A Reacionária
16 O CICLO DA AURORA FALSA
Wittenberg, Alemanha — 30 de abril de 1945.
A fumaça preta que subia dos tambores de metal nas esquinas misturava-se à neblina espessa que cobria Wittenberg. Do lado de fora dos muros de pedra do quartel da infantaria, o rugido da multidão ecoava como um trovão contínuo. Centenas de operários, mulheres de xales rasgados e veteranos mutilados tomavam as avenidas em um protesto desesperado. Não havia bandeiras ou cantos de guerra; apenas cartazes improvisados de papelão exigindo o fim dos racionamentos, pão para as crianças e o cessar-fogo imediato. A dita "vitória em Berlim", propagandeada pelos alto-falantes, não passava de uma casca oca para um povo que morria de fome nas calçadas.
No pátio interno do regimento, o som ritmado de coturnos contra o paralelepípedo molhado ditava a urgência da crise. O jovem sargento Joseph Bauer, com vinte e poucos anos, o rosto marcado por cicatrizes recentes e a túnica cinza impecavelmente ajustada, perfilava duas fileiras de praças armados com fuzis Mauser e cassetetes de madeira.
— Atenção, destacamento! — a voz de Joseph ressoou firme, cortando o vento frio. — As diretrizes para o perímetro da praça central são de contenção passiva e isolamento de quadrante! Nada de disparos de advertência ou cargas de baioneta sem ordem expressa do comando de setor. Não estamos aqui para massacrar civis desarmados! Entendido?
— Sim, Sargento! — responderam os praças em uníssono, batendo os calcanhares.
A poucos passos dali, encostado sob a arcada de pedra do pavilhão de comando, o Capitão Wilhelm Goldstein observava a tropa. Suas feições aristocráticas estavam tensas, as olheiras fundas denunciando noites em claro. Ele fez um sinal discreto com a cabeça na direção de Joseph.
Joseph dispensou o pelotão e marchou em direção ao oficial.
Junto ao mastro da bandeira, dois tenentes da polícia política do regimento acompanhavam a movimentação com olhares venenosos.
— E o mandado de custódia emergencial? — o primeiro tenente murmurou entre dentes, sem tirar os olhos das costas de Wilhelm. — Berlim já despachou a ordem?
— As denúncias formais de alta traição contra o capitão Goldstein foram protocoladas na mesa da Chancelaria esta manhã — o segundo respondeu num sussurro rasteiro e satisfeito. — O despacho do tribunal sumário deve chegar antes do anoitecer. O destino dele está selado.
— Há provas materiais conclusivas de que ele repassa rotas logísticas para os subversivos da Orchestra?
— As evidências de sabotagem operacional são fartas — o oficial sorriu com escárnio. — Mas o que realmente condenou Goldstein perante a cúpula não foi apenas a cooperação com os insurgentes. Foi a audácia vergonhosa de manter aquela judia como esposa e procriar duas crianças contaminadas sob o teto de um oficial condecorado do Reich. Ele cavou a própria cova há anos.
No interior do gabinete do Capitão, Wilhelm fechou a pesada porta de carvalho e girou a chave de ferro na fechadura. O ambiente cheirava a café requentado, papelada militar e fumo de cachimbo. As cortinas grossas estavam semicerradas, deixando a sala imersa em uma penumbra protetora.
— Sargento Bauer, apresentando-se, senhor — Joseph bateu continência de pronto, assumindo a posição de sentido.
Wilhelm soltou um suspiro exausto, desabotoando o colarinho rígido da túnica:
— Descanse, Joseph. Por favor. Esqueça o protocolo por cinco minutos. Você é a única pessoa neste quartel a quem posso chamar de irmão.
Joseph relaxou a postura, aproximando-se da mesa de mogno com um olhar carregado de preocupação:
— O senhor parece exausto, capitão. Se não fosse pela sua liderança quando rompemos o cerco nos arredores de Stalingrado, meus ossos estariam enterrados na estepe russa há quatro invernos. A minha vida pertence ao senhor.
— Eles nos jogaram naquela caldeira para morrer, Joseph — Wilhelm rebateu, a voz rouca, apoiando as duas mãos sobre a mesa. — Se sobrevivemos àquela carnificina, não foi por misericórdia do Alto Comando. Foi um milagre que a sorte nos concedeu para que pudéssemos fazer algo que realmente importasse.
— E eu jamais esquecerei isso, senhor. O que está acontecendo?
Wilhelm ergueu os olhos azuis e encarou o jovem sargento com uma gravidade cortante:
— Eu preciso que você me faça uma promessa solene, Bauer. Uma promessa que vai além de qualquer juramento à farda.
— Qualquer coisa, capitão. Diga a ordem.
— O cerco fechou — Wilhelm revelou num tom baixo, quase confidencial. — Os oficiais deste destacamento estão apenas aguardando a autorização de Berlim para me prender por traição. Eles desconfiam das minhas ligações com a rede clandestina da Orchestra... e não estão errados. É essa mesma rede que mantém a minha família respirando enquanto a purga varre as províncias.
