A Retribuição

22 Pulgas Atrás da Orelha


Notas iniciais
Olá!!! O cerco está se fechando, o cerco está se fechando!!!! Boa leitura!!!

Circle Street. East End. 9 de Julho de 1900.

09:45 a.m

(Algumas horas atrás...)

East End era tão abafado que Watson conseguia sentir o vapor do asfalto, misturado ao fedor das fezes de animais e de seres humanos, a queimar o seu rosto. Fazia uma ensolarada manhã de domingo, em pleno verão londrino, e lá estava ele, vestido tal como Holmes tinha recomendado para este tipo de ocasião, com suas roupas mais modestas para não despertar a cobiça dos ladrões. Ele carregava pouco dinheiro consigo para justamente evitar um prejuízo grande por aqueles lados, caso viesse a acontecer, embora sua bengala com uma lâmina oculta lhe desse mais confiança ali.

Watson estava seguindo o dever da Medicina. Um de seus primeiros pacientes na cidade fora Mr. Schneider, um judeu relojoeiro que tinha algumas lojas no East End. Ele sofria da gota e precisava de cuidados especiais, além de ser teimoso e não gostar de fechar seu pequeno comércio para ir ao médico, de modo que Watson não costumava esperar por sua ida ao consultório, mas preferia ir vê-lo pessoalmente.

Passando pelo East End, após a consulta, ele chegou ao local onde tinha estado há alguns anos atrás, em meio ao sequestro de Esther. Ele engoliu em seco, pois a lembrança do estado deplorável de Esther, atacada e estuprada por um homem louco como o Mr. Carlston parecia ainda mais viva diante daquele estabelecimento, agora fechado.

Ele olhou ao redor. Havia algumas prostitutas, oferecendo seus corpos por alguns guinéus, alguns moleques batedores de carteira, e ciganos. Nenhum deles deveria estar fixo há mais de três anos atrás por ali. Deveria haver alguém.

Watson notou um homem martelar facas ali. Era um indiano amolador de facas, com uma pequena barraca para seus serviços. Ele lembrou-se dele imediatamente como um dos presentes naquela rua. Não teve outra idéia senão ir até lá.

–Bom dia, senhor.

O homem olhou-lhe, desconfiado. – Bom dia.

–Er, eu não tenho certeza se o senhor estava aqui há cinco anos atrás...

–Esse é meu ponto de vendas há dez anos.

Ótimo, congratulou Watson. – O senhor é de Calcutá?

–Como sabe? – perguntou o indiano, surpreso, deixando revelar um sorriso em meio à barba espessa e negra.

–Reconheci pela roupa. Sabe, eu estive de passagem na Índia, em campanha militar. Pertencia ao Quinto Regimento dos Fuzileiros de Northumberland, e lutei na Guerra Afegã. Infelizmente, não foi uma passagem das mais bonitas de minha vida, mas tenho ainda boas memórias. – disse Watson, olhando brevemente para sua perna manca.

O indiano assentiu. – O senhor matou muita gente do meu povo, eu vejo.

–E eu quase morri por isso. E diga-me, para quê? Para ganhar uma pensão miserável e ver muitos dos meus à míngua?

Watson era um homem leal à Rainha, um fiel servo de Sua Majestade, mas sabia que era necessário mostrar antipatia á campanha militar na Índia para conquistar a confiança do indiano, que pareceu mais simpático a si depois deste comentário.

–Por acaso o senhor se lembra de um crime que ocorreu naquele casarão ali em frente, há cinco anos atrás?

O indiano parecia reflexivo. – Há tantos crimes por aqui que é difícil me lembrar de um... Minha memória é tão nebulosa...

Watson suspirou. Sacou a carteira e deixou um soberano.

–Bem, mas eu me lembro daquele dia. Uma mulher estuprada, um filho de um banqueiro assassinado, sim, este eu me lembro... Muito tiro.

