— Noivado do Príncipe Esdras e a jovem Sora? Mas já? Eles mal se conhecem – Comentou um velho amigo meu, James

James, meu vizinho alguns anos mais velho, me fez o enorme favor em emprestar-me algum traje de gala para o Baile, e surpreso pela razão do mesmo me fez esta análise que muitos já deveriam estar fazendo-se desde o anúncio do noivado.

— Sim. Esdras é tão dominado pelo ciúme que já está movendo-se para enclausurar a pobre Sora de uma vez. — O respondi com um suspiro enfadonho.

— E o que você vai fazer neste Baile? Dançar com ela é que não é, não é mesmo? — E gargalhou do azar do meu amor não correspondido

— Cale a boca. E mantenha isto em segredo. Se um dos O'Brian descobrem esta terrível traição hão de enforcar-me!

James permaneceu no riso e eu me voltei ao espelho estreito a fim de ver se as vestes caberiam. Delinear Sora em meus pensamentos dançando com o verme do príncipe já me produzia náuseas no estômago, e isto, consequentemente me fazia cogitar realizar alguma loucura. Por ventura, antes do baile eu poderia rapta-la ou tê-la para mim por apenas alguns minutos para que conversássemos e eu pudesse enfim conhecê-la um pouco.... Não me julguem por louco, psicopata ou algum outro julgamento pejorativo. A paixão que nutro em meu peito é, talvez, tão pura quanto o desejo de uma criança em querer um doce. Digo e repito. A pequena Sora me despertara sentimentos que até então eram-me anônimos ou apenas camuflados. Reconheço bem a utopia desta paixão funesta, que não me mata, mas me entristece pela impossibilidade de sua concretização.

Porém, é claro que como um nobre cavaleiro do reinado eu não faria nenhuma das insanidades produzidas por minha mente fértil, até mesmo porque a covardia me acomete, ás vezes, como um parasita infeliz, me paralisando o corpo todo de uma forma ridícula.

— Certo James. Levarei esta roupa. Obrigado por mais este favor, e a propósito, você vai ao baile?

Ele, que lambuzava-se com uma manga suculenta cujos fiapos se amarravam em seus dentes, disse entre estalos da língua:

— Mas é claro! Achas mesmo que perderei a oportunidade de ver a rejeição evidente de Sora para com o príncipe? — E novamente gargalhou alto – Não mesmo. Será um baile cômico.

O dia findava. Apenas tremeluziam no céu alguns poucos raios de sol que já anunciavam a vinda de uma noite que, por ventura, seria festiva e farta em bebidas e comidas no castelo. Eu não fazia idéia de quantos convidados iriam prestigiar este noivado há muito aguardado pelos O'Brian, mas presumia que seriam muitos visto que o Rei já se ocupava há um tempo em buscar uma futura princesa para seu príncipe adorado, o qual, por incrível que parecesse, era deveras exigente para com suas prometidas. Tinha até regras quanto ao modo que elas deveriam portar-se e vestir-se! Para mim, não passava de um maricas prepotente.

Um murmúrio surgiu da cozinha. Presumi que fossem as irmãs mais novas de James, já tricotando sobre as vestes que usariam no baile e quais rapazes poderiam ir para que com eles pudessem flertar um pouco.

— Vais ao baile, Daniel? — Indagou-me Clara, a irmã caçula

Se não fosse o espirito infantil que ainda a dominava as feições eu ousaria dizer que Clara tornar-se-ia uma bela mulher dotada de uma lábia infalível, pois que já a observei fazer seu irmão mais velho curvar-se diante de seus desejos sem qualquer justificativa realmente plausível diversas vezes. Seus olhos castanhos eram pequenos e ligeiramente puxados, ela era uns dez centímetros mais baixa que eu, e sua pele alva somada ao cachos negros a faziam semelhante à uma boneca de porcelana – pequena e falsamente frágil. Sua irmã Cléo era distinta. Mais alta e mais reservada, dona de um longo cabelo castanho-claro e olhos negros, me cumprimentava sempre que avistava-me saindo de casa logo pela manhã cedo. Engraçadamente suas bochechas ficavam rosadas quando me dirigia a palavra, mas quando acordava com um humor às avessas somente me observava partir como se nem mesmo me conhecesse.

