A Rebelião
9 A batalha da prisão
Notas iniciais
01:15, 3 de fevereiro, área de carga do depósito da Nova Prisão da Ilha.
O copiloto do helicóptero, jogou uma escada de cordas e os três criminosos subiram a bordo do helicóptero. Após isto, ele recolheu a escada e a guardou ao lado da porta por onde todos entraram.
— Senhor é um grande prazer finalmente conhecê-lo, seguimos os passos do plano conforme solicitado. A arma foi instalada e este helicóptero tem o dispositivo de camuflagem pronto para uso… só não tivemos tempo nem oportunidade para testar ainda. – O copiloto falava, enquanto tentava disfarçar o nervosismo e a ansiedade.
O piloto movia lentamente o manche, de forma a ganhar um pouco mais de altitude antes de começar a seguir o trajeto estabelecido para a fuga. A grande nave ganhava altitude conforme os tripulantes conversavam, e os presos que estavam por perto protegiam os olhos da poeira que levantava conforme as pás giravam.
01:20, 3 de fevereiro, pátio da Nova Prisão da Ilha.
Pela primeira vez, os garotos viram o helicóptero, ele ganhava altitude e eles perguntavam-se o que aquilo fazia ali.
— Legal esse momento, todos viramos amigos agora, não estamos mais querendo nos matar, como alguns minutos atrás, mas… que porcaria é aquela? – Aéreo perguntava enquanto apontava para o alto, e a coruja girava sua cabeça em direção a nave.
Senhor Meia-Noite olhava aquilo, enquanto arfava e tentava recuperar ao menos um pouco de suas forças. – Não…não é daqui… da prisão. – Ele arfava novamente, enquanto o tom de sua pele tornava ficar pálido, de forma consistente. – Tem alguma coisa aí… tem coisa vindo aí.
Conforme o helicóptero se afastava, os garotos ouviram um som estridente vindo de uma das muralhas da prisão. Parecia um bip, mas longo e consistente.
Não só os garotos ouviram, vários detentos que estavam destruindo as instalações da prisão durante a rebelião também ouviram e começaram a aproximar-se da sua fonte, alguns com medo e precaução, mas muitos corriam e esperavam encontrar algum tipo de tesouro ou pelo menos mais algum novo alvo para sua fúria. Dentre estes, um preso se destacava, um homem com inúmeras cicatrizes no rosto e carregando um pedaço de cano modificado com diversos pregos em sua extremidade, seu uniforme estava rasgado e completamente sujo de sangue, mas talvez, este não fosse sangue do homem.
O homem corria, seu rosto tinha a expressão de um maníaco. Seus olhos estavam com sangue, enquanto um sorriso doentio surgia. E este sorriso aumentou quando ele saiu do prédio em que estava e, olhando em volta, encontrou três garotos no pátio. – Ei! Pessoal, têm um picnic no pátio! Olhem ali, três garotinhos pra gente acabar! – Ele gritou e chamou os demais, apontando com o cano para onde os garotos estavam. Outros presidiários aproximaram-se, quatro deles juntaram-se ao primeiro e começaram a correr em direção ao grupo de jovens, esperando mais vítimas para a sua sede de sangue.
O vento voltou a assobiar pelo pátio da prisão. O ar circulava de forma anormal, parecia estar indo em direção aos jovens. O Senhor Meia-Noite percebia este vento, e tomou dianteira para enfrentar os novos adversários, enquanto pensava no estranho bip que estava ao fundo. Ele deu um passo à frente e concentrou-se para formar uma mão de sombras, mas sentiu suas pernas vacilarem. Ele rapidamente caiu no chão, de joelhos, imaginou que acabaria por ali. Contudo, antes dos demais, sentiu uma nova rajada de vento.
Dragão e Aéreo moveram-se para segurar o outro jovem, mas, antes disso, uma poderosa corrente de ar os jogou alguns passos para trás. As sombras do pátio também começaram a mover-se, indo em direção aos jovens, ficando entre os três e aumentando cada vez mais. Inicialmente formaram uma pequena parede, crescendo mais e mais. Ao final, parecia uma entrada de uma grande tenda que, de alguma forma, a entrada de um circo, mesmo sem cores. – Esse cara… não! Esse cara, não! – Gritou o Senhor Meia-Noite, olhando para a lua no céu. Ele notou que a lua se escondia entre as nuvens.
Destas sombras, um homem saiu. Um homem maquiado como um mímico, mas que estava vestindo roupas coloridas como um palhaço. Era um homem imponente, passava de 1,90 de altura, com uma cartola preta escondendo os seus cabelos pretos, que estavam cortados em um estilo militar, enquanto sua maquiagem consistia em uma pintura branca sobre o rosto, com uma lágrima preta caindo de cada olho, além de uma pintura preta sobre seus lábios. Ele vestia uma camisa branca, justa ao seu corpo e uma calça larga de palhaço na cor vermelha, com bolinhas amarelas. Seus suspensórios e sapatos de palhaço também eram vermelhos. Os sapatos pareciam muito mais longos do que os pés do homem, mas eram anormalmente finos.
