A Retribuição
10 Precisamos Conversar
Notas iniciais
Londres, Inglaterra. 21 de Maio de 1900.
Esther costumava voltar das aulas do Colégio juntamente com outra professora, chamada Molly Sarandon, uma britânica de família simples que lecionava Inglês às meninas. Molly morava algumas ruas depois de Baker Street, de modo que ambas voltavam juntas para casa.
Desde que as escapadas de Watson pela madrugada estavam se tornando mais frequentes, Esther pensava em um jeito de conseguir alguém decente para Watson. No fundo, ele merecia alguém, uma pessoa tão boa quanto ele ao seu lado. E por quê não Molly? Ela tinha quase a mesma idade e era solteira. Contou que tinha um noivo, um engenheiro americano, que faleceu em um incêndio em uma fábrica. Desde então, ela se sentia fechada a sentimentos, em luto. Situação parecida com a que Esther encontrara Watson, quando se conheceram. Algo que os dois tinham em comum.
–Molly, eu estive pensando: que tal marcarmos um jantar, em minha casa?
A moça pareceu gostar da idéia, e a aceitou. Isso deixou Esther animada, mas ao mesmo tempo preocupada. Afinal, seria bom se os dois residentes de Baker Street estivessem presentes – especialmente Watson.
Só espero que não esteja havendo nenhum caso nesse dia.
As duas se despediram brevemente, enquanto Esther procurava pelas chaves de sua casa, na bolsa. Ao adentrar ao 221, Esther quase esbarrou em uma esbaforida e apressada Mrs. Hudson.
–Oh, mil perdões, Mrs. Sigerson! – desculpou-se Mrs. Hudson, ainda encabulada.
–Mrs. Hudson, o que houve? Está tudo bem com a senhora?
–Sim, eu estou bem. É que acabei de ser avisada de que fui sorteada pela Chapelaria Mounsier Mondé! Não é incrível?
Esther não sabia o que dizer. A Chapelaria era uma das mais requisitadas de Londres, por sua elegância e requinte em fazer chapéus para damas. No entanto, Esther não sabia que Mrs. Hudson era uma cliente, aliás, nem imaginava a pobre governanta comprando um refinado e caríssimo chapéu.
–Bom, eu... Imagino que sim! – disse Esther, com falso entusiasmo. Ainda apressada pelo inesperado presente, Mrs. Hudson finalmente deixou a casa.
Ainda sem entender o que tinha acontecido, e de repente sentindo toda a casa silenciosa e vazia, Esther abriu a porta de seu apartamento, o 221-A. Ao acender a luz, acabou sendo surpreendida pela presença de uma figura, sentada na poltrona destinada a Holmes – e inclusive fumando em seu cachimbo!
–Folgo em ver que Mr. Holmes e eu compartilhamos o mesmo gosto por tabaco. Embora eu prefira os americanos.
–Mr. Sparks? – perguntou Esther, começando a se acalmar do susto, e finalmente deixando escapar um suspiro de alívio e consternação. Afinal, ele era o seu chefe na Agência de Espionagem e jamais lhe pagou uma visita – muito menos de tal forma.
Sparks trazia um olhar austero e despreocupado. Ainda sentado à poltrona preferida de Holmes, ele consultou seu relógio de bolso.
–Temos exatamente vinte e oito minutos até que todos os residentes se apercebam do meu subterfúgio. Creio eu ser tempo o bastante para termos uma conversa apropriada.
Claro. O chapéu de Mrs. Hudson... Tudo um truque para fazer a senhoria sair de Baker Street o mais rápido possível. Engenhoso, mas cruel.
–E por que não conversamos na Agência sobre isto? – perguntou Esther, não escondendo um certo resigno pelo desconforto de perceber que sua privacidade poderia ser tão facilmente invadida por ele. Há quanto tempo ele está aqui? E o que andou fazendo, enquanto eu não estava?
No entanto, Mr. Sparks nada disse, apenas erguendo uma sobrancelha, como se indicasse a presença de mais alguém. Esther se virou, e percebeu a maçaneta roda, a porta abrir e seu marido secreto finalmente aparecer.