Ah, as mulheres são tão complexas quanto o pior exercício de lógica. Quando achas que encontrou alguma das respostas de seus gênios indomados, novas e insolentes perguntas surgem...

— Sim. O rei me incumbiu uma tarefa importante – Respondi enquanto guardava as vestes numa bolsa de couro.

E ela veio devagar ao meu encontro me cortejando com aqueles pequenos olhos siameses

— Que tarefa?

Eu já estava de saída, apenas arrumando algumas coisas em minha pequena bolsa, logo estava um pouco impaciente para perguntas invasivas

— Algumas que o Rei quer que eu faça

— Sei. Mas o que seria? Tua vida já praticamente está entregue àquele povo hipócrita. E aposto que no fundo irá adorar servir também a futura princesa... – Ela alfinetou com veneno.

Suspirei a procura de paciência

— Pequena Clara, porque és tão estupidamente invasiva? Falarei com James para que ele dê um jeito nesta tua curiosidade.

Com um brevíssimo aceno, me retirei, porém, é claro, não pude deixar de saborear da expressão ultrajada que se formou no rosto da pequena.

O céu no momento coloria-se de um azul melancólico e mais fechado, adornando-se com algumas pequeninas estrelas ali e aqui. Enquanto caminhava com pressa entre as casas cujas arquiteturas padronizadas realçavam a organização um pouco mais urbana tanto prezada pelo Rei, observei mulheres entusiasmadas e reunidas em bandos conversarem afoitamente sobre o baile e quais possíveis vestes a futura Princesa usaria, inclusive me indaguei porque tamanha preocupação com a veste alheia.... Sora nunca fora muito aceita por algumas mulheres que não conseguiam compreender sua pequena rebeldia e descaso para com o Príncipe. Então, talvez fosse por isso que de suas bocas venenosas o nome dela sempre vinha com uma conotação um tanto quanto pejorativa.

O fato é – homens e mulheres ansiavam dançar e beber durante a festa que já iniciaria daqui algumas horas. Observei também alguns companheiros de treino de cavalaria conversarem sobre o assunto mais divulgado do ano, talvez. Quanto a mim, eu não saberia de forma alguma decifrar o bolo de sentimentos e dúvidas que se espalhavam por meu peito e desciam ao meu estômago me fornecendo intensa ansiedade.

Quando cheguei em casa, Sabine, minha tia que criou-me após o falecimento dos meus pais, estava ausente. Acredito que ela não iria ao baile visto nutrir, por razões desconhecidas, um desgosto profundo pela família O’Brian. Já muito insisti para que ela revelasse este segredo mantido a sete chaves, mas sempre reservada, ela retira-se e me deixa cada vez mais mergulhado em dúvidas inconvenientes. Ela é uma jovem mulher de 32 anos. Comumente reservada, simples e dona de uma tranquilidade invejável, mas cheia de desejos consumistas.

Relaxei na cama e peguei as vestes de gala, foi então que uma bolinha de papel caiu delas:

“Faça do anonimato um privilégio”

Sorri e o reconhecimento daquelas letras deitadas fora muito fácil. James me surpreendeu desta vez. Dentre as vestes havia uma peculiar máscara negra de veludo que cobria os olhos e parte do nariz.

— Uma máscara? – Uma voz feminina ressoou pelo quarto

— E deve estar se perguntando para onde irei com ela – Respondi virando-me para Sabine que detinha em mãos uma cesta de palha cheia de frutas. Devia estar voltando da feira.

— Ir ao baile, certamente

Ela colocou a cesta no chão e pegou a máscara de minhas mãos a analisando.

— O povoado todo não para de falar deste baile. Não sei quais grandes vantagens o casamento do príncipe trará ao reinado – Disse em seriedade, brincando com a máscara em mãos.

