––Chegamos.

––Chegamos.

Ela chacoalhou a cabeça. Não era momento de ter flash backs, era momento de se concentrar na missão.

Kurama observou. Havia uma construção ‘fincada’ nas paredes rochosas do abismo, aquele deveria ser o lugar.

Sem aviso prévio, Sassame se aproximou do abismo e tocou o solo. Trepadeiras nasceram pelas rochas. Eles agora podiam descer até a construção por elas, eram fortes, resistentes e estavam muito bem presas. O youko se perguntou se apenas Sassame idealizou aquele feito.

Sem dizer nada, Naida se aproximou do abismo e tocou o solo. Trepadeiras fortes nasceram pelas rochas. ––Daqui para frente, não vamos mais conversar. Você é muito rude e barulhento, se tem que me acompanhar, tente ao menos não atrapalhar––falou Naida num tom arrogante.

Pas Tou acenou afirmativamente com a cabeça.

Notando mais uma das várias crises momentâneas de ausência, o youko não podia deixar de comentar nada. Se iam se meter na toca dos leões, ela precisava ficar ligada na realidade. Mas, Sassame falou primeiro:

––Kurama, eu preferia não ter que falar isso. Mas...––ela parou por um segundo para tomar fôlego.––é melhor você tomar cuidado comigo daqui para frente.

––...

––Cada vez mais, eu entro no passado da pessoa que eu fui um dia. Quando isso acontece, a realidade some da minha frente. É como se eu revivesse o passado.

––Eu já percebi isso.

Ela ficou quieta por um tempo, talvez não tivesse necessidade de falar mais nada.

––Acho que, quando a gente entrar lá, eu não vou mais te ver como Kurama. E eu acho que eu vou me comportar inteiramente como ela, a Naida––sua voz estremeceu. Por mais que tentasse expressar confiança, estava com medo, muito medo.

––Não se preocupe.

––!?

––Se, enquanto estivermos lá dentro, você mergulhar no passado e agir como Naida, pode ser uma vantagem. Sendo que como Naida você cumpriu essa missão com êxito.

Podia ser, mas era uma sensação muito desconfortável.

––Vamos––chamou ela, descendo pelas trepadeiras.

––Vamos! Espero que você não seja mole a ponto de não conseguir descer isso.

––Fique tranqüila, não terei problemas.

Desceram.

Vários alçapões estavam espalhados acima da construção. Pas Tou mostrou um deles. Sassame correu até o mesmo e o abriu. A raposa enfiou a cabeça para dentro, havia dois guardas no corredor. Com o uso de uma semente, fez com que plantas semelhantes às trepadeiras crescessem silenciosamente no teto do corredor abaixo. Entrou pelo alçapão, e se agarrou a elas. Pas Tou / Kurama entrou em seguida. Como ele não tinha dificuldades para se agarrar às plantas, ela não se preocupou em ajudá-lo.

Exatamente acima dos dois guardas, a raposa atirou duas sementinhas, esperou um segundo. Pas Tou não sabia o que ia acontecer ali. Kurama conhecia aquelas sementes, eram as “sementes da morte”. Havia um outro guarda que Sassame não viu – provavelmente só haviam dois ali no passado – se ela usasse as sementes apenas nos dois, aquele que faltou iria reagir. O youko jogou uma semente naquele demônio esquecido, silenciosamente uma planta cresceu em volta deste que, quando percebeu já era tarde, ficou imobilizado. Friamente, os seus olhos se estreitaram. Os demônios nem tiveram tempo de gritar e uma explosão de sangue surgiu, juntamente com lindas flores do Makai.

Desprendeu-se do teto e pousou silenciosamente no chão. Correu até o fim do corredor sem fazer som algum, observou a bifurcação. Pas Tou indicou com a mão para a direita, ela seguiu esse caminho.

