A Realeza de Ouran

6 Amor Doce e Amizade Salgada


Cap. 6

Amor Doce e Amizade Salgada

Em particularidade, Haruhi se sente a vontade para se mostrar como moça e é bem acolhida pelas garotas. Ainda mais: o tratamento especial é dirigido todo a ela. Os criados a tratam não só com cortesia como também oferecem algo a cada instante, como quitutes. Após uma longa hora de conversa, Charlotte aparece no topo da escada, frente à sala de jantar, com uma expressão séria.

– Desculpe interromper Linh-bochan, mas eu tenho informações sobre seus pais.

– Ah sim. E então, quando eles chegarão aqui? Já está perto de onze...

– Eles não virão. – a mulher diz apressadamente, deixando-a inquieta e melancólica – Acho que nenhum dos senhores e senhoras virá, na verdade.

– Os nossos, de fato, faltaram este ano. Estão muito ocupados. – Aika torce o nariz.

– Mas nossos irmãos prometeram que viriam, junto das companheiras. – Aiko comenta com receio do clima tenso devido o olhar triste de Linh.

– Seu pai pede desculpas pela ausência e promete recompensá-la mais tarde, assim como ao seu irmão. – Charlotte continua, virando-se aos convidados – Ele também se desculpa com todos.

– Bem, não tem problema. Nós entendemos isso, certo?! – Tamaki procura sorrir.

– E minha mãe? – a anfitriã questiona, recebendo apenas uma negação com a cabeça de sua Ama – Eu compreendo... – Sora olha preocupado para a irmã.

– Onee-chan? – ele toca seu braço com as mãos, mas mesmo vendo-a sorrir não se anima.

– Bem, então não podemos esperar mais. Vamos começar a ceia.

– Espera aí! Não podemos ir para a mesa antes de Haruhi e Honey usarem as fantasias que a gente trouxe! – as gêmeas param ambos no caminho e os trancam num quarto do andar debaixo até a garota colocar um vestido de mamãe Noel, com chapéu e pulseiras felpudas de elástico como extras, e o loirinho uma roupa de rena – Tenha cuidado Tamaki-senpai, olhe a hemorragia nasal! – elas avisam quando o veem tapando o rosto vermelho com uma mão e riem.

O início do jantar é silencioso. As moças sentam-se salteadas, entre os noivos, e comem com elegância, mas ao mesmo tempo depressão, a farta refeição servida. Parece uma cena comum entre elas: estarem unidas sem a companhia de familiares. As empregadas ficam por perto, certas vezes se aproximando da mesa para ter certeza de que todos estão sendo bem servidos. Finalmente, uma presença muda à atmosfera mórbida no terreno. Ou melhor, três presenças e mais umas extras.

– E então, chegamos tarde? – uma voz masculina se faz ouvir atrás de Hikaru – Ah gente, o pessoal já começou a comer?! Rápido, senão não sobra muita coisa!

– Oi nii-chan! – Aiko se levanta para abraça-lo e aos demais presentes que chegam.

– Viu só Hiroki? Eu disse que se você tivesse passado menos tempo no banheiro nós até que podíamos ter chegado mais cedo. Teimoso! – a moça ao seu lado o repreende.

– Puxa minha vida, não precisava me repreender aqui, na frente de todo mundo!

– Você já passa vexame sozinho sem precisar da nossa ajuda. – Eikichi ri – Como vão todos? – os demais os cumprimentam até ele ver Haruhi e Honey – Pelo visto, nossas irmãs já andaram fazendo das suas traquinagens. Peço desculpas por isso.

– Eles ficaram bonitinhos. – as duas falam ao tempo em que empinam os narizes.

– Minha nossa, essa é uma mesa bem recheada! Você caprichou este ano, Linh!

– Obrigada Akinori, mas desta vez eu tive colaboração dos nossos convidados.

– E que belas donzelas são essas ofuscando meus olhos com seu brilho? – Tamaki levanta em um pulo e toma a mão da moça mais próxima, pronto para beijá-la, quando nota uma aliança.