–Você se lembra de ter visto um homem adentrar, antes de todos os disparos?

–Sim, eu me lembro. Ele era branco, alto, moreno, com o andar distinto de um inglês. Tinha o nariz grande e usava um terno negro.

Claro. Aquela era a descrição exata de Sherlock Holmes.

–Digo, antes disso... Um outro homem ter entrado na casa... – insistiu Watson, colocando mais um soberano sobre a mesa. – Você poderia me dar a descrição dele, ou se possível me dizer para onde ele foi?

–Não havia outro homem. Depois que o sujeito entrou carregando a moça, um tempo depois esse homem chegou. Depois, nenhum homem entrou mais, então veio os disparos, e depois a chegada da polícia. Eu vi esse homem só ir embora com os policiais.

–O senhor quer mais dinheiro para me contar, é isso? – perguntou Watson, irritado com o indiano.

–Estou falando a verdade, senhor. Só um homem entrou na casa.

Watson estava aturdido. – Mas isso é impossível! Olhe, eu estou falando de um homem branco, alto, moreno...

–Eu é que não entendo aonde o senhor quer chegar... Não foi essa a descrição que eu lhe dei? – foi a vez do indiano se enfurecer. – Quer que eu minta, é? Se quiser, eu digo que outro homem entrou. Está bom para você?

Watson não conseguia acreditar. – Não pode ser... Deve ter entrado outro homem! Por uma janela, não sei!

–Impossível! Eu conheço aquela casa. Só há uma porta de acesso à rua e todas as janelas dão de frente ao meu comércio. Eu teria visto. Agora, se me dá licença, senhor, tem freguês aqui... Tenha um bom dia. – disse o indiano, praticamente enxotando Watson.

Watson demorou a entender aquele enigma que se formava diante de si. Apenas um homem entrou, ao que tudo indicava, seu amigo Holmes. Então, como diabos Sigerson conseguiu entrar e sair sem ser visto?

–Eu é que não entendo aonde o senhor quer chegar... Não foi essa a descrição que eu lhe dei?

Watson já estava longe dali, ainda em passos atordoados e demorados. O indiano retornou às suas tarefas, até ser abordado outra vez por um homem bem vestido. Ele sorriu, pois sabia o que significava aquilo.

–Então? – perguntou o indiano, estendendo a mão e recebendo mais um soberano do sujeito, que saiu dali satisfeito com sua manipulação, embrenhando-se pelas ruas tortas de East End.

Esse tonto decerto está aturdido com essa revelação. Agora, é hora de ver minha Rose, pensou Jenkins.

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Chelsea Avenue. Londres. 8 de Julho de 1900.

13:15 p.m.

Holmes tinha detestado a idéia de Esther de encontrar Molly em um almoço. Sua esposa sempre arranjava uma maneira de fazê-lo comer durante uma investigação e por vezes o colocava em situações assim. Já Molly estava mais interessada em se tornar um personagem de suas aventuras, embora Holmes soubesse que a aventura dos russos seria impublicável e que sequer seria um manuscrito de Watson, mas Esther o tinha recomendado a alimentar as esperanças na moça.

Isso facilitou a conversa a respeito de seu noivo, um assunto que, percebera Holmes, era bastante delicado. A perda tinha sido repentina e dolorosa, e ao fim da conversa Molly admitira certa suspeita sobre as últimas atividades de seu noivo, mais uma vez contando o que tinha sido dito à Esther.

Ao final, ela mostrou a Holmes uma caixa que a família dele tinha permitido que ela ficasse. Tinha alguns pertences pessoais, como uma pequena fotografia de ambos, além de uma coleção de selos e moedas.

Holmes parecia mais intrigado com a caixa em si do que com os objetos que ela trazia, foi o que Esther percebeu. Não tardou-se a descobrir o porquê disso, quando depois de uma análise ele depositou bruscamente todos os pertences sobre a mesa e retirou um tampo falso em seu fundo.