Kurama a seguia atento para dar de cara com qualquer coisa que ela não via. Estava impressionado, aquela ex-raposa sabia como fazer as coisas. Talvez não fosse melhor que o legendário Youko Kurama, mas tinha muito potencial.

Chegaram a uma escada vertical. Novamente, a garota foi na frente, mas Kurama teve cuidado de observar antes que ela descesse: logo abaixo havia um grande salão, com vários youkais. Colocando os seus longos dedos por entre seus cabelos, o youko estava preparado para utilizar qualquer semente que fosse necessária para qualquer ataque em massa que conseguisse preparar, caso ela não os visse. Mas, aparentemente, no passado, lá também havia muitos demônios. Curioso, decidiu observar que método Naida utilizaria.

Poderia passar por eles sem ser vista. Mas, Pas Tou era lento e possuía um físico muito chamativo. Sabia que se pedisse para ele ficar, não a obedeceria. Tinha que eliminar todos aqueles demônios, da forma mais rápida e silenciosa possível.

Todos eles estavam treinando uns com os outros. Faziam muito barulho e, se ela conseguisse fazer com que eles não se exaltassem, provavelmente qualquer ser em outro andar não notaria a morte deles.

Fumaça? Poderia criar uma superdensa para confundi-los. Isso daria a ela tempo suficiente de manipular a planta que seria a perdição deles. Mas, a ausência dos sons que eles faziam provavelmente chamaria a atenção. Precisava criar algo que substituísse aqueles sons.

Atirou algumas sementes em três cantos diferentes da sala. Logo depois, fez com que algumas raízes estranhas começassem a se alastrar pelo teto.

Pronto! Hora de agir. Gastaria muita energia de uma só vez para manipular tantas plantas, mas era a solução mais perfeita que conseguia alcançar.

Começou a criar fumaça, ela se espalhou pela sala rapidamente. O barulho das lutas diminuiu pelo espanto dos demônios, mas logo quando a sala ia silenciar, misteriosamente os sons voltaram a soar. Talvez um pouco diferentes dos anteriores, mas muito semelhantes.

Kurama observou muito surpreso. “Foi perfeito”, pensou. Talvez ela pudesse ter dispensado níveis diferentes de energia para que os sons ficassem perfeitos, mas nada que um pouco de experiência não traria à Naida.

Pas Tou não conseguia enxergar através da nuvem de fumaça, e só entendeu o que aconteceu quando toda ela se dispersou. Os corpos espalhados pelo chão foram atravessados por vários bambus. Do teto, eles cresceram imediatamente quando os youkais se silenciaram, matando-os rapidamente, tirando toda a chance que eles tinham de gritar.

Mas, os sons prosseguiam. Pas Tou olhou nos três cantos em que ela jogou as sementes, previamente. Um conjunto de plantas carnívoras abria e fechava suas bocas, produzindo efeitos sonoros semelhantes aos que os demônios faziam enquanto treinavam.

Naida sabia: as plantas carnívoras do Makai são muito mais sensitivas. Aquelas eram as menos perigosas, pois não movimentavam nada além de suas bocas. Graças a grande sensibilidade, ao sentir que existe outro ser com energia maligna ao seu lado, ela fica abrindo e fechando a boca, com a intenção de espantar o inimigo ou se proteger de algum possível ataque. Sendo assim, as próprias plantas sentiam que as suas vizinhas iguais eram uma ameaça.

A raposa desceu toda a escada e começou a andar sobre o sangue e a carne dilacerada dos seus inimigos espalhados pelo chão.

Kurama sabia: Sassame jamais teria frieza o suficiente para agir daquela forma. Tal frieza que provavelmente Shuuichi também não teria. Ele a seguiu com a mesma indiferença para com os demônios daquela sala.

Pas Tou apontou uma das portas. Ela a abriu.

Um último corredor, três demônios guardavam uma porta.

Um último corredor, três demônios guardavam uma porta.

