A Revolta das Máquinas

3 03 - Sem regras no fim do mundo


— Pai... Sou eu, Marcos, seu filho.

— Pão me chame de pai! — ele gritou histérico e incontrolável ainda encostado na parede — Não olhe para mim!

Seu dedo tremia enquanto o apontava para o garoto.

Marcus procurou qualquer traço de seu pai outra vez. Não encontrou nada novamente. Aquela pessoa que estava a sua frente era completamente insana.

Com as orbitas dos seus olhos saltados o velho continuou a gritar e a mencionar palavras sem sentido, ou que não fosse sua língua natural.

O general encostou a mão em seu ombro e o puxou para trás de seu corpo. Os outros guardas deram um passo a frente e endireitaram as armas. Marcus não olhou para trás, mas conseguiu escutar o barulho do disparo ecoando pela sala e o jorro de sangue batendo contra a parede.

Em seguida algumas pessoas com um fardamento diferente entrou a sala branca e fora direto ao corpo do homem.

— Não se preocupe... — disse o general — ele não tinha mais como escapar.

O garoto tentou engolir o choro, mas seus soluços o entregavam, suas mãos tremulas apertadas umas nas outras e seu queixo balançando freneticamente, mostravam a sua fraqueza

— A cura pode ter sua validade, mas ela tem efeitos colaterais que pode retirar várias vidas — o homem completou com um sorriso sarcástico.

— Isso vai contra as leis da natureza. — Marcus disse ainda tentando esconder os soluços. — matar pessoas... não foram treinados para isso.

— Não existem regras no fim do mundo, meu jovem, Apenas destruição.

Os dois trocaram olhares.

— Somos treinados para aniquilar alterações. Somos treinados para proteger a humanidade, ou o que restou dela, de forças inimigas incomum. Capazes de controlarmos nossos sentimentos. Somos capazes de ter controle sobre o nosso corpo. Esse monte de carnes só faz o que mando.

O general puxou o garoto pela camisa bem próximo a seu rosto. Marcus conseguiu sentir o calor do homem e de seu mau hálito bem próximo a sua face.

— Garoto, não gosto de perder tempo...

— Senhor! — um soldado surgiu logo atrás deles. — aqui está o que o senhor me pediu. — Ele carregava uma pequena prancheta com alguns papeis amontoados.

O general soltou o garoto e pegou os documentos do soldado e os analisou.

— Quantos anos você disse que tinha mesmo? — ele vagou o olhar entre os papeis e o menino.

— Eu não disse. — respondeu Marcus.

— Marcus Struker. — ele começou ler os documentos em voz alta — Nascido no distrito de Melas, renda baixa, poucos amigos, notas máximas na escola, aluno exemplar... isso é bom, sem registros de agressividade... isso é ruim, mas extremamente influente em tecnologia. — o general deixou soltar um sorriso amarelado. — Vizinhos? Essa é a desculpa de seu irmão?

Uma ponta de terror passou pela garganta do garoto prestes a gritar. Ele descobriu.

— Soldado, — e um deles apareceu na porta de imediato — mande chamar o soldado Struker. Quero ouvir a verdade da boca ensanguentada dele.

...

Não demorou muito para que Marcus enxergasse a silhueta de seu irmão entrando pelo corredor.

A sala branca agora vazia e sem vestígios de sangue de seu pai ou dos outros mortos. Sem soldados ou armas. Apenas eles. As macas foram reorganizadas em fileiras e limpas com lençóis brancos. Aquela sala era bem assustadora, para se falar a verdade.

Marcus ainda pode escutar a voz de seu pai ecoando pelos seus ouvidos e gritando loucamente. Não olhe para mim , as palavras ressoaram cada vez mais alto, ele desligou o aparelho auditivo. O som do nada era o melhor que poderia escutar naquele momento. Era seu único som de paz, tranquilidade e sossego... Os três juntos.

— Senhor...

— Feche a porta. — ordenou. — sente-se.

O general andou de um lado para o outro trocando olhares entre Marcus e seu irmão.

Dan olhou para Marcus em busca de respostas rápidas e sem palavras, Marcus tentava não manter contato visual com ele. Seu irmão coçou a ponta da orelha e ele logo entendeu do que se tratava. Mas ele não ligou seu aparelho auditivo novamente, não queria escutar o rumo da conversa.

— O que quero saber é... por que mentiu para mim?

— O que? Mas senhor o que está falando... — Dan dirigiu outro olhar furioso par seu irmão.

— Eu sei que vocês são irmãos! — ele bateu com força a palma da mão na maca que estava próximo.

Ótimo, temos um general louco aqui. Marcus falou para si mesmo ainda sem escutar a conversa.

— Fale-me, Daniel Struker... por que você mentiu para mim?! — gritou o general.

Seu tom exaltado não parecia nada com o general boa pinta e sabichão que fora mostrado antes.

