23:00 horas, 2 de fevereiro, lado de fora da Nova Prisão da Ilha.

Joshua finalmente alcançava o topo do muro. Nunca tivera habilidade para escalar, durante a infância teve os joelhos remendados dúzias de vezes por tentar escalar uma árvore que ficava no parque da cidade. Hoje, contou com a ajuda do seu novo amigo voador.

Ambos puderam ver diretamente a situação que enfrentariam. Os corpos caídos no chão, o sangue escorrendo pelo piso e o caos que reinava por todos os prédios. Os dois olharam nos olhos um do outro por um segundo, havia indecisão neles. Pular daquele muro significava enfrentar criminosos de verdade, não valentões da escola ou batedores de carteira pela cidade. Era algo maior que poderiam imaginar.

— A cidade vai ficar assim se ele saírem da prisão, não é? – Perguntava Josh, mesmo sabendo que a verdade não seria agradável.

— Eu... acho que sim. – Confirmava o outro, passando os dedos na lente dos óculos, em uma tentativa de limpar as manchas que ali estavam.

Eles olharam-se por mais um segundo, antes de pular. O salto dos garotos poderia até parecer combinado, ambos pularam ao mesmo tempo e caíram de forma sincronizada, tocando o solo, também, ao mesmo tempo. A única diferença é que os joelhos do garoto vestido de aviador não estavam prontos para a queda e ele acabou caindo sentado após a aterrisagem. Ainda foi capaz de segurar um grito de dor por muito pouco, poderia ter acabado com as chances de fazer algo neste momento.

Foram necessários alguns instantes para que a dupla pudesse reagrupar e eles ainda precisavam pensar nos próximos passos, cometer um erro dentro da prisão seria a última coisa que os dois fariam em vida. Escolheram espiar o que acontecia dentro de um grande galpão que estava logo mais a frente, que apresentava diversas marcas de tiro pelas paredes e a porta completamente arrebentada.

Olhando para dentro do galpão, visualizaram alguns corpos no chão. Pelos uniformes, não eram os presos, pareciam mais as roupas que os guardas deveriam estar usando. Seus corpos pareciam ter sido usados para tiro ao alvo, com diversas marcas na região do abdômen e da cabeça.

Precisaram de mais alguns segundos para seus olhos conseguissem se adaptar a escuridão que estava lá dentro, mas também conseguiram ver que alguns guardas ainda estavam vivos, não devia haver mais do que meia dúzia de guardas ali, mas salvar estes homens já seria uma vitória para dois adolescentes metidos a heróis.

Joshua apontou para um monte de entulho que estava dentro do prédio, bem próximo à porta, queria que ambos corressem até lá e examinassem melhor as alternativas. Como ele já devia esperar, o seu companheiro não entendeu nada do que os seus gestos deveriam querer dizer. A alternativa que sobrou para Josh foi correr até lá e esperar que o outro entendesse que devia fazer o mesmo.

A corrida era curta, alguns poucos passos e Joshua já estava escondido atrás de um monte de entulho e madeira. Ele fez alguns gestos chamando o seu amigo, mas obteve um gesto negativo como resposta, o outro parecia acreditar que esse era um péssimo plano, mas Josh também não conseguia entender o que ele queria dizer.

— Isso, vai pra dentro de uma sala cheia de assassinos. Tenho que aprender a não andar com esquisitos fantasiados com roupa de ginástica. – O outro adolescente, reclamou um pouco consigo mesmo, mas acabou decidindo entrar na sala.

Desta nova posição, conseguiam ter uma visão completa da sala. Este ambiente era um grande retângulo, os guardas estavam na parede que estava do outro lado do prédio, podiam ver diversos pontos da sala com entulho e objetos quebrados. Pela quantidade de cadeiras destruídas e madeira que estavam por lá, os dois acreditavam que aquele era o auditório da prisão, e, se estivessem certos, haveria uma outra porta próxima da posição dos guardas.

