescesse. Para ele, o amor não era somente a ação vibrante e presente do dia a dia; o amor estava também na constância e nos pequenos rituais diários. A rosa era a prova semanal de que seu esposo pensava nele de forma especial, e a ausência dela, para sua mente lógica, era uma variável estranha na equação perfeita de seu relacionamento.

Shino ficou perturbado!

Será que Kiba estava chateado com algo? Será que ele havia parado de pensar nele no meio do dia?

Shino tentava racionalizar, mas as emoções que invadiam seu corpo e sua mente eram mais fortes que a razão com a qual sempre contava em horas assim. As coisas não podiam continuar desse jeito; então, quase dois meses depois, em uma noite fria, ele tomou uma decisão.

O casal estava aninhado no sofá, assistindo a um documentário sobre insetos, sob um cobertor pesado. O momento era de paz, e o professor sentiu que precisava dissolver a tensão que carregava consigo há tempos. Ele se virou para Kiba, que estava com a cabeça em seu ombro, e perguntou em seu tom sempre calmo, mas com uma leve hesitação:

— Kiba…

— Hum? — Kiba estava sonolento, afinal aquela programação havia sido escolha do Aburame, não dele, que preferia filmes de ação.

— Por que você não me traz mais uma rosa às sextas-feiras? — O Aburame não fez rodeios.

Kiba pensou um pouco. Ele parecia confuso:

— Sextas-feiras? Rosa? Que rosa, Shino?

O coração de Shino apertou-se com a naturalidade presente no tom do outro. Ele teve que se explicar:

— Desde que decidimos morar juntos, toda sexta-feira você me trazia uma rosa. Você dava um selinho nela e só depois me beijava. Isso parou há algumas semanas.

Kiba demorou alguns segundos para processar a informação e, então, seu rosto se iluminou. Ele riu, aquele som alto e sincero que Shino tanto amava.

— Ah, isso! Porra, Shino. É que o velhinho que vendia as flores perto do quartel se aposentou e foi morar em Sunagakure pra ficar mais perto dos filhos e netos. Ele era o "culpado" pelas flores que eu trazia toda sexta, pois sempre me incentivava a trazê-las para te dar.

Kiba explicou com uma simplicidade tão desarmante que fez o coração de Shino encher-se de paz.

— Eu passei por lá um dia e só tinha uma plaquinha informando.

— Entendo. — O alívio que emocionou o professor foi avassalador, embora Kiba nem tenha percebido.

Então, não era falta de amor, nem tédio ou descontentamento com o relacionamento deles. Era somente logística, a mera ausência de um vendedor de rua. Kiba era tão distraído com o mundano quanto apaixonado por Shino. o Inuzuka não precisava daquele ritual para sentir ou demonstrar seu amor, tanto que mal havia notado que o Aburame sentia falta dele; apenas o seguia por causa de uma sugestão do florista que certamente queria apenas lhe arrancar alguns tostões.

Um sorriso genuíno, um raro e belo evento surgiu no rosto de Shino. Com gentileza, ele afastou uma mecha de cabelo na testa de Kiba. Todo o aperto que crescera por semanas em seu peito se dissipou em uma lufada de ar; logo ele se inclinou e deixou um selinho lento e profundo na testa de seu esposo. Sem aviso prévio, ele murmurou após tal gesto:

— Eu te amo, Kiba.

Kiba, alheio aos pensamentos do Aburame até então respondeu de imediato: "Eu também te amo, meu marido!", antes de expressar toda a sua falsa indignação com a postura que o professor adotou em seguida:

—Ops! Que mãozinha sacana é essa...



Fim ( Ok, ainda não é o fim)




Nas semanas seguintes, a vida seguiu seu curso: a relação do adestrador e do professor seguia em perfeita harmonia. Às sextas-feiras voltaram a ser apenas noites de descanso, filmes e muito amor envolvido, sem o ritual da flor.

