A Rosa Branca
15 A Oca
Levantou-se com a sua habitual expressão de poucos amigos.
––Hiei!––falou Mukuro num tom severo de desaprovação.
O ar daquela sala possuía substâncias curativas, a pele do demônio de fogo já havia se recuperado por completo, mas o jagan não apresentava melhoras significativas.
De qualquer forma, ele não poderia ser capaz de se levantar, sendo que para qualquer movimento era necessário utilizar energia espiritual. Aquilo só podia significar uma coisa:
––Meu antigo núcleo voltou a funcionar. Não faz sentido eu ficar aqui parado––explicou ele.
Com a cirurgia que ele sofreu para implantar o jagan, este se tornou o seu principal núcleo, mas ainda havia outro, aquele que nasceu com ele juntamente com o seu núcleo vital.
––Sua categoria deve ter regredido à D. Duvido que você consiga invocar as chamas negras no seu estado atual. É melhor que não saia por aí.
Hiei riu:
––Eu não fui sempre um demônio de classe S, mas sempre me virei muito bem. Sem contar que em algum momento o meu jagan vai se recuperar completamente.
Era uma afirmação ousada, mas ele sentia uma mínima recuperação, o que o dava motivos para acreditar nisso.
Ele andou até uma mesa pequena, onde estava a sua katana, a prendeu na cintura, como de costume.
––O que você pretende fazer, Hiei? Vai atrás do demônio que fez isso a você?
––Talvez.
––Pois saiba, que no momento ele está com Yusuke Urameshi, Kurama e mais dois humanos, no terceiro andar subterrâneo das Trevas.
––O que? Por que?
Mukuro explicou rapidamente a situação para ele.
Sem aviso prévio, ele saiu do quarto. Ela não o impediu, sabia que sairia perdendo.
oOoOo
––Então, esse é o lugar––falou Kuwabara observando.
Numa depressão, uma oca gigantesca e branca se destacava no meio da mata.
––Isso é que é um grande treco redondo!––observou Yusuke.
––Vamos descer! Tem uma trilha ali!––apontou Sassame.
Até então, eles caminhavam sobre um solo árido, que mudava para o extremamente fértil, repentinamente.
Aquela vegetação era estranhamente familiar para a garota. Ali ela se sentia muito a vontade. Sabia que já havia estado lá antes.
Chegaram até a imensa parede arredondada.
––Olha, tem uma maçaneta!––falou Kazuma, virando-a para abrir a porta, mas nada aconteceu.––Ué?
––Que que cê tá fazendo, seu pastel? Sai daí que nem abrir porta você sabe!––disse Yusuke se enfiando na frente dele. Virou a maçaneta e puxou com toda a sua força, mas nada aconteceu.––Ah, mas que maçaneta mais inútil!
Kurama observou, não havia entrada para nenhuma chave:
––Deve estar trancada por dentro.
––PÉPE! JÁ TIREI A VELA!––berrou Yusuke, mas nada aconteceu.
O ex-detetive e o seu melhor amigo continuaram forçando a maçaneta em vão. Sassame corria o olhar pelo ambiente, começou a entrar na mata.
––O que foi?––perguntou o youko.
––Está faltando alguma coisa. Tinha que ter alguma coisa por aqui––murmurou sumindo no meio das árvores.
“Ela está começando a se lembrar... As coisas podem se complicar bastante, daqui para frente”, pensou Kurama pessimista, seguindo ela.
––ACHEI! Ali! Olha!––disse apontando.
Era um lago pequeno. Suas águas subiam e abaixavam como se o seu ciclo de marés estivesse acelerado. Três bolas de tamanhos diferentes se moviam de forma a mudar a distancia entre elas, porém, existia uma ordem: a maior ficava no centro, a média corria ao seu redor e a pequena corria ao redor da média.
––Acho que a gente faz alguma coisa aqui para destrancar lá––falou ela, tentando puxar sua memória. Mas, bloqueada, não conseguiu se lembrar de mais nada.
