A Retribuição

17 Cuidando De Um Pub


Notas iniciais
Olá!!! Quem estava curioso para ver Holmes e Esther cuidando de um pub, vai ficar satisfeito com esse cap, e também com algumas revelações que deixei pelo caminho. Bom, vou deixar vocês lerem. Boa leitura!!

Margem Oeste do Rio Tâmisa, Londres. 29 de Junho de 1900.

–Mary, mais cerveja, por favor!

Holmes estava no balcão, terminando de servir refeições a alguns trabalhadores russos. Naquela noite, o bar estava cheio, pois era dia de pagamento. Apenas conseguia falar com alguns deles, que arranhavam um pouco de inglês. O restante falava algo incompreensível, que apenas Esther era capaz de entender: russo. O vocabulário de Holmes se limitava a palavras-chaves como “assassinato”, “arma”, “roubo”... A julgar pelo comportamento vulgar de muitos daqueles operários russos, essas palavras até poderiam ser mencionadas, mas não durante uma rodada de cerveja entre amigos.

Holmes e Esther já estavam trabalhando no pub há uma semana. Claro, todos os fregueses pareciam relutantes de querer conversa com aquele casal estranho que comprara o pub recentemente, mas apesar de pouco tempo trabalhando, ambos conseguiram boa aproximação, especialmente com as pessoas do escritório, que queriam aprender inglês. Um deles chamava-se Mikhail Vasilov, com quem Holmes estava fazendo amizade, ensinando, para seu desgosto, seu escasso repertório de cantadas sujas de beira de cais. Isso o deixava constrangido – especialmente quando Esther escutava e erguia uma sobrancelha de pasmo – mas Holmes sabia que era necessário, afinal foi o melhor jeito de fazer o russo se sentir mais à vontade. O restante parecia mais fechado, retraído, não disposto a se aproximar de um inglês.

Esther adotou uma tática parecida. Usando uma peruca negra e maquiagem para disfarçar as sobrancelhas loiras e a deixando com a aparência mais velha, Esther conseguiu a proeza de se “enfeiurar”, e se aproveitando de sua simpatia, fez amizade com algumas mulheres. Uma delas chamava-se Anya, tinha quatro filhos – todos estavam na Sibéria – e ela pedia ajuda a Esther para escrever cartas, algumas mandadas com dinheiro. A contragosto, Esther lembrava-se do filho que tinha perdido, e da idade que ele teria se o aborto não tivesse acontecido, idade esta que era bem próxima a um dos filhos de Anya. Anya era casada com Lev, seu primo de segundo grau. Lev era grosseiro e muito desconfiado, mas sua esposa era o contrário, sendo bastante faladeira e fazendo fofoca sobre as coisas da fábrica.

Enquanto limpava o balcão, Holmes se contorcia por dentro. Ele detestava ver Esther, disfarçada, servindo aqueles sujeitos grosseiros, que pareciam devorá-la com os olhos, mesmo com seu disfarce. Jamais sentira tamanho ciúme, nem mesmo em Montpellier. Talvez o casamento tenha piorado ainda mais seus ciúmes.

Lev, marido de Anya, já tinha torrado metade de seu salário com cerveja e parecia afoito demais com Esther, que fugia de suas provocações. Quando Holmes notou uma mão maliciosa perto do quadril de Esther, ele percebeu que chegou ao seu limite.

Era hora de tomar medidas drásticas.

Holmes deixou o pano sobre o balcão e aproximou-se, com um tom ameaçador. Lev apenas o encarava, sem mostrar-se intimidado.

–Mais respeito com ela, senhor. Ou te expulso daqui a pontapés.

O russo, que estava fumando, deu uma tragada contra o ar e riu.

–Pensei que tudo aqui estava à venda.

Holmes não pensou duas vezes e o pegou pelo colarinho. Naquele momento, esquecera tudo, mesmo sua real motivação para estar ali. Aquele sujeitinho estava merecendo há tempo. Fazia dias que seu desrespeito com Esther se prolongava. Sem pensar duas vezes, ele arrastou o russo porta afora, pelo colarinho, diante dos demais que pareciam achar graça daquilo.

–Acabou o espetáculo, pessoal. – disse Holmes, com semblante de poucos amigos, para os demais russos, que entenderam bem o recado e voltaram à bebedeira sem mais importunar o dono do pub. Esther deixou escapar um leve sorriso. Gostava destas pequenas demonstrações de afeto de Holmes.

