A Retribuição

25 Mano Sherrringford


Notas iniciais
Olá!!! Holmes sente que há uma pista importante em Yorkshire, sua terra natal. E quem ele irá convocar para ajudá-lo? O mais velho dos Holmes, Sherringford! Bom, para quem não sabe, Sherringford seria o verdadeiro nome de Sherlock Holmes. Ainda bem que Arthur Conan Doylemudou de idéia, rs! Há alguns teóricos que acreditam que esse é nome do primogênito dos Holmes - que não é o Mycroft. Você deve se perguntar: mas porquê não é o Mycroft? Pois bem, se Holmes realmente veio de uma família de fidalgos, isso significa que alguém irá assumir os negócios da família. Naquela época, o primogênito nascia com a responsabilidade de crescer e tomar as rédeas dos negócios. Os irmãos que nascessem depois eram mais isentos dessa responsabilidade. Isso explica porquê Sherlock e Mycroft estavam bem longe de ter uma vida dedicada à fazenda. Bom, mas vocês verão que o Sherringford está beem longe de ser um inglês padrão... Boa leitura!

Covent Garder. Londres, Inglaterra. 14 de Julho de 1900.

Holmes e Sherringford estavam almoçando em um restaurante italiano em Covent Garder. O primogênito dos Holmes tinha um apetite impressionante, tanto como Mycroft. Não era de se esperar que, enquanto Holmes mal tivesse completado sua pasta, o mais velho estava atacando seu terceiro prato, e fazendo planos para a sobremesa.

–Esse restaurante tem um sorvete delicioso... Esse tipo de coisa não tem em Yorkshire...

–Sherringford, não estamos aqui para uma excursão culinária, e já que mencionou nossa cidade natal, eu tenho que...

Ainda terminando seu prato, Sherringford o interrompeu.

–Por favor, irmão. Estou almoçando. Sei que gosta de comentar sobre seus casos, mas não quero ouvir nenhum crime grotesco enquanto faço minha digestão.

–Sherringford... Não quero conversar sobre isso. Quero fazer um convite...

Outra vez, Sherringford o interrompeu.

–Ao teatro?! Puxa, eu também acho maravilhoso! Estão encenando “Hamlet” e você sabe que...

Holmes deu um tapa na mesa, arrancando um pulo afetado de Sherringford no mesmo instante e fazendo-o se calar.

–Será que posso conversar sem ser interrompido?

–Calma, Sherlock... Sabe o que penso? Esse seu trabalho detetivesco lhe deixa muito agressivo...

– Sherringford, eu preciso ir à Yorkshire.

–Pois vá. Não estou impedindo e sei que papai não se importará.

–Irei à trabalho, mas preciso que você me acompanhe para parecer que é uma viagem pessoal...

Sherringford parecia inconformado.

–Ah não! – disse, lançando o guardanapo sobre a mesa, tentando ser agressivo, em vão. Holmes rolou os olhos, irritado pelo comportamento sempre passional do mais velho dos Holmes.

– Sherringford...

–Eu ainda ia fazer uma visita ao Albert Hall, haverá uma apresentação única da Companhia de Balé Austríaca! Estarão apresentando “O Quebra-Nozes” amanhã! Já até comprei o ingresso!

Holmes levou a mão ao rosto, impaciente.

–Papai sabe que você irá nesse tipo de evento?

–Óbvio que não! – disse o irmão, deixando escapar seu jeito afetado, mas em seguida disfarçando-o, ao perceber que algumas mesas voltaram sua atenção a eles. – Eu disse a ele que iria jogar pôquer com meus colegas da Alfândega.

–Colegas... Da Alfândega? Desde quando você tem colegas em Londres, Sherringford?

–Aquiete-se, meu irmão... São só alguns amigos que fiz, enquanto negociava o trigo no Departamento do Comércio Exterior. – disse Sherringford, escondendo um sorriso dentro da taça de vinho que estava tomando.

–Por favor, Sherringford, não se meta em encrencas.

–Eu sou cuidadoso, meu irmão. Além de quê, esse tipo de coisa é mais comum na alta roda que seus olhos podem perceber. – disse ele, em cochicho. Holmes aproximou-se dele e também falou em cochicho.

