A Rebelião
10 Os sobreviventes
Notas iniciais
3 de fevereiro, algum templo desconhecido em algum lugar desconhecido.
A luz da lua iluminava as ruínas de alguma antiga construção. Nos dias atuais, era impossível saber qual o significado original dessas paredes, poderiam ter sido um importante templo religioso ou, quem sabe, um palácio de um rei de um antigo e poderoso reino, que fora esquecido a muito. Hoje, restava apenas o esqueleto daquele prédio, imponente, mas em ruínas. O teto havia desabado séculos atrás, e as paredes provavelmente estariam no chão em um século, talvez antes disso.
Hoje, dois homens eram seus únicos ocupantes. Um jovem, ferido e cansado, de joelhos no chão. O outro, um homem adulto, vestido de forma cômica, que em nada lembrava o que se espera de alguém em sua posição.
Uma corrente de vento entrou no grande salão. O jovem, que olhava fixamente o chão, de cabeça baixa, levantou o olhar. Sentiu a iminente chegada de alguém que conhecia. Alguém que não gostaria de rever.
Uma bela mulher entrou pela grande porta deste salão, seguindo o próprio vento.
Uma mulher alta e esguia. Com a pele pálida como uma princesa medieval, de olhos e cabelos tão negros como a própria noite. Em seus cabelos, diversas pequenas presilhas brilhavam, lembrando as estrelas em uma noite de céu limpo. Ela trajava um vestido branco e comprido, que parecia digno de ser o vestido de noiva de uma princesa no auge de um império. Em suas mãos, trajava um par de luvas azul escuro.
Ao aproximar-se do jovem, fez um sutil gesto com suas mãos, pediu para que ficasse de pé e a olhasse nos olhos. Um momento se passou, após o jovem atender seu pedido. O silêncio foi rompido por seu tom sereno de voz.
— Pedi pra lhe trazerem aqui… eu lhe dei o meu poder, para fazer a sua justiça. E qual foi o meu único pedido, após atender seu desejo? – Disse a mulher, enquanto mantinha um olhar firme.
— Espírito da Noite… eu fiz o que me pediu, eu levei sua justiça seus inimigos. – Respondeu Senhor Meia-Noite, enquanto tentava esconder o suor de sua testa. – Mas nunca concordei em lutar uma guerra.
— Eu lhe disse: “Lhe empresto meu poder, para ter sua justiça hoje. Mas o preço deste empréstimo é levar minha justiça até aqueles que corromperam a nossa paz”. Você recebeu a ordem de acabar com todos naquela ilha. Mas o que eu vi quando você entrou em ação?
— Eu fiz o melhor que pude! – Tentou responder mais uma vez.
— Não! Você ainda não entende a importância do que fazemos aqui. Você falhou em sua primeira missão, se não tivesse outro de meus amados servos por perto, você traria vergonha a todos que já estiveram aqui. – As palavras da bela mulher soavam duras ao jovem. – Lhe darei uma última chance. Voltará para sua casa, para sua cama, e terá um belo resto de noite para descansar. Quando for chamado novamente, não terá outra opção além de honrar nosso acordo. Agora vá!
Ao terminar a sua frase, a mulher fez um gesto com sua mão, enquanto desviava o olhar para o lado direito de seu corpo, como se estivesse expulsando o jovem de sua presença. E as próprias sombras dos presentes engoliram o garoto, o levando de volta para sua casa, não importando o quanto protestasse.
01:50, 3 de fevereiro, parte externa da Nova Prisão da Ilha.
Joshua puxava o corpo do jovem voador para um local seguro da ilha, enquanto o mesmo continuava desmaiado. A coruja guiava o garoto, como se soubesse onde pudessem ir para encontrar uma rota de fuga daquela situação. Ao longe, ouvia-se uma grande confusão, com seguidos tiros sendo disparados.
A saída principal do presídio havia sido implodida pela bomba usada para a rebelião. Todos os criminosos amotinados tentavam realizar uma fuga por lá. Contudo, já havia uma forte presença de segurança por perto e os combates entre os dois lados tornaram-se inevitáveis.
Ao longe, Josh conseguia ver um pequeno barco sendo arrastado pela correnteza, ele parecia aproximar-se cada vez mais da costa da ilha.