Não demorou muito para que esta teoria fosse comprovada, um grupo de criminosos entrou na sala pela outra porta. Todos carregavam facas, alguns carregavam mais de uma, e uma parte carregava pistolas na cintura. Josh contou oito criminosos, o outro concordou com ele, não conseguia ver ninguém mais. Agora só precisavam de um plano de ação.

O garoto fantasiado de aviador tentou afastar-se um pouco para melhorar o campo de visão, mas acabou chutando uma pequena pedra que estava em seu caminho. Ele acompanhou o caminho da pedra com os olhos e sentiu o pânico crescendo enquanto a pequena pedra se aproximava de uma panela de alumínio. No mesmo momento que a pedra bateu na panela, os homens olharam e sua direção e descobriram o garoto. Assim que o avistaram, os homens que portavam pistolas começaram a atirar.

Essa agitação chamou a atenção dos guardas que estavam sentados no fundo da sala e Josh pôde confirmar que eles realmente estavam vivos, embora alguns parecessem precisar de cuidados médicos imediatos. Neste momento os garotos estavam separados, cada um estava atrás de uma pilha de entulho, e precisavam de um plano para sair de lá vivos, os criminosos que estavam armados com facas começaram uma aproximação pelas laterais da sala.

Enquanto Joshua hesitava por alguns momentos, o outro garoto parecia apavorado demais para pensar em alguma coisa. Esta foi a deixa para Josh, ele estalou os dedos das duas mãos e pareceu concentrar-se na mão direita por um segundo, mas uma revoada de pássaros entrou na sala e acabou com a sua concentração.

Em segundos haviam centenas de pássaros dentro do auditório. A maioria não era maior do que um pombo, mas alguns eram realmente grandes. O suficiente para que os criminosos armados com facas recuassem até a porta. Aqueles que portavam armas de fogo tentavam atirar nas aves para afugentá-las, mas era muito difícil acertá-las na situação em que estavam. Demorou pouco tempo para que todos os criminosos fugissem da sala com os pássaros em seu encalço.

— Eu não sabia que você controlava aves... – Joshua parecia realmente surpreso enquanto falava com o outro jovem.

— Eu? Achei que os estalos eram pra isso. – Por sua vez, o garoto parecia ainda mais surpreso, mas no seu caso, a surpresa era por ainda estar vivo, acreditava que havia cometido o seu erro fatal com aquela pedra.

Enquanto os garotos recuperavam o fôlego, uma coruja entrou pela mesma porta que eles haviam entrado alguns instantes antes. Ela sobrevoou a sala e pousou no encosto de uma cadeira que se encontrava ao lado dos guardas feridos. A ave deu uma breve olhada nos homens e voltou sua atenção aos adolescentes, piando em um intervalo constante enquanto os jovens permaneciam a distância.

Os jovens aproximaram-se lentamente dos guardas, sempre olhando para as entradas do prédio, prontos para o caso de outros criminosos entrarem correndo. Os homens precisavam de ajuda, mas não havia como administrar os cuidados médicos necessários naquela sala, nem como retirá-los da prisão no momento. A coruja bateu suas assas e planou até uma pequena porta. Abrindo esta porta, os garotos encontraram uma sala com algumas cadeiras, deveria ser uma sala para que a equipe do auditório pudesse descansar ou se preparar para as atividades.

Os guardas que conseguiam caminhar foram até lá e concordaram em permanecer escondidos até a ajuda de fora pudesse alcança-los. Os jovens carregaram os homens que não conseguiam caminhar e esconderam a porta usando o entulho que estava espalhado pelo chão do auditório.

A coruja voou mais uma vez, agora saindo rapidamente pela mesma porta que os criminosos usaram para fugir. Joshua e seu amigo apressaram-se para acompanhar a ave. Saindo da sala, encontraram o pátio interno do presidio e acabaram dando de cara com um estranho usando um sobretudo preto e com uma maquiagem branca no rosto.

— Eita! Não sabia que tinha concurso de cosplay da banda Kiss aqui na prisão da cidade. – O jovem aviador tentou fazer piada quando encontrou o estranho, sem perceber que aquele encontro poderia acabar mal para os dois jovens.