A Retribuição
21 A Gentileza das Cobras
Notas iniciais
Bairro de Westminster, Baker Street. 9 de Julho de 1900.
Rose Willians sentiu um leve tremor percorrer sua espinha, assim que avistou os letreiros dourados acima daquela imponente porta, a lhe avisar de que estava no número 221-B, em plena Baker Street, à esta altura uma das residências mais famosas da Inglaterra.
No início, Watson tentou esconder sua verdadeira identidade, mas à medida que a relação de ambos se tornava mais sólida e a confiança se seguia, o segredo tornou-se impossível de se sustentar. Ainda assim, Rose nunca fazia perguntas sobre seus livros ou Sherlock Holmes, para não correr o risco de irritá-lo. Tudo que Watson fazia fora de seu quarto não era revelado. Quase tudo.
Havia Sophie em seu caminho, Rose sabia. O tempo que se passou desde seu rompimento com Watson, que não mais voltara a vê-la desde sua briga, fez Rose enxergar que sua relação com Watson não era tão profissional como ela queria se convencer. Ele a tratava tão bem, tinha um coração tão puro, que talvez, quem sabe, poderia transformá-la em uma senhora de respeito, dar-lhe um sobrenome digno e uma vida de verdade, longe da prostituição. Mas havia essa tal Sophie, que ele balbuciava sempre o nome quando embriagado por vinho e por prazer, a impedir seu acesso ao coração dele.
Ainda assim, embora soubesse quem ele era, nada era mais assustador que estar diante daquela porta, famosa em tantos livros e conhecida por tantas pessoas.
Ela deu três batidas leves na porta. Em instantes, uma senhora simpática a recebeu. Ela se apresentou como Rose Willians. Nem de longe lembrava a prostituta de Whitechapel, tamanha era a delicadeza de suas novas roupas, embora houvesse ainda um resquício de pobreza na maneira como falava.
–Estou aqui só para entregar uma carteira. – ela disse. – Achei no chão, perto da Regent Street, e reconheci o famoso dono dela.
–Oh, quão gentil é você. Entre, por favor, para uma xícara de chá.
Quando estava prestes a entrar, Mrs. Hudson acabou esbarrando em Esther, que estava conduzindo seu cão Billy, para um passeio.
–Oh, mil perdões, minha senhora. – desculpou-se Esther, para Mrs. Hudson. – é que Billy está ansioso por seu passeio dominical.
–Eu percebo, Mrs. Sigerson.
–Sigerson?! – Rose não pôde deixar de observar, com veneno na fala, o sobrenome incomum de Esther.
–Sim, o meu nome é Sophie Sigerson. – disse Esther, com naturalidade.
Rose arregalou seus olhos, e deixou escapar um sorriso presunçoso, ainda que rapidamente. Então, era esta a mulher por quem Watson ainda era fascinado. A típica mulher inglesa recatada, que só abraça cavalos e cães.
–E a senhora? É alguma cliente do Mr. Holmes? – perguntou Esther, com algo em seu interior alertando para um iminente perigo na moça. Havia algo de podre nela, Esther sentia. Mas não sabia classificar.
–Não, só quero deixar uma carteira que John... Dr. Watson deixou cair na rua. Bem, minha cara senhora, eu sinto muito, mas terei de dispensar o chá. Acabo de me lembrar que tenho algo importantíssimo a fazer ainda hoje.
–Oh, é uma pena. Mas eu avisarei ao Dr. Watson, senhorita...?
–Rose Willians. Adeus, senhoras. – disse Rose, se despedindo sem antes dar um último olhar presunçoso à Esther.
Esther, que ainda segurava o desenfreado Billy, permaneceu na porta, observando aquela curiosa senhorita embarcar em um cabriolé que a esperava na rua. Àquela altura, com a investigação a respeito dos negócios do Duque, seus sentidos estavam ainda mais que alarmados.
–Curiosa esta dama, não? Parecia entusiasmada em tomar um chá com a senhora, Mrs. Hudson, e de repente surge algo melhor a se fazer. – observou Esther, ainda encafifada.
–Realmente.
Mal sabia Esther que, já embarcada no cabriolé e cada vez mais se distanciando de Baker Street, Rose Willians já começava a analisar o poder da informação que recebera naquela manhã. Sophie Sigerson... O único homem que ela conhecia com um sobrenome tão exótico era o norueguês John Sigerson, violinista e aventureiro que ela já não via há anos. Claro. Isso explicava o excesso de esperanças de Watson em reatar com Sophie. O marido fora o tempo todo, uma inglesinha solitária – embora algo na moça lhe alertasse que ela era estrangeira... Não seria possível, seria? Se fosse, o mundo realmente era um cubículo! Quem diria que Sigerson estaria casado, e que agora sua esposa estava em sua lista negra!