O homem saiu das sombras e acenou para os dois jovens que estavam à sua frente, ele levantou a sua cartola com a mão direita e sorriu em sua direção. Logo em seguida, ele virou-se para o outro jovem, olhando com desaprovação. Havia algo mais naquele olhar, uma malícia incomum, mas, naquele momento, somente este jovem era capaz de perceber e entender isto. Antes de prosseguir, ele entregou um bilhete ao jovem, que leu e gritou aos demais: – Bomba! Tem uma bomba na parede. Esse som é o sinalizador da bomba. Olhem na muralha, tem alguma coisa lá! – Ao mesmo tempo que terminou de falar, o homem o segurou pela cabeça, começando a voltar para as sombras, ele planejava retornar ao lugar de onde saiu levando o Senhor Meia-Noite.
Antes que pudessem chegar mais perto, o líder do grupo de presos os alcançou, apontando sua arma e gritando para os dois. – Mas que… não sei que tá acontecendo aqui, mas parou com a bagunça! Ei, palhaço deprimido, olha aqui! Você vai pra vala, e essas crianças vão ir logo depois! – Ele gritava e agitava o cano que usava como arma, apontando para os garotos. Enquanto isso, os demais presos também se aproximaram.
O líder deste grupo pulou na frente e segurou a arma com as duas mãos, planejava precisar somente de um golpe para matar o outro homem. Por mais que os dois homens tivessem um porte físico similar, o criminoso não esperava precisar se esforçar para enfrentar um homem vestido de palhaço. Antes que o golpe pudesse acertar qualquer coisa, o palhaço puxou algum objeto de dentro da sua calça e apontou para o criminoso. Após o susto inicial, todos perceberam que era uma buzina amarela, aquelas do estilo corneta que os palhaços costumam usar em seus espetáculos.
Quando o detento iria voltar ao movimento do golpe, o palhaço apertou a sua buzina. O som saiu de forma abafada, parecia estar com algum defeito. Mas alguma coisa mudou, o homem à sua frente estava paralisado, logo em seguida, estava visível uma hemorragia em ambos ouvidos. Um breve momento se passou e o homem virou-se de volta para seus companheiros e deu alguns passos em direção a porta do prédio em que eles vieram. Os homens entraram em pânico ao perceberem que seus olhos haviam sido arrancados pelo efeito daquela estranha arma. A hemorragia aumentou muito e o homem desabou no chão, debatendo-se freneticamente no início, mas logo ele parou e não era possível ver nenhum movimento em seu corpo, nem mesmo sua respiração. O caos reinou entre os outros homens, o grupo rapidamente se desfez e o medo fez com que cada um daqueles presos corresse por sua vida, sem pensar em um plano.
Quando já não restava mais nenhum detento no pátio, o estranho palhaço segurou novamente o jovem pela cabeça e continuou seu caminho, enquanto o outro debatia-se inutilmente. Ao passar pelo portal de sombras, o homem rapidamente fez um movimento para que sua parte superior voltasse e fez um movimento de despedida, removendo sua cartola, para os outros dois garotos que ficaram na prisão. As sombras rapidamente dissiparam-se, como se aquela cena nunca tivesse acontecido.
— M… mas o que foi isso? – O jovem voador repetia isso, enquanto olhava o corpo no chão. Ele não havia processado nada do que aconteceu, desde que o Senhor Meia-Noite gritou sobre uma bomba. Tudo aquilo parecia loucura para sua cabeça, o garoto tentava balbuciar mais alguma coisa, mas as palavras não saiam de sua boca.
— Ei! A gente ainda precisa terminar um trabalho aqui! Tem uma bomba na muralha da prisão! – Joshua gritou apontando aleatoriamente para os muros do pátio. – Preciso que olhe nos muros, precisamos achar!
No mesmo momento o voador voltou a si e acenou positivamente. Voando rapidamente para os muros, começou a procurar em volta. Procurou pelo que imaginou como a bomba iria parecer, com dinamites à mostra e muitos fios ligando as partes do artefato. Contudo, a realidade não era essa.
O jovem viu uma pequena luz verde piscando na parede e voou o mais rápido que podia para lá. Logo, foi possível ver um pequeno retângulo prateado, com um led, que pisca em intervalos regulares e, prestando mais atenção, percebeu que também era a fonte do bip que estava escutando. Sem pensar duas vezes,o jovem puxou aquele retângulo da parede com toda a força. Logo, a cola cedeu. O jovem nunca ficou tão feliz em sua vida. Ele olhava para o outro jovem e apontava para o artefato, enquanto flutuava mais para o alto. – Ei! Aqui! Caramba, estava aqui o tempo todo!
Ambos escutaram um estouro ao longe.
O garoto flutuando foi jogado para mais próximo da muralha. O explosivo caiu de suas mãos, indo para o outro lado dos muros e rolando até dentro da água, afundando em seguida. – Alguma… alguma coisa me a… acertou?