— Desculpe senhor, mas não queria ofendê-lo, apenas não achei que a informação valesse a pena ser dada — Dan tentou desconversar. — e além do mais, não nos vemos faz muito tempo, desde que entrei para A FORÇA, para ser mais exato, senhor.

Dan era o tipo de soldado que tinha várias repostas para cada ocasião.

— A FORÇA não é culpada por você ficar longe de sua família, meu rapaz. ainda não teve coragem de nos contar que seu pai era um destes. Damos o apoio necessário para que os familiares consigam perceber porque estão lutando nessas guerras.

Um silêncio perambulou pela sala, um silêncio que parecia incomodar Marcus, apesar de não ouvir nada. Os dois soldados se entreolhavam a cada segundo como se precisassem falar uma para o outro um extremo segredo.

— Você sabe como as regras funcionam aqui, não sabe? — retrucou o general, apontando para a porta, mas querendo apontar para os mortos — Você sabe o que vai acontecer com seu pai, não sabe?

Dan apenas assentiu em resposta as duas perguntas.

— Sim senhor, senhor! — fez uma breve pausa — Ele se cura. — podia-se sentir uma pontada de tristeza m sua voz — O fator cura faz que eles não morram, em outras palavras... Eles são imortais.

— Você sabe disso, — disse o general satisfeito — mas pessoas como ele, — apontou para Marcus assim que viu que ele não prestava atenção a conversa — não sabem o que realmente acontece dentro dessas paredes. Você é uma das poucas pessoas que sabe de nossos segredos, e deverá morrer com eles.

Houve mas silencio e os dois pararam de se olhar.

— Imagine se as pessoas soubessem que enfrentamos um inimigo que não conseguimos sequer aniquilar, Há pouca esperança por aqui, Struker, e nós somos uma grande parte dela.

— Está bem... — Daniel falou ainda inconformado.

O general respirou fundo e soltou ar lentamente, como se tivesse liberado todas as impurezas do mundo com um só assopro. Sentiu-se aliviado por um momento.

— Quero que faça uma coisa... — ele foi interrompido.

Uma explosão pode ser ouvida em alguma proximidade. Fagulhas de areia cairam do teto ao chão branco assemelhando-se a uma cachoeira.

Dan saltou da maca de onde estava e agarrou-se em algo preso nas costas, o que quer que estivesse tentando fazer foi impedido pelo General. Sua fardas agora estavam cobertas de pó.

— Uma invasão?! — Dan se precipitou a dizer. — C.A.O.S.?

— Com granadas? — respondeu o general — isso não parece o estilo deles, meu camarada.

Marcus finalmente se deu conta do que estava acontecendo, quando voltou a ligar o aparelho auditivo.

— ...Rebeldes. — disse o general, seguido de uma bomba logo acima de suas cabeças.

Dan tentou alcançar a nuca outra vez, mas a mão do outro homem chegou primeiro.

— Ainda não! — disse o general aos sussurros.

Os dois olharam os mesmo tempo para Marcus. Dan correu em busca de seu irmão, mas foi tarde de mais.

Uma bomba chocou-se ao teto e explodiu logo em seguida com uma mistura de cores entre verde e azul fortes. E vários estilhaços de vidros voaram para todos os lados, acertando em quem quer que estivesse desprotegido.

— Marcus! — Gritou Dan — Marcus! ­- O som de sua voz era abafado pelo eco de seus próprios pensamentos.

Ele está morto, repetia para si mesmo, ele está morto.

Marcus não poderia morrer, ele não poderia deixar ir mais uma parte de sua família no mesmo dia, além do mais, Marcus não poderia morrer. O fator cura estava em seu sangue também.

Ele rastejou olhar pelos cantos das paredes, pelas macas reviradas e pedaços do teto que vieram ao chão. Nenhum sinal de seu irmão, ou do general.

Será que eles escaparam?

Não teve tempo de formular pensamentos apressados pelo seu irmão. Ele pensou em se levantar para ajudar na busca, quando as luzes de lanterna quase o cegaram de tão intensas.

Ajuda! Respirou fundo graças aos céus.

— Vocês viram sinal do gene... — ele havia pensado que era algum de seu exército. Porém foi surpreendido com os rostos desconhecidos.

— Você está bem? — a voz veio do mesmo lugar de onde as luzes brilhavam, os passos não eram apressados nem tão pouco lentos. — Está armado?

— Não!

— Ok!

Em um simples milésimo de segundo o ar ao seu redor pareceu não ajuda-lo a respirar.

O objeto metálico passou em disparada cortando o ar em direção a sua cabeça, entre a região da testa e do nariz. O uivo do disparo soou como um canhão em seus ouvidos, e seu olhar escureceu.

O Fator cura corre no sangue, foi seu último pensamento. Foi uma das frases que aprendeu com seu pai, e essa foi sua última lembrança.

Estava morto... Por enquanto.