A Rosa Dourada
30 Um Beijo Demorado
t o r r a l t a
Armelyne havia pedido estritamente para que as criadas deixassem as cortinas fechadas já havia dois dias. Um prato cheio de comida e apenas remexido esperava que alguém o pegasse, ela não sentia fome alguma e muito menos disposição para levantar-se de sua grande cama. O local onde ela havia declarado seu amor a Otto, ela se agarrava a memórias e mantinha um semblante triste, já não havia mais lágrimas a serem derramadas, apenas um vazio em seu peito.
Virou-se pelo emaranhado de lençóis de linho e peles, fitou o véu translúcido que cobria toda a cama, muito parecido com o véu que havia cobrido sua mãe no dia de seu velório dentro do grandioso Septo Estrelado. Aquelas lembranças deixavam um sabor amargo em sua boca e faziam com que ansiasse a voltar para seus sonhos onde tudo aquilo não podia tocá-la.
Lyne sempre se achou uma mulher forte, desde a infância se impôs e colocou sua vontade própria acima de tudo, nunca deixou que ninguém a subjulgasse e que entrasse verdadeiramente em seu coração. Não havia sentindo suas perdas pois achava que devia continuar sendo uma dama exemplar e agora seu coração pesava por conta disso. Não havia esperneado e chorado quando sua mãe se foi como Blair, não derramou uma única lágrima por seu pai por mais que tivesse tido a vontade de nem levantar da cama no dia seguinte a sua morte. Porém, agora que ela havia finalmente havia aberto seu coração para alguém toda a sua frieza e compostura pareciam tão fúteis.
Se arrependia de ter sido a garota perfeita, já que agora tudo vinha em uma torrente que a quebrava de dentro para fora, tirando sua vontade de viver que sempre fora tão forte dentro se sua alma e ser. Virou-se para a porta quando a mesma se abriu em um rangido sórdido e que quebrava seu precioso silêncio.
— Armelyne? É mesmo você? — A mulher parada a porta questionou com um semblante preocupado. A princípio a jovem princesa não a reconheceu, afinal faziam anos, possivelmente, que sua tia Lynesse havia vindo para a corte.
— Tia, o que faz aqui? — Ela lhe lançou a pergunta por pura educação já que realmente não sentia vontade alguma de conversar com ninguém.
A mais velha ignorou a sobrinha e seguiu para as grandes cortinas que impediam a entrada de luz e as abriu permitindo que os raios do sol banhasse a pele da menina com sua luz matinal. Armelyne piscou os olhos algumas vezes antes de se acostumar com a luminosidade.
— Sua irmã veio me procurar com grande preocupação esta manhã para me contar de sua situação, ela diz que não consegue te fazer comer ou sair dessa cama. Olhe para você? Nada parecida com a pequenina que eu vi crescer para se tornar uma bela dama, uma linda princesa.
Ela se cobriu com as cobertas e se escondeu da luz como um vampiro de um dos livros de terror que Blair havia lido certa vez. A irmã do falecido rei não aceitou aquilo como resposta e tirou os panos de cima da sobrinha rapidamente e logo após se sentou ao lado dela. Acariciou seus cabelos que estavam sujos após dias sem o devido cuidado e a deitou docilmente em seu colo, como havia feito várias vezes quando seus filhos eram mais novos e precisavam de toda a atenção dela.
— Eu entendo o que está sentindo. — Ela começou sem parar os movimentos sutis com a mão, isso fez Lyne se lembrar de sua mãe e da sua infância, fechou os olhos aproveitando o momento. — Há muito tempo atrás eu perdi meus pais e foi uma das coisas mais difíceis pelo que passei, depois meu marido ficou de cama e continua assim até hoje, então por fim veio a morte do seu primo, meu primogênito Ebbert.
— Isso não está sendo muito animador minha tia.
A mais velha riu levemente, apenas um pequeno som sem mostrar os dentes.
— Fico feliz que ainda tenha um pouco de bom humor minha querida. Mas meu objetivo aqui não é te animar, é te trazer de volta a realidade. O mundo é um lugar cruel Armelyne, ele não tem pena de ti e não vai parar de te machucar apenas porque você já está cansada de lutar, mas por mais difícil que esteja a sua luta você não pode desistir minha pequena.
— É tão difícil tia, é tão difícil suportar tanta dor, eu tentei, tenha certeza que eu tentei, mas não consigo mais.
— Tenho um segredo para lhe contar, está me ouvindo?
— Sim, qual segredo?