–Eu sou um detetive consultor, Sherringford, e sei muito bem o que se passa na alta roda da sociedade londrina, e por isso não quero correr o risco de ver meu irmão atrás das grades por... – Holmes interrompeu-se. – Bem, você sabe. Mas enfim, eu não estou interessado em suas atividades obscuras. Quero sua ajuda. Sabe aquele homem que você atirou?

–O que invadiu nossa casa? – disse Sherringford, com o olhar pesaroso.

–Ele mesmo. Ele está preso, não é?

–Sim. E provavelmente apodrecerá na cadeia, esquecido. O inspetor-chefe, lembra-se dele? Mr. Peters? Ele se aposentará no ano que vem e anda muito vagaroso com os inquéritos. Quem me disse isso foi Jimmy... Quero dizer, o Constable Luccard... – Sherringford se interrompeu, ao perceber o olhar hostil de Holmes com sua quase revelação de intimidade. – Enfim, uma fonte me disse isso.

–Ele tem relação com um caso no qual estou envolvido. Preciso que ele fale.

–Mas ele é russo, meu irmão, e pelo que sei, nem Oxford lhe proporcionou o conhecimento nessa língua tão pitoresca.

–Já tenho minhas providências. – decretou Holmes. – Então, podemos ir?

–Sim, penso que sim. Eu sei que você não perguntou, mas papai está hospedado na casa do Dr. Simmons, em Windsor. Lembra-se dele?

–Lembro. Desde os sete anos, eu o vencia no xadrez e ele me chamava de “menino impertinente”. – disse Holmes, com escárnio. – Parece que o velho Siger achou uma companhia à altura. Mas obrigado por manter-me a par da vida de meu pai, Sherringford. Mycroft costuma ser econômico com qualquer tipo de notícia.

–Sei. Bem, creio que não preciso levar nenhuma mala, pois eu moro lá. Então... Estou a depender de você, meu irmão, para partirmos.

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Holmes tinha reservado um vagão da primeira classe, para surpresa de Esther. Os trens para Yorkshire não costumavam ser cheios àquela época do ano, de modo que tinha, ainda assim, poucos passageiros. Seu nome Sophie Sigerson constava na lista de autorizados a embarcar, o que causou estranheza no guarda ao permitir a entrada daquela mulher de trajes tão simples.

Imediatamente, ela encontrou seu marido, Sherlock Holmes, e Sherringford Holmes, sentados em uma das mesas luxuosas do trem.

Sherringford tomou um susto com a mulher de vestes simples que entrara no trem, mas Holmes interveio.

–Essa é Sophie, Sherringford. Minha esposa. – ele disse, com orgulho, fazendo Esther se corar, uma vez que ela não estava muito apresentável.

–Oh... Desculpe. Eu pensei que...

–Foi exatamente esta minha intenção, Mr. Sherringford. Fico feliz que tenha obtido sucesso.

–Sem dúvida. – disse Holmes. – O cabelo desgrenhado, o vestido simples, desbotado, as sandálias de segunda mão, os modos de andar... Uma bela atuação. – listava Holmes, orgulhoso. – Mas enfim. Sente-se, por favor.

Depois de retornar da suíte, já sem a peruca e com outro vestido, Holmes deixou Esther finalmente a par dos motivos que lhe faziam ir à Yorkshire tão prontamente. Ela deixou que Holmes lhe desse detalhes sobre o caso em que estava trabalhando, e percebeu que ele cortara muita coisa, certamente para proteger Sherringford. Mas ela percebeu que o rapaz não era um entusiasta das histórias de Holmes.

A viagem duraria algumas horas, de modo que apenas uma boa conversa poderia fazer aquele tempo passar rápido.

–Qual história você mais gostou sobre seu irmão? – Esther perguntou ao mais velho dos Holmes, com curiosidade.

–Oh... Bem, eu acho que você não vai gostar de saber... “O Escândalo da Boêmia”. – confessou, sem jeito. Holmes rolou seus olhos, entediado e irritado por ser o assunto da conversa.

–Mas porquê eu não gostaria de saber disso?

–Bem, você sabe... Irene Adler, “A Mulher”...

