A Rosa de O'Brian
5 Capítulo V
— A partir de agora temos de providenciar todos os preparativos para o casório. Costureiras, decoradores, cozinheiros, e tudo o que mais precisar – Anunciou Helena, a nossa rainha.
Compartilhávamos um farto café da manhã. Na longa mesa retangular estavam Esdras, Helena e eu; a nossa volta os criados jaziam empalhados como estátuas e observavam-nos os movimentos, os gestos e as palavras. Helena guiou aos lábios finos a xícara de porcelana e depois serviu-se de alguns biscoitinhos esfarelentos que sempre jaziam à mesa por ordens suas e silenciou-se, olhando para um ponto qualquer na mesa, quiçá a aguardar comentários nossos.
Encontrava-se anormalmente apática. Os olhos escuros feito dois buracos negros pareciam mais fundos, como fosse engolir-nos a qualquer segundo. Enquanto eu a encarava com suave compadecimento, não me apercebi das palavras salientes que se desprenderam de meus lábios:
— Helena, estás bem? – E toquei suavemente sua mão ao lado da minha, porém logo a retirei, pois ela assustou-se ao meu toque.
— Me chame de vossa majestade. Eu ainda sou a rainha e não lhe dei liberdade para intimidades, apesar de vosso casório com meu filho ser... Em breve. – Finalizou com aparente desgosto
Esdras lançou-me um sorrateiro olhar de reprovação, fez um pigarro, sorriu torto nos lábios e virou-se à mãe.
— Como quiseres, minha querida mãe. Não sabe como comprazido estou com este momento – E olhou-me sorrindo com os lábios e os olhos
Minha tentativa de retribuir-lhe o sorriso fracassou, pois eu logo abaixei a vista e me ocupei em alimentar-me com algo, ainda que meu estômago rejeitasse uma migalha de pão. Meus olhos encontraram um céu acinzentado e tristonho quando encarei a vidraça alguns metros a frente. Ele mesclava-se entre duas partes; uma aclarada e suave e outra obscura, como o prenuncio de uma tempestade.
— Já sabes como será teu vestido? – A voz de Helena ressoou imperiosa, apesar de questionadora. – Quero dizer, como vais querer? Imagino que teu tio não...
— Sim, vossa majestade – Respondi em baixo tom, cortando-lhe a chance de desdenhar da má situação financeira minha e de meu tio. – Apenas estou em busca de uma costureira
— Não seja tonta. Você sabe que não tem condições para isso. Chamarei Madame Kirsch hoje mesmo pela tarde. Esteja em meus aposentos uma hora após o almoço
Maneei a cabeça em confirmação, presumindo já o quão enfadonho seria aturar uma costureira fútil, zombeteira e deveras falante. Madame Kirsch, uma senhora por volta dos quarenta anos e de olhos pequenos e abelhudos, era a costureira oficial da rainha.
— E você filho querido, o que irás fazer hoje? Amanhã, pela manhã mesmo, o senhor Henrich estará aqui para tirar-lhe as medidas também. Seja pontual e não me envergonhes com tua preguiça matinal
— Talvez herdei de meu pai, veja só, ele ainda dorme – Disse Esdras com reprovação – A propósito, por qual razão ele tanto exaltou-se no baile? Sabes?
Helena crispou os lábios. Esdras e eu aguardávamos ansiosos uma resposta, entretanto fomos, infelizmente interrompidos por um cavalheiro intruso e predileto do Rei; um em que nunca recordo-me o nome.
— Perdão vossa majestade, mas solicitaram-me que lhe entregasse esta carta – Disse o intruso infeliz, relampejando olhares furtivos sobre todos nós
Seus olhos cinzas me eram um pouco memoráveis, assim como a cabeleira loura penteada para trás.
— Uma carta? – E Helena sorriu num misto de surpresa com animosidade – Como faz tempo que não as recebo. Obrigada Daniel.
Com uma sutil reverência ele nos abandonou, tendo pousado novamente os olhos sobre mim.
— Não é ele que contigo realiza os treinos de cavalaria? – Indaguei Esdras, ao recordar-me que certa vez os vi digladiando pelos campos vastos do castelo.