O sangue começou a fluir pelo lado direito do seu tórax. Sua roupa ficou manchada rapidamente e, conforme o garoto ia perdendo suas forças e caindo pelo muro, um rastro do seu sangue ficava visível na parede. – Mas o que foi isso? Um tiro? – Falava Joshua, enquanto corria em direção ao muro.
A coruja voou a sua frente, chegando ao outro garoto antes. Quando Josh chegou, ele levantou o outro garoto e encontrou o ferimento para então tentar estancar o sangue com a pressão que suas mãos podem fazer.
Por algum motivo, o pássaro parecia entender que precisavam levar o garoto para um lugar seguro. Aquela rebelião estava caminhando para o final, o caos estava terminando já que os criminosos das maiores gangues e máfias já estavam fora, restava somente o pessoal que deveria apavorar a cidade e ajudar a esconder os reais interesses nesta rebelião. Se continuassem ali, os jovens só conseguiriam ser mortos.
Ao fundo, uma explosão aconteceu. Havia outra bomba, uma que estava colocada no portão da frente do presídio. O som era ensurdecedor, Joshua ficou tonto por alguns momentos, mas logo recompôs sua postura e apoiou o seu companheiro de luta sobre um dos seus ombros, enquanto a ave segurou o jovem baleado pelo outro ombro e tentou levantá-lo.
Com suas últimas forças, Aéreo conseguiu levitar até o topo do muro, para só então desmaiar de vez. Depois disso, Joshua pulou do muro e ambos caíram rolando no chão, a coruja que estava com o grupo tomou a dianteira, parecia querer levar os garotos para um lugar específico e, pelo menos no momento, Joshua não tinha nenhum outro plano, então qualquer coisa era melhor do que ficar parado.
3 de fevereiro, helicóptero próximo da Nova Prisão da Ilha.
O helicóptero movia-se lentamente, os homens preparavam-se para sair da ilha. – Preparem-se meus amigos, a nossa tão esperada “noite”, acaba aqui. Hoje forjamos as alianças que permitirão que nossos sonhos se concretizem! Poderemos fazer parte de algo maior, meu estimado irmão nos presenteou com esta oportunidade… com os recursos que pedimos… cada um de nós teve o seu pedido atendido. Agora, meus bons amigos, nosso momento chegou! No momento em que nos afastarmos o bastante da ilha, os dois explosivos plantados nas muralhas da prisão irão explodir! O caos que seguirá irá encobrir nossas ações, suas liberdades estarão garantidas e suas contas bancárias, bem gordas! – Discursava o Barão, enquanto apontava para que o copiloto ativasse o dispositivo de camuflagem da nave.
Uma contagem de três segundos começou, na qual o piloto parou o helicóptero e o copiloto ativou alguns controles no painel. Ao final, uma fonte de luz azul foi ativada ao redor da nave.
Após mais alguns momentos, essa luz apagou e o helicóptero desapareceu da vista de todos. Este dispositivo era um versão de testes para um equipamento militar de última geração que poderia esconder uma unidade militar inteira, caso fosse corretamente ativado.
— Ei, Barão… tem algum detento com poder de vôo? Tem alguém voando perto de uma das nossas bombas. – Munição observava a prisão enquanto a camuflagem era ativada e, por uma grande coincidência, foi capaz de ver o garoto voador tirando a bomba da parede. – Confirmado, o explosivo foi removido do muro do pátio! Estou com esse idiota na mira do meu rifle. Permissão para abater? – Completou, após analisar a situação com a mira de sua arma.
Barão confirmou a camuflagem da nave e olhou para onde o companheiro estava mirando. Eles ainda estavam a uma certa distância do ponto em que os explosivos seriam automaticamente ativados e seu plano completo. – Derrube esse cara! Precisamos que as muralhas explodam!
Quando as palavras saíram de sua boca, ouviu-se um disparo dentro da nave. O rifle não estava usando uma munição tradicional, mas o som que fazia ao disparar era o mesmo que qualquer rifle faria.
O disparo acertou o alvo em cheio, abrindo um buraco entre suas costelas, no lado direito do peito. O alvo demorou um segundo para perceber, mas começou a perder altitude, enquanto o dispositivo explosivo caía de suas mãos. – Alvo abatido, mas não tenho visão do explosivo. Ele pode estar inviabilizado. – Comentou o atirador, enquanto usava a mira da arma para tentar encontrar o explosivo.
Barão colocou a mão sobre o ombro do atirador e virou para o piloto, com um movimento de sua outra mão, apontou para frente, ordenando para continuar a fuga. Ele fixou o olhar no portão principal da prisão. Era um imponente portão de metal e concreto e ele ainda estava intacto, mesmo após todos os eventos desta rebelião. Alguns momentos depois, um clarão foi visto naquele portão e então, entulho voou para fora da prisão… agora não havia mais um portão gigante separando os presos amotinados dos policiais da cidade.
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