Kurama observou as bolas e o lago por um tempo. Chegou perto das bolas e elas pararam de se mover, esperando que ele as movimentasse:
––Entendi. No planeta Terra, no mundo dos homens, as energias são ligadas à lua e ao sol. Provavelmente há uma barreira naquela porta, para que a maçaneta não funcione. Talvez precisemos atenuar o poder da barreira para passar.
Ele começou a movimentar as bolas e o lago abaixava ou aumentava de acordo com a proximidade que elas adquiriam entre si.
Kurama sabia que Kuwabara podia rasgar qualquer espaço dimensional ou barreira com a sua espada, mas não sabia que conseqüências poderia ter ali.
––Mas, por que iam colocar um enigma desses aqui? Quero dizer, só quem esteve no mundo dos homens pode saber uma coisa dessas, não é?––perguntou a garota.
––É, acho que sim. Eu não sei––respondeu sem se distrair da sua função.
Quando o lago ficou no seu limite baixo, ouviram os gritos de Yusuke e Kuwabara.
––Acho que já abriu––comentou ele, rindo da confusão que estava acontecendo ali perto, era possível entender perfeitamente as vozes dos dois amigos:
––Haaa! Eu consegui!––comemorava Yusuke.––Eu sou o melhor, não tem pra ninguém!
––Seu folgado, e eu não te ajudei não?––retrucou Kazuma, dando uma chave de fenda no amigo.––Fala! Fala!
––Que que é?––falou de volta, puxando Kuwabara e imobilizando-o em outra posição.––Eu sou um ser maligno das Trevas, eu tenho sangue da tribo do mal, valeu? Vai encarar?
––Ei, vamos entrar––chamou Kurama. Sabia que se deixasse os dois ali, iam ficar discutindo inutilmente o dia inteiro.
Entraram, com ainda um dando petelecos no outro. Mas, pararam quando a porta atrás deles se fechou novamente.
O lugar ficou completamente escuro.
––Leiken!––invocou Kuwabara, e a espada de energia iluminou um pouco o ambiente.
––Boa!––elogiou Yusuke.
Havia agora um grande corredor, que mais a frente se dividia em dois.
––E agora? O que você acha Kuwabara?––perguntou o youko para o amigo. De todos, Kuwabara era o que tinha sensibilidade espiritual mais forte, era o que podia adivinhar com maior certeza.
––Eu não sei não. Os dois dispensam uma sensação terrível!––respondeu sombrio.
––Vamos ter que nos dividir––falou o ex-detetive.––Eu vou com o Kuwabara, vocês dois vão pelo outro corredor.
––Espere––pediu Sassame.
Ela não os conhecia, mas era óbvio que pela cena ali fora deviam ser péssimo para desfazer enigmas e reconhecer armadilhas.
––Eu acho que consigo me lembrar de mais algumas coisas daqui. Vão ter armadilhas no caminho. Kurama tem mais facilidade para resolver essas coisas, e eu acho que consigo dar conta se conseguir me recordar pelo menos o começo de cada enigma proposto. Então, é melhor eu e ele irmos em grupos separados––raciocinou.
––Tô vendo que você coloca mesmo fé na gente, né menininha?––reclamou Yusuke ironicamente.
Kurama não poderia ficar feliz com uma decisão daquelas, mesmo que o raciocínio dela fosse absolutamente correto.
––Yusuke, eu vou com Kuwabara––falou o youko. Dessa forma, o poder de cada dupla estaria equilibrado. Acrescentou antes de entrar no corredor: ––Tomem cuidado.
Era um pouco desconfortável para Kurama saber que Sassame ia a cada momento se relembrar mais de seu passado naquele lugar, mas que ele não estaria por perto para reverter qualquer situação que pudesse ocorrer. Yusuke provavelmente ficaria bem, mas não podiam se descuidar, afinal não era possível saber quem ela foi no passado. De todos os enigmas que teriam que enfrentar dali em diante, talvez ela fosse o maior.
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