— Sim, mas logo encerraremos.
— Porque? Se certa vez me confessou que aprendera diversas técnicas com este cavalheiro
— Isto não vem mais ao caso. Há muito eu já deveria ter encerrado estes treinos tolos – Retrucou suavemente aborrecido, fazendo gestos vagos com as mãos
Permaneci intrigada, inclusive porque odiava quando negavam-me a satisfação de minha curiosidade. Helena já lia absorta a carta entre as mãos. Decerto pela curiosidade latente não privou-nos deste seu momento, talvez, particular. Os olhos antes apagados ganharam certa vivacidade a medida que engoliam afoitos as linhas do papel.
— Antonieta está a caminho! – Exclamou alegremente alguns minutos depois, alternando os olhos afoitos sobre nós.
— Como? – Perguntou Esdras, descrente.
Ela sorriu outra vez, distraída da expressão descontente do filho. Eu por minha vez mantive-me neutra. A presença da irmã mais velha de meu noivo me era irrelevante.
— Não estás contente? Ela está vindo exatamente para o teu casório! Vamos, alegra-te!
— Muito me surpreende ela abdicar de todo seu conforto em Greta. Há anos Antonieta não pisa em Tanhai – Respondeu ele de lábios tortos – Decerto vem apenas para alfinetar-me
— Não digas isso. Ela vem para o teu casório, queres motivo melhor que este? Deverias gostar desta notícia, Antonieta nos faz uma grande falta
— Certamente falta ela não nos faz, você quer dizer. As contas do reinado eram altíssimas enquanto vivia conosco. Não venha com justificativas ao péssimo comportamento de minha irmã.
Se minutos atrás Esdras disponha-se a sorrir e responder afavelmente as questões da mãe, ele emburrara-se ao ponto de já preparar-se a uma retirada. Um tanto confusa porque a presença de minha cunhada lhe seria um estorvo, comentei a sorrir:
— Muito me agrada também. Estou ansiosa para conhecer Antonieta. Porque chateou-se, meu noivo?
Ele fitou-me pasmo, talvez pela tonalidade doce de minha voz ou por minha curiosidade em conhecer sua irmã.
— Porque ela não é bem-vinda nesta casa! – Respondeu entredentes, os olhos azuis chamuscando irritação.
— Quem não seria bem-vindo em meu castelo, Esdras? – A voz do rei fez-se ouvir a alguns poucos metros de distância.
Tal qual um diretor interrompe uma peça teatral para ralhar com os atores que congelam em suas respectivas posições, o mesmo ocorreu com todos nós – míseros subalternos de O’Brian. Porém, e talvez apavorados com a presença ímpar do rei, os criados logo retiraram-se, e feito estátuas, Esdras, a rainha e eu aguardamos a sua aproximação. Trouxe consigo um suave aroma de lavanda.
As pontas de meus dedos esfriaram, como o sangue não conseguisse mais arrastar-se por minhas veias ainda que meu coração afoito o bombeasse.
— Responda-me, quem não é bem-vindo em meu castelo? – Repetiu ele a questão.
— Antonieta está a caminho de Tanhai – Disse a Rainha, encarando a carta entre as mãos.
Inebriando-nos com seu aroma, o rei sentou a ponta da mesa pondo-se a se servir. Entre olhares furtivos observei olheiras fundas envolta de seus olhos, que hoje jaziam cabisbaixos. O cabelo sempre muito bem penteado jazia ligeiramente bagunçado, como ele não o penteasse a dias. Na face via-se algumas rugas acentuadas em torno da boca, dos olhos e do nariz. Carlos O’Brian é, de fato, um homem deveras bonito, isto nunca neguei; a tez alva como leite, desprovida de manchas e linhas de expressão o assemelhava a um mísero rapaz de vinte ou trinta anos, o que muito me era estranho, pois encontra-se por volta dos cinquenta. No entanto, naquela emudecida manhã, o rei parecera ter verdadeiramente envelhecido.
— A caminho de Tanhai? – Perguntou ele. Da rainha seus olhos deslocaram-se a mim.
—Exato. Vem para o casamento de Esdras. Confesso que fiquei muito feliz com esta notícia – Declarou ela, um sorriso tímido surgindo no canto dos lábios.