— Aquele barco… é a nossa saída daqui! Parece até que a coruja sabia disso.
01:55, 3 de fevereiro, costa da Nova Prisão da Ilha.
Os jovens conseguiram chegar até o pequeno bote que estava encalhando na ilha. Joshua teve a certeza de ver peixes batendo no barco para levá-lo até aquela posição.
— Eu… eu devo estar louco… é, devo estar tendo alucinações pela perda de sangue. Isso aí! – Josh seguia dizendo isso enquanto puxava o bote para uma posição mais fácil de manobrar. – Espera, esse aqui é o mesmo barco que eu usei pra vir aqui? Ele devia estar do outro lado… – Joshua falava olhando para a coruja, enquanto colocava o outro garoto dentro do bote. A coruja voou e parou na popa do barco, como se estivesse comandando a fuga dos jovens.
— Não sei o que você está pensando… nem você realmente pensa, de alguma maneira, mas, vou precisar confiar. Ele ainda está sangrando, se não levarmos ele para algum lugar, e rápido… não quero pensar nisso agora. – Disse o jovem Dragão, enquanto a coruja levantou as asas, como se apontasse para o outro lado do rio, para o parque de preservação da cidade.
Só havia uma opção neste momento, Joshua deveria remar até o outro lado. Era preciso parar o bote constantemente durante o trajeto, para verificar o estado do outro jovem.
02:40, 3 de fevereiro, parque de preservação da cidade.
O pequeno bote chegou até o outro lado do rio e os ocupantes puderam ver os avisos de que aproximavam-se do parque de preservação histórica da cidade. Ali a vida silvestre que vivia originalmente da área da cidade podia encontrar um refúgio. Um pequeno grupo de profissionais cuidava do bem-estar na fauna e flora, recebendo apoio da prefeitura e algumas doações das empresas que estavam instaladas na cidade.
— Acho que você deve viver aqui, não é? – Joshua perguntou olhando para a coruja, como se estivesse esperando alguma resposta, mas a ave o olhou fixamente, sem esboçar uma reação que confirmasse ou não a sua afirmação. O jovem Aéreo esboçou uma reação após esta breve interação.
Por alguns momentos, ele pareceu recobrar a consciência. Ele tentou mover seus braços para conseguir apoio e sentar-se no bnote, que chegava a terra firme. Mas, ao tocar o chão do barco, a dor do ferimento tornou a alcançá-lo, e, o jovem acabou desmaiando novamente, após um grito de dor escapar entre seus dentes.
— Ei! Você acordou… não, não desmaie novamente, a gente saiu da ilha, vai ficar tudo bem… – Mas era tarde, o jovem tornou a desmaiar, antes de ouvir a frase completa.
Joshua desceu do bote e colocou o jovem no chão. Pensou em tirar a máscara que lhe cobria o rosto, mas, ele mesmo estava mascarado, não seria justo fazer isso com outra pessoa que apenas o ajudou naquela noite. Embora o ferimento do jovem fosse grave, Josh percebeu que a perda de sangue estava diminuindo. Isto poderia ser uma boa ou má notícia, mas naquele momento, não havia alguém capaz de dizer como estava a situação do jovem, se a perda de sangue já chegava a ameaçar sua vida, ou se o corpo estava reagindo ao ferimento.
Após apoiar o jovem sobre seu ombro, começou a caminhar pelo parque e a coruja também começou a mover-se. Ela deu um rápido voo ao redor do jovem e deu leves saltos em direção ao lado dele. Por ali havia um caminho de terra, já parcialmente coberto por grama, como se fosse muito pouco usado.
A iluminação deste caminho não era convidativa, mal havia algum poste funcionando por ali, seria uma corrida no escuro, para algum lugar que o jovem não conhecia, mas Joshua não estava em condição de procurar outro caminho. Ele seguiu por lá, enquanto a coruja voou ao seu lado e parecia guiar por onde deveria continuar a sua corrida.
