Em seu quarto, Slora se encarava no espelho. Mais uma vez, perguntou-se se não deveria se vestir de forma diferente. Normalmente usava roupas tão... Sóbrias. Cores neutras. Quase nenhum adereço. Não era a figura que a maioria das pessoas esperavam de uma vidente.

Tinha de confessar, encontrar Arias havia sido um gatilho deste pensamento. Imaginava que se fizessem um experimento no qual os dois fossem colocados um ao lado do outro em uma rua e perguntado fosse aos desconhecidos quem era o vidente, 100% das pessoas apontariam para ele. Suas roupas eram muito mais coloridas, decoradas. Quase um estereótipo cigano.

A bruxa olhou para o seu rosto. Passou os dedos por seus traços finos, olhos verdes, armados cabelos pretos, cacheados e pesados. Geralmente era uma pessoa segura de si, gostava da sua aparência e de sua personalidade — ainda que esta fosse um pouquinho explosiva. 'Talvez culpa do meu Sol em Áries?' Pensou consigo mesma, rindo sozinha. Não, não. Sabia que sua autoestima era um fruto de um trabalho muito árduo de anos e anos.

'Deusa, que mundo pequeno. Está querendo me ensinar alguma lição, me obrigando a conviver com Zay de novo?' Zay era o apelido íntimo de Balthazar. Deveria tomar cuidado para não chamá-lo assim, agora. Tantos anos haviam se passado, e agora eram colegas de trabalho. Deveriam prezar pelo profissionalismo.

Não havia parado para pensar nisto antes, mas agora que o havia visto, percebeu que havia sentido sua falta. Ele muito a lembrava dos dias descontraídos e leves como uma aluna de Hogwarts — dias que lamentava terem passado. Tudo parecia-lhe muito mais simples, muito mais fácil.

Slora não era fã de um discurso exaltador, tinha preguiça de quem falava coisas como "Bons eram aqueles tempos", ou "Como gostaria de voltar ao passado". Aquilo, ao seu ver, era estupidez. Uma técnica muito tentadora: agora que o ocorrido é apenas uma distante memória, romantiza-a, enxerga-se apenas as coisas boas que aconteceram. Mas Slora lembrava-se muito bem das coisas ruins que vivera na escola — a marcaram com ferro e fogo: Sua visão limitada sobre o mundo quando era mais nova, sua profunda insegurança juvenil. A forma que lhe olhavam com deboche quando se apresentava como vidente ou lufana. A forma que se sentia facilmente inferiorizada por qualquer aluno sonserino racista que a acusasse de "Sangue-ruim".

Batia em todos eles? Batia em todos eles. Foi penalizada por inúmeras suspensões? É claro que sim. Mas não se arrependia por nenhuma delas. Ao menos havia se defendido.

Recordou-se de um vestido mais leve que havia trazido consigo. De cor vinho e simples, mas que lhe traria mais vida do que casacos de pele bege e galochas que normalmente usava. Inspirada, abriu seu armário.

E dele, para seu pavor, pulou um antigo colega seu — e empurrou-a contra o chão com violência, como normalmente fazia. "Sangue-ruim!" Gritava ele, cruelmente, enquanto apontava para ela. "Sangue-ruim! Nojenta! Você não merece estar aqui! Volta pra sua casa, volta pros seus pais trouxas! Ridícula! Esquisita!"

Com a mão no peito e respiração arfante, Slora obrigou-se a se recuperar. Fechou os olhos, concentrando-se. 'Bicho-papão. Típico.'

Ainda se olhos fechados, apontou sua varinha para frente. "Riddikulus." Apenas abriu os olhos quando ouviu o menino se transformar em uma caixa de palhaço.

Ainda no chão, abraçou as próprias pernas. 'Inferno.' Repetia a si mesma, ao sentir o calor das lágrimas. 'Inferno.'

'Fazem anos desde que me formei. Porque ainda me atormento com isso?'

'Inferno. Inferno. E agora voltei para o mesmo lugar em que passei por tudo isso.'

Slora olhou para o teto, entendendo o recado do universo. "Voltei para cá para lidar com isto, não foi?" Sussurrou.

Respirando fundo e enxugando suas lágrimas, levantou-se. Colocou a caixa de palhaço ao lado de sua cama. 'Que fique como uma espécie de recado. Não sou uma criança mais.'

Inevitavelmente, um velho pensamento voltou a assombrá-la. 'E se eu retirasse estas memórias da minha cabeça, armazenando-as em um frasco? Não sofreria mais tanto.'

Não. Recusava-se. Primeiramente, porque era um costume de iniciação entre Comensais da Morte. Para tornarem-se mais letais e insensíveis, arrancavam memórias consideradas fracas. As consequências disto em suas atitudes moralmente condenáveis eram claras.

Segundamente, porquê não queria esquecer. Não poderia esquecer. Fazia questão de deixar bem fresca em sua memória a existência de pessoas ignorantes como aquelas. 'Não me permitirei ser humilhada. Nunca mais em minha vida.'