— A notícia espalha-se pior que praga. Apenas espero que quando o rei falecer, o príncipe saiba administrar Tanhai. – Eu disse

Ela soltou um riso impregnado de desdém.

— O Rei falecer? Creio com fé que o miserável ainda enterrará muito de nós

— Porque tanto eles te incomodam?

E como eu a houvesse insultado da pior forma possível, Sabine jogou com desprezo a máscara na cama e distanciou-se um pouco. Suas sobrancelhas grossas uniram-se e logo percebi sua chateação.

— Tudo a seu tempo Daniel... – E livrando-se do aborrecimento com um manejo da cabeça, disse, a seguir – E porque a máscara?

Mesmo que ela estivesse a par de minha paixão secreta, eu receava conta-la o verdadeiro intuito da máscara.

— Presente de James. Será um baile de máscaras.

Ela soltou um “Ah” de compreensão e retirou-se.

Respeito deveras a privacidade alheia, no entanto, a infeliz mania de Sabine de me privar de algumas informações talvez úteis e sobre o reinado por vezes me estremece o juízo. Confesso que uma de minhas fraquezas é minha curiosidade latente, como fosse meu tendão de Aquiles, já, inclusive, ouvi algumas histórias cômicas de como minha curiosidade e esperteza já produziram muita dor de cabeça à minha tia e à seu marido, já falecido. Logo, além da chateação, não compreendo o que tanto ela teria para esconder. Mas, de qualquer forma e após breves horas, me arrumei com vestes que jamais havia usado e nem imaginava usar um dia visto minhas economias não serem ainda tão atrativas, e com a máscara em mãos segui ao castelo suntuoso onde minha bela aguardava-me ainda que não soubesse.

O baile, por ser de máscaras, estava tornando-se um pouco mais animador para mim, pois que através do anonimato eu poderia, quiçá, aproximar-me de Sora sem receio de ela reconhecer-me como o cavaleiro favorito do Rei, como alguns já me chamam. O único pensamento que me mortificava o corpo e ocasionava ligeiras cócegas no estômago era conseguir dançar com ela por apenas alguns minutos, ainda que breves. Desde o dia em que a observei caminhar lentamente pelo corredor do castelo ao lado de um estranho homem mais velho de cabelo liso e ligeiramente grisalho, indo de encontro ao gabinete do Rei, eu já sabia que aquela guria era peculiar, como em certas ocasiões já demonstrou ser e que, provavelmente, me despertaria futuros sentimentos afáveis.

Com mais alguns passos, logo a ponte de acesso ao castelo se fez ser vista e eu me apressei, pois as horas passavam depressa. Neste momento alguém se colidiu comigo e era James acompanhado de Troy – um também bom amigo e companheiro de treinos de Cavalaria. Eles ainda estavam sem máscaras e seguimos conversando alegremente, misturando nossas vozes com a cacofonia de sons de inúmeros convidados que adentravam o Castelo.

Não era novidade que aquela família monárquica detinha uma riqueza que brotava em seus cofres quase como capim. A origem de tanto ouro era um tanto quanto desconhecida, presumo, pois em meus passeios pelos corredores do castelo já ouvi alguns diálogos dos próprios Conselheiros do Rei — afirmavam que sua riqueza talvez fosse fruto de algo além do racional e mal visto aos olhos de Deus, pois não sabiam como O’Brian mantinha os cofres tão recheados. Refleti, depois, por longas horas o que ouvi, supondo que, talvez, os comentários maldosos apenas justificavam uma profunda inveja dos conselheiros. Fiz até uma tentativa de pesquisa por informações com Sabine, porém em vão, então ignorei o assunto durante um tempo até me surgir uma oportunidade de encontrar respostas.

Mas fora por isso, por saber que O’Brian reproduzia estranhamente tanta riqueza que não me deslumbrei com a decoração realmente suntuosa e bela realizada no Castelo. O salão enorme era iluminado por tochas de ouro espalhadas em cantos estratégicos. Ao fim do salão, haviam quatro longas cadeiras retangulares e banhadas a ouro reservadas à família Real e ao lado um grupo de quatro homens entoando canções animadas a fim de atrair os convidados já mascarados.