Ao perceber que ele estava no estoque de vinhos, Esther foi vê-lo.

–Não precisava ter feito aquilo. Eu sei me virar.

–Hunf. – resmungou Holmes, enquanto analisava as garrafas. – Se eu deixasse aquilo se prolongar por mais tempo, todos os demais poderiam pensar que não me importo de ver minha mulher na mão de outros homens. Você estava conseguindo se esquivar de um, isso eu percebi, mas será que conseguiria de um pub inteiro?

Esther teve de dar o braço a torcer. Ele estava certo.

–Além de quê... – disse Holmes, pegando uma garrafa de vinho em específico. – Tenho um plano que pode nos dar informação valiosa esta noite.

–É mesmo? – perguntou Esther, curiosa. – E que plano é este?

–Doparei Vasilov com tipentato de sódio.

Esther sabia do que se tratava. A Agência chamava a substância de “soro da verdade”. Era algo ainda em experimento, mas já tinha sido aprovada por muitos agentes. Esther costumava ser contra tal método, por não achar confiável.

–Eu sei o que você está pensando, e não deixo de concordar com você. Mas esta substância tem o poder de deixar as pessoas mais “tagarelas”, isso é inegável. E Vasilov não sabe que queremos informações. Apenas faremos perguntas, e deixaremos que ele nos diga o que queremos saber.

–Pode ser, mas... Como fará para que ninguém saiba disto?

–Eu misturei essa substância com um anestésico. Isso o deixará levemente letárgico. Eu o levarei para o banheiro, sob o pretexto de ele estar se sentindo mal. Lá, faremos as perguntas. Ele a tomará por este vinho.

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–Aqui, Mr. Vasilov. O melhor vinho da casa.

Esther acompanhava a distância, enquanto enchia alguns copos de cerveja para um grupo de operários. Ela não conseguia entender a conversa, mas notou que Vasilov parecia hesitante em toma-la, por mais que Holmes insistisse.

O que será que aconteceu?

Mas nada era capaz de tirar sua abismação, quando notou que Holmes encheu dois copos de vinho, e tomou primeiro, um gole. Apenas depois disto Vasilov aceitou tomar da mesma bebida.

Oh, não... Holmes também tomou o soro da verdade...

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Maldito russo!

Tudo rodava ao seu redor. Tudo! Nem em sua pior bebedeira – aquela, inesquecível, em sua primeira festa em Oxford – Holmes tivera tal sensação. Fazia muito tempo que seu organismo não sentia os efeitos da morfina. Talvez isso explique sua letargia.

E para piorar, Vasilov acabou adormecendo no balcão. O organismo do russo, decerto, não estava preparado para aquela dose de drogas.

–Você está bem? – perguntou Esther, ao ver Holmes levemente risonho.

–Nem um pouco. E o mesmo pode-se de dizer de Mr. Vasilov. Acho que eu o superestimei... Devia ter posto 2ml a menos...

Por Adonai, se ele estiver mesmo com o “soro da verdade” em suas veias acabará revelando algo que não deve...

–Anya, você pode cuidar do pub por um instante? Parece que meu marido não está muito bem...

–Sim, Mary. Eu tomo conta das coisas. Vá ajuda-lo. – disse a russa, prestativa.

–Obrigada.

Levando Holmes para dentro do pub, Esther o colocou em uma cadeira. Andando de um lado a outro, Esther olhou para o relógio. A julgar pelo efeito da morfina, combinado com a droga, o efeito do composto duraria de oito a dez minutos. No entanto, ela o estudava, curiosamente. Será que era mesmo verdade? Que esse soro realmente faz as pessoas dizerem a verdade?

Hum, isso parecia... Interessante.

Ela começou a perguntar, quase em um cochicho. – Qual é o seu nome?

–Sherlock Willian Scott Holmes.

–Onde você nasceu?

–Na Manor Holmes, em Yorkshire.

–Quantos irmãos você tem?

–Vivos... Ou mortos? Porque se contar com os mortos, eu tenho... – o detetive começou a contar nos dedos. – Três.

–Certo. – Esther começou a sorrir, maliciosamente, ao perceber que ele estava falando a verdade. – Em quem você deu seu primeiro beijo?