Ao começar a cruzar este caminho, Josh corria o mais rápido que podia, carregando o outro jovem consigo, mas logo o esforço desta noite cobrou o preço em seu corpo. Após alguns minutos, o jovem cambaleava pelo parque. Ao tentar carregar o ferido, o corpo de Joshua mostra-se cansado, sua visão ficou completamente desfocada por um momento e acabou tropeçando no chão, caindo rapidamente. A coruja parou ao seu lado e tentou ajudá-lo a levantar-se, mas ele já não tinha forças para levantar sozinho. Ao olhar para o lado, Josh conseguiu ver alguns esquilos e um gambá aproximando-se. – Amigos seus? – Perguntou olhando para a coruja.
Agindo contra o que espera-se de sua natureza, estes animais aproximaram-se do jovem e o ajudaram a levantar. Em pé novamente, ele arrastou-se mais alguns metros adiante.
Um cão surgiu correndo pelo parque, ele parecia conhecer muito bem o lugar e rapidamente chegou ao lado de Josh. Não era um cão de grande porte, mas tinha tamanho o suficiente para servir de apoio para o jovem quando o mesmo acabava caindo no chão. Esta seria uma longa caminhada pelo parque.
03:15, 3 de fevereiro, próximo ao galpão do parque de preservação da cidade.
A coruja que guiava o grupo estava indo em direção a um galpão que fora construído na parte mais interna do parque, onde quase não haviam visitantes. Joshua não era muito familiarizado com o parque, com as atividades que eram realizadas em seu território, mas lembrava de sua amiga que era voluntária por ali.
— Droga, eu devia ter escutado mais a Madison. Ela sempre me chamou pra ajudar no voluntariado do parque. Se eu ao menos tivesse prestado atenção no que ela falava… tenho certeza que ela sabe desse galpão… será que ela conhece essa coruja também…? – comentava o jovem, entre murmúrios.
Em um dos breves momentos em que o outro recuperava a consciência, o Dragão teve certeza de o ouvir perguntar algo como: – Madison? Você… conhece?
Por um único momento, houve uma estranha lembrança em sua mente. Josh tinha certeza de conhecer a voz que ouvira. Por mais que estivesse tendo algumas alucinações durante o caminho, teve certeza de que ouvira o outro reconhecer o nome Madison e também que já ouvira aquela voz chamar por sua amiga.
— Seja como for, a gente vai chegar naquele galpão já já! Só espero que alguma coisa lá seja útil para esse ferimento. – Completou Josh.
A coruja terminou o seu percurso até o galpão, entrando por uma janela aberta na lateral do grande prédio. Os demais animais começavam a afastar-se dos garotos, cada um buscando uma direção diferente do parque. O cão foi o último a se afastar, quando os garotos já estavam a alguns passos da porta do galpão.
03:20, 3 de fevereiro, galpão do parque de preservação da cidade.
Os garotos chegaram até a porta do galpão, onde a coruja entrou e parecia esperá-los lá dentro.
— Seja o que for isso, vamos ter alguma resposta… espero eu… nunca pensei que essa noite ia terminar assim… era pra ser só alguém com poderes de fogo acabando com uma rebelião, mas não… tinha que ser a noite mais complicada da minha vida… bom, talvez da sua também. – Falou Josh, olhando para o outro jovem desmaiado.
Ao aproximar-se da fechadura da porta, o jovem sentiu que a mesma estava se afastando e, primeiramente, pensou que iria desmaiar também, mas percebeu que a porta estava se afastando do batente, alguém estava abrindo a porta do galpão para os dois.
Quando esta abriu, a iluminação do interior do galpão cegou-o por um instante, ao recuperar-se, ele somente conseguia perceber a silhueta de uma mulher. Aos poucos, Joshua conseguiu observar alguns detalhes da figura. Ele conseguiu ver os longos cabelos alaranjados que a mulher mantinha soltos, bem como as longas botas pretas que ela usava, além do jaleco que estava usando sobre uma roupa casual simples. Ainda conseguiu perceber que a mulher tinha uma aparência jovem, provavelmente era uma adolescente como ele e o garoto voador. Antes de conseguir ver o rosto da jovem, uma voz despertou o garoto de seu transe. – Joshua! Mas que droga! Eu sabia que você ia aprontar alguma confusão, mas isso saiu completamente de controle!