Esther compreendeu. – Ah. Você pensa que eu tenho ciúmes de Adler? Que Holmes e Adler...

Holmes interrompeu os dois, indignado. – Quanta estupidez! Eu jamais tive um romance com Adler!

–Bom, mas eu acho que Watson deu a entender... No mínimo uma espécie de amor platônico, algo assim.

–E eu acho que você está achando demais, meu irmão.

Esther ria da situação, especialmente dos modos de Holmes.

–É verdade que você foi testemunha do casamento dela? – ao receber uma confirmação de Holmes, Sherringford continuou. – Você já parou para pensar que o casamento dela poderia ser anulado por causa disso? Afinal, você usou uma identidade falsa...

Tanto Holmes quanto Esther pareciam surpresos com isso. Esther observou aquele homem de mais de meia-idade com espanto. Talvez, ele não fosse tão medíocre quanto aparentava.

–Meu irmão, por favor... – Holmes insistia em encerrar o assunto.

–Você tem notícias dela? – ele perguntou, curioso.

Holmes parecia impaciente, e Esther se divertia com a situação.

–Da última vez que tive notícias, ela tinha se tornado enterrado o marido, Godfrey, na Filadélfia, e que estava criando o único filho deles, sozinha... Isso no ano passado. – disse Holmes, com desdém.

Nem mesmo Esther sabia disso.

–Mas e o soberano? Ele realmente existe?

Holmes puxou do bolso de seu colete seu relógio de ouro, e a corrente com uma moeda de ouro pendurada. Sherringford parecia maravilhado.

–Então é verdade! Incrível! Você recebeu mesmo como pagamento a fotografia dela?

–Sim. Está na minha gaveta.

Sherringford ficou indignado.

–Como você tem coragem de deixar a foto de outra mulher em sua gaveta e ainda admitir isso na frente de sua esposa?

Esther ria da situação. – Sherringford, escute. Eu não tenho ciúmes de Adler. Eu sei que Holmes não sente qualquer coisa por ela, e lhe asseguro, nunca houve nada entre os dois. Eu tenho certeza disso. – ela disse, a última frase, em um cochicho, como se mantivesse segredo, deixando Holmes ruborizado.

–Er... Acho melhor pararmos de falar sobre mim, não é, e...

Mas Sherringford parecia ignorá-lo, e continuou a conversa.

–Qual o pior vilão para você?

–Mr. Rucastle. E você? – perguntou Sherringford.

–James Moriarty.

O rosto dos dois irmãos empalideceu na mesma hora com a resposta dada por Esther.

–É... Ele é mesmo um grande vilão... – disse Sherringford, com cuidado.

–Não é necessário cautela com as palavras, Sherringford. Ela sabe tudo sobre Moriarty e eu. – admitiu Holmes.

–Tudo?! Tudo, tudo, tudo?! – tentou confirmar Sherringford. Ao receber um sinal positivo de Holmes, ele ficou ainda mais admirado. – Você deve ser mesmo uma mulher muito especial. Meu irmão jamais revelou isso a alguém. É o mais podre segredo de família que uma família poderia ter. – ele afirmou, com pesar.

A conversa acabou por rumar para outros assuntos.

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O trem precisou fazer uma parada no meio do caminho, para manutenção. A viagem seria ainda mais demorada que o habitual. Estava anoitecendo quando Sherringford sentiu-se cansado e decidiu se recolher, deixando o casal sozinho. Holmes e Esther pareciam ainda preocupados com o que fazer.

–Irei à delegacia. O inspetor Peters me deve alguns favores e pedirei para ter uma palavra com o nosso prisioneiro. Precisarei de sua ajuda, Esther, porque eu não sei falar russo. Acho que vou considerar aprender o idioma depois deste caso. Nunca precisei tanto dele.

Esther riu. – Quer aulas particulares?

Holmes sorriu de volta. – Seria o ideal.

Ele pôs a mão sobre seu rosto, recebendo em troca um beijo apaixonado. – Poderíamos começar as lições hoje, professora?

–Não sei, você é um aluno muito... Audacioso, indisciplinado... – ela disse, ao perceber as mãos de Holmes percorrendo quase todos os lugares.