–Percebi a diferença de profundidade. – ele explicou.

–Céus, eu jamais poderia imaginar que...

Aparentemente, nenhum bem de valor parecia ter ali, além de papéis. Alguns deles estavam em russo.

–O que está escrito aqui? – perguntou Holmes a Esther, sem perceber que estava diante de Molly, que estranhou o pedido.

–Você conhece esse idioma tão estranho, Sophie? – ela perguntou, com estranheza, fazendo-os voltar aos velhos personagens outra vez.

–Oh... Não, Mr. Holmes, eu só conheço o Francês. Eu acho que isso é Russo. – ela disse, recebendo um olhar positivo de Holmes.

–Depois procurarei quem traduza isso para mim. – ele disse, disfarçando.

Quando ambos já estavam dentro de um cabriolé, Esther deixou escapar um suspiro de alívio, entrelaçando seu braço ao de Holmes.

–Essa foi por pouco! – ela exclamou.

–Foi um deslize! Estou tão absorto neste problema que cheguei ao ponto de me esquecer da aparente natureza de nossos negócios. – ele admitiu. – Precisamos ser mais cautelosos, Esther. Quase colocamos tudo a perder na frente de sua amiga.

–Como eu quero que isso acabe logo, Holmes. – ela disse, descansando sua cabeça na sua. – Sabemos que o Conde está envolvido nisto. Se resolvermos este caso, estaremos encerrando o maior problema de toda a minha vida... Acabando com o homem que destruiu minha família, e tantas outras...

Holmes suspirou. – E iremos. Juntos.

Esther concordou. Já tinha forças suficientes para continuar.

Ambos chegaram juntos a Baker Street. Como sabiam que aquele era um horário seguro, Holmes e Esther subiram junto até os aposentos dele. Foram imediatamente pegos de surpresa com a presença de Watson, àquela hora do dia.

–Watson?! – perguntou Holmes, um pouco confuso.

Watson tinha um olhar esquisito, percebeu Holmes. Parecia confuso e atordoado com alguma coisa, e se inquietou com a presença dele ali. Ou seria com a presença de Esther?

–Er... Olá. – foi sua resposta, seca e em um tom de voz estranho.

–Olá, Watson.

–Olá. – o mesmo tom seco no cumprimento, até mesmo para Esther.

–O que está fazendo aqui há esta hora, meu caro? Não tem nenhum paciente no consultório?

–Não, eu não estava me sentindo bem hoje e decidi desmarcar. O Dr. Luneworth irá consulta-los.

–O que você tem? – perguntou Esther, preocupada.

–Não é nada demais, nada que possa preocupar. Bem, se me permitem, acho que irei dar uma volta no parque, para desanuviar a minha cabeça. – ele disse, com uma voz que só exprimia a decepção, deixando Esther e Holmes sozinhos.

–Ele está estranho... Será que aquela prostituta fez alguma coisa com ele?

–Eu não sei, Holmes. – ela suspirou. – Agora, vejamos o que está escrito aqui, em russo...

Seus olhos verdes percorreram o documento rapidamente. Holmes, completamente leigo no idioma – embora ela tivesse tentado lhe ensinar algumas palavras – apenas observava, com expectativa, enquanto ela olhava as outras folhas. Ele percebeu seu rosto mudar de expressão algumas vezes – constatação, desespero, compreensão, e isso não era nada animador. Por final, Esther deu sua palavra final.

–Pelo que eu entendi, Brian tentou traduzir essa folha.

–Decerto ele não conhecia russo. E se alguém quisesse se comunicar por ele, não seria por este idioma. Sinal de que ele não a recebeu. Pode tê-la roubado.

–Sim, exatamente. O conteúdo desta folha é bombástico, por isso ela estava tão bem escondida todo este tempo. São instruções a respeito dos novos operários da fábrica, dadas por... Mr. Jenkins.