– Essa é a minha esposa. – o irmão mais velho anuncia, fazendo alguns rirem do loiro rubro.

– O meu nome é Aramina. É um prazer conhecê-los. – sorri a belíssima loira de cabelos bem ondulados e lindos olhos azuis, corpo esbelto trajado em um vestido rosa de babados.

– Esta é a minha esposa, Henriqueta. – Eikichi chama a atenção para a ruiva com vibrantes cachos e olhos verdes, cuja cintura está firmemente atada pela mão direita dele.

– Olá a todos. – ela abaixa um pouco em cumprimento, deixando cair à manga do vestido de algodão branco e preto e recolocando em seguida.

– Então, eu acho que você deve ser a namorada do Hiroki. – Kaoru sorri a última jovem.

– Edissa. – a morena dos cabelos mais curtos e castanhos direciona os olhos escuros a todos, fazendo um aceno militar com a mão sobre a cabeça e balançando o vestido vermelho-claro.

– São todas moças muito bonitas. Nem parece que são casadas.

– Deixe disso Kyoya. – Suzu continua comendo, apenas pausando para rir – Ser galante de nada adiantará aqui e agora. Além disso, elas gostam de serem tratados como senhoras.

– Ela tem razão. – Aramina ri, se aconchegando no marido – Não ligamos nem um pouco de sermos chamadas pelos primeiros nomes, mas é ainda melhor ouvir os sobrenomes! Nós amamos!

– Essas três são tão viciadas nos nossos irmãos que Aiko e eu chegamos a parecer normais e a parte gêmea desaparece! Parece que foram todas projetadas geneticamente para eles!

– Não seja má irmãzinha! – Edissa descabela Aika e senta ao seu lado quando Linh convida o grupo a fazer parte da ceia – Então, vocês são os noivos das garotas? – ela aponta o garfo com o macarrão enrolado para Hikaru e Kaoru, despertando um arrepio nas irmãs e fazendo-as parar de comer instantaneamente – As gêmeas contaram que estão se divertindo e essa causa é por vocês.

– Nee-chan! – as duas a chamam de forma assustadora, sendo ignoradas pela mesma.

– Aika contou ao Hiroki que espirrou suco no Hikaru depois de terem começado uma briga, por ela ter atrapalhado seu trabalho de anfitrião no clube.

– Ei, a Aiko ajudou também! Além disso, ele me provocou. Não fale como se a única culpada no cartório fosse eu! – Akinori pigarreia com um olhar de repreensão, fazendo-a ficar quieta.

– Eu já me esqueci disso. – o rapaz desvia o olhar envergonhado.

– Ah, então você é Hikaru?! – Aramina sorri – É realmente difícil identifica-los, mesmo que nós já estejamos convivendo com Aika e Aiko há bastante tempo.

– É verdade. – Henriqueta concorda – Nós sabemos dizer quem é quem das gêmeas hoje em dia, mas foi uma tarefa complicada que exigiu esforço e dedicação.

– Vendo assim até parece que estavam competindo em uma maratona. – Aika resmunga.

– Por que se esforçaram tanto para conseguir diferenciá-las? – Hikaru questiona.

– Ora, porque nós gostamos muito delas. – a esposa de Eikichi surpreende os rapazes.

– A princípio também pelo fato delas serem, futuramente, nossas cunhadas. – Edissa corrige e descabela a irmã mais velha novamente quando ela a olha torto.

– Nós adoramos as duas, tanto como se fôssemos suas irmãs do mesmo jeito. – Aramina diz.

– Oh, esse amor é realmente divino! – emocionado, Tamaki toca o peito e Haruhi suspira.

– Antes que comecem a contar sobre a nossa infância, por favor, calem-se.

– Aika é uma estraga-prazeres. Sempre foi desde criança. – a cunhada mais nova começa os relatos sem permissão – Mas é verdade que quando Aiko armava suas traquinagens ela ia junto.

– Então Aiko é quem elabora os planos? – Kyoya ri de lado e as duas franzem o cenho.

