A Revolta Dos Olimpianos

4 O Caos Se Espalha como Calcinhas Vermelhas


Tânia batia o pé constantemente no chão, esperando o resto dos campistas. É claro que o caos havia se instalado imediatamente após a saída de Ares. As filhas de Deméter se acabaram de chorar, os filhos dos três grandes se manteram impassíveis, com sorrisinhos irônicos e ar de importância, os filhos de Apolo haviam se retirado para o próprio chalé e as crianças do próprio Ares já haviam deixado três campistas sem os dentes da frente. Nada estava correndo bem.

O conselho estava terrivelmente desfalcado. Quíron aguardava em sua cadeira de rodas, os olhos fechados e as mãos entrelaçadas como se estivesse rezando. Ray, a líder do chalé de Tânia estava ali e olhava para a garota com extrema curiosidade. Henrique Zimmerer conselheiro de Apolo também lançava-lhe olhares, porem mais discretos. Isso deixava a garota irritada. Não era culpa dela que Apolo a escolhera para passar o recado!

Além deles estavam um garoto que Tânia achava que se chamava Eduardo e era conselheiro de Hades, Pedro Frost do chalé de Hermes, os líderes cujos nomes ela não fazia a menor idéia do chalé de Hécate, Nêmesis e Hipnos, além de uma garota de Deméter que parecia muito perdida. O resto estava perdido lá fora, tentando controlar as brigas ou criando as brigas.

— Acho que não podemos esperar mais. – Quíron murmurou, abrindo os olhos. – Nem sei por onde devo começar...

— Minha mãe! – a garota de Deméter guinchou.

— Desculpe?

— O que aconteceu com ela? Ela não está r-realmente morta está?

— Onde está a líder do seu chalé, Lyra? – Quíron franziu o cenho.

—Sumiu logo após aquilo acontecer. Vim por que ninguém mais queria saber disso. – Lyra choramingou. – Mas merecemos saber! O que aconteceu com ela?

— Realmente. – Ray contraiu os lábios, tocando de leve na mesa. Todos se afastaram instantaneamente, lembrando-se da fama dela de conduzir eletricidade em qualquer coisa. – Deuses não podem morrer.

— Você está certa. Deméter não esta morta, querida. – O centauro olhou para Lyra com pena. – Está presa em algum lugar em que seus poderes são completamente minados. Está fraca demais, perdendo sua essência. O objeto que Ares usou para decapita-la deve possuir alguma maldição que a mandou para esse lugar, a cabeça foi um simples espolio.

— Como quando alguém corta o chifre do minotauro e ele renasce com o chifre intacto? – Tânia perguntou, lembrando-se das antigas historias.

Todos olharam para ela como se fosse a pessoa mais retardada na mesa.

— Algo assim. – Quíron disse após alguns segundos. – Um golpe baixo, eu diria, mas...

A porta do salão do conselho foi aberta repentinamente. Rômulo Potter do chalé de Afrodite entrou com passos que poderiam quebrar o chão de tão fortes. Contrariando sua expressão de fúria, todos riram, até mesmo Quíron não pode reprimir um sorrisinho. Rômulo tinha uma calcinha vermelha no ombro, uma na cabeça e outra na mão.

— Acho que perdi algo interessante. – Eduardo sussurrou para o conselheiro de Nêmesis.

—Silêncio, por favor. – Quíron pediu. – O que aconteceu Rômulo?

— Quézia aconteceu! Ela ordenou um ataque ao chalé de Apolo. – Henrique se levantou tão rápido que derrubou a cadeira. — Mas acertou no de Afrodite! Ela diz que foi sem querer, mas agora as roupas intimas das minhas campistas estão por todo o acampamento.

— Que exagero. – Frost revirou os olhos. – Ninguém tem tanta roupa intima assim.

— Não tinham. – o rapaz concordou. – Até um dos novatos de Apolo tentar tocar uma musica da paz e sem querer multiplicar todas elas. Agora temos calcinhas no teto do chalé de Zeus e duvido que ele ache isso um sinal de que não queremos guerra.

