A Rebelião
8 Queimando o açougue
Notas iniciais
00:35 horas, 3 de fevereiro, algum lugar próximo ao presídio.
Um helicóptero rasgava o céu da cidade, indo rapidamente em direção ao presídio. Seus dois ocupantes procuraram por quaisquer sinais da presença da polícia ou do exército em seu caminho, passando as informações pelo rádio para alguém.
— Câmbio, câmbio! – Gritou o piloto.
— Dois carros blindados seguiram na direção da prisão. São carros brancos com o brasão das forças especiais. Deve ser a unidade anti-super. Espero por orientação. Câmbio, desligo. – Disse ele, enquanto manobrava para ter a melhor visão dos carros.
O homem escutava com atenção o que lhe era dito pela pessoa do outro lado da linha, movendo a cabeça de forma afirmativa de tempos em tempos, mesmo que a outra pessoa não fosse capaz de ver isto. Após mais um breve momento, o piloto olhou para o homem ao seu lado e apontou para o carro que seguia a frente. Fez um rápido sinal com o polegar para baixo e voltou a prestar atenção no controle do helicóptero.
O copiloto realizou alguns ajustes no que parecia ser uma mira, e, usando uma espécie de joystick, disparou uma rajada de mísseis de uma das armas acopladas nas laterais da aeronave.
Apenas alguns segundos foram necessários para que os mísseis atingissem o carro. Mesmo sendo um veículo blindado, preparado para receber um ataque pesado, ele transformou-se em pouco mais do que um monte de ferro retorcido. Provavelmente seus ocupantes nem tiveram tempo de entender o que acontecera. As explosões foram tão poderosas que mesmo a estrada ficou intransitável, com uma cratera grande o bastante para engolir outro veículo que tentasse atravessar.
Os ocupantes do helicóptero travaram a mira no outro carro, mas evitaram disparar quando perceberam um certo campo magnético ao redor do mesmo. O piloto utilizou o rádio para entrar em contato com a pessoa que estava lhe dando ordens e a atualizou com esta informação. Novamente ele escutou com atenção. Subitamente ele virou a nave para o lado do presídio e retomou o rumo original.
— Vamos terminar a missão logo, nossas armas não penetrariam naquele campo. Já demos um jeito na equipe de líderes das forças especiais que iriam para a retomada, ganhamos algumas horas até serem capazes de fazer mais alguma coisa. – Falou o piloto, enquanto olhava para os instrumentos do helicóptero.
— Certo, não gosto da ideia de chamar atenção massacrando uma equipe da polícia, mas a gente precisava ganhar mais tempo. – Respondeu o copiloto, com um tom de preocupação em sua voz.
Desta forma, os dois homens ajustaram a rota do helicóptero e seguiram para a prisão o mais rápido que podiam.
00:45 horas, 3 de fevereiro, pátio da Nova Prisão da Ilha.
Chamas tomavam conta das mãos de Joshua. As chamas em seus dedos tinham um tom alaranjado, enquanto as chamas que espalhavam-se pelas mãos eram vermelhas. A fumaça espalhava-se rapidamente pelo pátio.
O gigante encarava o garoto com um olhar provocativo, imaginava o que era aquilo que estava vendo. – Quente… queimou a minha mão! – Gritou antes de iniciar uma nova investida.
Ao alcançar o garoto, conseguiu acertar um golpe em seu abdômen, mas, por estar com a mão queimada, não conseguiu desferir o golpe com toda força que planejava. Joshua caiu ajoelhado e cuspiu sangue.
O garoto com poderes sobre as sombras concentrou-se uma vez mais, e conseguiu forças para criar mais um par de mãos gigantes de sombras. Após a formação destas mãos, ele realizou o movimento de bater palmas com toda a sua força, e as mãos repetiram este movimento, indo em direção ao Açougueiro.
Infelizmente, elas estavam fracas demais, conseguindo apenas atordoá-lo por um momento, além de recuar alguns passos para longe de Joshua. Após sacudir a cabeça, o gigante olhou para o jovem e fez um leve movimento com as mãos, como se estivesse dizendo que já iria cuidar dele.