– Mas é claro. – Suzu confirma ainda de olho no prato – De quem você acha que foi a cilada armada no segundo dia de aula? Aika não é tão ardilosa quanto sua irmã.

– Ainda bem, porque se fosse nós teríamos duas vezes mais dor de cabeça!

– Onii-tan, poderia, por favor, parar de incentivar essa conversa. – a irmã mais nova pede.

– Engraçado. Vocês escancaram a vida de todo mundo em público e a gente não pode?

– Em primeiro lugar nii-chan, nós não escancaramos a vida de ninguém. – ela vira o rosto e tosse – Só provocamos um pouco e as pessoas se abrem como querem.

– Faz muita diferença, realmente. – ele ri do aborrecimento dela até ouvir Akinori pigarrear.

– Vocês são travessas sim. Só não eram mais do que Suzu. – o mais velho ri vendo-a cerrar os olhos e recomeça a comer ignorando a aparente curiosidade dos demais.

– Mudemos de assunto então. – Kyoya sobe os óculos – Vocês parecem saber muito delas.

– Eu sei o que pretende fazer e acho melhor nem pensar nisso.

– Qual o problema? Não foi você mesma quem disse que da próxima vez devia tirar minhas dúvidas pessoalmente ao invés de pesquisar na internet? – Suzu infla o peito, uma ação capaz de causar medo nas amigas, e os irmãos Aoki controlam-se para não rir.

– Quando eu disse isso, não estava esperando que interrogasse os irmãos das minhas amigas para descobrir informações pessoais de todas nós.

– Na verdade, eu estou mais interessado em saber de você.

– Então aqui vai sua primeira informação: eu odeio pessoas enxeridas.

– Desculpe-me se estou sendo intrometido, mas achei que tinha o direito de saber mais sobre quem, possivelmente, será minha futura esposa. – ele corta um pedaço de carne e coloca na boca.

Sem a resposta da moça, as pessoas na mesa se calam, acompanhando com seu olhar o casal. Haruhi encara Tamaki um tanto nervosa, esperando o rapaz quebrar esse clima tenso. É a vez de o loiro tossir, chamando a atenção de todos quando se levanta erguendo uma taça de champanhe.

– Bom meus amigos, pelo horário faltam apenas dez minutos para meia-noite. Eu proponho que todos nós passemos para o salão e comemoremos o Natal.

– Ótima ideia Tamaki-senpai! – Maiko levanta – Eu vou arrumar os presentes!

– Nós pegamos a bebida! – as gêmeas correm pra sala logo atrás e os demais as seguem.

Ainda na porta da sala de jantar, o grupo observa as garotas paradas no topo da escada e se aproxima. Tamaki e Haruhi dão a volta por elas enquanto os anfitriões descem as escadas, e, antes de pular sobre os ombros de Mori, Honey entrega pra garota uma caixa laranja. Os gêmeos vão à mesa no canto da sala, pegando o bolo que trouxeram, e se aproximam junto aos amigos da única janela sem cortinas, de frente ao andar superior. Ela devia estar fechada como as outras, mas não.

Dela, se tem a visão perfeita do pinheiro mais alto no jardim da família Kikuchi, que cobre a visão com enfeites e uma estrela brilhante no topo, refletida pela lua. E misteriosamente, a árvore foi coberta por luzes escrevendo “feliz Natal”. Tamaki coloca a mão direita dentro da calça do seu terno branco, enquanto Kyoya cruza os braços sobre o preto. Honey se agarra ao pescoço de Mori, tomando cuidado pra não sujar seu smoking. Todos sorriem para os acompanhantes de festa.

– Pensamos muito no que poderíamos fazer para devolver o favor do seu convite Linh, e dos presentes escolhidos nós separamos este para você.

– Pra mim? – ela pega o embrulho nas mãos de Haruhi – Mas... A árvore...

– Nós vimos que não tinha nenhuma árvore de Natal na sua casa e pensamos que seria bom enfeitar um dos pinheiros no seu jardim. – o loiro explica – Os gêmeos trouxeram os enfeites e os criados ficaram do lado de fora decorando a árvore enquanto jantamos.

