Uma sequência de estralos agudos ecoavam sob uma pequena cidade no meio do nada. Eram tiros… Cercado por dezenas de soldados, o jovem Gary ia sendo perfurado por aqueles pequenos cilindros de aço. Uma plateia com centenas de pessoas formavam uma roda atrás dos soldados, todos aproveitavam bem aqueles estralos definitivamente notáveis.

Aos poucos a visão de Gary ia escurecendo, seu corpo já não sentia mais dor… sentia frio, muito frio; As vozes e os barulhos dos tiros e das armas iam diminuindo até desaparecer. Então a única coisa que ainda não havia perdido eram seus pensamentos. Ele esperava que no último suspiro pensaria em cada uma de suas vítimas, mas muito pelo contrário… Ele conseguia pensar apenas em um lugar aconchegante para descansar.

E como em um “blackout” rápido, tudo escureceu e clareou.

O cenário mudou. Em vez de uma rua fria e cheia de gente, estava em um quarto quente e sozinho – deitado em uma cama encarando o teto. Não havia buracos de bala no seu corpo e, muito menos, barulhos agressivos. Só conseguia ouvir o barulho de uma lareira.

– Então é aqui que seu coração deseja descansar – disse uma voz grave e, ao mesmo tempo, calma. Voz que parecia vir direto para sua cabeça.

Então em um impulso levantou instantaneamente o corpo e assim olhou diretamente para a lareira… ou melhor, para o que estava em frente a ela. Um manto preto com um capuz – que além de esconder a face da pessoa, ainda chega próximo ao teto mostrando o quão grande ela era. Tal manto cobria completamente a pessoa.

– Não parece assustado com tudo isso… – disse intrigado a pessoa do manto.

Gary com seus olhos esverdeados e cabelos loiros, mostrava uma expressão serena. Então sem mudar sua feição respondeu:

– Não tem como eu ter sobrevivido àquilo, então já que estou morto não tenho ao que temer.

Um silêncio frio tomou conta do quarto. A pessoa do manto permaneceu fixa no lugar. Então Gary quebrou o silêncio:

– Morte.

– Sim, sou a morte – confirmou imediatamente. – Sabe, Senhor Gary, venho lhe observando a algum tempo. E algumas coisas me intrigaram… Entende? Apesar de eu ser morte, não posso ler mentes. Eu tento entender a sua, mas você não pensa como um psicopata qualquer.

– Psicopata qualquer você diz… – começou. Ao fazer um movimento para se levantar, um sino em seu pescoço agitou e então saiu o som 'ding ding'.

– Esses pequenos sinos que você pendurava no pescoço de suas vítimas que matava cruelmente… O que significam? – perguntou a Morte num tom curioso.

– Primeiramente, qual a utilidade de um sino? Na maioria das culturas ele é usado como um meio de comunicação entre a terra e o céu. Em outras palavras, para chamar algum ser sobrenatural. Ou uma entidade. Enfim, quanto matava minhas vítimas lentamente, elas não aguentavam o pavor e pediam ajuda para o outro mundo. E é claro, não eram atendidas. Então para que suas almas fossem salvas, eu lhes dava o objeto para melhor comunicação com o outro lado.

– Está dizendo que se sente generoso por isso? – perguntou a morte sarcasticamente. Em seguida sou um riso, haha.

– Não se engane, eu não esperava que elas fossem salvas.

– Então vocês queria manter um vínculo com cada uma das suas 134 vítimas nos últimos cinco anos?

– Exatamente. Eu dava lhes o descanso que tanto mereciam, em troca eu me divertia com o processo.

– ACHA QUE É UM DEUS, MOLEQUE!?— questionou a voz num tom ameaçador.

Gary chegou a sentir um pavor verdadeiro. Ficou paralisado algum tempo. Memórias da sua morte fluíam em sua cabeça. Então recobrou a consciência.

– Agora que estou morto nada mais importa…

– Eu sou a Morte, eu decido quem morre.

Então em um flash de luz estava ele deitado sobre a maca do hospital. Todo enfaixado não conseguia se mexer. Protestos lá embaixo eram fáceis de ouvir. Gary sabia o que era… Eram os parentes das vítimas que contestavam o fato dele ser salvo. Mas na melhor das hipóteses ele esperava não sair vivo dali. Não era burro, a Morte não o salvou por pena… Deixou ele vivo para que fosse torturado. Para que tivesse um destino o qual iria se arrepender.

Desolado naquela maca ele só conseguia chorar e rezar para o sobrenatural com o sino em sua mão.

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