— Tudo está muito belo, hein? Aproveitarei bastante, assim espero – Comentou James com um suave sorriso de malicia

— Partilho de seu comentário, meu caro – Troy acrescentou inflando o peito num ar de prepotência

Ouso dizer que meus amigos detinham um fraco profundo por moças jovens e bonitas. Troy admirava muito as de cabelos negros e James as pequeninas com o argumento de que pareciam bonecas, logo certamente se utilizariam do cavalheirismo para seduzirem as próximas vítimas. Já eu avaliei o recinto superficialmente, e disse enquanto escondia a máscara num bolso estratégico da capa:

— Enquanto vocês escolhem com quais pequenas irão dançar, eu irei ao encontro do Rei para saber se o dever que me impôs mais cedo ainda será necessário.

Ambos riram com uma pitada de malicia e me lançaram olhares de obviedade

— Como se você quisesse que ele te destituísse deste trabalho, não é mesmo? Seja sincero conosco, é hoje que irá fisgar o coração daquela rebelde – James comentou

— Rebelde? – Eu perguntei com um quê de curiosidade, como desconhecesse a índole ligeiramente agressiva de Sora.

— Ora essa, todos de Tanhai sabem que ela é a mulher, talvez, mais esquisita que aqui já viveu – Respondeu Troy

— Não que isso seja de todo ruim, mas veja só: Ela sabe lutar! Não é uma tarefa muito especifica para mulheres, sabe ... – Completou James, servindo-se de uma taça de vinho oferecida por uma das criadas.

— Diz isso para compensar o peso de sua consciência por não saber manejar nem um escudo, quem dirá uma espada! – Observei entre risos

Rindo da feição ofendida de James me distanciei e segui de encontro ao rei.

O salão entupia-se gradualmente. Mulheres metidas em longos vestidos estufados e homens em belas vestes negras. Todos mascarados. As bebidas eram servidas em bandejas prateadas aqui e ali. Mergulhei entre tantos convidados que se reuniam em pequenas rodas a fim de compartilharem diversos fatos hipócritas de seu cotidiano, e segui afoito pelo corredor até o escritório do Rei – o seu cômodo preferido.

Infelizmente, antes mesmo de adentar o escritório ouvi exclamações e resmungos de Esdras, o qual queixava-se em saber muito bem como lidar com a futura esposa e que por isso lhe seria muito ofensivo que o Rei me impusesse a vigia-la. Confesso que ri com gosto enquanto os ouvia e quando o silêncio recaiu bati mansamente na porta.

Esdras, emburrado, estava recostado numa longa estante. De braços cruzados e expressão fechada, não parecia muito feliz com a minha entrada. Já o Rei em suas usuais belas vestes me aguardava sentado tranquilamente numa cadeira revestida de veludo. Esdras saiu de seu canto do castigo e aproximou-se.

— O que queres, vassalo? – E como de praxe encheu a boca de desdenho como a fim de humilhar-me por conta de minha condição

— Vim avisar ao Rei que está tudo em ordem e perguntar se devo cumprir o dever que ele me passou pela tarde. — Respondi com neutralidade, ignorando o olhar desprezível do príncipe.

Da boca de Esdras ouvi um ruído que mais pareceu um riso de deboche. Já o Rei, aparentemente cansado demais de toda aquela situação que nunca lhe agradou por saber que o sangue de Sora não era nobre e por isso sua entrada na família deveria ser proibida, soltou um muxoxo sonoro. Esdras, então, disse com visível irritação:

— Retire-se deste dever estúpido. Meu pai anda velho demais para saber tomar atitudes sensatas.

— Cale-se! – O rei intrometeu-se. – Você não tem a devida moral para exigir ou mandar em alguma coisa, Esdras. Achas que não me envergonha casando-se com essa esquisita? Por Deus, se eu pudesse me livrar deste fardo. Maldita a hora em que ela chegou ao meu reino.

