A Rosa Branca
8 Vingança
Kurama viu quando Botan e Koenma passaram próximos. Ele se escondeu furtivamente dos dois. Sabia que se o vissem, o impediriam ou atrapalhariam os seus planos.
Kuno estava próximo das docas. Os olhos verdes pousaram sobre o sorriso satisfeito do inimigo.
––Espero que tenha apreciado o meu presente.
Kurama não respondeu. O demônio viu a rosa branca manchada de sangue em suas mãos:
––Ah! Espero que tenha gostado também do meu toque especial. Sabe, ela teve que sangrar muito... Mas, a arte é assim mesmo. É preciso o maior sofrimento para alcançar maior beleza.
Beleza? Então ele via o que tinha feito como uma obra de arte?
––Mas, eu estou decepcionado com você. Esperava que a essa altura já tivesse se lembrado de mim.
––Não preciso me lembrar de alguém que já está fadado a morte––respondeu com desinteresse.
Kuno havia esperado muito por aquele momento. O momento em que marcaria a alma do youko para sempre.
Kurama não estava interessado em saber o que tinha feito no passado para que aquele homem o odiasse. Não se importava se tinha tentado matar ele, mas não teve sucesso, ou se matou algum ente querido, nada justificava o que ele havia feito à Sassame. Nada tiraria a dor do coração de Shuuichi. Nada apagaria a vingança da mente do youko.
––Vamos ver como você reage, depois de ter toda a pele do seu corpo cortada––murmurou.
Seu rosto estava inexpressivo. Seu olhar... impiedoso.
Kuno, originalmente, havia previsto que Kurama tomasse sua forma youko juntamente com a sua personalidade. Mas, aquilo não era necessário, pois os gestos de Kurama eram do youko, assim como o seu olhar e a sua força.
Ele colocou cuidadosamente a rosa branca próximo a parede de uma casa. Não iria usa-la agora. Ela seria para dar o golpe final...
Enfiou os dedos nos seus cabelos e tirou uma semente que virou uma rosa autenticamente vermelha. Não precisou falar o nome do golpe, não pretendia avisar a sua vítima o que pretendia fazer.
Kuno transformou o seu braço em uma foice.
“É inútil...”, murmurou Kurama em pensamento. Aquele poder era inútil se comparado ao seu, se comparado com a sua fúria.
As pétalas se soltaram do talo e foram jogadas para cima de Kuno. Elas o rodeavam fazendo milhares de cortes por todo o seu corpo.
––Mas, que ser insignificante...––murmurou Kurama interrompendo o seu ataque.
Havia atingido em cheio o seu inimigo.
––Não imaginava que você fosse tão frágil assim...––comentou friamente enquanto se aproximava do pobre infeliz que tentava estancar o sangue que escorria dele sem controle, pressionando alguns pontos mais feridos. Mas, eram tantos que não podia fazer muita coisa. E continuou––Ora... não seja tão fraco assim. Eu nem atingi o seu ponto vital.
O demônio tentou investir um golpe com o seu braço transformado, mas o youko simplesmente desviou.
Kurama não fazia idéia do quanto as suas emoções estavam aumentando os seus poderes. Kuno normalmente seria um adversário a altura.
––Vamos ver... Vou drenar o seu sangue... Mas não tão rápido... Aqueles cortes, você levou um espaço de tempo muito grande para fazer um e outro não? Que coisa, precisamos compensar esse tempo. Então, você vai ter que sofrer mais...
Kuno olhou-o apavorado. Não esperava que o ódio o tornasse tão mais forte.
––Ora, não se preocupe––disse numa voz tranqüilizadora.––Você não vai sofrer mais que alguns dias...
O demônio infeliz não iria se arrepender. Talvez apenas de não ter fugido, de ter imaginado que seria pario para ele. Mas, não de ter ferido sua alma. Disso jamais. Em pensar nisso, começou a rir. Kurama não se abalou, continuaria com a sua tortura, até que se sentisse satisfeito.
oOoOo
Botan esperava ouvir a frase. Mas, ao invés isso, ouviu um som um pouco estranho. Koenma havia pegado a chupeta.
––Sr. Koenma?!––murmurou espantada.
Iria usar o Mafukan, a poderosa energia benigna do mundo espiritual?
Ele havia pensado por muito tempo. A última vez que usou o Mafukan foi para tentar deter Sensui, quando abria o buraco para o mundo das trevas. Daquela vez a energia havia se dissipado completamente. Ele não tinha muita energia acumulada ainda, apenas quatro ou cinco anos não resultava numa energia extraordinária, como tinha da última vez. Mas, se a usasse inteira, seria o suficiente para traze-la de volta.