– Então quer dizer que deixaram os seus empregados passando fome na noite de Natal?

– Não entenda errado Suzu-bochan. – Charlotte fala do andar debaixo, a frente do conjunto de empregadas e mordomos cercando os rapazes – Eles jantaram conosco depois de terminar.

– Não estrague a surpresa Suzu! – Maiko a repreende e pula de dois em dois os degraus até a sacada, sorrindo encantada e acenando para as amigas – Venham ver! Tem vários presentes!

– O quê? – Sora se apressa na frente dos outros e também se apoia nas barras de ferro – Isso é lindo! E olha, parou de nevar! Onee-chan, nós podemos brincar lá fora?

– Bem... – ela encara os irmãos Aoki e em seguida Suzu, recebendo comprovação – Está bem Sora, vocês podem ir. – o menino, Maiko e as gêmeas nem a esperam terminar e saem correndo.

No meio tempo em que os amigos estão do lado de fora, brincando na neve, Linh abre o seu presente puxando uma das pontas da fita e enrolando na mão. Ao levantar a tampa, a garota tem uma surpresa. Da caixa sai uma vestimenta de judô novinha e uma faixa preta.

– Quem comprou isso pra mim? – ela se volta a Mori, parado a seu lado na soleira da porta.

– Nós sabemos que você e suas amigas não gostam de coisas extravagantes, então cada um deu uma parte do dinheiro para comprar o uniforme. Eu contei que o seu estava desgastado. – ele sorri e o coração da garota dá um salto mortal.

– Obrigada. – ela retribui o sorriso e alisa a roupa – E esta faixa...

– Nós já estamos tendo aulas há algum tempo, então eu acho que você merece uma faixa.

– Bem, não é a primeira vez que eu ganho uma, mas pra mim parece a primeira vez. Excerto pelas minhas amigas, nunca me senti tão feliz por estar com alguém. Vocês são diferentes do que eu pensei. Agradeço. – de repente Mori tira do smoking um pequeno e grosso livro, entregando a moça – O que é isso? Ah, um livro do meu escritor favorito!

– É um presente meu pra você. Sora me deu uma ajuda.

– Verdade? – o sorriso dela de amplia – Também tenho um presente para você. Vem comigo buscar? – os dois entram novamente e se aproximam da mesa de presentes, de onde Linh pega um pequeno embrulho que parece ainda menor nas mãos do rapaz – É uma pulseira de ouro. – a moça prende o objeto em seu pulso – Não é muito chamativa, embora tenha alto valor. Não sei estimar o quanto na verdade. Depois de muitas sugestões, foi o melhor em que eu pude pensar.

– Eu gostei. Obrigado. – da janela, alguns dos amigos os veem e começam a rir.

– Ei, é hora dos presentes! – Maiko grita – Linh e Shi-niisan já estão trocando os seus! – ela se envergonha e sai correndo da vista de todos antes de entrarem, levando os presentes da árvore.

Aos poucos todos os presentes são entregues e abertos, mas a pilha na mesa continua. Com um Feliz Natal os presentes brindam e logo as três empregadas e os três mordomos de Linh dão o seu incentivo anual, com permissão de Charlotte, para a garota cantar “pinheirinho de Natal”. A dupla Aoki força a moça a trocar de roupa e rapidamente ela está de volta, usando um vestido de mangas. Ela sobe envergonhada ao segundo andar, empurrada pelas gêmeas, e fica entre as duas.

– Ela tem uma voz maravilhosa. – Charlotte comenta baixo ao lado de Mori – Creio que não devam ter tido o prazer ainda de ouvi-la.

– Não. – o jovem alto responde pelos demais ao redor e sorri, notando um brilho no olhar da mulher quando vê a garota repuxar a saia do vestido bufante.

– Linh-bochan é muito envergonhada para isso. Ela só precisa de incentivo mesmo... – ela se contém ao continuar, suspirando ao abaixar o tom de voz – E de alguém que acredite nela.