— E aumentar as contas de meu reino – Disse O’Brian descontente – A que dia ela chega? Diga aos criados para arrumar-lhe um cômodo.
— Pelo visto não sou o único desgostoso com a vinda de minha irmã. – Alfinetou Esdras.
Tão logo ele ergueu-se O’Brian lançou-o um olhar deveras abominável. Talvez com receio de possíveis sermões, Esdras tornou a sentar.
— Aonde pensas que vais? Não pense que vais sair imune daquela situação miserável que me fez passar no baile.
— Ora essa! Não venhas me culpar por teu descontrole. Agora deu para desregular do juízo?
O Rei riu com escárnio. Como espectadoras mudas, a rainha e eu assistíamos a mais um novo embate verbal.
— Não vês que me atrapalha a vida? Primeiramente traz uma serva para o meu castelo e com ela resolve-te casar sem minha concessão, e em segundo traz objetos desconhecidos sem também a minha concessão. Agora eu pergunto-te, acaso queres que eu te despoje do trono? Diga! A cada dia vejo que não passas de um moleque mimado pela tua mãe!
Nitidamente enojado do próprio filho, O’Brian o encarava avidamente. Seus lábios crispados soltaram um muxoxo de irritação. Ao nomear-me de serva, algo não inerente à minha condição social, minhas bochechas arderam dolorosamente, de modo que se um buraco abrisse abaixo de meus pés eu ali mergulharia. Dali em diante eu já supunha de antemão que O’Brian juntamente ao filho tornariam minha vida um inferno; o primeiro a humilhar-me nas melhores oportunidades e o outro a perseguir-me pelo ciúme doentio. O silêncio emudecido da rainha nunca me fora tão compreensível como agora.
— Não sou uma serva – Afirmei em baixo tom, atraindo-lhes a atenção
Helena encarou-me de olhos esbugalhados, tal como dissesse-me “Estás louca? Não deve-se responder ao Rei”. Já os dois homens volveram-se a mim.
— Não sou uma serva, vossa Majestade. Não me agrada que assim me chamem, pois, de fato, não o sou. Se desejas que eu me retire, assim o farei, mas não me nomeie como uma condição que não me é inerente. – Respondi com altivez, ainda que o receio de O’Brian humilhar-me novamente me fizesse tremer a voz.
— Como és ousada... – Disse ele, o canto dos lábios finos esticando-se no que parecia ser um riso de desdém – Agora responda-me, se não és uma serva, o que és afinal? Pois se não fosse ao tolo do Esdras e, claro, a mim, tu ias morrer na eterna pobreza de teu tio. Sabes, não é?
— Meu pai, por favor... – Esdras intrometeu-se
— Responda-me — O’Brian imperou impaciente
Apesar de não lhe dirigir o olhar, eu sentia o calor de seus olhos derreter-me vagarosamente o corpo. Se a coragem não me faltasse eu já teria cuspido em seu belo rosto.
— Não tens respostas? Então saia daqui sua serva imunda. Não esqueça de agradecer ao padre que salvou-te a pele.
Ergui-me bruscamente, a sentir os olhares dos demais a abrasar-me a pele. A tensão decerto costurou os lábios de Helena e de Esdras, os quais, por ventura, não mais respiravam. Meus passos ecoaram pesados sobre o chão decerto tão gélido quanto a alma do Rei. Gostaria muito que eles guiassem-me para deveras longe deste reinado, ou então para o fundo do rio que, sorrateiro, rondava toda a Tanhai em busca de novas vítimas. Enquanto afoita eu adentrava os diversos corredores do castelo em busca da saída ao jardim para que ninguém logo encontrasse-me, não me apercebi dos passos serenos que advinham de um dos corredores. Neste momento estanquei os passos quando um dos cavaleiros reais quase colidiu-se comigo na adjacência do corredor.
— Perdão, vossa Majestade – O ouvir dizer, curvando-se
— Não necessitas curvar-te.
O rosto do cavaleiro tomou um ar de dúvida. As sobrancelhas louras, sobre os olhos tão claros quanto uma safira, estreitaram suavemente. Outra vez ele soou-me familiar.