— O Padre abençoou meu casório, estou livre para desposa-la, tu já devias ter se conformado com isso, meu Pai. E não se afobe em me mandar calar a boca, após sua morte sou eu quem governará este reino! – Respondeu o príncipe em petulância. De sua feição trancada observei que suas palavras eram firmes e isentas de um futuro arrependimento caso o Rei sentisse-se ofendido.

Para minha surpresa, O’Brian rira. Um desdém tão nítido que me fez engoli em seco.

— Vamos ver. – Sibilou com um quê de desafio, como o filho fosse tal qual um inimigo a ser extirpado – E agora quanto à vós – e volveu a fronte a mim – O acordo que fizemos mais cedo está válido. Pode retirar-se.

Geralmente os diálogos do Rei com o príncipe eram mergulhados de tensão, isto já não me surpreendia, no entanto, esta fora a primeira vez que vi os olhos azuis de O’Brian emanarem um perigo até então oculto. Como alguns já dizem, anos atrás ele fora um bravo guerreiro, metia-se em guerras com uma coragem invejável, liderando seus guerreiros e comumente alcançando a honra da vitória. Muitos de seus feitos são comentados entre os Taihenses, especialmente um em que derrotou uma ceita de bruxas que desconheço a origem. Logo, mesmo com o peso da idade que incrivelmente não se destoa em seus traços ainda juvenis como um fosse um homem de trinta anos, presumo que este espirito de bravura ainda encontra-se camuflado em seu peito.

Retornei para o salão, porém antes de eu meter-me na cacofonia dos convidados, um dos aposentos estava com a porta entreaberta. Aproximei-me... E pela brecha reconheci a futura princesa. Ela encontrava-se recostada ao lado da vidraça. A mão que descansava sobre a testa somada à cabeça inclinada um pouco para baixo a concedia uma expressão profundamente pensativa e indaguei-me se não estava ela entristecida por ter de se submeter a algo que não parecia constar em seus planos.

Seu vestido era azul marinho, de alças que iam até seus pulsos pequenos, rodado e sem muitas saias no forro, o decote era sutil e ela usava um belíssimo colar prateado cujo pingente era um coração cheio de pequeninos cristais. O cabelo castanho e ondulado caia por suas costas e fora adornado com um enfeite prateado. Estava belíssima como sempre e eu rira internamente, percebendo o quão aquela moça era pequena, talvez nem mesmo me alcançando os ombros. Ela, então, fez um movimento e eu receei ser descoberto. Preferindo ainda não tentar uma aproximação, me retirei ao salão.

Não demorou para que a família real se apresentasse ao vasto salão entupido de indivíduos da nobreza hipócrita. Confesso que por ser um cavaleiro fiel ao rei também estou incluso nesta classe, porém em nada ela me agrada, principalmente quando abusam dos serviços exaustivos dos camponeses lhe arrancando toda a economia em impostos inúteis. Porém isso não vem ao caso, pois O’Brian já cuspia seu discurso exaltante e usual, afirmando trazer mais prosperidade econômica e cultural ao seu povo e censura a qualquer sujeito que se atrevesse a adotar outra religião senão a católica. Ele era um devoto do catolicismo, não permitia a entrada de protestantes em suas terras e, inclusive, já tivera diversos problemas com alguns; como punição mandou mata-los sem ressentimentos.

— Como sabem – Dizia ele em bom tom – Meu querido Principe irá se casar daqui pouco tempo com a nossa futura princesa, a pequena Sora.

E apontou para minha amada que estava com uma expressão impassível no rosto, indecifrável no momento, pois ao tempo em que seus lábios pareciam querer alargar-se timidamente num sorriso suas sobrancelhas uniam-se em seriedade...