— Você não está sozinha minha sobrinha, não precisa passar por tudo isso sozinha, você ainda tem uma família. Uma irmã que te ama, um irmão que está lutando pelo que acredita e por ti, tem primos e tem a mim, estou aqui contigo agora.
Armelyne suspirou e apertou a mão da tia por um segundo que pareceu muito mais do que isso. Queria continuar ali, protegida em um colo quente e acolhedor, mas temia que não havia mais tempo para lamúrias, ela deveria se colocar de pé mais uma vez e não deixar que todo o sofrimento a corrompesse. Ela era Armelyne Hightower e ainda não iria desistir.
Sentou-se na cama e abraçou Lynesse.
— Obrigada tia.
— Não precisa agradecer minha querida. — Ela sorriu e afagou a bochecha de Lyne quando ambas se separaram. — Agora o que acha de um bom café da manhã?
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j a r d i m d e c i m a
Amélie sentia um estranho cheiro de podridão e ervas dominando o quarto. Levou a mão à frente do nariz quando o meistre espremeu uma quantidade exacerbada de pus e sangue de dentro do cotó de Eyla, ela se segurou para não vomitar ao vez a mistura dentro da bacia prateada. Aella virou o rosto enquanto soltava um soluço em meio ao seu choro, Ayla apenas continuava de olhos fechados enquanto fazia suas preces contínuas aos sete deuses.
— Qual o diagnóstico meistre? — A Crane se atreveu a perguntar com medo da resposta.
— A infecção é mais forte do que pensei e está corroendo ela de dentro para fora. Se não for possível tratá-la por meio de poções temo que precisarei amputar o braço inteiro dela fora, mas temo que ela não tenha forças para isso. — Aella soltou um gemido baixo ao ouvir isso e voltou a passar um pano molhado pela testa da irmã em meio as suas lágrimas.
Amélie ainda se surpreendia como a jovem Rowan fora corajosa em enfrentar a falecida Odethe daquele jeito. Mas ao mesmo tempo percebia o quanto fora precipitado, as meninas haviam sido mortas do mesmo jeito e Eyla estava a beira da morte por ter intervido. Sentia muito por ela, muito. Tocou no ombro de Ayla que continuou orando e se despediu de Aella antes de deixar o quarto. Era bom sentir o ar fresco novamente depois de tanto tempo no quarto abafado.
Atravessou o pátio a passos rápidos, sangue ainda pintava os caminhos de pedra branca e a grama que um dia fora do tom mais verde. Duvidava que alguém fosse se preocupar em limpar aquilo por agora com tantos feridos precisando de cuidado e toda a corte em completo êxtase mesmo após a invasão sanguinária. Haviam vencido, mas a um alto preço, o castelo ainda estava de pé, porém bastava um sopro que ele voaria como uma pilha de folhas. Os rumores que circulavam por aí era que muitas damas queriam voltar para casa, que se sentiam mais seguras em seus castelos do que aqui.
Amélie duvidava que a rainha Elizabeth fosse permitir isso, por mais que ela não fosse mais rainha. De qualquer forma aquilo não importava tanto assim para mais ninguém, todos estavam envoltos em uma neblina de medo e suspense, apenas lutando para se manter vivos até o fim da guerra. Diziam que o rei estava vencendo ao sul, outros diziam que Niklaus chegaria a qualquer momento para matar todos, ela não acreditava em nenhuma hipótese, o cerco havia deixado o castelo isolado de todos, os primeiros corvos haviam sido enviados essa manhã, ela havia visto enquanto passeava pelas ameias mais cedo.
Tudo parecia tão confuso e ela apenas gostaria que sua mãe a escutasse e elas voltassem para Lago Vermelho onde elas pertenciam, todavia ela era teimosa demais para isso. Suspirou enquanto cruzava um arco e entrava no pavilhão de quartos onde sua família estava alojada, seguiu para a pequena sala comum. Sua mãe olhava pela a janela, sua irmã se ocupava com um bordado bobo.
— Como está a menina Rowan? — Lady Ágata perguntou assim que percebeu a presença da filha no recinto.
— Nada bem. — Sua resposta foi simples, mas como sua mãe a olhou friamente completou. — A infecção está avançando e se não melhorar terá o braço inteiro amputado.
— Pobre garota, mas imagine, desafiar aquela ogra que se chamava de Sor, não é de se esperar que tenha acabado nisso.
Ela queria responder a mãe e dizer o quão brava Eyla havia sido, porém não tinha forças para se envolver em uma briga naquele dia.
— Irei para meu quarto, meus nervos estão em matando, veja se você consegue deixar sua irmã em paz Amélie.