Mas logo as sobrancelhas louras relaxaram e junto aos lábios seus olhos sorriram timidamente para mim.
— Curvarei-me sempre que necessário, vossa Majestade
E antes que eu pudesse retrucá-lo com queixas, adiantou-se com os olhos compenetrados em mim:
— Ocorreu algo em que eu possa ajudar?
Um tanto desentendida da questão ou apenas suspeitando de sua cordialidade, o respondi com rudez.
— Nada que deva ser de seu conhecimento. Dê-me a licença
Uma brisa fresca perpassou por nós neste momento, trazendo consigo o suave aroma de hortelã do cavaleiro a frente. Em minha aspereza matinal, o abandonei entre passadas largas. Aqueles olhos acinzentados, ora gentis, ora abelhudos, me eram familiares, reconheço, mas onde eu já os teria admirado para além do dia do baile ao fazer escolta para a família real e nos treinos junto a Esdras?
Eu encontrava-me defronte ao vasto jardim do castelo após sucessivas passadas em busca da porta de acesso à saída. O rio espreguiçava-se metros à frente. A correnteza seguia calma e fluida, indo desembocar ao longe, em algum lugar fora do meu campo de visão. Infelizmente, naquela manhã, ainda que o sol nos recebesse robusto, a brisa era fresca, mas espinhosa, empurrando-me de volta ao calor do castelo. No entanto, não retornei ao covil, e enquanto caminhava em direção ao rio, a voz de meu tio Lucius ressoou ao longe em meus pensamentos:
— Temos de partir, filha
— Partir? Porquê?
Sentado ante mim, ele pousou a mão sobre a testa vincada
— Não temos mais condições de permanecer aqui em Greta
Ao lado da porta, sob uma sombra cálida jaziam duas malas grandes. Indignada com uma partida tão abrupta, eu retruquei:
— O que queres dizer?
Lucius respirou fundo. De olhos perdidos em algum ponto qualquer do chão de madeira, disse:
— Estamos falidos
— Como? Mas, não entendo... – Balbuciei completamente desentendida, pois eu supunha que Lucius estava dando-se bem como auxiliador das plantações de alguns senhores feudais.
— É isso o que ouviu. Fui despedido do meu dever que há muito tempo nos sustenta. Vendi alguns itens valiosos e consegui um pouco de ouro, no entanto isto não é o suficiente. Além disso, contrai algumas dívidas... E... – Silenciou-se, buscando meu olhar – Temos de partir... – Disse por fim, conformado com o próprio azar.
— Dividas? Que história é essa? Não podemos largar tudo tão abruptamente. Sabes que também tenho meus deveres em Greta. Além disso, para onde vamos?
— Para Tanhai, a terra onde você nasceu
— Apenas nasci, não fui criada lá. Além do mais, do que adianta voltarmos se não temos mais familiares? É preferível nos mantermos aqui para assim tu te reestruturar meu tio
Ele volveu os olhos ao chão e eu sentei ao seu lado. Repousei minhas mãos sobre as suas, já calejadas em razão de tanto trabalhar em incontáveis terras de senhores feudais. Mas surpreendendo-me, Lucius agarrou-me fortemente as mãos e mergulhou fundo em meus olhos arregalados de susto, sacudindo a cabeça em negação.
— Tu não entendes. Nós temos que voltar, ainda hoje se possível! – Exclamou impaciente
— Mas porquê? Porque tamanha pressa? Podíamos permanecer em Greta até pelo menos o meu aniversário, que próximo já está... – Tentei mais uma vez, completamente desentendida de seu desespero.
Soltou minhas mãos, ergueu-se e resoluto, de costas para mim, disse por fim:
— O coche virá esta noite, estejas pronta.
Respirei fundo enquanto estas memórias infelizes me invadiam a mente sem permissão. Recordo-me que quanto mais eu protestava, mais Lucius estava convicto a partir. Compreendi suas devidas razões, no entanto uma mudança não solucionaria de imediato todos os nossos conflitos. Naquela mesma noite abandonei a cidade em que cresci. Com profundo pesar viajamos para Tanhai – uma terra desconhecida e repleta de lendas e contos. Eu estava deveras receosa de estarmos cometendo um grande erro, pois iniciar uma nova vida em uma cidade completamente desconhecida, pelo menos para mim, era uma tarefa lenta e árdua.