Mori analisa o que ouviu sem ter certeza se a frase foi dirigida apenas a ele. Aparentemente ninguém mais escutou. Mas essa preocupação some da sua mente ao olhar para Linh, que tenta a todo custo tirar do cabelo as presilhas prendendo-o no alto. Os pequenos cachos, feitos em cima da hora e seguros por gel, balançam como molas quando ela vira a cabeça de um lado para o outro, se rebelando contra Aika e Aiko. Antes de notar, o rapaz já está rindo e chama a atenção dos amigos.

– Ama! – a garota se debruça na sacada – Você não pode simplesmente tocar a música?

– Providenciarei sim a música, mas você vai cantar para nós de qualquer jeito. – Linh torce o nariz e Charlotte se vira a Tamaki – Soube que tem grande aptidão com o piano.

– Ah... Bem, modéstia a parte. – o loiro ri sem jeito, coçando a nuca.

– Pode ajudar com a melodia? Se não conhecer a música, o caderno com as notas está...

– Ah tudo bem, eu conheço a música. – ele entrega a taça de champanhe para Haruhi e anda até o piano, situado perto da janela de frente para o andar superior.

Tamaki começa a tocar e chega a repetir duas vezes o início da melodia até Linh ter coragem de cantar, suspirando profundamente antes de mirar o teto na tentativa de esconder a vergonha. As gêmeas se posicionam próximas a ela, um pouco para trás, como segunda voz.

Oh pinheirinho de Natal

Que lindos são seus ramos

Oh pinheirinho de Natal

Que lindos são seus ramos

Suas flores nascem no verão

E no inverno elas se vão

Oh pinheirinho de Natal

Que lindos são seus ramos

Em escalas diferentes de tom, Linh finaliza só, pois Aika e Aiko, propositalmente, param de cantar, e praticamente sem melodia, porque Tamaki e os demais estão muito surpresos com o belo timbre usado. Ao final, a soprano abre um dos olhos devagar pra encarar o público e sorri tímida ao ver todos a aplaudindo. Sentindo as pernas tremerem, ela desce a escada.

– Linh-san é cantora de ópera! Incrível! – Honey sorri.

– Não é tão incrível assim. – ela devolve ainda mais constrangida.

– Não, é sim. – o francês mestiço se aproxima, sorrindo amavelmente – Eu tive chance de ir a muitos teatros e conheci cantores maravilhosos, mas a sua voz é única. E maravilhosa.

– Eu concordo. – Mori informa e o rosto de Linh ruboresce automaticamente.

– Obrigada. – a garota abaixa a cabeça, sorrindo suavemente.

– Já sabemos agora quem vamos chamar pra animar a nossa festa de aniversário, né Kaoru?

– Com certeza! – os gêmeos a cercam – Linh-chan, por que não colocou esse vestido antes?

– Ah, porque é muito abafado e eu não consigo andar direito com essa anágua! Nem sei pra quê tanto pano! Queria ter queimado essa coisa há tempos, mas Charlotte não deixou!

– Claro que não. Nenhum desconforto do mundo justificaria sua desfeita.

– Dá pra entender, porque deve ter sido caro. – Haruhi comenta o analisando.

– Não é o que eu quis dizer. Foi um presente da sua mãe.

– Mais um motivo pra jogar fora! – ela grita aborrecida, recebendo os olhares surpresos dos demais, excerto pelos próprios criados, das amigas e do irmão, e se constrangendo novamente – A música acabou então eu vou me trocar. Com licença. – a moça ergue a saia com as mãos e apressa os passos até o quarto, seguida por Suzu e Sora.

– Muito bem, voltem ao trabalho. – a chefe da criadagem dispensa os presentes.

– Não foi minha intenção aborrecê-la. Só achei que...

– Não se preocupe. – Charlotte sorri tristemente para Haruhi – Linh-bochan é arisca sobre a mãe. Não sei se tenho autoridade o suficiente para dizer isso, mas já me atrevi a falar o que pensei várias vezes pelo bem dela e do pequeno Sora, então direi... Madame Mika é muito cruel.

– A mãe dos dois?! – Kyoya pergunta retoricamente – Por quê?