Claro, como se a culpa das brigas fosse minha. Pensou amargamente enquanto via o sorriso discreto nos lábios da irmã. Sua mãe entrou para o quarto e Evangeline aguardou alguns segundos antes de deixar o bordado de lado para tirar uma carta da manga.
— Isso chegou para você hoje. — Ela começou sorridente, um daqueles sorrisos que ela colocava na face apenas quando estava aprontando algo. — O criado disse que era endereçada apenas para você e a princípio não quis me dar, mas eu sei ser bem convincente e ele pensou melhor. Fiquei bem curiosa, ainda mais quando vi quem escreveu para tu.
Ela engoliu em seco já imaginando o remetente.
— Kirlon, um soldadinho pobre e sem modos de nossa casa, mas que, se eu bem me lembro, você adorava passar tempo.
— Me dê isso! — Tentou agarrar a carta, mas Evangeline segurou seu braço e levantou a carta bem acima de sua cabeça.
— Se não se sentar agora eu irei gritar mamãe.
Amélie se viu obrigada a obedecê-la.
— Bom, eu sempre imaginei que você fosse do tipo que gosta da plebe irmã, mas você foi mais baixa do que eu imaginava. — Ela sorriu ainda mais quando viu a ansiedade na face de Amélie e inesperadamente entregou a carta.
Ela leu o conteúdo mais rápido do que qualquer coisa que tivesse lido antes. Me encontre nos limites da muralha sudoeste ao ápice da noite, Kirlon. Soltou o ar quando terminou e voltou seu olhar para a irmã.
— Porque não entregou isso logo para mamãe, o que quer em troca, você nunca faria algo assim.
— Bom, por mais que eu adorasse ver mamãe mais furiosa do que tudo com você, eu ficaria mais do que feliz se você fugisse com esse soldado pobre. Teria você para fora de minha vida para sempre e teria caminho livre direto para Sor Aeden.
— Aeden? E o seu grande amor por Teobaldo?
— Oh, eu ainda o amo fortemente, mas mamãe já deixou bem claro que papai nunca permitiria isso e eu não veria tanto problema em ser a Senhora de Bosquedouro, um dos castelos mais belos da Campina com o mais belo dos cavaleiros.
Por isso Amélie não esperava de jeito algum.
— Vá embora Amélie, vamos dar o prazer a ambas e nunca mais nos vermos, seja feliz ou o que quer que seja com esse tal de Kirlon enquanto eu tomo seu lugar como noiva. Ambas ficamos felizes e tudo termina da melhor forma possível.
Ela se levantou com delicadeza e sorriu deixando as sua bochechas levantadas docemente antes de seguir para o seu quarto. Parou após abrir a porta.
— Você sempre foi impulsiva e dada a cometer as maiores burrices, não me decepcione agora e vá encontrar esse homem.
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Raymun fazia seus cálculos em seu pergaminho enquanto Roslin o ajudava a cumprir a tarefa, não que ele precisasse de muita ajuda, era um menino muito esperto.
— Então o resultado será dois! — Ele respondeu animado, orgulhoso de si mesmo.
— Sim, está correto. — Roslin sorriu para ele e o pequenino seguiu para o próximo.
— Queria que a Elly estivesse aqui para ver como eu aprendi, ela sempre disse que eu demorava demais para aprender as coisas, mas mesmo assim eu sinto falta dela. — Ela lançou-lhe um sorriso triste ao mesmo tempo que confirmava com um aceno. Por mais irritante e arrogante que sua irmã fosse, sentia falta dela em seu pé.
Ellynor continuava apodrecendo nas masmorras sem que ela pudesse ajudá-la. Ao menos a sua carta havia chegado às mãos certas de Sor Aeden e, pelo que ela havia ouvido em sussurros pela corte, ele e seu pai haviam abandonado John. Isso explicaria o fato de Elizabeth quase não sair mais de seus aposentos, vivendo trancada em sua torre recebendo apenas a presença de suas damas mais fiéis e do meistre. Roslin percebia que a corda que mantinha seu marido no poder estava por um fio e precisava apenas de um leve corte para rompê-la ao meio.
Ela ainda pensava em como conseguiria manter Raymun no poder depois que os Gardener caíssem junto com John, mas ela e sua irmã resolveriam isso depois, ela sabia que Ellynor surgiria com uma solução, Roslin apenas precisava de um plano para soltá-la e das pessoas certas o seu lado como Elly havia dito tantas vezes. Agora finalmente percebia o quanto o fato de sua irmã ter pegado em seu pé desde sempre serviu de alguma coisa, não estava tão perdida depois de ouvir tantas vezes o jeito certo que sua irmã mais velha sempre falava de seguir com as coisas.