Já tínhamos de antemão um conhecimento superficial do rei O’Brian e suas práticas administrativas. Elogios a si não faltavam, especialmente porque muitos o consagraram como o salvador da maldição das bruxas Banshee, inclusive este era um dos contos taihenses que mais rondava toda a cidade, fosse pelos dizeres do povo ou por livros. Creio que por ser um reinado muito bem administrado que Lucius o escolheu ou talvez porque fora lá onde eu nasci. Greta tornara-se naquele momento pouco atrativa economicamente. Meu tio não fora o único a falir, um pouco depois de nossa partida, soubemos que muitas outras famílias também, de modo que o reinado passou por um infeliz momento de ruínas e emigração. Então me fora depois compreensível as razões para Lucius querer mudar-se com tamanha pressa.
Lerdei a acostumar-me com os costumes taihenses. Diferentemente de Greta, uma cidade maior, melhor desenvolvida e com habitantes mais simpáticos e calorosos, Tanhai era uma humilde cidade menor, bucólica e de habitantes ligeiramente carrancudos e frios. Os primeiros meses foram dolorosos; a saudade de Greta incomodava-me o peito e os taihenses não eram muito solidários com os estrangeiros. Felizmente Lucius não tardou a conseguir um trabalho satisfatório, então ele passava o dia a trabalhar enquanto eu cuidava dos afazeres domésticos. Permanecer em casa me era muito mais agradável a ter de sair na rua.
Afortunadamente o tempo fora bondoso comigo. Gradualmente absorvi a dinâmica e os costumes de Tanhai, de modo que fui inserindo-me pouco a pouco naquele meio social. Não mais me aborrecia os modos rudes dos habitantes, pois acostumei-me e felizmente tomei duas mulheres vizinhas a mim como amigas, tendo com elas aprendido sobre a cultura, a história, o cotidiano e as lendas de Tanhai, o que me facilitou a convivência com os demais.
Então, fora em uma de minhas idas à igreja que Esdras cruzou despropositalmente o meu caminho. De acordo com os meus costumes em Greta, me era deveras agradável ir à igreja quando haviam poucas pessoas, pois o silêncio e os poucos olhares de julgamentos me permitiam ficar mais à vontade. Assim, em um belo fim de tarde, enquanto eu finalizava minhas orações e admirava os tímidos raios de sol que tocavam as vidraças observei um belo rapaz adentrar em passos lentos a igreja. Acompanhado de uma bela mulher, aparentemente mais velha, ele sentou-se um pouco sem jeito no frio banco de madeira ao lado dela e lá permaneceu por no máximo dez minutos ou menos que isso. O cabelo preto e liso descia até os ombros largos e a pele branca entrou em contraste com um dos raios de sol advindos da janela.
De costas me pareceu já muito belo e quando se virou apenas me confirmou as suspeitas. Detinha um belo porte atlético e naquele momento supus que fosse um dos cavaleiros do reinado. Como estávamos apenas nós três, ao levantar-se inevitavelmente lancei-lhe um olhar furtivo que fora logo respondido e me fez ruborizar. Ao fim de minhas orações dirigi-me saída, onde o belo cavaleiro estava decerto aguardando a moça que acompanhava, pois ela ainda orava, no entanto, antes de eu partir, ele me fez a seguinte indagação:
— És estrangeira?
Surpresa com a pergunta repentina do anônimo, estanquei os passos e o fitei com um misto de intriga e receio do que poderia querer comigo.
— Sim, sou.
— Com todo respeito, podes me dizer de onde és? – E aproximou-se ligeiramente receoso de uma possível esquiva minha – Se me permite, chamo-me Esdras. É um prazer conhecer-te
O estranho e belo rapaz curvou-se a estender a mão convidativa a minha. Ainda desconfiada com tamanha cordialidade de um taihense, o estendi a mão, tendo ele a levado com o devido respeito aos lábios frios, em seguida ajeitou-se pomposo e escorregou os olhos azuis safira sobre mim.
