A Rebelião
1 Aquela noite
Notas iniciais
21:00 horas, 2 de fevereiro, Nova Prisão da Ilha.
O ataque foi rápido, não havia mais resistência no pátio leste da prisão. Os adversários que lutavam há pouco tempo, encontravam-se rendidos e deitados de bruços.
O cheiro de sangue infestava o lugar, mas olfatos mais aguçados poderiam sentir outros odores de um campo de batalha por ali. No momento que a fumaça começou a baixar, a gravidade da situação tornava-se perceptível. Mesmo os mais ignorantes daquele lugar sabiam que aquilo não teria mais volta.
Um corpo começou a mover-se entre uma pilha de cadáveres. Ouviu-se um tiro sendo disparado do alto de uma das torres de segurança. Acertou em cheio, abrindo um buraco gigantesco no peito do alvo. O sangue logo começou a jorrar. O uniforme que o alvo vestia logo mudou de cor, o azul claro começou a escurecer e depois de um tempo tornou-se vermelho escuro e grudento.
Um homem correu para dentro do pátio e chegou neste corpo, procurando freneticamente por algo dentro das roupas do que, até pouco tempo, era uma pessoa tão inteira quanto ele. A procura demorou, os outros ao redor afastavam-se, acreditando que não teriam o que buscavam.
Mas, finalmente, o pequeno homem encontrou o que queria. Um distintivo. Ele puxou o objeto com força, e levantou alto para que todos pudessem ver.
— Olha! Olha! Era da Força de Elite! Menos um deles pra incomodar!
Depois ele correu novamente para dentro da prisão. Parou na porta do refeitório e olhou para a cena que acontecia por ali.
Três oficiais algemados no canto da sala e um outro homem, mais velho e visivelmente fora do peso, amarrado em uma cadeira de madeira. Este último parecia ser a diversão da vez, diversos homens formavam uma fila na sua frente, só para lhe dar um soco no rosto, ou uma cusparada.
Depois de presenciar esta situação, o homem com o distintivo continuou seu caminho, em disparada entre os corredores da prisão, parando ocasionalmente, quando notava que algum guarda estava sendo capturado ou morto nos confrontos.
21:27 horas, 2 de fevereiro.
O criminoso finalmente chegou em uma das torres de segurança. Era a mesma torre onde o disparo foi efetuado. Logo depois de entrar na sala, ainda ofegante, jogou o distintivo junto dos outros. Sem parar para contar, devia ter pelo menos uma ou duas dúzias por ali.
— Ei, Chefe! Olha, acho que esse era o último da Força de Elite. Esse lugar tá na nossa! Agora é só abrir um buraco nessa parede e dar no pé...
— Não. Pelo menos não agora. Ainda tem uma missão para vocês, tomar o controle dos guardas era só metade do trabalho na nossa... “pequena” rebelião.
Outro homem estava nessa torre, o único armado por perto. Ele entrou na conversa enquanto usava a mira da arma para confirmar que nenhum guarda estava escondido entre os pátios ou nas janelas dos prédios.
— Agora é hora de acabar com a concorrência, Garoto Pólvora. Depois de matar quem ficava no nosso caminho nas ruas, aí a gente pode abrir essa parede.
21:31 horas, 2 de fevereiro, auditório da Nova Prisão da Ilha.
Os últimos oficiais do presidio fortificavam a única entrada do auditório do lugar.
O clima entre os homens era tenso. Mesmo tendo as últimas armas que encontram no arsenal, sabiam que muita coisa havia sido roubada de lá. Pela primeira vez nas suas carreiras, teriam que enfrentar diretamente alguns dos criminosos mais perigosos do país e, para melhorar ainda mais a situação, teriam que considerar que eles estariam armados e preparados para qualquer coisa.
Pouco depois de colocarem todos os armários da sala na frente da porta, ouviram as primeiras batidas. Logo a quantidade aumentou. E então, deixaram de ser apenas batidas, alguém começou a dar tiros do outro lado da parede.
21:45 horas, 2 de fevereiro.
A imprensa começava uma aglomeração na frente da zona de isolamento da prisão.
Boatos de uma rebelião de grande escala tomaram a cidade, mensagens de celular espalhavam as novidades, mesmo que a imprensa ainda não soubesse de nada. Obviamente, o governo negava tudo.
Os boatos começaram a virar noticiais nos jornais quando o primeiro corpo foi jogado sobre o portão de acesso.
Fotógrafos correram e ignoraram as fitas de isolamento. Celulares gravavam as cenas e já transmitiam tudo para as redações e estúdios de televisão.
Mais corpos foram arremessados. A contagem subia rapidamente. Ninguém escrevia sobre outra coisa no Twitter.
21:50 horas, 2 de fevereiro, lado de fora da Nova Prisão da Ilha.
Um adolescente escondia-se entre as poucas árvores do lado oposto ao portão da prisão.
Ele vestia uma roupa de lycra branca, com uma grande listra vermelha na parte superior, ela ia da gola até a parte da cintura. Ainda vestia um casaco curto de couro e levava uma mascara na mão esquerda. Talvez estivesse esquecendo dela, mas acabou vestindo antes que alguém o reconhecesse.
Se olhasse para cima, perceberia mais alguém por lá.
Esta outra pessoa não parecia mais velha, mas voava sobre as árvores e os muros da prisão. Por mais estranho que possa parecer, um jovem voador acabou passando despercebido naquela noite, mesmo que ele estivesse vestido como um aviador do começo do século 20 e com um cachecol muito maior do que devia.
21:52 horas, 2 de fevereiro, lado de fora da Nova Prisão da Ilha.
Um vulto movia-se pela lateral da prisão. Sem uma iluminação adequada, não era possível identificar nada sobre esse vulto. Mas, quando o mesmo revelasse sua presença, todos poderiam ver um jovem com uma maquiagem branca cobrindo toda a pele e um sobretudo pesado na cor preta.
Quando este jovem moveu seus dedos, as sombras pareceram cobrir sua posição, impedindo que os repórteres que bisbilhotavam por perto o vissem.
22:05 horas, 2 de fevereiro, porta da área de solitárias da Nova Prisão da Ilha.
Dois dos antigos prisioneiros colocaram um dispositivo em uma porta reforçada. Ela estava cheia de marcas de tiro e pancadas, mas permanecia firme.
Depois que estes prisioneiros correram, o dispositivo começou a mostrar uma contagem regressiva.
10 segundos e contatando.
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