Esther sentia vontade de rir. Holmes não estava nem um pouco constrangido com sua pergunta. Pelo contrário, parecia disposto a responde-las. E ele jamais estaria tão aberto a falar sobre isto.

–Uma menina chamada Margot... Ou era Maggie? Não, acho que era Mary...

Rolando os olhos, Esther refez a pergunta.

–Quantos anos você tinha, e quem era ela?

–Dezoito anos. Era uma atriz da Companhia de Teatro. Nós nos beijamos por mera curiosidade minha, disso eu me lembro. Eu queria saber qual era a sensação.

Oh, isto está ficando divertido. Espero que ele não se lembre disto mais tarde...

–Qual parte do meu corpo você mais gosta?

–Dos teus seios. – disse Holmes, risonho.

A própria Esther acabou ficando corada. Por mais que fosse divertido saber dos segredos mais profundos do detetive, Esther sabia que havia uma série de pormenores a respeito de Sherlock Holmes que era uma completa incógnita para ela. Isso a fez decidir voltar suas perguntas a coisas mais sérias.

–Por que você não fala sobre sua mãe?

Ela notou o semblante do detetive se tornar sério. Na verdade, triste.

–Eu cresci ouvindo de todos que ela era louca. Eu não a achava. Nem mesmo em suas crises.

–Crises? – perguntou Esther, chocada. Tinha pensado que Holmes não falava de Violet Holmes devido ao seu relacionamento extraconjugal. Loucura sequer passava por sua cabeça.

–Sim, crises. Ela tinha profundas variações de humor. Poderia estar tocando sorridente no piano a sua peça favorita, e depois chorar no instante seguinte. Quando eu a presenteava com algo que eu criava, ela me agradecia. No minuto seguinte, dizia que era horrível. Com meu pai era pior. Ela sorria para ele, e em um piscar de olhos, o chamava de monstro. Ela conseguia ficar dias e dias trancada em um quarto, chorando e não desejando ver ninguém, e depois sair dali com o semblante feliz, como se nada tivesse acontecido. Para não dizer das crises que a fazia quebrar metade dos vasos da casa...

–Céus... – balbuciou Esther, chocada.

–Meu pai queria interna-la, mas temia que a sociedade taxasse a nós, filhos, como loucos também. Os médicos diziam que a loucura de pessoas como minha mãe poderia se manifestar nos filhos. E temo que isso seja verdade. Basta olhar para Catherine... E acho que eu também a herdei. De uma forma mais branda, reconheço, mas também a herdei. A única diferença é que eu não passei pelas coisas que ela passou, claro.

–Que coisas?

Holmes suspirou, como se estivesse prestes a dizer uma história triste e longa.

–Minha mãe descende de uma família de artistas, os Vernet. Franceses, que convivam com pessoas de mente avançada, em sua maioria artistas e intelectuais. O casamento dela com o meu pai foi um arranjo. O que sei é que ela não gostava dele desde que se conheceram, por serem completamente diferentes. Meu pai era filho de um militar, detestava artistas e intelectuais. Dava pouco valor à Arte e nada mais queria que uma esposa submissa, que lhe desse herdeiros saudáveis, nada mais que isto. Minha falecida tia dizia que minha mãe já tinha sucumbido no primeiro ano de matrimônio, ficando com o comportamento instável. Nosso nascimento agravou, ao invés de abrandar as coisas. Mycroft jamais disse isto com todas as letras, mas eu vejo nos olhos dele que ele a detestava. Talvez porque ele não tenha herdado nenhum de seus traços, por isso é incapaz de compreendê-la. Apenas eu e Sherringford conseguíamos compreender sua essência. Minha mãe era um gênio aprisionado em uma garrafa. Tocava piano como poucos. Falava seis idiomas, gostava de compor e escrever poesias. Mas era reprimida em tudo. Por isso as crises. Crises estas que desapareciam quando ela estava na presença dele.

Não era necessário dizer a quem Holmes se referia, pensava Esther.

Holmes riu. – Aquele crápula fez ao menos duas coisas boas. Me deu conhecimento, e amenizou um pouco a vida da minha mãe. Pelo menos isto.

As três últimas palavras foram ditas arrastadas por Holmes. Logo ele caiu no sono, e dormiu. Esther suspirou, ainda chocada com a última revelação. Ela torcia para que ele não se lembrasse de uma vírgula sequer do que tinha acontecido.