— Chamo-me Sora – Respondi para a alegria de sua curiosidade, já nítida no azul de seus olhos
— Belo nome. Por acaso, de onde és?
— Greta, no entanto nasci neste reinado. Retornei há pouco menos de um ano.
— Teus cabelos não me deixaram por enganar. És uma bela taihense – Disse a sorrir, porém ao ver-me desentendida da afirmação, esclareceu – Perdão, acontece que as mulheres taihenses, em sua maioria, são as únicas a possuírem cabelos tão belos e negros quanto o céu ao anoitecer. Dizem que herdaram dos nossos antepassados.
— Que infelicidade ter parte de minha identidade tão a evidência.
A sinceridade escapou-me dos lábios ligeiramente rude, o que, talvez, deixou o jovem rapaz um pouco desconcertado. Mas com um novo sorriso tímido nos lábios finos retomou o diálogo, indagando-me sobre o meu gosto pelo reinado e minha vida em Greta. Enquanto a sua companheira permanecia em e meio a orações na igreja, delonguei meu pouco tempo de lazer consigo. Apesar de ter uma curiosidade insistente, pois fazia questões a meu ver irrelevantes, soube entreter-me muito bem ao contar sobre as lendas de Tanhai e vivências tidas em duelos e florestas; como supus, era um dos cavaleiros do reinado. Naquele momento, Esdras descreveu-me as habilidades de um rapaz mergulhado em todo o vigor da juventude e que não recearia meter-se em guerras ou em defender os seus; pobre de mim que acreditou em suas palavras vãs.
Acredito que fora o seu bole porte físico, a voz suave e os olhos de safira que me atraíram a atenção. Quando dei por mim eu estava já a conversar afavelmente com este desconhecido e não mais gostaria de parar, para minha grande surpresa. Com o tempo, sabe-se lá como, Esdras descobrira minha residência e passou a visitar-me aos finais de semana. Levava-me doces, frutas ou alguns bolos e deleitávamos em longas conversas sobre livros ou o enfadonho cotidiano taihense. Eu o amava, mas não era um destes amores românticos literários. Pouco tempo depois, soube por si que era o príncipe, o primogênito de Carlos O’Brian. Ao confessar-me sobre seu lugar na grande realeza, aparentou-me estar constrangido, como contasse algo vergonhoso ou temesse minha reação. Se era de sua expectativa ou não, o acolhi como já soubesse há muito que se tratava de um príncipe. Diferentemente de mim, Lucius entrou em êxtase quando contei-lhe e logo disse-me “ Aproveita e casa-te! Não vês que ele é louco por ti? ”.
Sua intenção era a nossa ascendência por meio do casamento-contrato com a família real, obviamente, entretanto meu amor por Esdras era demasiado fraco para que eu desejasse com ele casar-me. Meu sentimento era puramente fraternal. Porém, com tamanho cortejo, visitas e presentes, o jovem rapaz conseguiu encantar-me ou incutir-me a ilusão de uma paixão por si, e guiada por este sentimento ilusório iniciei consigo um relacionamento. Esdras conseguiu encantar-me na primeira oportunidade tida, porém atualmente desencanta-me a cada vez que me exige explicações de meus passos.
Tão logo engatamos uma relação permeada de carinho e cavalheirismos de Esdras, o mesmo declarou que o melhor para ambos era logo noivarmos, pois desejava ter-me para o resto da vida. Naquele momento não o respondi de imediato e para sua surpresa solicite-lhe um tempo para que eu organizasse minhas ideias. Lucius mergulhara em júbilo quando contei-lhe sobre o noivado. Em meio a risos e sonhos recheados de ouro disse-me que o casamento seria a melhor escolha de minha vida. Decerto, eu não estava muito certa disto, no fundo eu não desejava casar-me com homem algum, no entanto pressionada por Lucius, Esdras e o julgamento social dos demais aceitei o solicito pedido de noivado. Esdras não se conteve em alegria e ordenou que a criadagem organizasse um baile em comemoração.