–O agente da Okhrana. – completou Holmes. – Bom... Há algo que conecte-nos diretamente ao Duque Ivanov?

–Não, tudo é subliminar. Ele está presente nessas palavras, posso sentir, mas seu nome não é mencionado nenhuma vez. Típico.

–Então, isso não é o suficiente para acabar com ele. Precisamos reunir provas que provem de sua conspiração contra o Reino. Assim, ele não terá escapatória.

–Mas ao menos, sabemos que os russos estão aqui para provocar desordem... O curioso é que, escute só “Deve-se mantê-los ocupados, não só com trabalho, mas também com crimes pequenos a grandes. Será a base de distração que precisamos.”

–Base de distração?! – estranhou Holmes.

–Sim. O que foi?

–Ultimamente, eu estive muito ocupado com estes russos, Esther. Toda a natureza de crimes estava batendo em minha porta, e tudo apontava para algum criminoso russo. Assassinato, roubo, falsificação, sequestro... Comentei isso com meu irmão e ele acionou o Governo, que já estava apercebendo um deslocamento fora do normal de russos para Londres.

–Espere, então quem estava sendo distraído: o governo ou você?

–Os dois, eu penso que sim. Isso está pior do que eu pensava, Esther.

Holmes estava reflexivo. Caminhava de um lado a outro, com o cachimbo abastecido. Esther também levantou-se, claramente preocupada.

–Como não pensei nisto antes! – Holmes exclamou, de repente.

Esther estremeceu, pega pelo susto da agitação repentina de Holmes. A sua mente tinha sido iluminada por algo. Pacientemente, ela aguardou por sua conclusão.

–Claro, Esther! Que tolo fui eu! Não há conspiração nenhuma, nem contra você e nem contra a Inglaterra!

–Como assim? – ela perguntou, ainda sem entender.

–Este tempo todo, eu estive distraído pelos pequenos e grandes crimes, que batiam à minha porta. E se esses crimes eram a base de distração para mim?

–Como assim, a base de distração? Por quê o Conde iria te distrair?

–Todos estes acontecimentos mais recentes, Esther... Todos eles estavam relacionados à mim! O Duque mandou todos estes russos aqui, encheu esta cidade com eles, porque queria um verdadeiro exército. Um exército para me derrotar, um exército de casos batendo à minha porta, deixando-me distraído o bastante para que eu não percebesse os seus movimentos. E foi isto o que aconteceu... A invasão à casa de meu pai, o atentado à Mycroft... Ele quer acabar comigo porque eu matei Dmitri.

Esther parecia desnorteada.

–Eu sou o alvo, Esther. Todo este tempo, o alvo sou eu.

Notas finais
E Holmes matou a charada!!! E Watson também já descobriu que o Sigerson não matou o Carlston - porque sequer esteve lá... Tudo bem, Jenkins empurrou-o para esta conclusão, mas vamos dar um crédito ao doutor... Ele está começando a ficar desconfiado do porquê Holmes teria descarregado um revólver em prol de alguém que ele sequer tinha intimidade.... E, é claro, porque ele jurou que Sierson estivera lá. Bom, as coisas estão começando a ficar sem sentindo, ao menos que você comece a pensar no impossível, não é... Vejamos se o bom doutor terá estômago para seguir adiante. O Duque fez tudo orquestrado para disfarçar suas motivações, mas Holmes descobriu. O atentado, os bandidos... Tudo uma distração para Holmes. Mas para o quê??? Esperem uma bomba, com toda a certeza. Tem algo muito sério vindo por aí. Pessoal, espero que tenham gostado deste cap. Aguardem coisas cabeludas no próximo. Só o que posso dizer é: Chegou o dia que todos vocês estavam ansiosos para saber como seria. Rsrsrs Será que alguém tem uma suspeita??? E devo enfatizar bem o "cabeludo".... Até o próximo cap! E deixem reviews!!!