Os outros campistas não sabiam se riam ou se lamentavam. A situação estava saindo fora do controle e eles nem tinham todos os conselheiros para ajudar. Pelo menos Ray conseguiu acalmar Rômulo o suficiente para que ele se sentasse e os ajudasse, ainda com a calcinha vermelha esquecida no ombro.

— Eu quero mesmo saber. – Henrique comentou, após todos relaxarem o maximo que seus nervos permitiam. – Como que ela foi escolhida por Apolo.

Ele apontou para Tânia, que tentava passar despercebida. Ao notar que era o centro das atenções, ela sentou-se um pouco mais ereta e tentou parecer mais madura, mas achou que não teve tanto sucesso nessa ultima parte.

— Inveja? – Ray sorriu ironicamente.

—Seria um voto de confiança escolher um de seus filhos. – ele ignorou o comentário. – Mas ele a escolheu. Por quê?

— Olha, eu sei tanto quanto você. – Tania encolheu os ombros. – Mas agora não sou útil para nada. O Sr. D e o Quíron insistiram para que eu não comentasse sobre os sonhos, então o aviso veio tarde demais e por isso agora esta um pandemônio lá fora.

— Como uma liquidação da Mary Key. – Frost sorriu.

Ray olhou para ele como quem dissesse “cala a boca ou morre”.

— Eu sinto muito querida. – Quíron murmurou. – Eu não pude fazer nada, o Sr. D foi muito rígido quanto a isso.

— É obvio que tenho que ser rígido com esses campistas ingratos.

Dioniso entrou na sala pomposamente. Usava um terno roxo bem passado e o cabelo estava bem penteado para trás. Pareceria elegante se não fosse a barriga meio que saindo para fora da calça, deixando amostra um pouco de pele. Porem ninguém riu, pois o olhar que o Deus lançava não era de piadinhas. Seus olhos se demoraram em cada campista presente, antes de se pronunciar:

— Vejo que poucos mantiveram o juízo. Que bom, loucura é minha especialidade.

— Achei que você estivesse do lado de Ares. – Henrique comentou de mal humor.

— E estou meu jovem. A coisa no Olimpo já foi longe demais, Zeus está ficando caduco.

Todos esperaram que um trovão descesse e acabasse com Dioniso ali mesmo, mas nada aconteceu. Nem mesmo o leve som distante que indicaria que o Senhor dos Ceús estava ouvindo, o que só serviu para comprovar a teoria de Dioniso.

— Mas em uma coisa Apolo tem razão. – ele continuou. – Vocês não deviam ter sido metidos nisso. Agora, resta a vocês lutarem. Sei que são seus amigos lá fora e sei também que nem todos que estão aqui já escolheram um lado, ou escolheram o lado certo. Mas espero que sejam prudentes. Não se deixem levar.

— Onde o Senhor vai? – Tânia perguntou, erguendo-se.

Dioniso olhou para ela com o mais profundo desprezo.

— É melhor ficar quieta daqui para frente Diana, sua língua grande ainda vai acabar com você. – ele olhou para Quíron. – Irei para a reunião de guerra de Ares. Não sei quando irei voltar, mas você deve tentar cuidar deles. Ou não, não me importo na verdade.

— Você só esta agindo assim por que Zeus te prendeu aqui! – Tânia mais uma vez resmungou.

— Já disse Amanda, fique quieta! – as bochechas de Dioniso ficaram levemente lilases onde deveriam ficar coradas. – Não sei qual foi a de Apolo ao te mandar os sonhos. Mas todos vocês tem um papel a desempenhar aqui, não só a desbocada ai. Não se deixem levar por escolhas de seus pais.

Ele olhou o relógio de pulso e ajeitou o cabelo mais uma vez. Seus olhos se demoraram em Tânia e depois em Ray.

— O pai de vocês plantou a faísca. Que lide agora com a explosão.

E desapareceu em uma nuvem de fumaça roxa.