–Então, me discipline. Esta noite. – ele disse, dando-lhe mais um beijo.

–Holmes... Nós estamos nos distraindo... – disse Esther, tentando escapar de suas investidas. – Precisamos ter foco. – em resposta, ela recebeu um suspiro resignado.

–Tem razão. Eu preciso me concentrar. – disse, com um olhar decepcionado. – Afinal, esta não é uma lua-de-mel em Sussex. É uma ida a Yorkshire para caçar um marginal sem limites. Você tem toda razão, minha cara. Precisamos dormir. Mas saiba que estou em dívida com você. Não hesite em cobrar isso de mim quando chegarmos a Baker Street...

–Por falar em Baker Street, parece que recebemos uma nova moradora.

Holmes estranhou, e Esther completou imediatamente.

–É ela, Holmes. A amante de Watson. Parece que ele se casou com ela às pressas. Ele está cego de tanto ódio, e está tomando atitudes precipitadas para nos atingir. Eu temo pelas consequências disso...

–Santo Deus... – murmurou Holmes. – Watson se arrependerá disso mais tarde, quando estiver com a cabeça mais fria. Eu sabia que ela não iria descansar enquanto não conseguisse o que queria.

Esther estranhou o tom de Holmes. – Você fala como se a conhecesse.

–E eu a conheço. O nome dela é Rose Willians, infelizmente creio que agora é Rose Watson. Ela era uma prostituta de Whitechapel e tem as típicas pretensões da maioria de sua classe: obter um homem que lhe proporcione algum conforto, não necessariamente diversão e amor.

–Ela irá depená-lo por completo agora. Pobre Watson, e eu com esperanças de que ele e Molly...

–Esqueça Molly, Esther. Agora é tarde demais. – disse Holmes, com desgosto. – A culpa é minha. Eu acendi a ira no homem com o coração mais bondoso de toda Inglaterra.

–Não se culpe, Holmes. A culpa também é minha.

–Ele era meu amigo, e eu não confiei nele. Simplesmente não confiei e ainda o esfaqueei pelas costas. Mas o que me surpreende é a maneira como ele descobriu sobre nós dois... Sabíamos que ele faria uma longa viagem, e então, ele reapareceu. Não só reapareceu, como foi até o seu apartamento, como se já soubesse que...

–O que foi? – perguntou Esther, diante do silêncio repentino de Holmes.

–Será que até nisso ele...?

–Você acha que o Duque está envolvido? Que ele armou para que Watson descobrisse sobre nós dois? – ela perguntou, com descrença.

–Se ele foi capaz de tentar vasculhar o meu passado, porquê não descobrir a nosso respeito?

–Mas como...?

–Sebastian Moran! Claro! Ele era o único que sabia sobre nós dois! Alguém pode ter ido sondar atrás de informações a meu respeito e o calhorda acabou contando tudo!

Um silêncio ecoou entre os dois, e ambos decidiram que era hora de dormir.

Com Esther abraçada a si, esperando o sono chegar em meio ao chacoalhar do trem e das cobertas, Holmes lhe respondia a algumas perguntas sobre a ação que adotariam amanhã. Ela prestava atenção atentamente.

–Holmes, este homem pode ser nossa única esperança.

–Não seja dramática, Esther. Ainda há outras maneiras de se chegar ao Duque Ivanov, mas esta é a mais eficaz, simplesmente. Nós iremos acabar com ele, Esther. Você estará livre deste sujeito, que tão desafiadamente armou-se contra nós dois. É impressionante o arcabouço da teia que ele me envolveu. Começo a pensar que isto pode ter levado anos de planejamento, e ele simplesmente esperou. Poderia ter resolvido com a encomenda de um assassinato, mas ele desejava algo mais doloroso. Querendo ou não, eu quase perdi meu irmão, os Irregulares sofreram uma surra, eu perdi meu melhor amigo... Parece que o subestimei quando ele esteve em minha casa, lançando maldições contra mim. Mal vejo a hora de enfrentar este homem corretamente. Tenho certeza de que será interessante.