Ser cautelosa, ter aliados, saber ser invisível quando necessário e aparecer só quando necessário.
Agora que Elizabeth havia baixado sua guarda era o momento dela se preparar e agir. Afinal ela era a rainha e aquela era a sua corte, ao menos até John perder a sua coroa e ela não duvidava que esse momento estivesse próximo.
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t o r r a l t a
Ela sabia que aquele encontro um dia aconteceria, estava ciente de que em algum momento teria de confrontar Niklaus nos olhos e dar satisfação pelo que fez, porém ter noção disso não a ajudou a estar preparada para quando o rei entrou em seu quarto no topo daquela torre. Sentiu os joelhos cederem e as pernas ficarem bambas, sentou-se na cama para não cair e se machucar.
Lyra não falou nada, apenas observou o olhar sério do seu marido sobre si. Não sabia se ele transmitia raiva, desprezo, dor ou arrependimento, ele apenas a olhava, sem demonstrar nenhum sentimento.
— Eu sinto, sinto muito — Achou que era o certo a se falar, se desculpar antes de tudo e talvez ele tivesse alguma compaixão por ela, quem sabe uma mudança na opinião dele, isso se ele já tivesse uma pronta.
O olhar dele continuou pesado sobre ela e Lyra não soube se desvia complementar com algo ou quem sabe se ajoelhar e pedir por clemência, as duas opções não pareciam surtir efeito em sua mente. No fim ele quebrou o silêncio antes que ela o fizesse.
— Eu pensei que estávamos criando algo especial, que pudéssemos criar amor um pelo outro.
Amor? Aquela era uma palavra forte e que tinha muito peso, entretanto as pessoas prosseguiam na ingenuidade de dizer ela sem pensar muito, como dar bom dia. Ela amava Niklaus? Teria Lyra realmente sentimentos genuínos e puros por ele a ponto de se transformarem em amor? Não, ela não o amava, disso tinha certeza. Talvez sentisse compaixão e empatia pelo rei, ele fora gentil para com ela e tratou com todo o respeito que ela poderia ter pedido em um casamento, mas isso não apagava todo contexto em que eles se encontravam. Ela nunca quis se casar com ele e por isso achava que nunca poderia realmente amá-lo.
— Me perdoe Niklaus, mas acho que o que temos nunca chegaria a se tornar amor. — Ela disse finalmente, o que estava entalado em sua garganta desde que se casaram e a jovem rainha ainda sonhava em uma falsa liberdade, deu a ele a verdade. — Talvez em outra vida eu pudesse ter te amado, em outras circunstâncias ou situação, mas não do jeito que as coisas se desenrolaram.
Niklaus concordou com um aceno triste, ao menos ela achou melancólico.
— O que irei fazer com você? — Ele coçou o queixo em uma voz rouca e fria. — Seu avô e seu tio disseram que não aceitam sua prisão, ameaçaram largar a minha causa e levar seus homens. Sem eles eu perderei a guerra, mesmo que eu duvide que possa ganhar mesmo com eles ao meu lado. Porém, a maioria dos meus nobres pedem a sua cabeça e a do seu irmão por traição. Me diga Lyra, você causou tudo isso, qual a sua solução?
Se ela fosse mais parecida com sua mãe e não com seu pai poderia fugir de toda aquela situação como uma raposa Florent. Mas ela era justa, ao menos ainda tinha isso dentro de si. E sabia que pedir por sua vida talvez funcionasse com Klaus, talvez. Entretanto foi simplória.
— Já pedi para Blair cuidar do bebê, tenho certeza que ela fará isso muito bem. — Respondeu colocando a mão sobre a barriga.
O rei deixou uma lágrima cair pela maçã de seu rosto. Limpou com as costas da mão e seguiu até ela, colocou a mão grande e calejada sobre a sua mão, depois a outra em outra parte da barriga. Sorriu levemente e depois depositou um beijo na cabeça dela, um movimento que se demorou um pouco e ela pode sentir ele respirar bem fundo o aroma adocicado das essências em suas madeixas.
Niklaus deu as costas e seguiu para a porta do cômodo, abriu e parou antes de sair para o corredor.
— Adeus Lyra… — E então saiu e trancou a porta atrás de si.
Ela ficou alguns segundos parada na mesma posição, suspirou fundo e deitou-se na cama.
— Adeus Niklaus. — Murmurou para si mesma na solidão do quarto no alto da torre.
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