A Roda
4 Capítulo 3 - Parte 2

Impaciente, Brooklyn sentou-se com as pernas cruzadas no chão em frente ao túmulo de Marie Laveau, sem se importar com os turistas que se colocavam em volta dela para lerem, curiosos, a placa que se encontrava ali:
"Marie Laveau
Esse túmulo ao estilo grego é o famoso lugar de sepultamento dessa notória 'Rainha do Voodoo'. Um culto místico, o voduísmo, de origem africana, veio de Santo Domingo até essa cidade e floresceu no século 19. Marie Laveau foi a mais conhecida dos muitos praticantes desse culto"
A morena, que na ocasião usava uma blusa branca e calças jeans, já tinha lido aquele texto diversas vezes naquele dia como uma distração pelo leve atraso de Scarlett. Sentia tédio e já "acariciava" a Santa Muerte em sua pequena bolsa quando viu a asiática finalmente chegar, andando em sua direção. Se levantou e, sorrindo, foi logo cumprimentá-la.
— Finalmente você chegou! Já estava pensando em como te boicotaria mais tarde.
— Oi? — perguntou a garota, arregalando os olhos em confusão, sem acreditar no que a outra tinha dito.
— Calma, é brincadeira — explicou Brooklyn, rindo um pouco da reação da outra.
— Mas não pareceu.
— Por favor, não fique brava!
— Calma, é brincadeira — retrucou Scarlett, agora sendo sua vez de rir.
— Ah, cala a boca, Starlet. Já conhece o túmulo de Marie, certo?
— Sim, conheço e... Ai, meu Deus! Foi por isso que quis vir a esse cemitério, certo? Para que falássemos dela, né?
— Aham. Pode pegar a câmera agora. E eu trouxe uma vela para acendê-la aqui. Seria legal se me gravasse fazendo isso.
Percebendo que a outra havia concordado com a ideia, Brooklyn esperou que ligasse a câmera. Enquanto isso, puxava assunto sobre o quão chato era ter que sempre entrar com uma leva de outros turistas no cemitério, mas Scarlett disse, quase que se gabando, que uma das pessoas que vigiava a porta conhecia o seu trabalho — já que, claro, ela divulgava o progresso d'A Roda online — e deixou que entrasse só pagando a taxa, sem a necessidade de um guia de turismo. Aquilo parecia desonesto, mas ao mesmo tempo a deixara entrar ali, então tudo bem.
Assim que a câmera estava ligada, a asiática parodiou um diretor de cinema ao dizer "ação" e começou a gravar, primeiramente, o movimento das pessoas ao redor. O som com a explicação do que era o local viria, claro, depois, através de uma edição. A mesma coisa aconteceria com os rostos "figurantes", que seriam borrados posteriormente.
Algum tempo depois, sua câmera já se focava em Brooklyn, que agora se ajoelhava no chão e acendia uma vela verde próxima ao túmulo. Estava pronta para perguntar à outra o que aquela vela significava quando esta virou o rosto na direção da câmera e disse:
— Equilíbrio e esperança. Inclusive, acho que você deveria oferecer uma vela também. Trouxe alguma?
Isso deixou Scarlett constrangida e nervosa. Ela não tinha crenças definidas, mas mesmo assim se sentiu burra por querer fazer um documentário sobre bruxas e nem ao mesmo estar preparada para se integrar àquele mundo. Comentou:
— Não trouxe velas. Desculpa.
— Não é pra mim que deve se desculpar.
— Pra que... Ah, sim, — olhou para o túmulo, se curvando de uma forma bem asiática, enquanto tentava esconder a vergonha. A câmera, claro, ainda estava ligada, mas agora filmava seus pés. — Me desculpe, Marie... Senhora Marie Laveau.
— Melhor assim — levantou-se, sorrindo e logo voltando a falar. — Vamos continuar a entrevista agora? Quero dizer, você tem permissão pra ficar aqui sem um grupo, então eu também tenho... Eu espero.
— A partir de agora tem... Ao menos até o horário de fechamento.
— Não tem como pagar uma taxa adicional pra isso? Já que é "diretora" e tudo mais... Inclusive, isso costuma estar fechado nesse horário. Que estranho.