Esther observava sua atitude ao falar do Duque Ivanov. A maneira como ele dizia de seu enfrentamento, não com medo, como muitos ficariam, mas satisfeito de ser o alvo de um nobre estrangeiro perverso e sanguinário. Ela pensou em dizer-lhe algo, e avaliou bem se seria o mais correto a se fazer, mas acabou cedendo.

–E com Moriarty?

A simples menção fazia congelá-lo.

–O-O que tem Moriarty?

–Foi interessante? Digo... Afinal, ele era o seu... Pai.

–Não vou negar, houve uma carga maior de interesse. Era o meu limite. Eu desafiei meu pai – Siger – por muitos anos, mas meu pai sempre foi um homem diferente de mim. Emocional, muito emocional. Jamais o considerei um adversário à minha altura. Então, descubro sobre Moriarty. Começo a ficar curioso no homem e em sua cadeia. Quando começam a surgir meus primeiros casos, abandono a questão, mas o nome dele acabava por surgir de uma forma ou de outra.

–O que aconteceu foi exatamente como está em “O Problema Final”?

Ele pareceu pensar, antes de dizer. – Não exatamente. Watson não sabe de meu vínculo. Não que eu não lhe tenha contado por desconfiar que ele o publicasse, claro que não, mas porque eu tinha... Algo entre vergonha e receio de que ele soubesse demais. Não queria receber olhares de pena dele, nem qualquer murmuração neste sentido. Mas quando nos encontramos em Baker Street, ele deixou bem claro que sabia quem eu era. Disse que eu deveria parar com a minha investigação, pois ele já reconhecia que eu era bom, então não precisava seguir adiante. Ele me fez elogios, até. Mas eu lhe respondi que iria continuar. Ele sacou uma arma e deixou-me acuado em minha própria casa. Respondeu que apenas me deixava viver naquele momento em respeito à memória de minha mãe. Senti um asco profundo subir de meu estômago, uma vontade de levantar-me contra ele e mata-lo, mas me controlei. Permaneci firme, dizendo que eu terminaria o que tinha começado. Como última cartada, ele me disse que jamais se sentiu à vontade em matar alguém de seu sangue, mas que uma questão de sobrevivência é capaz de transformar um ser humano. E de fato o é. Ele deixou-me estas palavras e foi embora. Foi a primeira vez que nos falamos, desde que minha mãe tinha sido morta. Depois, nos encontramos em Reichenbach... e você sabe o resto.

Holmes suspirou.

–Quanto à Siger, meu pai de criação... Não que ele fosse um medíocre, pelo contrário, era um homem inteligente. Mas se guiava pelas emoções e intuição. Eu até tenho intuição, mas não me guio por ela o tempo todo, eu prefiro avalia-la. Para ter uma idéia, ele sabia que você era uma judia apenas pela maneira transparente como ficou escondida em meus aposentos. – disse Holmes, com o olhar obscuro. – Meu pai não gosta de judeus, estrangeiros, enfim...

–Mas a sua mãe era filha de franceses...

Holmes sorriu com a simples menção. – Sim, de fato. Mas meu pai não teve escolha, foi um casamento arranjado. Um emocional casado com outro emocional. Minha mãe era uma mulher talentosa. Tocava piano como poucos. Em reuniões, costumava fazer exibições. Além disso, era descendente de Vernet, o que explica meu lado artístico, um tanto voltado para o dramático, eu confesso. Mas era muito ingênua, a minha mãe, era esta sua principal diferença entre meu pai Siger. Sherringford herdou esta ingenuidade. Embora ele seja um homem de boa vontade, não costuma dar-se bem nos negócios, porque confia em pessoas erradas. Mas ele é um artista, tão bom quanto eu, especialmente porque... Sabe disfarçar algumas coisas muito bem e...

Holmes interrompeu-se.

–De acordo com as leis britânicas, meu irmão é um criminoso, Esther. Eu estava nos Estados Unidos, fazendo um pouco de sucesso nos palcos como um ator chamado Jeremy Sigerson quando recebi uma carta dele. Pediu que eu retornasse com urgência. Na época, eu tinha dezoito anos. Quando voltei para casa, recebi uma surra de meu pai e fiquei trancado em meu quarto por dois dias, recebendo pão e água.