Koenma sentia um grande constrangimento quando o mundo espiritual errava com os seus detetives. De certa forma, ele a havia colocado na mira do perigo.
––Volte a vida!––ordenou.
O corpo flutuou e a energia o envolveu. A maioria dos cortes foram-se fechando e a pele foi adquirindo um tom rosado. Pousou no chão, com o coração pulsando mais uma vez.
Botan sorriu de felicidade. Koenma sentiu a chupeta se desmanchar em suas mãos. Assim ia embora a energia acumulada de cinco anos.
Sassame parecia ter um sono calmo nas primeiras vezes que encheu os seus pulmões com ar. Mas, em seguida encolheu-se e gritou. Era o seu espírito tentando se libertar do pesadelo em que se encontrava.
Seus gritos ecoavam por todo o túnel e eram assustadores.
––Ah! Sassame! Calma!––pediu Botan, mas a garota não a ouvia.
“O espírito dela deverá se aliviar aos poucos agora”, pensou Koenma consigo mesmo.
Os gritos foram ficando mais fracos, até que ao final sobrasse apenas uma Sassame ofegante. Adormeceu.
oOoOo
Os gritos ecoaram além das docas. Alguns cachorros começaram a latir, os gatos rosnaram, e uma certa raposa não deixou de reconhecer de quem era a voz.
Largou Kuno e correu até as docas. O pobre infeliz, aproveitando a deixa, fugiu desesperado.
Rapidamente, chegou ao túnel. O grito havia cessado. Avistou Koenma e Botan.
––O que...?––ia perguntar, mas Koenma se adiantou em falar.
––Usei a energia Mafukan para trazê-la de volta. Gastei tudo o que tinha, por isso preciso voltar para o mundo espiritual. Tchau.
E o adolescente que não tinha mais a sua rotineira chupeta, desapareceu no ar.
Atordoado com os gritos de Sassame e a saída repentina o filho do grande rei Enma, deu os primeiros passos em direção a garota. Desejando com toda a sua força que fosse verdade.
Afastou os cabelos dela que cobriam o rosto, um pouco duros por causa do sangue seco, e o viu sem nenhum ferimento. Nem sequer uma cicatriz. Tocou sua face corada de leve, quase como um carinho, e sentiu o calor emanando dele.
Sentou ao seu lado por um momento, apenas observando a sua respiração calma e silenciosa. Tentava reorganizar seus sentimentos. Mesmo que os tratasse sempre em segundo plano, eram importantes também, afinal eram parte dele.
Botan estava perdida. Não sabia se devia ficar ou partir.
––Vamos para o templo da mestra––decidiu Kurama, de repente, colocando a garota apoiada em suas costas, para carrega-la pelo caminho.
A guia acenou afirmativamente com a cabeça:
––Eu vou na frente avisar a mestra!––informou subindo em cima do seu remo.
Era isso. Agora que estavam sozinhos tinha que dar um jeito de afasta-la para sempre dos perigos que a convivência com ele podia trazer. Primeiro cuidaria dela, depois do mundo espiritual.
Ele não precisou se mover, controlou para que uma flor específica exalasse o seu aroma adocicado.
A cada passo que dava, sabia que ficava mais distante dela para sempre. Pois ela nunca mais se lembraria do que aconteceu desde o dia do vestibular. Apagaria tudo da sua mente, da mesma forma que havia feito com Maya.
Era doloroso, mas ele sentia que era a coisa certa a fazer.
Sentiu a cabeça dela se mexer suavemente.
––Kurama...?
––Durma...––pediu ele, num tom gentil.
––Não quero, faz parar.
Ela parou de caminhar surpreso. Fazer o que parar?
De alguma forma, ela conseguiu extrair da sua memória que aroma era aquele, e para o que servia. Era a flor do infinito, apagava a memória das pessoas.
––Eu não me lembro de muitas coisas...––explicou ela.––Não quero me esquecer de mais nada. Não quero me esquecer de você...
Num primeiro instante ele não se moveu.
––Por favor...
Ela estava começando a formar uma memória, a colecionar lembranças... Não podia perde-las agora...
Ele não podia negar...
Secou a flor.
––Obrigada––disse ela. Seus braços, que já estavam acima dos ombros do youko, o abraçaram suavemente por alguns segundos.
Ela adormeceu confortavelmente nas costas de Kurama, sentindo-se segura junto a ele.
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