Ao voltar para o pub, Esther agradeceu a Anya, por tomar conta. Ela sentiu algumas moedas faltando, é claro, mas pouco se importou. Ao virar para o lado, entretanto, Esther notou Vasilov já acordado, bebendo mais vinho.

Holmes perdeu sua vez, mas eu não...

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Às três da manhã, hora de fechar o pub, Esther lançou um balde de água fria sobre os pés dos bêbados insistentes. Ao terminar de limpar o pub, Esther notou a presença de Holmes, soltando um educado bocejo.

–Bom dia, Bela Adormecida.

Holmes grunhiu em resposta.

–Maldita dor de cabeça...

–Vasilov deve estar sentindo a mesma. Talvez até com maior intensidade.

–Por que diz isto?

–Enquanto você ficou inconsciente, ele acordou, e voltou a beber do vinho.

–Deveras? – Holmes parecia surpreso. – Então ele é mais resistente do que pensei... Continue.

–Tal como imaginei, ele soltou mais do que devia. Disse que mês que vem um homem importante irá visitar a fábrica. Ao que parece, nem os operários sabem disso. Está tudo sendo mantido sobre segredo. Há algo de estranho no ar. E não é apenas isto. Anya ouviu atrás da porta uma conversa entre Mr. Lishovk e sua secretária... Ela ouviu algo sobre “jantar impecável” para mês que vem. Ela disse o nome, mas percebi que ela não sabia pronunciar. Era algo como Mirrv...

–Merrywhith?

–Isso!

–Pode ser útil. É um hotel em Westminster. Poderemos saber quem está hospedado lá e quem irá visitar a fábrica amanhã. Creio que não conseguiremos arrancar muita coisa daqui, mas por um lado, isso será bom, Esther, pois talvez nem vamos precisar recorrer àquele seu plano anterior.

–Por quê o alívio? Estava com medo?

Holmes debochou.

–É tolice, e não medo...

–“Reconhecer o perigo quando está diante dele”. Acho que essa é a frase de algum livro, não?

–Quase isso. E por favor, vamos parar de falar dos rabiscos de Watson?

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Esther abriu seus olhos, sobressaltada.

Tinha cochilado repentinamente, enquanto almoçava no Colégio de Meninas. Há mais de uma semana, seu sono andava irregular. Ela ficava até às quatro da manhã trabalhando no pub com Sherlock Holmes, e os dois só iam embora depois de uma limpeza razoável. No dia seguinte, ela precisava estar acordada ás sete, enquanto o bastardo sortudo de seu marido tinha horário flexível o bastante para dormir até a hora que quisesse.

–Sophie? Você está bem?

–Sim, eu estou. – ela disse, reprimindo um bocejo.

–Espero que não esteja com sono por minha conversa. Aliás, se não fosse pelas suas olheiras, eu ficaria ofendida com seu cochilo repentino. – brincou Molly, sempre espirituosa.

–Não, Molly. Eu é que ando com insônia.

–Será insônia mesmo? Ou algum navio andou ancorando em Londres? Hum?

Esther riu com a insinuação. Fazia muito tempo que ela não passava horas com Holmes, sem estar camuflada pela sua identidade falsa de Sophie Sigerson e longe dos olhos de Watson e Mrs. Hudson. Embora ela estivesse em um disfarce e trabalhando, era bom estarem atuando como um casal. Ainda assim, tanto ela quanto Holmes eram estritamente profissionais e não se deixavam estar muito envolvidos, a ponto de estragarem tudo.

–Não, nada disso. Só insônia mesmo.

Molly ficou desapontada. – Se quiser, eu tenho uma receita de chá.

–Eu adoraria, Molly.

A conversa continuou, seguindo para outros rumos.

Notas finais
HAHAHAH Espero que tenham gostado do cap. Foi bastante divertido escrevê-lo. O que acharam da história da mãe do Holmes? Bom, eu tentei demonstrar que a mãe do Holmes sofria de bipolaridade - algo que eu suspeito que o Holmes também sofre. Não havia diagnóstico correto para isto no século XIX, e claro, havia muito preconceito. Fora que a questão em si é um tabu, por isso a resistência do Holmes em falar de sua mãe. Deixem reviews, pessoal! Quero saber o que estão pensando... Até o próximo cap!