— ... E este baile tem como intuito a celebração deste futuro casório que certamente será de muito bom grado à minha família como já devem saber – O rei continuou entre risos falsos – E, por favor, aplaudam e recepcionem a pequena Sora – E ele a olhou-a com um olhar imperativo para que se aproximasse

Ela o fez em passos vagarosos, talvez resistente ou temerosa em ter de se apresentar a tantas pessoas que intimamente a repudiavam ou jogavam pragas, especialmente as mulheres – invejosas por não ocuparem um lugar na família real. Sora lançou olhares breves por sobre aquela pequena multidão e numa postura fechada não parecia que iria dizer um discurso ou algo parecido. Após o findar dos aplausos, Esdras aproximou-se da noiva, saudou os convidados também com um pequeno discurso e virou-se defronte à ela a dizer:

— Te dou este anel como símbolo do meu amor por ti – Disse com clichê – E saiba que amo-te como jamais amei alguém. Daqui um tempo governaremos juntos e prometo, meu povo, — E ele voltou-se aos convidados – Trazer à vós mais fartura e riqueza que o meu pai um dia conseguira!

A multidão o aplaudiu vivamente. Me apercebi que mulheres o admiravam entre suspiros e homens o encaravam como fosse uma espécie de novo salvador que permitiria a flexibilidade entre as religiões e acabaria com o trabalho escravo dos servos. Eu não era muito crente disto, para mim Esdras não mudaria em muito o cenário político de Tanhai, de forma que as classes permaneceriam estáticas para a infelicidade de muitos.

Ele ainda disse mais alguns juramentos tolos ou até mesmos falsos, mas fora repentinamente interrompido pelo Rei, que antes sentado, levantou-se com os olhos arregalados numa espécie de horror e fizera uma exclamação. Neste momento o silencio pairou como a boca de todos houvesse sido costurada, não ouvia-se nem mesmo o sibilar do vento que entrava pelas vidraças. A tensão literalmente nos abocanhou. Por precaução, me posicionei próximo à família no caso de algum conflito surgir, fora então que vi os olhos esbugalhados de O’Brian direcionados à Sora.

— Onde conseguiu isto? – Exclamou ele pegando de forma brusca o colar dela.

Desentendida e assustada ela fez menção de recuar, porém o Rei a pegou pelo braço enquanto seus olhos azuis ávidos de terror encaravam aquela jóia aparentemente inofensiva. Esdras em nada compreendia e fez menção de afastar o pai da noiva, o que fora em vão, pois O’Brian o empurrou com impaciência.

— Vamos, me diga! Onde conseguiu esta porcaria?

— Porque? Foi o seu filho que me deu. – Ela respondera buscando nas palavras a mesma agressividade usada pelo Rei

— O’Brian, por favor, o que está acontecendo? – Pela primeira vez na noite reconheci a voz da rainha, que levantara-se e tinha no rosto a mesma expressão de desentendimento que os demais.

Ele ignorou-a e volveu-se á Esdras como fosse engoli-lo a qualquer momento.

— Tinha de ser você mesmo! Onde foi que pegou este colar?

— Meu pai, mantenha a calma – Esdras disse em baixo tom, já envergonhado perante todos por seu pai estar portando-se tão estranhamente – Encontrei esta joia em meus passeios pela floresta. Estava próximo ao rio... Brilhando contra o sol numa das rochas...

Esdras parecia estar com tanto medo que a covardia já desenhava-se por seus traços delicados. Observei aquela cena tal qual um leigo que não sabe ler. Porque o Rei assombrara-se tanto ao ver um simples colar? Os cochichos começavam a se fazer ouvir aqui e ali e certamente aquele baile permaneceria por um bom tempo nas memórias dos Taihenses.

— Não! – O Rei exclamou novamente, tomado de cólera – Não estou satisfeito! Porque não deixastes isso lá? Se querias presentar sua amada com uma jóia era só avisar-me que eu mandava buscar a mais valiosa existente!

— Mas, meu pai, qual o problema com este colar? Veja, é da prata mais pura que já vi! E, por favor, olhe ao seu redor, estás assustando nossos convidados... – Respondeu o príncipe, persuadindo o pai a interromper aquele repentino comportamento insano.

— Não, não é! Deve ser de algum ladrão que esqueceu por ai! – Ele permanecia a exaltar-se – Livre-se disso, imediatamente!

E então de uma vez puxou o colar do pescoço de Sora, a qual exclamou e viu a joia cair pateticamente no chão.