Holmes fez um breve gesto de aceno com a cabeça, até seus olhos se voltarem, congelados, para as mãos de Sparks.
–Da próxima vez, use seu cachimbo. – disse, um tanto revoltado. Esther sabia do zelo de Holmes por sua coleção de cachimbos. Ela tinha certeza de que, mais tarde, seu marido limparia o objeto com álcool.
–Não resisti. Mas sente-se, Mr. Holmes. E você também, Mrs. Holmes.
Outra vez, a menção à Mrs. Holmes. O fato, Esther percebeu deixava Holmes também desconfortável. E ela sabia porquê. Mycroft estava pressionando-o, embora ele jamais tivesse comentado qualquer coisa. Mas ela sentia pelas palavras do mais velho de que um casamento se fazia urgente. Não um falso, secreto, mas um verdadeiro.
–Esther... – começou Sparks, causando arrepios a Esther ao ver seu verdadeiro nome sendo dito por alguém diferente de Holmes. Ele jamais se referira a ela desse jeito. – Mr. Holmes está participando desta reunião á pedido de Mycroft Holmes. De todo modo, o assunto que temos a discutir é deveras importante. E não vejo alguém mais indicado a cuidar disto do que a senhora.
Esther estava pasma. Ele não costumava ser tão dramático.
–O que está havendo?
–Há uma epidemia de crimes provocados por russos pela cidade, a senhora deve estar percebendo pelos jornais. Mr. Mycroft Holmes suspeita das atividades de um nobre russo, orquestrando tudo isso.
–Conde Ivanov?! – Esther logo citou o nome, o primeiro a vir em sua mente. Holmes protestou.
–Percebe agora, Mr. Sparks, por que eu insisti para que Esther não participasse do caso ainda? Eu já disse, não há qualquer evidência de que...
–Sua esposa, Mr. Holmes... – insistiu Sparks. – É antes de tudo, uma profissional, tal como o senhor. E eu tenho certeza de que ela saberá investigar este caso com esmero, sem atrelá-lo a problemas pessoais. Não estou certo, Mrs. Holmes?
–Sim. – limitou-se a dizer Esther, fazendo Holmes se inquietar, ainda irritado com o rumo que aquela conversa estava tomando.
–Bom, mas creio que a senhora precisa se atualizar sobre algumas coisas. O Conde foi alçado à Duque agora.
Isso tornou a perspectiva ainda mais alarmante a Esther. Afinal, significava que o Conde – ou melhor, o Duque – estava ainda mais íntimo que o Czar. Que por sua vez, era também muito próximo à Família Real Britânica.
O que quer que fosse que o Duque Ivanov estava fazendo, não poderia ser algo bom, ou fácil de resolver sem envolver um conflito diplomático.
Por Adonai, pensava Esther. Há anos não ouvia falar dele, e agora, que sua vida parecia normalizada...
–Bom, pode não exatamente ser o Duque, mas certamente é alguém daquele país em patamar parecido. Está vendo porquê precisamos de você? Eu nunca compreendi sua obsessão por este homem, mas agora posso fazer alguma idéia do motivo. Seu instinto, ou seja lá mais o que for, estava certo. Homens como ele pode ser um perigo ao Reino e temos que impedir o que quer que seja que ele está arquitetando.
Esther concordou com a cabeça.
–Então, podemos contar com a senhora?
Esther parecia refletir.
–Sim.
Holmes parecia insatisfeito, mas Esther o ignorou completamente. Ela já tinha passado por tanta coisa, não era nenhuma moçoila indefesa! Ele tinha de respeitar sua decisão.
Satisfeito com sua resposta, Sparks começou a coloca-la a par do caso.
A parte que Holmes mais temia envolvia Mycroft. Foi duro para ele notar o desapontamento e a amargura no olhar de Esther, quando ela soube da possibilidade de Mycroft ter sido atacado por um russo, e aquele atentado ter sido, na verdade, orquestrado pelo mesmo homem/grupo que ameaçava o Governo. Havia algo em seu olhar que beirava à desgosto, como se tivesse sido traída por quem menos esperava.
