A Rebelião

2 Um jantar antes da crise


Notas iniciais
Um adolescente indo para casa após um dia de aulas cansativo. O que isso poderia ser de anormal? Postagens no Twitter podem mudar os planos de uma noite... uma rebelião na prisão da cidade inicia e as redes sociais são o local onde a população divulga as notícias. Os eventos desta noite irão moldar o futuro não só de um jovem, mas de toda uma cidade.

18:00 horas, 2 de fevereiro.

As aulas já haviam terminado, a sexta-feira terminava como mais um dia normal. Não que uma escola cheia de adolescentes pudesse realmente ser normal, mas esse dia acabava sem nenhum incidente memorável, o que já deveria ser um motivo de comemoração para alguns.

Um jovem andava de bicicleta pelas ruas de um dos bairros classe média da cidade. Ele pedalava rapidamente, carregava em suas costas uma mochila cheia de livros e mais alguns documentos impressos na escola. Ele habilmente desviava dos pedestres e de qualquer outro obstáculo que encontrasse. Os residentes do bairro reconheciam o jovem e, alguns mais próximos a ele, gritavam com o mesmo.

— Vai devagar moleque! Quer passar por cima, Josh?!

— Desculpa! Tô atrasado pro jantar!

A desculpa não colava com a maioria, mas não custava tentar.

Não demorou muito mais para que ele chegasse em sua casa. E, assim que ele chegou na frente do portão da garagem, simplesmente pulou da bicicleta e a deixou por lá mesmo. Ele pensou em tirá-la de lá depois, mas sabia que ia esquecer e alguém da família ia ter que colocá-la no lugar antes de sair de carro.

— Joshua! O que está pensando?! Eu disse para chegar cedo, o jantar de hoje é especial! E eu estou vendo aquela bicicleta na frente da garagem, vai colocar no lugar, mocinho!

— Mãe?! Eu... eu atrasei? Nem notei, estava na escola, tenho trabalho de biologia para terminar até segunda e ...

Bastou um olhar de sua mãe para Joshua entender, se ele fosse um garoto inteligente, iria deixar a mochila no sofá e guardar a bicicleta no lugar. Por sorte, ele realmente era um garoto inteligente. Teria tempo de sobra no final de semana para ler e tentar entender o que acontecia consigo.

18:25 horas, 2 de fevereiro.

Arrumar as coisas na garagem foi mais fácil do que Joshua pensou, em poucos minutos pegou a sua mochila e correu para o andar de cima, fechando a porta do quarto atrás de si. Antes disso, teve tempo de ouvir sua mãe falando que sua avó estava presa na estrada e que iriam espera-la para o jantar. Em sua cabeça, chegou a pensar que não precisava correr tanto para chegar em casa, mas já não era mais importante.

Ligou a televisão, estava em um programa de entrevistas. A entrevistadora era uma mulher que já deveria ter mais de 50 anos, com o rosto cheio de plásticas e que mais parecia uma máscara de borracha. O entrevistado era um cientista, Joshua reconhecia o rosto, mas não lembrava do seu nome, eles o chamavam por um apelido bem estranho. A entrevista era sobre as descobertas que ele havia realizados nos últimos anos sobre uma nova forma de energia, que estava causando uma revolução em diversas áreas da ciência, chamavam de energia Upsilon.

Joshua realmente não estava nem um pouco interessado nisto. Ele puxou o primeiro livro da mochila, era chamado “Biologia dos Super-Seres”. Um livro relativamente antigo, mas sua professora de biologia disse que era um dos livros mais respeitados do assunto, e seria um dos poucos que encontraria na biblioteca da escola. Depois de olhar rapidamente algumas páginas, anotou em uma folha quais seriam os capítulos que poderiam ser mais interessantes e logo pegou o segundo livro: “Piromancia, um olhar biológico”.

Após a leitura de algumas páginas, notou que o led do seu celular estava piscando. Era uma atualização no Twitter, um amigo estava avisando que a cidade estava com vários bloqueios da polícia. Será que havia mais algum assalto a banco acontecendo na cidade? Joshua aproximou-se do armário e pegou uma roupa estranha de lycra e a deixou sobre a cama, após olhar para a porta do quarto e lembrar de como esse jantar era importante para a sua mãe.

— Hoje não, eu acho... um dia normal, Josh. Só um dia normal.

O garoto foi até a mochila e puxou um documento, parecia uma pesquisa universitária, era possível ler o título na primeira página: “Piromancia: Estudos modernos e práticos com espécimes vivos”. A leitura das primeiras páginas deste documento levou alguns minutos, após esse tempo, Joshua procurou por noticias sobre o que estava acontecendo na cidade.

19:10 horas, 2 de fevereiro.