“Ataque do vegetal sobrenatural”, murmurou em pensamento e uma espada esverdeada feita de plantas muito resistentes surgiu em seu braço direito. Rapidamente, cortou a cabeça dos três demônios.

O ataque dela foi muito rápido. O nível de energia se elevava a todo o momento e, Kurama sabia, que a qualquer momento ela poderia readquirir a sua forma original de youko.

Abriu a porta. Pas Tou parou no corredor. Ela deu uma risadinha de desdém: “Covarde”, pensou.

A sala redonda possuía apenas uma mesa central, na qual havia uma pedra esverdeada reluzente que descansava esplendorosa.

Esperava, assim como Kurama, um último enigma. Mas, após observar muito bem, não encontrou nada, da mesma forma que o youko.

Ela se aproximou e apanhou a pedra. Fitou-a por um segundo. Sentiu-se nauseada. Com ela em mãos saiu da sala passando por Kurama, sem vê-lo.

Fizeram todo o caminho de volta sem problemas. Provavelmente, os demônios que sobraram iriam perceber apenas muito mais tarde.

Saíram pelo alçapão e escalaram as trepadeiras. Aquele era o momento, provavelmente o mais difícil até agora: fazer a garota voltar à realidade.

––Sassame––chamou Kurama.

Os dois corriam para se afastar do local do roubo. Como ele esperava, ela não respondeu. Repentinamente, ela parou.

Pas Tou parou.

––O que foi?––perguntou Naida.

Assim que ele a fitou, ela sentiu toda a sua energia sendo paralisada.

––... O que...?––murmurou, não conseguindo se mover.––...Por que...?––perguntou, fitando Pas Tou, surpresa pela traição.

––Foram ordens––respondeu ele friamente.

Sentia dores por todo o seu corpo, mas sabia que não podia tentar usar os seus poderes: Pas Tou havia congelado o seu núcleo, uma tentativa de utilizar os seus poderes significaria que a raposa podia dar adeus à sua vida. Ela já o havia visto matar antes, inúmeras vezes. Não havia contra-ataque nem defesa para a habilidade dele.

Sassame se encolheu caindo de joelhos. Gemia com os seus sentidos paralisados.

Demônios começaram a sair aos montes do abismo, e a correr na direção deles.

––Droga!––falou Kurama, ajoelhando do lado dela. Precisava tirá-la daquele transe.

––Ordens...? Mas...––interrompeu sua própria fala para soltar um gemido de dor. Ela sabia que o demônio sentia prazer ao torturá-la, mas estava confusa demais para se enfurecer.

––Você ficou forte demais. Até mais do que o suficiente para poder suceder o seu pai. Por isso, você deve morrer.

Ela gritou com a dor. Largou a pedra no chão.

Ela gritou com a dor. Largou a pedra no chão. Era difícil estar numa situação daquelas e conseguir se controlar para não usar sua energia maligna.

––Quem... Quem te mandou...?

––Ora, parece que a sua inteligência resolveu te abandonar logo na hora da sua morte––zombou.––Foi o mesmo que deu as ordens para essa missão.

“O meu... meu pai deseja a minha morte...? Ele não quer ser sucedido? Mas, quem disse que eu queria assumir um cargo idiota como o dele?”, pensava inconformada pela atitude do pai e pela falta de sentido que via em sua morte.

Demônios começaram a sair aos montes do abismo e a correr na direção deles.

––Sua morte é inevitável agora. Cristalizei o seu núcleo, qualquer energia que você tente dispensar será a sua morte instantânea––ele fitou os demônios que se aproximavam até eles. Ele riu sádico––Que pena que uma pessoa tão forte como você vá morrer nas mãos desses lixos...

Pas Tou apanhou a pedra:

––Mas, não pense que sua morte foi totalmente vã. Isso––disse mostrando a pedra.––nos trará muito dinheiro.

Rindo, ele a abandonou para morrer nas mãos dos horrendos youkais que se aproximavam.