Essa voz trouxe lembranças para Josh, mesmo sem ver o rosto da jovem. Madison. Ela estava ali no parque com os garotos. – Madison! O que você tá fazendo aqui? Você deveria estar na sua casa! – Ter um rosto amigo por perto despertou as últimas forças que o jovem tinha em si, mas também lhe trouxe novas preocupações. Sua amiga poderia estar se metendo em algo que não entendia… Ou talvez fosse Joshua que não entendia a situação atual.
— M… mas por que você está aqui? Eu pedi para você me ajudar a ter uma álibi para a noite. – Ele lembrava-se de ter conversado com a jovem antes de começar a confusão dessa noite, enquanto entrava no galpão, carregando o companheiro ferido. Também viu, no canto da sala, um poleiro, onde a coruja estava. – E eu ajudei! Eu disse pra minha mãe que íamos sair juntos, que já tínhamos combinado de dar uns amassos no parque hoje… você sabe que ela pensa que nós estamos juntos…– A garota observou que o rosto do jovem corou ao escutar suas palavras. Os dois conhecem-se a tanto tempo que é difícil saber se alguém tem interesse pelo outro ou se somente existe amizade entre ambos. Mas esta reação interessava à ruiva.
— Agora venha aqui, temos que colocar esse… cara, na maca, eu preciso ver como fazer um acesso, temos que fazer uma transfusão de sangue. E também preciso ver esse ferimento… – Ela disse, enquanto arrastava o corpo de Aéreo para uma maca e começa um rápido exame no ferimento entre suas costelas. – Ele tem sorte! Não parece ter nenhum vestígio da bala no corpo e temos um ferimento de entrada e saída. Se conseguirmos ver se o pulmão foi atingido… Precisa me ajudar a pegar os instrumentos ali do armário, aquele embaixo da televisão!
Joshua correu até o armário, e voltou com uma bandeja com os instrumentos médicos que estava dentro de uma das portas de vidro. – Você nunca me falou que entende de medicina, na verdade eu nem sabia o que você fazia como voluntária aqui… – Ao terminar a frase, ele olhou até o canto em que a coruja estava e dirigiu a próxima frase a ela. – Como você sabia que a Madison ia ajudar? Não tinha como saber que nos conhecemos. – Mas a ave não parecia compreender o que o hoje falava, ela nem ao menos parecia prestar atenção nele.
— Ela não sabe… bom, a Gray na verdade é uma coruja normal, ela não está nem entendendo o que você diz. – Madison falou pegando os instrumentos necessários para uma análise mais profunda do ferimento, percebendo a expressão de confusão que se formava no rosto de seu amigo, ela completa: – Eu estava controlando a mente da coruja lá na prisão. Eu tenho alguma telepatia, eu consigo conversar com animais e… eu também consigo controlar a consciência dessa coruja, é como se eu estivesse na cabeça dela… é complicado.
Joshua processava o que foi dito, era difícil acreditar que sua amiga era uma telepata e que estava controlando a coruja que os auxiliou no presídio. – Josh, acorda! Eu vou precisar de ajuda aqui! Eu só sou uma voluntária aqui no parque. Normalmente eu fico aqui no GTA… Digo, no Galpão de Tratamento Animal, mas eu sou só uma voluntária, sempre tem um veterinário comigo, vou precisar de ajuda aqui. – Após ouvir as palavras de Madison, Joshua voltou a si e ajudou a examinar os ferimentos do outro jovem. – Pode tirar essa máscara, e vá limpar as mãos. Tem um banheiro depois daquela porta. – Apontou Madison. – Suas mãos estão queimadas… tem álcool do lado de fora do banheiro, desinfete as mãos depois de lavar. Vai doer bastante, mas só vou poder cuidar de você depois de terminarmos aqui.
O jovem voltou do banheiro expressando dor em seu rosto, Madison não mentiu quando disse que as queimaduras iriam doer com a aplicação de álcool. Mas sua expressão mudou para surpresa, ele não esperava ver sua amiga com tanta facilidade em examinar e começar a tratar um ferimento em uma pessoa. – Não me olhe desse jeito, Josh. Nós fazemos o tratamento de todos os animais do parque, eu aprendi com os veterinários… e, bom, uma pessoa ainda é um animal.