– Ela é uma mulher amargurada. Na idade da filha, a senhora sofreu contenção dos pais por seu sonho de trabalhar nos palcos. Eles diziam que atrizes eram, com o perdão da palavra, vadias.

– Não imaginei que ainda existissem pessoas com essa linha de pensamento. – Kyoya ri.

– Madame Mika sempre quis ser artista, mas teve dificuldade de alcançar os musicais. Seus talentos, e principalmente sua maravilhosa voz, ajudaram nisso.

– Ela pode ser rigorosa, mas só está querendo o melhor para a filha.

– Com os métodos errados, não é Eikichi?! – Hiroki corrige o irmão – Mesmo com medo de a Linh passar pelo que ela passou, o certo seria incentiva-la!

– Agora dá pra entender porque a Linh-san se força tanto a ser perfeita em tudo. – Honey se volta a Maiko e ela concorda com pesar – Isso já faz muito tempo?

– Desde que ela sofria bullying no primário. – Aika responde – E... Ai, eu nem devia dizer...

– Mais cedo ou mais tarde a gente teria que contar isso. – Aiko suspira – Na Academia de Garotas Santa Lobelia, a Linh-chan também sofreu bullying.

– O quê?! – Maiko e as companheiras dos irmãos Aoki tomam um susto.

– Eu sabia. – Suzu de repente se aproxima e ri ao olhar os anfitriões – E pelo visto vocês não estão atrás. Já souberam disso quando coletaram informações ao nosso respeito, certo?!

– Pesquisaram sobre a gente? – as gêmeas encaram Kyoya de forma assustadora.

– Bem... Foram apenas dados por cima. – ele mexe nos óculos, tentando fugir do assunto.

– E há quanto tempo você sabia dessa história da Linh, Suzu?

– Ora Maiko, Charlotte e eu somos velhas amigas. – a senhora sorri quando a moça toca seu ombro – Além disso, quando vinha visita-la nos fins-de-semana ela estava deprimida. E vocês. – a dupla dinâmica a encara e ambas as gêmeas desviam o olhar por constrangimento – Somente não consigo entender por que esconderam isso de mim e da Maiko. Sora não precisava saber de fato, já que é muito pequeno ainda, mas nós somos suas amigas e vimos o sofrimento da Linh criança.

– Foi ela que pediu pra não dizer nada. – Aika responde – Não queria preocupar vocês.

– Daí nós cansamos daquelas sem noção nos ofendendo e tocamos o terror na escola. – Aiko ri – A diretora mereceu tomar um banho também.

– Ainda acho que teria sido mais simples marcar uma reunião com os administradores.

– Akinori, querido, a burocracia nesse caso não funcionaria. Precisaria haver suborno.

– Mina tem razão! – as gêmeas cruzam os braços, a esposa ri e ele suspira derrotado.

– Depois falamos disto. – Suzu interrompe – É melhor mudar de assunto porque a Linh está quase terminando de trocar a roupa. Charlotte, querida, que tal chocolate-quente?

– Com prazer. Com licença. – a mulher faz uma reverência e se retira para a cozinha.

– Por que não jogamos alguma coisa? – Maiko sugere para quebrar o gelo – Podemos sentar em círculo no tapete da entrada. – o grupo se acomoda – Vamos fazer o jogo do amigo secreto!

– Mas Maiko, nós compramos os presentes já faz tempo e não fizemos sorteio. – Suzu ri.

– Ah, erro meu. Vamos fazer o jogo do amigo da onça!

– Amigo da onça? – Linh de repente aparece e senta entre a loirinha e Honey – De novo? A gente faz isso todo ano. – Mai torce o nariz, fazendo alguns presentes rirem – Ok, vamos jogar!

– E que jogo é esse? – os gêmeos questionam com as sobrancelhas arqueadas.

– Funciona assim... – Aiko tosse – Pelo visto nós trouxemos mais presentes do que necessita realmente, então esse jogo propõe justamente sortearmos eles entre nós. Só é permitido escolher o presente por fora, sem olhar o conteúdo, e se depois de abrir o proprietário não quiser basta trocar com outra pessoa quando aparecer alguma coisa que queira. Mas só vale trocar duas vezes.

