A Rosa Branca

23 Casca de Banana


––Ué?––estranhou Kaitou ao ver o ranking do simulado:

“ 1º — Yuu Kaitou 493 pontos

2º — Satoko Saito 490 pontos

3º — Shuuich Minamino 480 pontos”

Era raro que ele fosse melhor que Minamino. Isso aconteceu apenas nas épocas em que Shuuich teve problemas por ser o Kurama. Entretanto, vê-lo cair para a terceira posição não era nem um pouco comum.

Mais um dia de aula, e o inteligente e esforçado Minamino, fitava a janela ao invés do professor.

As cerejeiras soltavam as suas lindas flores tornando a rua cor de rosa. “Cerejeiras... É mesmo”, murmurou em pensamento relembrando do primeiro dia em que treinou Sassame.

––Minamino––chamou uma voz.

Incomodado por ter sido arrancado de boas lembranças, fitou a imagem de Kaitou a sua frente.

––Minamino, já faz dez minutos que a aula acabou.

Fazia dois meses que ele viu Sassame pela última vez. Foi no mundo das Trevas, antes dela se transformar em Naida.

––... aula? Ah sim!––percebeu fechando o livro e guardando o seu material.

––Você está envolvido com problemas de novo?

––Por enquanto não––respondeu, sorrindo gentil.

––Você desceu duas posições do ranking––falou Kaitou, como se aquilo fosse o fim do mundo.

––Deixa pra lá––murmurou desinteressado.

Depois de se livrar de Kaitou, pôs-se a caminhar de volta para casa.

Até que a súbita falência da micro-empresa do seu padrasto não foi tão ruim. Ao menos não precisaria ter que lidar com as pessoas mais chegadas todo o dia. A sua falta de concentração em um cursinho não o prejudicava tanto, pois isso não ficava evidente para a sua família.

Caminhou sem pressa, mas não demorou muito para chegar ao condomínio.

––Shuuich, meu filho!––chamou uma voz feminina e maternal.

––Mamãe! Como a senhora está?

––Estou bem, e você, meu filho?

––Tudo bem.

––Eu pensei em dar uma passadinha aqui, antes de ir ao mercado.

––Entre, eu vou preparar um chá para você.

––Ah, não vim te dar trabalho, filho.

––Não é trabalho nenhum. Venha, vamos entrar!

Realmente, o aparecimento de Shiori o fazia se sentir bem. Sempre a sua presença era reconfortante.

Como sempre, o apartamento de Shuuich estava impecável. Shiori se sentia orgulhosa ao notar isso.

––Aqui––mostrou ele, chegando com uma bandeja com duas xícaras, um açucareiro e o bule de chá.

––Obrigada––agradeceu ela, pegando uma xícara.––Como vai o cursinho?

––Sem problemas.

––Sabe? O seu padrasto ficou chateado pelo fato de ter decepcionado você.

––Como assim?

––Ora, você recusou a sua entrada na faculdade para se concentrar totalmente na empresa. E agora está tendo que fazer cursinho para reparar o prejuízo.

Shuuich sorriu. Mas, que preocupação tola.

––Não se preocupe com isso. O que passou, passou. E fale para ele não ficar chateado também. Nós apostamos e perdemos. Não adianta nada ficar olhando para trás.

Shiori sorriu para o filho, cheia de orgulho.

––Você é uma jóia rara, sabia?

“Jóia... o que será que Sassame fez com a jóia de Masiri...?”, perguntou-se, incondicionalmente. Quando percebeu que estava novamente pensando na garota, voltou a se concentrar em Shiori, que terminava o chá, despreocupada.

––Vou indo, filho. Senão fica tarde para fazer compras.

––Não quer que eu compre tudo e leve pra sua casa depois?

––Não––disse ela sorrindo, fazendo um rápido cafuné na cabeça dele.––Não precisa.

––Eu te acompanho até lá em baixo.

Os dois desceram até a portaria e foram até a calçada. Kurama sentiu uma presença ligeiramente familiar. Olhou para os lados. Era uma energia maligna muito forte.

––Tchau. Não deixe de se alimentar direito––falou Shiori.

––Não esqueço não––disse, despedindo-se rapidamente.

Ele não sabia de quem era aquela energia. Era melhor que Shiori fosse embora o mais rápido possível.

Para o seu alívio, sua mãe deu meia volta e começou a caminhar pela rua.

Ele encarou o foco de energia que se aproximava. Vinha muito rápido e... acompanhado de um grito?

––AAAAAAAAH! O FREIO QUEBROU! AAAAH! SAI DA FRENTE! AAAAH! DESCULPE, SENHOR! É O FREIO QUE... AAAAAAAH!!!!!!

Uma garota numa bicicleta vinha numa velocidade alucinante. Passou por Kurama, desviando dele no último instante para não atingi-lo. E novamente de Shiori, mais à frente. Mas, as latas de lixo numa esquina não tiveram tanta sorte. Atingiu-as em cheio e caiu da bicicleta.

Kurama e Shiori correram até ela. O rapaz tirou uma das latas de cima da garota, e ela se sentou.

––Ai!––gemeu ela. Olhou para a bicicleta desolada, adorava-a.––Obrigada pela aju...––começou a agradecer, sem saber quem era, mas os seus olhos logo se encontraram com os de Kurama. Ela interrompeu a frase ficando ligeiramente vermelha. Ele apenas a observou muito surpreso: era Sassame. Não Naida, mas Sassame que estava ali, bem à sua frente.

––Mas, que acidente horrível!––falou Shiori.

Os dois olharam para ela com cara de bobos. Kurama piscou forte: “Controle-se homem, a sua mãe está aqui!”.

––Você está bem?––perguntou Shiori para a garota.