A adolescente terminou de examinar o ferimento do jovem e parecia menos preocupada. – Acho que não atingiu nenhum órgão ou artéria… ou coisa do tipo. Mas a perda de sangue é preocupante. Josh, no armário… tem um fundo falso, puxa o fundo com força. Vai ter uma geladeira escondida atrás desse fundo, procure uma bolsa de sangue O Negativo!
Joshua não pensou muito, somente obedeceu e encontrou uma geladeira com várias bolsas de sangue, precisou pegar várias até encontrar o tipo certo. – Madison… Mas por que tem tantas bolsas de sangue aqui? Não sei se vocês tem permissão para ter uma bolsa de sangue na verdade… – Perguntou quando viu o conteúdo da geladeira. Era estranho para o garoto que um galpão dentro de um parque tivesse um armário com um fundo falso escondendo uma geladeira. E uma geladeira com sangue humano.
— Sabe, as vezes temos que remendar algumas pessoas por aqui… talvez mais do que só algumas vezes… – Respondeu a garota, enquanto arrumava a linha cirúrgica em uma agulha que estava entre os instrumentos médicos. – Coloque a bolsa ali no suporte, vou precisar de ajuda para costurar o ferimento.
O garoto não sabia como ajudar com isso, então Madison precisou agir com calma.
Madison era realmente boa no que estava fazendo, ela rapidamente conseguiu costurar o buraco entre as costelas do outro jovem e praticamente sem necessitar de ajuda. – Josh, agora vem a parte difícil, preciso costurar o ferimento de saída, nas costas dele. Precisa me ajudar a manter ele deitado de lado, ele não pode deitar sobre o ferimento no peito… e também, precisa cuidar para o acesso da transfusão não soltar. – Disse a garota, olhando para o amigo com de canto de olho.
Esta realmente foi a parte mais difícil para costurar. Por mais que o jovem estivesse em seu dia de sorte, por ter sido baleado de forma que nenhum órgão vital foi atingido, costurar os dois ferimentos exigia cuidados e, por estarem próximos, trabalhar para costurar o ferimento de saída poderia acabar reabrindo o primeiro.
Mas, por sorte e pela vontade do destino, esta não seria a última noite do garoto voador. Madison conseguiu fechar ambos os ferimentos e a transfusão de sangue prosseguia. Tudo levava para um final feliz para os jovens, pelo menos até aquele momento. – Acho… que agora acabou. Podemos descansar… pelo menos um pouco. – Disse a garota, enquanto lentamente escorregava pela parede do galpão em que estava apoiada, até sentar no chão, exausta.
Somente neste momento os jovens prestaram atenção na televisão que estava sobre o armário-esconderijo. – Entramos novamente ao vivo, do presídio onde aconteceu a maior rebelião já registrada na história dos Estados Unidos! Depois de horas de negociações e conflitos, as forças especiais finalmente conseguiram adentrar os muros! O número de fugitivos é incerto, mas, agora, as forças de segurança conseguiram repelir os amotinados novamente para dentro da saída que foi aberta com a explosão no portão. – Falava um repórter, olhando alternadamente entre a câmera e a ação que ocorria atrás de si. O clima na cena estava tenso, mas já não parecia o cenário de horror em que a situação caminhava algumas horas antes.
— O último relatório, vindo dos soldados que já entraram na prisão, informa que alguns poucos sobreviventes da segurança interna foram encontrados em uma sala anexa ao auditório. Mas as notícias boas acabam por aí. A ala de segurança máxima parece ter virado uma cena de guerra e o Açougueiro não foi localizado até agora. Ainda estamos esperando por um pronunciamento das autoridades, mas pedimos para a população não entrar em pânico e continuarem em suas casas… – Continuou o repórter, enquanto os jovens suspiravam.
— Aquele cara, ele estava no pátio… – Joshua murmurava seus pensamentos. – Ele não ia morrer, Josh. Você é só um adolescente, ele já deve ter acabado com mais de uma dúzia de policiais. No fim, a gente deu sorte de ter saído de lá com vida. – Completou Madison, olhando para o outro jovem deitado sobre uma maca. – Por falar nisso… quem é ele?