– E se no final eu ficar com alguma coisa que eu não queira? – Kaoru questiona.

– Aí perdeu, não tem jeito! – Aika fala como se fosse óbvio – Mas para melhorar os ânimos é só fazer uma boa ação de Natal e dar o presente para outra pessoa que não participou do jogo.

– E todos esses presentes extras na roda servem para garotas e rapazes? – Hikaru suspeita – Eu não quero pegar um desses achando que é um relógio e acabar com uma calcinha.

– A graça da brincadeira é essa. – Hiroki ri – Então eu posso começar? – ninguém interfere, então ele puxa um pacote pequeno e quadrado e começa a apertar – É macio. Parece ser um saco.

– Por que íamos colocar um saco dentro de outro? – sua namorada ri – Abre logo!

– Tá bom. – quando ele desembrulha o papel vê uma bolsinha de plástico com zíper e roupas íntimas – Não me diga que alguém descobriu que eu precisava de cuecas? – mas ao virar a bolsa o rapaz se depara com calcinhas e todos começam a rir, excerto ele.

– Eu compro algumas para você depois meu bem. – Edissa bate de leve em seu ombro.

– Culpa do Hikaru e da sua boca grande! Você tinha que falar aquilo?

– Não esquenta, é a graça da brincadeira. – ele responde e a turma volta a rir novamente.

Assim segue o jogo até chegar a hora das gêmeas escolherem o que vão pegar da pilha. Aika garante seus privilégios de irmã mais velha, por dez minutos, e é a primeira. Ela puxa um grande embrulho retangular, visivelmente o mais chamativo entre os dois últimos presentes, e Aiko pega o último. A primeira gêmea analisa as possibilidades do conteúdo antes de abrir.

– Só pode ser um par de sapatos. E considerando que boa parte de nós somos ricos deve ser um calçado muito caro. Eu julgo que pelo barulho são sapatos de couro italiano. – quando a caixa é aberta, dito e feito, lá estão duas belas botas com renda cor azul e preto – Adorável! E ainda por cima combinam com meu vestido novo! Vou precisar comprar um cinto também. Maninha, tudo bem se eu pegar emprestado aquela sua bolsa nova, certo?!

– Sua sortuda chata! – Aiko range os dentes e os demais riem enquanto ela analisa o pacote mediano fechado por uma fita vermelha – Esse deve ser o cinto que você quer. – ela puxa a fita e, para sua surpresa, não é um acessório e sim – Uma coleira? – Hikaru começa a rir.

– Era pra ser uma piada interna! – ele informa tocando a barriga e Aika gargalha também.

– Ah obrigada, eu adorei receber esse presente! – a gêmea mais nova diz sarcástica.

– Quer trocar? – Kaoru oferece sua caixinha de música verde.

– Na hora! Agradeço. – os dois levantam e vão para o meio da roda.

– Espera aí! Essa caixinha de música era a minha piada interna!

– Só era engraçado porque eu queria e você colocou no jogo de propósito, sua tirana! Agora é meu de qualquer jeito. Obrigada Kaoru. – ele sorri um pouco ruborizado e as garotas na roda se entreolham, percebendo um visível clima crescendo.

– E o que você vai fazer com essa coleira Kaoru? – seu irmão questiona, apoiando suas mãos atrás das costas – Nós não temos cachorro.

– Eu compro um depois. E por que isso aqui seria uma piada interna?

– Ia depender do humor de quem pegasse. – o gêmeo mais novo vira para o lado esquerdo.

– Mai-chan, nós podemos trocar os presentes depois do jogo terminar?

– Como vocês são irmãos eu permito uma exceção.

– Ótimo. – Kaoru dá meia volta e toma do colo de Hikaru a sua pequena luminária laranja, jogando a coleira rosa no lugar – Pronto. Vai ficar bonitinho em você.

– Ei! – ele olha para frente – Oh Aika, vá lá, troque comigo! – ela levanta e vira o calçado.