Quando às sós, a primeira providência de Esther foi questioná-lo.
–Por quanto tempo você pretendia me esconder isso?
–Esther, não comece, por favor... – pedia Holmes friamente.
–Uma centena de crimes está acontecendo lá fora, provocados por russos, e dentre estes crimes está o atentando contra o seu irmão! Ele não é apenas seu irmão, Sherlock, mas também o meu cunhado!
–Por isso eu não queria envolve-la nisto! Veja só o seu estado!
–Você não pode me tirar de uma guerra que é minha! – exclamou Esther, para total apreensão de Holmes.
–Quem disse que é sua? Veja só, você já está presumindo que Ivanov está por atrás disto!
–E quem me garante que ele não esteja?
Holmes parecia desgostoso.
–Esther, você está claramente obcecada por ele...
Um estranho tremor passou pelo corpo de Esther. Algo como um arrepio. Holmes notou, e sabendo de sua fraqueza, decidiu insistir.
–Acho que eu me enganei quando presumi que a morte de Dmitri traria alguma paz a você...
–Não fique a presumir coisas que você não sabe, Sherlock. Aquele homem é um monstro, que destruiu minha família. Isso não é motivo o bastante? Oh, mas é claro que você não me entenderia. Você jamais gostou de sua família, não é?
Holmes ficou surpreso, ao ver que deixara Esther acuada o bastante a ponto de tocar em uma de suas mais graves feridas. Ela era muito mais sádica do que ele imaginava.
–Não pense que me ferindo você irá conseguir tirar o foco de minha pergunta, Esther. Aquele homem fez muito mais a você do que você quer que eu acredite.
Esther deu-lhe as costas, braços cruzados, em algo que beirava à uma posição defensiva. Aquela era mais que uma confirmação de que algo errado, muito errado, tinha acontecido em seu passado. Algo que ele não sabia, e que para seu desgosto, não tinha informações o bastante para deduzir.
–Pensei que sabia tudo a seu respeito. – concluiu Holmes, com pesar.
–O encantamento está no desconhecido, Holmes. – ela disse, ignorando-o. – Tem coisas que você não precisa saber sobre mim. Porque se souber...
–O que você fez? Você matou alguém, é isto?
Esther soltou uma risada.
–Eu queria que tivesse sido algo tão fácil assim.
Holmes engoliu a seco. O que de tão terrível ela cometeu? Ela era um enigma. Holmes sabia que havia muitos aspectos na personalidade de Esther que eram destoantes da maioria das pessoas. Ela não era como a maioria das mulheres que ele conhecia, o que a tornava impossível de ser lançada em patamar semelhante às outras. O que quer que tenha acontecido, foi algo grave – e imprevisível.
–Acho que formulei mal a minha pergunta... – ele insistiu. – Eu não deveria perguntar “o que você fez”, mas “o que fizeram”...
Ao notar desconforto nela, Holmes pareceu triunfante. Sem dúvida, ele Esther deu alguns passos pela casa, tamborilando uma mesa levemente.
–Eu só vou contar, Sherlock... – ela começou. – Quando você me falar a respeito de sua mãe.
Após um breve momento evitando qualquer contato, finalmente Esther voltou seu olhar a Holmes, e ficou contente com o que vira. A mera menção de sua mãe fez Holmes ficar desconfortável, e Esther sabia disto. Holmes era completamente reticente sobre sua mãe, Violet. Não apenas pelas coisas que ele presenciara quando criança, sobre seu envolvimento com seu tutor Terry Cales. Esther sabia que Violet era um segredo para Holmes, também. Havia algo sobre ela que Holmes guardava para si.
Diante do longo silêncio de seu marido, Esther se limitou a comentar.
–Foi o que eu pensei. – ela disse, após um suspiro resignado, dando a conversa por encerrado.
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