— Então você marcou nossa entrevista num lugar que costuma estar fechado? — perguntou Scarlett, franzindo o cenho numa expressão desconfiada.
— Invasão de propriedade existe, sabia?
— Eu tô gravando, sabia?
— Nesse caso, é só brincadeira! — simulou Brooklyn, começando a rir enquanto se afastava do grupo e ia para um canto mais silencioso do cemitério.
— Então... Por que quis continuar hoje no cemitério? — perguntou a asiática assim que elas chegaram no canto desejado, focando a câmera na latina novamente. Reparou que ela estava usando rímel e também que tinha saído bem cedo da tal clínica, mas resolveu não comentar nada sobre isso.
— Eu acho que seria impactante fazer a proposta aqui. E é aí que entra o tripé que pedi. Você trouxe?
A asiática assentiu com a cabeça.
— Então, monte-o! Pode ser no chão, mesmo.
Curiosa, se abaixou e começou a montá-lo, sendo acompanhada por Brooklyn, que ajeitou a câmera do jeito que queria e logo tirou a estatueta da Santa Muerte da bolsa. A colocou no chão, fazendo um sinal para que Scarlett se sentasse do outro lado dela, aparecendo para a câmera pela primeira vez naquele documentário. Assim que a asiática fez o que foi pedido, a garota com traços latinos voltou a falar:
— Hoje é dia 2 de novembro. Você sabe o que isso significa?
— Hm... Acho que sei. 2 de novembro... — parou para pensar. Olhou para a Santa Muerte e, então, a ficha caiu. — Día de Los Muertos, certo?
— Exato! E, pra mim, a morte é a renovação, já que acredito, por exemplo, na existência de vidas passadas.
— Okay. Mas qual é a proposta?
— A proposta é renovar o seu documentário.
Ao ouvir aquilo, Scarlett se sentiu confusa, mas disfarçou seus pensamentos com um sorriso e um breve silêncio desconfortável. Como assim a outra estava sugerindo uma mudança em seu documentário? Isso não fazia sentido nenhum! Tudo estava tão bom e a ideia era ótima! Era? Não é uma boa ideia? Sustentei uma ideia rasa?, pensou, entrando em uma espécie de desespero interno antes de perguntar:
— O que quer que eu faça?
— O que eu quero é que me deixe viajar com você. Eu te ajudo com as perguntas. Podemos gravar nossa viagem, você podia me gravar comemorando a Roda do Ano... O nome não é A Roda, afinal?
— Ah, só isso? — perguntou a diretora.
— Eu gostei da ideia — disse a garota, se sentindo idiota por ter sugerido aquilo pouco tempo depois. Por que tinha sido tão impulsiva? Nem conhecia a outra direito, afinal!
— Hm, ela é legal, mas eu achei que tinha alguma coisa errada com o meu documentário, e...
— Entendi. Insegurança?
— Sim, insegurança. Te atropelei, né? Então... — começou, agora tentando se conter, sem perceber que já estava fazendo aquilo de novo. — Eu gosto muito de você e foi legal ir àquela festa, mas... Hm...
Buscou as palavras certas e, então, terminou:
— Você foi precipitada. Me desculpe... E olha! O cemitério vai fechar agora. Acho melhor irmos.
— Você primeiro — disse Brooklyn, sendo rapidamente respeitada.
O que eu falei?, pensou Scarlett. Rapidamente desmontou o tripé, deixando a câmera cair no chão, o que devia ter criado um arranhão. Pelo menos vai parecer vintage, concluiu, finalmente se levantando. Mais uma vez, tinha falado demais, sendo impulsiva e fugindo totalmente do que gostaria de ser: uma pessoa calma e centrada. Bastante ansiosa sobre isso, apressou o passo, sentindo a pele esquentar e indo embora do cemitério, sem olhar para trás.
Brooklyn foi logo depois, mas com passos lentos e um rosto triste. O que foi isso?, refletiu, sem saber se tinha mesmo sido precipitada: elas já tinham até dormido "juntas", afinal! E, mesmo se estivesse, a ideia tinha sido esnobada muito rapidamente, não tinha?
Distraiu-se em seus pensamentos, sentindo o vento forte que surgira de repente bagunçar seus cabelos. Foi embora.
A ventania moveu, também, uma solitária estatueta da Santa Muerte até os pés de um túmulo.
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