Percebendo o olhar aflito de Esther, Holmes explicou-se.

–Ele achou cocaína em minha mala, por isso tal atitude drástica. Aprendi a usá-la no meio dos atores. Mas enfim: eu voltei mesmo assim, porque o pedido de meu irmão era grave. Uma chantagem. Ele... Estava envolvido com... Alguém.

Esther assentiu, compreendendo bem o que ele quis dizer.

–Ele pediu minha ajuda para reaver algumas cartas que ele havia trocado com este sujeito. Um nobre decadente que vivia de pequenos golpes e chantagens. Meu irmão, sempre ingênuo, deixou-se levar por este sujeito... Precisava ver o estado de nervos que eu o encontrei, já exausto de tanto receber ameaças absurdas... Por isso eu sempre odiei chantagem. Consegui recuperar as cartas e recebi a promessa de Sherringford de que ele jamais faria isso. Não sei se as cumpre, mas sei que ao menos é cuidadoso e não se mete mais em problemas.

–E Mycroft?

–Ele é o mais racional de todos nós. Puxou o meu avô, Sheridan Scott Holmes, que era um militar, é o que diz o meu pai. Desde rapazes, tinha um olhar analítico em tudo, pai dizia que o queria no Governo e fez-lhe os arranjos para isto. Teve desde cedo uma educação disciplinada, que combinava com sue temperamento. Quando foi para a Universidade, tornou-se ainda mais recluso e genial. Ao que parece, Esther, eu bebi mais uísque do que deveria. Minha língua está solta, pois estou aqui contando sobre minha vida, e até mesmo pensei em fazer sexo com você enquanto estamos prestes a dar um passo importante em nossa investida contra o Duque...

Esther não poderia deixar de concordar com este fato. Ele jamais era tão direto neste assunto.

–Bem, você não costuma beber...

–Tem razão. Acho que tentei acompanhar meu irmão nas doses. Culpa do “complexo do irmão caçula”.

–“Complexo do irmão caçula”? Holmes, eu acho melhor você dormir... – disse Esther, com certo humor.

–Você já leu a respeito dos estudos de Ernest Hoffman?

–Boa noite, Holmes! – disse Esther, se virando, deixando seu marido parcialmente sóbrio a ver navios.

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Mycroft estava inquieto. Andava de um lado a outro pela sala de sua casa em Pall Mall. O velho Siger, sentado em sua cadeira de rodas, já estava agoniado tamanha era a preocupação de seu filho mediano.

–Nenhuma idéia de onde está Sherringford, papai?

–Ele me disse que ia jogar pôquer com amigos, enquanto eu estava em Windsor. Porquê a preocupação?

Mycroft virou-se contra o seu pai, com um sorriso de escárneo.

–Ora papai, você sabe que Sherringford não aprecia este tipo de jogo. Procurei por seus colegas e não o encontrei. E o que é mais impressionante: procurei por Sherlock em Baker Street e também não o encontrei. Onde esses dois se meteram?

–Porquê não pergunte à judia que vive ali? Talvez ela tenha lhe ensinado o incrível truque de desaparecimento que aquele povo tão bem o sabe fazer. Aliás, qual o nome dela?

–Papai, preste atenção! – chamou-lhe a atenção Mycroft. – Eu preciso encontrar os dois! Sherlock está em perigo, e se Sherringford estiver com ele, também estará!

–Porquê diz isso, meu filho? O que seu irmão aprontou desta vez?

Mycroft sacudiu o jornal, diante dos olhos de seu velho pai, que lhe dava uma manchete deveras preocupante. – Isso ocorreu há dois dias, e só agora os jornais estão noticiando.

CORONEL SEBASTIAN MORAN ESCAPA DE DARTMOOR

Notas finais
Bom, acho que vocês perceberam que, naquela sociedade, Sherringford era considerado um criminoso. Isso mostra também porquê Holmes detesta tanto os chantagistas. E nem vou comentar sobre essa repentina fuga do Moran... Seria isto o Duque cumprindo um velho acordo? Creio que sim. Mas não vão pensando que é só isto, não. Obrigado por acompanharem, e deixem reviews! Até sábado!