As noticias começavam a correr pela cidade. Joshua sabia que alguma coisa estava acontecendo, algumas postagens no Twitter falavam do presidio da cidade, mas as informações eram desencontradas: alguém falava em rebelião, outro respondia que era uma explosão dentro das instalações, um terceiro falava tudo era uma fachada esconder outro assunto. Não dava para saber qual era a informação real.

Na televisão, ninguém falava sobre o assunto. Mesmo passando por todos os canais, ninguém falava sobre nada que pudesse ser relevante para o que estava acontecendo.

19:30 horas, 2 de fevereiro.

Joshua ouvia uma leve batida na porta do quarto, antes que sua mãe começasse a falar.

— Josh, sua avó ligou. Ela ainda está parada no mesmo lugar, não conseguiu andar nem mais um metro. O seu pai também mandou uma mensagem, pediram pra todos ficarem no escritório por mais um tempo, não disseram o motivo... devem ter fechado um projeto novo, que não dá pra terminar do prazo, mais uma vez...

Sua mãe não costumava estar errada quando o assunto era o trabalho do seu pai, mas dessa vez, ela estava. As noticias começavam a aparecer nas mídias convencionais. Primeiramente como uma simples nota nos sites, com poucas linhas e descrevendo a situação como algo simples e que a população não precisava ficar preocupada. Logo a noticia apareceu na televisão. E o tom começou a mudar.

As postagens do Twitter também começaram a esclarecer o cenário. Ninguém conseguia contato com o interior do presidio e o último contato já parecia fora do normal.

O adolescente pegou a roupa estranha que estava sobre a cama rapidamente vestiu-a. Olhou para o espelho da porta do armário e observou como ficava com o “uniforme” por um minuto. Era um jovem normal, com um cabelo preto, neste ponto ele lembrou que tinha esquecido de cortar o cabelo, por mais que o resto da família tenha dito que precisava cortar antes do jantar de sexta. Antes de sair da frente do espelho, percebeu como o tom da sua pele estava claro, pensou em como parecia um fantasma, vestindo aquele uniforme.

— Amanhã eu vou correr no parque... ou jogar videogame na casa do Ethan... quem eu tô tentando enganar, mesmo...?

Pegou uma máscara vermelha, que estava guardada dentro de uma gaveta ao lado da cama e começou a prender as linhas de material elástico nas laterais. Lembrou que aquela máscara fazia parte de uma antiga fantasia de halloween, do ano em que quis vestir uma fantasia de criminoso do velho oeste. Agora estava pintada de vermelho e não seria o criminoso da história.

20:00 horas, 2 de fevereiro.

Os noticiários na televisão cobriam integralmente a crise no presidio da cidade, todas as redes colocaram repórter para acompanhar essa situação, e todos eles estavam tentando chegar até a ilha que abrigava a prisão.

Joshua tinha que olhar o que estava acontecendo. Não com um plano de ação racional e com a cautela que uma situação dessas exige, mas como um adolescente com poderes, o que lhe parecia a mesma coisa...

Antes de sair, precisava de um álibi. Pensou em quem poderia ajudar a sair de casa nesse momento, e uma pessoa passou pela sua mente. Neste instante correu até o celular e ligou para uma amiga de infância.

— Ei, Madison, preciso de ajuda. Pede pra sua mãe ligar pra minha.

— Mas... o que tá acontecendo? A cidade tá pegado fogo e a sua mãe quer fofocar com a minha?!

— Dá uma ajuda, Madison. Eu fico te devendo uma, mas faz isso pra mim...

O garoto desligou o telefone antes que pudesse ouvir uma resposta. Juntou a máscara e uma jaqueta que estava sobre a cadeira na frente da escrivaninha e esperou na frente da janela.

Ouviu o telefone da sala tocar.

Era a sua deixa. Lentamente abriu a janela, só o suficiente para que pudesse passar. Desceu até o chão segurando entre os vãos da madeira da casa. Procurou pela bicicleta na frente da garagem, para só então lembrar que havia guardado a mesma. Abrir o portão faria muito barulho, teria que ir correndo.

20:55 horas, 2 de fevereiro.

Ninguém viu um adolescente vestindo uma fantasia de herói correndo pela cidade, nem quando ele entrou em um antigo cais de pesca.

O lugar estava praticamente abandonado, mas alguns pescadores de final de semana ainda deixavam seus barcos amarrados por lá. Eram raros os relatos de roubos ou qualquer outro problema por lá, então a prefeitura permitia essa prática.

Joshua encontrou um antigo bote com dois remos, era o bastante para ir até a ilha do presidio. Só iria precisar de sorte para não ser visto na água. Não conseguia ver nenhum barco da polícia por perto, era agora ou nunca.

21:25 horas, 2 de fevereiro.

O bote finalmente chegou na ilha do presidio.

Joshua pegou a máscara que estava no bolso do casaco e carregou em sua mão enquanto esgueirava-se entre as árvores.

— Chegar na ilha: ok. Agora, salvar o dia...