– Sinto muito querido, mas você não usa salto alto, usa? – o rapaz resmunga e todos riem.

– Então, ainda falta uma coisa para encerrar a entrega de presentes! – Maiko sai do círculo, corre na direção de uma mesa oposta à primeira, onde os embrulhos já abertos estão espalhados, e chama os demais com uma mão para a seguirem – Então... Eu demorei menos tempo para fazer as camisas extras pro Natal desse ano porque não precisei me preocupar com outras coisas. Honey-senpai e Shi-niisan chegaram aqui antes, daí eu já entreguei as deles, mas agora é a vez de vocês. – duas empregadas ali perto pegam dois presentes sobre a mesa, cada uma, e Maiko pega o último para entregar a Haruhi enquanto os demais anfitriões recebem os outros quatro – Eu espero que gostem. Eu mesma fiz. – quando eles puxam as fitas que amarram as embalagens se emocionam.

– Olha só, tem o meu nome! – Tamaki é o primeiro a comentar, sorrindo como uma criança.

– O tecido é macio. – Kyoya admira sua camisa – É linho, certo?! Você fiou e teceu sozinha? – Maiko confirma com a cabeça e ele sorri admirado – Parece ter sido feita com fios de cabelo bem lisos. Não duvido que o tecido possa ser enfiado pelo buraco de uma agulha! E a camisa está muito bonita, todas elas estão. – os demais concordam – Você merece o título de prodígio, Mai-san.

– Não sou prodígio. Apenas fiz isso porque eu quis, assim como todas as outras coisas. Nem mesmo penso se vou ganhar algum prêmio quando, por exemplo, termino uma pintura. É apenas diversão. – os gêmeos logo vestem as camisas bem quando alguns mordomos trazem as blusas das moças e se acomodam perto das empregadas, junto à parede.

– Serviu direitinho! – Kaoru comenta – Mai-chan, como sabia as nossas medidas?

– Kyoya-san me disse. – todos o encaram e o rapaz sorri maliciosamente – Ah, antes que eu me esqueça, Honey-senpai! Eu também preparei mais um presente pra você.

– Mas Mai-chan, você já me deu tanta coisa... E a camisa?

– Heim? Isso não é um presente de verdade seu bobo, é só um extra! Eu disse que ia dar um mega presente pelo doce que você me deu no primeiro dia no clube, então aqui está! – ela puxa de uma vez a toalha branca cobrindo parte da mesa e revela um banquete doce, com os mais diversos tipos de bolos, chocolates, docinhos, pirulitos e muito mais – Pedi para as garotas me ajudarem – Maiko direciona a mão as empregadas -, por isso cheguei mais cedo. Linh ajudou também.

– Bem, eu fiz mais sujeira do que ajudei mesmo, mas tudo bem.

– Veja por esse lado Linh-chan: em matéria de culinária você não é pior do que a Aika. – sua irmã mais nova ri da expressão aborrecida da duplicata.

– Por que todo mundo insiste em ficar espalhando meu fracasso na cozinha pra todos?

– Ei vocês, sem briga! – Mai as repreende querendo rir – É Natal! Vamos vestir as blusas e camisas e tirar uma foto! Uma não, tiramos várias!

– E quem vai bater? – Hikaru questiona até ouvirem um pigarro e perceberem Charlotte ao lado de Sora, acenando com uma câmera na mão – Então tá. Onde tiramos a foto?

– No sofá da sala, pode ser? – Linh sugere e rapidamente todos estão sentados.

O quarteto gêmeo se acomoda no chão, cercados pelos irmãos Aoki e as suas companheiras; Tamaki, Haruhi, Kyoya e Suzu sentam na poltrona; Honey e Maiko, um de cada lado, nos braços do móvel e Mori e Linh ficam de pé atrás do sofá. Sora ri incessantemente, contente por ver todos de cima dos ombros do “irmãozão”. Sua irmã e Charlotte sorriem diante da cena fofa.

– Muito bem, digam xis! – a senhora olha pela lente da máquina e aperta o botão.

Continua...