Quase três meses após a conversa sobre as rosas, Kiba encerrava um dia puxado no trabalho juntamente com Akamaru. Ao sair do canil, ele notou que a esquina estava animada. O velho com o carrinho das rosas não estava mais lá, mas, no seu lugar, havia uma barraca colorida e recém-montada, vendendo vasos de mini suculentas, ervas aromáticas e pequenos pacotes de charmosos doces artesanais. Curioso, ele se aproximou da barraquinha. A vendedora, uma jovem muito carismática, acenou para o Inuzuka. Kiba, sendo Kiba, não resistiu em parar, muito menos em retribuir o sorriso simpático.

— Boa tarde, quase boa noite! Posso ajudar?

— O que é isso? — Kiba apontou para um potinho com doces que não conseguia identificar, mas que o deixou com água na boca.

— Caramelos salgados, uma ótima opção para quem não é muito fã de doce. São ótimos para o final de semana!

A moça espetou um palitinho num dos docinhos que estava servindo para degustação numa bandeja e ofereceu a Kiba, que sorriu largo e pensou em voz alta.

— Nossa! Que delícia. Meu marido vai adorar isso!

O adestrador saboreou o doce, que, diga-se de passagem, era realmente delicioso. A vendedora, vendo por trás daquele olhar de esposo apaixonado uma mina de ouro prestes a ser explorada, sugeriu:

— Então por que não levar alguns para o maridão?— Ela lhe dirigiu uma piscadela marota.

—Será?

—Nada como adoçar a vida da pessoa que a gente ama com guloseimas, não é mesmo?

O bait era exatamente o tipo de incentivo externo que Kiba precisava. A ideia de mimar a pessoa amada não tinha preço e foi o clique que ele precisava para tirar a carteira do bolso da bermuda e soltar a grana. Sem pensar na rosa, no florista antigo ou sequer na coincidência do dia da semana, Kiba falou:

— Vou levar um kit mimo então! — disse ele, pegando um vasinho de suculenta, dois pacotinhos de ervas aromáticas e, além dos caramelos salgados, alguns docinhos artesanais que pareciam apetitosos.



******




— Tadaima! Cheguei, marido! — Kiba entrou como um furacão, todo empolgado com o tal "kit mimo" nas mãos.

Como já era de lei, Akamaru só teve forças para desabar no tapete da entrada, enquanto Kiba trocava os sapatos pelas surippas na maior pressa. Shino estava lá, do mesmo jeito de sempre: sofá, óculos na ponta do nariz e uma pilha de provas para corrigir. Ele deu aquela espiada por cima das lentes, tentando entender o brilho extra nos olhos do marido.

— Pra você. — Kiba nem esperou. Deu um beijo estalado na folha gordinha da suculenta e estendeu o vasinho. — Para o melhor marido de Konoha!

E antes que Shino pudesse processar o presente, o Inuzuka já estava emendando um beijão e jogando um pacote de doces no colo dele.

— Caramelos salgados! A moça da barraca disse que é perfeito pra quem não é muito chegado em açúcar, tipo você.

Shino, o cara da lógica, travou por um segundo. Ele olhou para a plantinha, depois para os doces e, por fim, para o rastro de energia que o Kiba deixou ao sair cantarolando em direção ao banho.

Sozinho na sala, Shino se permitiu um sorriso, aquele de quem aceita a derrota com prazer. A "equação" dele finalmente estava completa de novo. O objeto tinha mudado (saiu a rosa sensível, entrou a suculenta que sobrevive a tudo), mas a essência era a mesma. O "Fator X" (o florista antigo) tinha sido substituído pelo “Fator Y” (a uma jovem vendedora com bom papo) e a rotina estava de volta aos eixos.

Ele colocou a suculenta no lugar de honra, ao lado da foto do casamento, e provou um dos doces.

Kiba, pensou Shino, sentindo o gosto do caramelo, você é, com certeza, o cara mais desligado do mundo.

E enquanto mastigava, ele percebeu: o Kiba nem tinha notado que tinha acabado de criar um novo ritual. Mas tudo bem. Desde que houvesse alguém na porta do canil para lembrar aquele adestrador esquecido de lhe levar um agrado, o amor deles ia continuar ali, firme e forte, exatamente como aquela plantinha.



Agora sim: Fim


Notas finais
Espero que tenham gostado, em especial a dona Kaline. Feliz aniversário, mulher!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!