A Retribuição
27 Um Troco A Mais
Notas iniciais
Era o Coronel Sebastian Moran. Visivelmente mais magro e ostentando uma barba considerável, mas ainda assim, o mesmo shirak. Ele não estava sozinho, portando junto de si uma arma de longo alcance, apontado para a cabeça de Sherringford.
–Moran?! O que significa isso?
–Nem um só passo, Holmes, ou explodo a cabeça do seu irmão feito uma melancia. – disse, estalando a arma com um clique, mostrando que estava falando muito sério.
–O que você quer?
–Vingança. E também um pouco de dinheiro, para compensar estes anos que estive a quebrar pedras em Dartmoor enquanto você se divertia, tendo sua vida de volta e um pouco mais até.
–Posso entregar-lhe o dinheiro, se...
–Não! Não quero apenas o dinheiro, quero também fazê-lo sofrer! Tanto quanto eu sofri! Você sabe tudo que perdi, hein? Eu tinha uma família, uma esposa, dois filhos, e todos eles viraram às costas para mim! Todos! Eu era um homem de posses, respeitado, e agora sequer meu título de Coronel eu posso ostentar! Você, seu maldito enxerido detetive, é a causa de toda a desgraça da minha vida! Desde o maldito dia que você passou a meter-se em meus empreendimentos com o falecido Moriarty, eu sabia que algo precisava ser feito, que você seria uma pedra em nosso caminho, mas o professor me impedia de executá-lo. E agora, ele está no fundo de uma maldita catarata por sua causa!
Moran começou a rir.
–Nas ocasiões em que estive frente a frente por você, o ambiente sempre desfavorecia. Sabia que esta é a primeira vez que verdadeiramente olho-te face a face, Mr. Holmes?
Holmes tentou baixar a cabeça, mas logo foi impedido.
–Olhe para mim, Mr. Holmes! Continue olhando para mim.
Holmes obedeceu-o, mantendo seus olhos cinzentos em Moran.
–Eu nunca entendi o porquê da relutância do Professor em mata-lo. Nunca, mesmo. Já tinha matada a muitos outros bem menos perigosos que você. Eu insistia, e ele não autorizava. Até que comecei a suspeitar que o problema fosse pessoal.
Holmes sentiu a garganta seca. Era sua maldição, seguindo-o novamente.
–Claro. Os mesmos olhos cinzentos... Não é uma herança de família, pois vejo no quadro de seu pai e nos olhos de seu irmão que não é. Ao menos não é uma herança da família Holmes... – Moran gargalhou. – Ou seria da família Moriarty?
Holmes sentiu repulsa no mesmo instante.
–Não caia em sua provocação, Sherlock. Você é tão Holmes quanto eu. – tentou tranquilizar Sherringford. Holmes assentiu com um leve balançar da cabeça.
Esther e o russo estavam completamente alheios, fora do campo de visão restrito de Moran. Ela deu um passo para atrás, seguido do russo, que não conseguia compreender uma só palavra do que estava acontecendo, mas sabia que havia vidas em jogo. Imediatamente, ele virou-se para Esther e cochichou em seu ouvido.
–(Eu estive vigiando esta casa há muito tempo. Sei como dar a volta e impedir o atirador.)
–(Tem certeza?)
–(Absoluta. Não se preocupe senhorita, eu já fui recruta do Exército. Sei o que fazer.)
Ela assentiu, e aos poucos o russo foi se distanciando da cena, sem sequer ser notado por nenhum deles. Enquanto isso, a humilhação de Moran continuava, com suas risadas ecoando por toda a casa.
–Eu deveria pedir desculpas ao Professor por matar seu único filho, mas eu não posso deixar escapá-lo daqui com vida, e este seu irmão também está no pacote. Foi bom coloca-lo em seu devido lugar, Mr. Sherlock Moriarty, mas sinto que devo...
Moran não conseguiu completar a sentença, porque imediatamente o russo pulou contra si, agarrando-lhe pela arma, que disparou contra o lustre, fazendo-o ir à baixo. Sherringford aproveitou-se da deixa e fugiu dali, deixando o russo e Moran lutando para se apoderar da arma.
Holmes pensou em subir as escadas para ajuda-lo, mas eventualmente a arma disparava, mostrando a possibilidade muito difícil.
–Uma arma, Sherlock! – disse Sherringford, estendendo uma pistola que ele guardava na escrivaninha. Holmes pegou-a e tentou atirar, mas era impossível. O combate físico entre os dois era muito intenso e havia o risco de acertar o pobre russo que pôs-se em sua defesa.
Até que de repente, o russo conseguiu dar-lhe um chute e empurrou Moran escada abaixo, após tomar-lhe a arma.
Moran estava agonizando sobre o chão. Provavelmente tinha quebrado alguns ossos na queda. Sherlock Holmes e dos demais se aproximaram do homem, que tentava dizer suas últimas palavras.
–Você me venceu de novo, detetive... Em outros tempos, eu o teria matado na primeira oportunidade, mas a minha ira contra ti era tamanha que não pude me privar de apreciar sua humilhação... – observou o Coronel. – O Professor sempre disse que os sentimentos atrapalhavam a racionalidade.
–De fato, Coronel Moran. Esta sua última derrota faz jus à isto. E se pensa que sinto-me humilhado por... Ser filho de Moriarty, o senhor está errado. O fato, deveras, me assombra e me fere, mas por outros motivos. Tê-lo como o meu... Pai, não é motivo de humilhação para mim. Ele foi o adversário mais forte que já tive em toda a minha vida e também um homem que admirei, eu admito, e o senhor não está em um patamar distante dele.
–Será? – ele se perguntava, com a voz já fraca. – Há outro homem à espreita, que caminha pelas sombras... Ele está vindo, Mr. Holmes, e ele não tem as alianças do sangue para impedi-lo da mesma forma que o Professor.
–O Duque Ivanov, não é? – Moran assentiu.
–Como fui estúpido... Ele me prometeu a liberdade e uma nova organização criminosa... Uma máfia de russos, mas... Ainda assim era alguma coisa...
Holmes se iluminou. – Uma máfia de russos? Então os criminosos seriam para você montar uma organização criminosa?!
–Ele sabia que era necessário me oferecer mais que liberdade para... Para contar o que eu sabia... – Moran começou a tossir, já fraco.
–O que você contou?! Sobre eu e Esther?! – Holmes recebeu apenas um sacudir positivo de Moran, que fechou seus olhos, já inconsciente.
–Então, o Duque sabia que você e eu estávamos juntos... – disse Holmes. – Isso só me dá mais certeza de que ele armou a descoberta de Watson sobre nós dois. Definitivamente, ele quer acabar comigo de todos os meios.
O russo, que estava alheio durante toda a conversa, disse alguma coisa. Holmes virou-se para Esther.
–O que ele disse?
–Ele perguntou se Moran era o “Caçador”. Ele disse que “O Caçador” era o nome do líder da Organização.
Holmes bufou, olhando para o corpo de Moran. – Um ótimo meio de seduzir o shirak e obter tudo dele. Uma organização, que poderia ser tão grande quanto aquela que ele montou com Moriarty.
–O que faremos com ele? – perguntou Sherringford, bebendo uma forte dose de scotch.
–Cuide disso. Chame a polícia e diga que ele tentou te sequestrar e acabou caindo da escada. Eu e Esther e nosso amigo Igor iremos retornar à Londres o quanto antes.
Esther contou ao russo em sua língua, que assentiu bastante satisfeito e acrescentou mais alguma coisa.
–O que foi desta vez?
–Ele ainda quer tomar banho.
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