––Ah, sim––disse ela se levantando, ligeiramente confusa. Bateu as mãos nas roupas para tirar o lixo. Uma casca de banana muito simpática decorava a sua cabeça.

O olhar dos dois jovens se encontraram novamente, ambos desviaram, ligeiramente rubros.

“Mas, o que diabos está acontecendo com você?”, perguntou-se Kurama.

––Oh! Vocês se conhecem?––perguntou Shiori.

––Bom,––começou Kurama, também confuso pela situação inesperada.––Mamãe, esta é Sassame. Sassame, esta é Shiori, minha mãe.

Sassame olhou para a mulher. Depois da ficha cair, ela abriu um sorriso meigo:

––Ah! Muito prazer!––disse cumprimentando-a. Quando abaixou a cabeça, a casca de banana caiu entre as duas.––Oh! Sinto muito!––falou, estupidamente vermelha.

Shiori e Kurama riram.

––Tudo bem––falou a mãe de Shuuich.––Prazer em conhecê-la. Está tudo bem com você mesmo?

––Sim, obrigada. Desculpe por tudo!

––Não foi nada––falou rindo.––Se está tudo bem então... Desculpem a minha pressa, mas preciso ir agora.

––Não, não, tudo bem!––falou a garota.

––Tudo bem, mamãe.

Shiori se despediu da garota, mais uma vez do filho e voltou ao seu caminho.

Sassame e Kurama se entreolharam. Ele riu.

––O que foi?––perguntou ela.

Ele tirou um papelzinho de bala que ainda estava preso ao seu cabelo.

oOoOo

––Ela parece ser maravilhosa––comentou Sassame.

––Ela é––concordou Kurama.

Os dois caminhavam pela cidade. A bicicleta da garota ficou no lixo, lugar ao qual deveria ter pertencido há muito tempo.

Pararam numa ponte, num parque que havia próximo à casa de Kurmaa. Ela se encostou no parapeito observando a água passando em baixo deles. Ele apenas apoiou as costas e ficou observando o céu avermelhado de um dia que já se despedia.

––Eu não conheci a minha mãe humana. Parece que ela morreu ao me dar à luz. Ou qualquer coisa assim, eu nunca soube o que aconteceu na realidade. Isso é o que me contaram. O meu pai eu conheci, mas não tenho muito contato com ele. Acho que senti muito a falta de uma família, já que vivi aquele tempo todo apenas como humana, sem lembrar de nada.

Ela ficou em silêncio por um instante. Não sabia porque estava falando aquilo, nem sabia porque havia ido até lá.

––E foi bom você ter se lembrado?

––Eu não sei...––ela analisou rapidamente os seus sentimentos, se sentia à vontade em falar com ele.––A primeira impressão que eu tive, foi que eu tinha que voltar a ser Naida. Então, agi como ela e permaneci um tempo como ela. Mas, eu percebi uma coisa.

––O que?

––Eu não sou mais ela.

Kurama desviou o olhar do céu e a encarou. Ela continuava a apreciar o rio, como se olhasse para dentro de si mesma a cada palavra que proferia:

––Eu também não sou mais a Sassame. Mas... eu não sei, sinceramente o que ou quem eu sou. Eu achei que se eu ficasse um tempo com a minha forma youko, eu ia descobrir. Mas, não descobri.

––Por isso que você acabou voltando.

––Foi um dos motivos... Talvez aqui eu encontre a resposta.

––Você não vai encontrar.

––...?

––Uma vez que você tem duas personalidades dentro de si, não é possível definir se você vai ser uma pessoa ou outra. O que vai acontecer é que, com o tempo, você vai definir uma nova personalidade que possua as características das duas. Não tem como fugir de nenhuma das duas partes.

––É... acho que você tem razão. Como sempre––murmurou.

Como podia ser aquilo? Dois meses atrás ele se afastou das Trevas vendo uma pessoa muito diferente: forte, maligna, impiedosa. Mas, agora diante dele estava novamente a garota cheia de receios, meiguice e fragilidade.

––E qual foi o outro motivo?––perguntou.

––É que eu...

Sua vista sobre o rio se deslocou sutilmente. Ficou ligeiramente rubra:

––É que eu queria vir falar com você. Não é por um assunto específico. Acho que nem tinha motivo, mas... eu quis vir.

As sobrancelhas do youko se elevaram. Seu coração humano disparou, mas ele conseguiu controlá-lo. Sorriu:

––Que bom que você voltou, Sassame.

Os seus olhares se cruzaram e, como se mais nada existisse à suas voltas, permaneceram perdidos um no outro. Ela nos verdes, ele nos negros.

A mão dele deslizou sobre o parapeito até alcançar o braço dela. Puxou-a suavemente para que ficasse de frente para ele. Deslizou a mão para as suas costas, aproximando-a mais.

Os seus olhos não se desencontraram em nenhum instante. Os seus lábios, cada vez mais próximos...

––KURAMAAAAAA!!!––berrou uma voz estridente, caindo do céu.

Os dois se afastaram, abalados pelo susto. Viram a guia se aproximar a toda velocidade. Ela pousou e observou os dois, que tinham a mesma expressão de “é bom que seja importante”.

Botan, que não fazia a menor idéia do que havia interrompido, desviou-se do seu assunto principal ao ver que a detetive estava de volta:

––Menina! Koenma está irado que você sumiu! Por onde andou?

––O que aconteceu, Botan?––perguntou Kurama, pacientemente. Mesmo que não estivesse com vontade alguma em ser paciente.

––Eu vim avisar para você ir para o templo da mestra. Estão todos lá. Parece que encontraram Loru Pan. Vem você também, Sassame. Assim você conversa com Koenma. Vamos! Vamos! Não temos tempo!––disse puxando os dois para o remo.

Kurama e Sassame não conseguiram conversar mais naquele dia.