— Dro… droga, esse cara é um tanque. – Disse o garoto flutuando, enquanto junta suas forças.
— Ele está sentindo… Esse cara não é imparável. – Respondeu o outro, enquanto deixa o peso do seu corpo levá-lo ao chão. Estava exausto, seus poderes já estavam no limite.
Joshua sentia o chão tremer, eram os passos do gigante. Ele sentia a aproximação de seu algoz, mas algo estava diferente, ele caminhava, não estava correndo. Sua respiração também estava diferente, estava ofegante. Ele estava cansado, havia esperança. Ele precisava se concentrar, as chamas em suas mãos eram a chave para sobreviver, mas precisa de tempo.
No momento mais oportuno possível, a coruja apareceu novamente.
Ela voou sobre a cabeça do Açougueiro, batendo asas sobre ele e o incomodando por alguns instantes, o suficiente para que o gigante mudasse de alvo e tentasse acertar a ave com o seu cutelo. Joshua notou essa oportunidade e usou toda a sua concentração para que a temperatura em suas mãos aumentassem.
— Se eu morrer hoje, a minha mãe vai me matar na próxima vida… E não quero nem pensar no que a vovó vai dizer pro resto da familia…
A fumaça no pátio estava aumentando, e estava cada vez mais escura. O gigante percebeu isso, enquanto tentava acertar a ave. Ele sabia que tinha um alvo mais importante.
Ele respirou fundo e tornou a andar em direção a Joshua. Passos apressados e pesados. Antes de estar na distância para acertar um golpe com o cutelo, puxou o braço para trás e preparou o movimento.
O garoto voando desviou o olhar, ele sabia que devia olhar, era o certo, mas lhe faltava coragem. Pensou em quantas vezes o chamaram de covarde no passado e que sempre pensou que era corajoso, mas, no fim, talvez fosse um covarde mesmo. Ele sentiu a temperatura de seu corpo aumentar. E então abriu os olhos.
Joshua estava de pé. Em posição de luta, como se acabasse de socar alguma coisa. Havia muita fumaça, mas dava para ver o garoto de pé e o gigante estava no chão, com suas roupas em chamas.
O soco do garoto era sua última estratégia, talvez a única. Ao atingir o corpo do adversário, uma imensa quantidade de energia foi liberada, o que gerou uma bola de fogo gigantesca, capaz até mesmo de jogar o Açougueiro pelos ares. O impacto foi tão poderoso que desmaiou o inimigo, garantindo pelo menos alguns minutos de paz.
— Isso foi… incrível! – Disse o garoto voando. Ele lentamente se aproximava do outro, enquanto as chamas em suas mãos apagavam-se. – A gente encarou o Açougueiro e tá vivo pra contar a história! Vitória!
Joshua ouvia enquanto seu corpo amolecia em direção ao chão. – Mas acho que acabou pra gente… eu tô no bagaço… e o cosplay do Kiss ali, ele tá na mesma.
— Eu tô ouvindo! Senhor Meia-Noite… pode me chamar de Senhor Meia-Noite… – Disse o jovem, enquanto sentava no chão para recuperar o folêgo. – E vocês, quem são?
— Aéreo. – Disse o voador.
— Aham?... acho que não pensei em um nome… não planejei ser um super-herói, nem nada. – Respondeu Joshua, com surpresa. Enquanto isso, a coruja aproxima-se dos jovens e apontava uma de suas asas para um grafite na parede do pátio. Um dragão.
— Acho que aquele pássaro acabou de nomear você, Dragão. – Retrucou Aéreo.
— É, acho que preciso de um codinome. – Respondeu o agora nomeado Dragão. – Só queria saber quem ou o que é essa coruja.
— Descobre isso outra hora, temos que ir embora. Essa luta acabou pra gente. – O Senhor Meia-Noite dizia, concordando com o que Joshua havia dito alguns momentos antes.
00:55 horas, 3 de fevereiro, área de carga do depósito da Nova Prisão da Ilha.
Um helicóptero militar foi avistado aproximando-se do lugar.
— Finalmente, a festa está ótima, mas nossa carona chegou, rapazes. — Gritou um sorridente Barão.
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