Rose continuou sua caminhada, com um sorriso irônico.
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–Você é insaciável, Daniel! Simplesmente insaciável!
Daniel ria, junto a Rose Willians. Ele compartilhava mais uma vez de uma tarde com a moça, nos aposentos pagos pelo famoso Dr. Watson. “Aproxime-se de tudo relacionado a Holmes”, mentalizou o agente da Okhrana. Saber da amante de Watson não foi difícil, e menos difícil ainda foi se aproximar. Rose era claramente uma mulher volúpia e queria nada mais além de diversão nas ausências do doutor, além de ser facilmente manipulável, notou Daniel. Bastava presenteá-la com vinho, bombons ou flores que ela ficava encantada e acabava passando informações sobre Watson Foi por meio dela que Jenkins descobriu sobre a obsessão do médico para com Sophie Sigerson – que agora ele sabia que era Esther Katz, que atraía atenções do Duque Ivanov. Jenkins enxergava naquilo uma grande fraqueza a ser explorada.
Fora a diversão que recebia de Rose, que ajudava a quebrar a tensão de seu trabalho com o Duque.
Naquela tarde, Jenkins comprou um vinho barato, mas nem a qualidade da bebida estragava os prazeres provocados por Rose Willians e suas artimanhas de experiente prostituta.
Após dar um gole em seu copo de vinho, Daniel decidiu sondá-la.
–Você parece estar bem-humorada. – ele perguntou, enquanto massageava os ombros dela, fazendo Rose suspirar com suas mãos leves.
–Pare com isso, ou acabarei dormindo desse jeito... Tens mãos de anjo!
Daniel riu. Pela primeira vez, alguém o atrelava a algum anjo. Se ela soubesse quantos pescoços aquelas mãos já esganara, quantos gatilhos de revólver aqueles dedos já apertara... Ela pensaria duas vezes.
–Só vou parar quando você me disser o que te deixou tão sorridente esta manhã.
–E se eu te disser que foi você? – ela tentou.
–Nada disso, Rose. Eu te vi a caminhar pela rua. Você já estava feliz, antes de me ver. O que foi, hein? Viu algum passarinho verde?
Ainda resoluta em contar, Rose finalmente cedeu.
–Acabei de encontrar a mulher por quem John é tão encantado.
Daniel ficou curioso. – Deveras?
–Sim. Ela se chama Sophie Sigerson. Precisava vê-la. Típica mulher inglesinha. Loirinha, cabelo arrumadinho, andando com um cão.
Os dois riram, enquanto bebiam de mais champanhe.
–E o mais engraçado... – disse a moça. – É que ela tem o mesmo sobrenome de um homem que eu conheço. Um sobrenome exótico. Sigrson.
–Sigerson? – perguntou Daniel, de repente sobressaltado pelo nome. – Você o conhece?!
–Sim, e você? Também conhece um Sigerson?
–Não! – Daniel riu, disfarçando. – Mas afinal, como é este Sigerson? Ele é moreno, loiro... Afinal, eu sequer consigo imaginar a nacionalidade de alguém com este nome.
–Ele me disse uma vez que era norueguês. – ela disse, com pouca certeza. – Uma boa pessoa. Protegeu-me uma vez de uns bandidos. Aliás, ele sempre parece metido em confusão. Sempre que nos encontramos, era para isto. Mas o mais engraçado é que uma vez, ele dormiu com uma mulher e pensou que eu... Oh!
O suspiro de Rose foi tão surpreso que o próprio Daniel ficou assustado.
–O que foi, Rose? – ele perguntou.
–A mulher que vi hoje... Era ela!
–Ela quem, mulher? – perguntou Daniel Jenkins, não se cabendo em curiosidade.
–Foi ela quem eu vi saindo do quarto de Sigerson, Daniel! Eu tenho certeza!
–Bom, os dois tem o mesmo sobrenome... Então devem ser casados. – concluiu Jenkins, desejando ver sua reação.
–Não é esse o problema, Daniel. Naquela época, John Watson estava noivo dela! Ah, mas que vadia! Deitou-se com Sigerson enquanto era noiva de Watson e ainda a posar-se de boa moça! Quanta sandice!
Daniel riu, tanto da reação dela, quanto do que acabara de descobrir. Realmente, a história de Holmes com Esther era mais podre do que qualquer um poderia esperar.
Esta é mais uma fraqueza que posso explorar. Obrigado, Rose.
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