O’Brian nunca fora a favor deste relacionamento, ainda que todos os demais da família o fossem. Ele sempre lançara-me olhares furtivos de desconfiança e dirigia-me poucas palavras. Segundo Esdras, o rei era contrário ao casamento pela minha infelicidade de não pertencer a nobreza, porém dizia-me para ignorar isto, pois já estava em tempo de ele casar-se e a concessão da rainha e do padre já estavam de muito bom tamanho. Feliz eu não estava, mas também não infeliz estava; digamos que eu entrei em um estado de conformação pelo meu destino não muito afortunado. Ao menos eu tinha um homem que buscava realizar todos os meus desejos que estavam ao seu alcance.
— Perdão, mas preciso falar consigo, vossa Majestade
Afastando todos meus pensamentos nostálgicos, o cavaleiro predileto do reino jazia ao meu lado, ansioso para dizer-me lá se sabe o que. Ao fitar-lhe os olhos cinzentos, apenas maneei com a cabeça para que prosseguisse.
— Perdão novamente pela interrupção, mas há algo que preciso entregar-te.
— Pois estou aqui. – Respondi seca, porém curiosa
E para minha grande surpresa, tirou do bolso o que parecia ser o colar que o infeliz do rei quebrara no dia do baile. Parecia intacto, como jamais houvesse quebrado. Não pude conter-me; um largo sorriso formou-se em meus lábios. Afoita tomei a joia de sua mão. O cavaleiro sorria singelamente.
— Achei que tu devias obediência ao teu Rei – Comentei a referir-me ao baile, quando O’Brian o ordenou que desse fim a minha joia.
— Como poderia eu quebrar a joia da futura princesa?
E surpreendida ou confusa, o fitei novamente, pois o primeiro mandamento de um cavaleiro era lealdade ao Rei. Ainda surpresa, fui infeliz em disfarçar tamanho júbilo em ter meu colar de volta, o qual fora o mais belo presente que Esdras deu-me.
— Não sabes como sou grata a ti – Respondi enfim – Surpreendo-me em encontrar ainda neste reinado pessoas de boa fé.
Ele riu no canto dos lábios, talvez desconcertado por sua boa ação ser resultado de uma infeliz desobediência.
— Teus olhos naquele momento disseram-me o quanto este colar é importante para ti, se permita-me dizer, vossa Majestade. Não precisas agradecer. Mas me faria feliz em contar onde o príncipe encontrara joia tão bela como esta.
Um leve rubor esquentou-me as bochechas. Não teria sido possível que em meio a balburdia do rei este cavaleiro tenha tirado conclusões tão precisas sobre mim.
— Disse-me ele que fora em um campo abundante em rosas vermelhas, a uma boa distância daqui. Encontrou o colar jogado em meio a rosas e como o achou deveras bonito resolveu trazer para mim. Pelo menos foi isto o que contou.
E como pareceu pensativo a respeito da informação dada, eu disse:
— Porque tamanha curiosidade?
— Como dizes, foi apenas curiosidade. No entanto, não recordo-me de algum campo de rosas nas redondezas.
— Acaso achas que minto? Vais julgar-me como os demais já o fazem?
— Perdão, mas porque eu faria isto? – E alçou uma sobrancelha loura, desentendido de minha afirmação vã. Talvez eu tão habituada já estava a ouvir julgamentos alheios e errôneos sobre mim dos taihenses invejosos a minha ascendência social, que já estava caindo no grande erro de generalizar a todos.
— Desculpe.... Acredito que desde o noivado encontro-me arisca sem razões para estar. – E afastei-me numa deixa para que o cavaleiro me abandonasse e eu pudesse refrescar minhas memórias novamente.
— Então porque aceitaste?
— Porque aceitei? – E sorri com desdém, a caminhar em direção ao rio. O cavaleiro permanecia a minha escolta – Não conheço-te para dar-lhe alguma explicação sobre mim.
— Também não a conheço, mas tua inconformação é evidente em teus olhos.
Tão logo finalizou a sentença estanquei os passos, fosse pelo impacto de suas palavras ou pelo vento que já se tornava bruscamente frio, expulsando-nos do campo. Constrangida, não pude deixar de volver-me ao cavaleiro astuto, pois precisava responder-lhe a altura, mas ao fitar aqueles belos olhos cinzas, não tive forças, sabe-se lá porque, para fingir todo o desgosto que me é este casamento.
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