Após sua última aula do dia, Slora fechou a porta de sua sala de aula para não ser incomodada. Abriu as janelas, ligou o incenso e as velas. Sentou-se no chão para começar seu ritual.

Sentia uma grande necessidade de refletir sobre o que estava passando, e principalmente, sobre o que estava sentindo. A recordação daquele dia naquela Torre a atormentava desde então.

Já estava começando a entrar em transe quando bateram levemente em sua porta. Por um segundo, teve receio de que fosse Balthazar querendo conversar sobre o ocorrido. Mas para seu alívio, era Arias.

"Ah, Srta. MacQuoid! Que bom que está aqui, ninguém te achava em lugar nenhum! Oh, desculpe interromper." Este percebeu sua indelicadeza.

"Tudo bem." Esta respirou fundo. "Você precisa de alguma coisa?"

"Não. Não, na verdade não... Só estranhamos você não descer pro jantar. Fiquei com receio de ter acontecido alguma coisa." O professor confessou.

Slora deu um sorriso debochado. "Ora, Sr. Berrycloth, o quê de perigoso poderia acontecer em Hogwarts?"

Os dois riram com a piada interna. Este se aproximou, sentando-se no chão também. "Estava meditando?"

Slora deu de ombros, sem jeito. "Bom... Não deixa de ser uma forma de meditação, não é?"

Os olhos de Arias percorreu o pequeno altar — preenchido por velas acesas, cristais e um incenso — que Slora havia montado em sua frente.

Já acostumada em tomar a defensiva, a bruxa suspirou. "Sim, eu adoro às deusas. Bruxaria tradicional, raiz, que me mantêm em contato com minha intuição, amplia a ação do meu chakra do terceiro olho e me permite fazer o meu trabalho. Pode zombar de mim agora."

Arias riu, erguendo suas mãos para cima. "Calma, calma. Eu não disse nada."

Slora ergueu a sobrancelha. "Mas ia dizer. Todos dizem. Todos repentinamente têm uma opinião formada pra julgar quem segue a bruxaria anciã, ainda que nada conheçam do assunto."

A bruxaria que gira ao redor do sagrado feminino e da crença na deusa — elementista, que valoriza a conexão com a natureza como fonte de magia; perseguida por toda a extensão da Idade Média por ameaçar a ordem estabelecida. Este tipo de bruxaria havia perdido força e respeito no próprio mundo bruxo. Considerada mística demais, supersticiosa demais, exotérica demais, com utilidade prática de menos.

Arias segurou o sorriso. "Sabe que uma das fundadoras de Hogwarts, Rowena Ravenclaw, também cultuava as deusas, não sabe?"

"Sim, claro que sei." Assumiu. "Mas poucos se lembram dela por isto."

"Relaxe. Eu não te julgo por isto." Disse o professor. Após um suspiro e curta deliberação interna, ele se resolveu. "Posso me juntar a você?"

Pega de surpresa, teve como primeira reação a vontade de questioná-lo o porquê daquilo. Entretanto, lembrou-se das vezes de que haviam lhe perguntado a mesma coisa — o do quanto se sentia incomodada com esta pergunta. "Porquê você adora às deusas?" Não sabia explicar, não era racional. Era um chamado, vinha de dentro. Era uma vontade, uma necessidade, uma intuição. Não sabia dizer ao certo o motivo, mas o fazia mesmo assim. Porque queria. Porque sim.

"Claro." Disse ela, dando-lhe espaço ao seu lado.

Após um longo silêncio entre os dois, cada um absorto em sua reflexão, Slora sentiu a necessidade de perguntar-lhe: "O que veio pedir à deusa?"

Arias respirou fundo. "Perseverança."

Slora abriu os olhos e olhou em sua direção. Ele estava chorando. A bruxa aguardou seu próprio tempo, para que continuasse a falar. "Eu fui um auror, antes de vir lecionar em Hogwarts. Eu queria ser útil, heroico, ajudar as pessoas lutando contra os caras ruins. Mas..."

A mão de Slora inconscientemente foi ao encontro da mão de Arias, consolando-o. Este respirou fundo. "Essa gente é perturbada, Slora."

"Eu sei." Sussurrou ela, pegando a dor do amigo para si. "Eu sei."

O bruxo derrubou mais algumas lágrimas antes de completar: "Eles tinham sequestrado meu marido. Consegui resgatá-lo, ainda bem, mas as sequelas da tortura..." O professor curvou-se em agonia, chorando copiosamente. Slora abraçou-o. "Não sei se voltará ao normal algum dia."

Slora segurou para não chorar junto. Fez carinho em suas costas. "Eu entendo a sua dor. Eu entendo. Vamos pedir à deusa que ajude em sua recuperação, sim?"

Após alguns minutos, Arias secou suas lágrimas e se acalmou. Por mais algumas horas da noite, lado a lado ficaram, rezando.