Joshua ouviu a pergunta e somente fez um movimento negativo com a cabeça, com isto, Madison ficou de pé e se aproximou do jovem, começando a remover os óculos e o cachecol que o mesmo usava, mas Joshua protestou. – Ei! Ele deve ter motivos para estar usando essa máscara… eu mesmo estava usando uma! Ele tem o direito de manter a identidade… – Tentava protestar o jovem, até ser rebatido. – Não seja infantil, Josh! Acabamos de costurar esse cara, estamos sujos com o sangue dele. Precisamos saber quem é.. não dá pra só salvar a vida dele e dizer “a gente se vê” quando ele acordar. – Argumentou a garota, antes de voltar a tirar o disfarce do outro jovem.
Ambos ficaram surpresos quando a garota tirou o disfarce do rosto do adolescente desmaiado. Um rosto familiar a ambos, com traços latinos e um cabelo preto curto, estava escondido sobre aqueles óculos de aviador. – Ethan! – Exclamaram ambos, em um grito abafado, mas sincronizado.
O amigo de infância de ambos era o outro jovem que estava lutando durante a rebelião do presídio. O choque tomou conta de ambos, que ficaram paralisados. – Como.. como a gente vai falar disso para a família do Ethan?! – Perguntou Joshua, retornando ao seu estado normal. Mas, antes que Madison pudesse responder, perceberam que o outro jovem começava a acordar.
— Não falem… ninguém… sabe. – Falou enquanto tentava manter-se acordado.
Joshua olhou nos olhos do amigo e entendeu a sua intenção. – Ninguém fora dessa sala sabe dos nossos poderes… isso precisa ser um segredo. Mas… o Ethan está ferido, como a gente vai disfarçar isso? – Perguntou o jovem, enquanto olhava para os seus companheiros. – Minha irmã… ela está viajando. A casa dela… eu posso ficar lá uns dias… ela precisa de alguém… para cuidar da casa… – Disse Ethan, enquanto lutava para recuperar o fôlego.
Madison olhou impaciente para os dois, mas acabou concordando. – Pelo menos temos um plano. – Falou, para então dirigir-se até a porta. – Esperem aqui, preciso pegar umas roupas para vocês. Não dá pra chegar na casa da sua irmã com vocês fantasiados e sujos de sangue. Eu não vou demorar…
Joshua suspirou aliviado, completamente aliviado pela primeira vez nesta noite. – Acabou, não é? Essa “aventura” acabou…– Somente para ser corrigido por Madison. – Josh… alguma coisa me diz que isso é só o começo… hoje é só o começo de alguma coisa nova nas nossas vidas. – Falou a garota, antes de discretamente piscar o olho direito para o seu amigo e sair do galpão, indo buscar roupas limpas… e normais.
08:30, 3 de fevereiro, escritório do senador norte americano Irons.
Um homem de terno trabalhava em sua mesa no escritório, quando o telefone celular que estava dentro de uma gaveta começou a tocar.
O homem rapidamente pegou o aparelho e andou apressadamente até uma sala anexa, onde poderia falar livremente. Enquanto ele caminhava, assessores do senado o acompanhavam com os olhos, era um homem alto, de meia idade, onde as rugas e os primeiros cabelos brancos mostravam sua idade, mas com um porte físico de um atleta universitário. Ao fechar a porta, atendeu ao celular.
— Irons falando…
— Irmão… estou no laboratório em Ohio… com a entrega… – Disse uma voz firme, do outro lado da ligação.
— Ótimo! Ninguém desconfia ainda que o… pacote… não está entre os mortos, não é? – Respondeu o homem, já esperando a resposta.
— Não! Como esperávamos, o Açougueiro fez um grande estrago entre as celas de segurança máxima. Vão demorar meses só para separar os corpos. A identificação vai ser impossível.
— Ótimo. Mantenha a… entrega… sedada. Depois, libere para os cientistas. Precisamos entender como os poderes dele funcionam.
— Não se preocupe, logo saberemos como ele pode sobreviver depois de receber a transfusão de sangue de um Deus. Manterei você informado, irmão. – Disse a voz no telefone, antes de desligar.
O senador andou em direção a uma grande janela em seu escritório. De lá, ele enxergava o Capitólio dos Estados Unidos. O homem parou observando o cenário, até que um sorriso cheio de malícia surgiu em seu rosto. – Minha hora se aproxima… em breve…– Ele então voltou a sua expressão natural e caminhou lentamente para a sala comum do escritório.
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