Joseph deu meio passo à frente, o semblante obscurecendo-se:
— Capitão... o senhor precisa de uma rota de fuga imediata. Eu posso mobilizar os praças leais e...
— Não! — Wilhelm cortou-o com firmeza. — Eu não vou fugir. Se eu desertar agora, o meu nome estampará um alerta vermelho em cada posto de fronteira e a Gestapo caçará o comboio de extração até a Áustria. Eu ficarei aqui para assinar as ordens de marcha, desviar as patrulhas e absorver o impacto da investigação. Mas você... você precisa ser o escudo deles.
Wilhelm contornou a mesa, parando diante do sargento e segurando seus ombros com força:
— Eu não estou lhe pedindo para abandonar o exército agora, Joseph. Mas exijo que, com cada gota do seu sangue e cada grama da sua força, você proteja a Mia, a Lena e o Stefan. Se o meu destino for o paredão deste quartel, você será o único homem na terra em quem confio para garantir que os meus filhos cresçam livres desta tirania.
Joseph sustentou o olhar do homem que salvara sua vida na lama da guerra. O peso daquele compromisso ressoou no fundo de sua alma. Sem hesitar, ele cerrou os punhos e assentiu com uma determinação inabalável:
— Eu juro pela minha própria vida, Wilhelm. Cumprirei essa missão até o meu último suspiro. Nem que para isso eu tenha que arrancar esta farda do peito, pegar em armas na clandestinidade e me juntar à Orchestra para sempre. Sua família estará segura comigo.
Wilhelm puxou o ar lentamente, sentindo o peito desarmar-se pela primeira vez em semanas. Ele puxou Joseph para um abraço curto e fraternal, batendo com a mão aberta nas costas do sargento.
— Obrigado, meu amigo. Agora vá e mantenha a disciplina no pátio. O futuro deles começa hoje.
Centro de Viena, Apartamento dos Müller — Minutos após a saída de Dieter.
O cheiro de fumaça de cigarro deixado pelos homens da Gestapo ainda impregnava as cortinas da sala de estar. Jennifer recolhia as xícaras com mãos trêmulas, enquanto Greta permanecia imóvel no canto da mesa, os nós dos dedos brancos de tanta tensão acumulada.
Uma sequência rápida e decidida de batidas na madeira quebrou o silêncio fúnebre do corredor.
Thomas moveu-se num reflexo tenso, colando o olho no visor da porta. Ao reconhecer os traços marcados e a postura larga do veterano do outro lado, destrancou o trinco com um estalo seco.
— O que você está fazendo aqui em plena luz do dia, Bauer? — Thomas perguntou num sussurro áspero, abrindo espaço estritamente necessário para que ele entrasse.
— O ateliê clandestino acabou de liberar o passe — Joseph disse, adentrando o vestíbulo enquanto retirava o sobretudo pesado e o chapéu de feltro, pendurando-os no cabideiro de mogno. Do bolso interno do paletó, ele sacou um livreto de couro azul com carimbos consulares recém-impressos. — As credenciais de trânsito da Lena estão prontas. Com isso ela cruza qualquer barreira sem levantar suspeitas.
Thomas encarou o livreto nas mãos de Joseph e soltou um riso curto, amargo e exausto:
— Chegou tarde, Joseph. A Lena já está nos trilhos a caminho da fronteira húngara neste exato segundo.
Joseph estancou. Os olhos escuros do velho sargento cravaram-se em Thomas com a força de um disparo à queima-roupa:
— Vocês perderam o juízo por completo? Colocar uma garota jurada de morte num expresso internacional sem documentação forjada? As revistas nos vagões de fronteira não deixam passar nem pensamento, Thomas! A Gestapo vai desmontar o trem peça por peça em Hegyeshalom!
— Nós não tínhamos mais a porcaria de uma margem de manobra! — Thomas rebateu, dando um passo à frente e sustentando a voz num sussurro violento para não vazar pelo vão da porta. — O cão de caça de Berlim esteve aqui dentro! Ele colocou um agente na guarita do saguão, cercou o quarteirão e revirou este apartamento de ponta-cabeça. O Schneider não está mais blefando, ele sabe que nós armamos um teatro com a Greta!
Joseph manteve a respiração compassada, mas a mandíbula permaneceu rígida como pedra. Ele guardou o passaporte falso de volta no bolso e mediu o jovem investigador com um escrutínio cirúrgico:
— E você lavou as mãos e achou que essa loucura era aceitável? Manda-la para o olho do furacão para salvar a sua própria pele?
Thomas baixou os olhos por uma fração de segundo, o peito arfando sob a camisa amarrotada. A culpa e o terror que vinha sufocando há semanas subiram-lhe à garganta:
— Não havia outra alternativa viável... O cerco está nos esmagando, Bauer. Eu não sei por quanto tempo vou conseguir segurar o meu distintivo antes que me joguem num porão de tortura e descubram que...
— Thomas! — o veterano rugiu num comando de voz seco e ríspido, como se estivesse diante de um recruta em pânico na trincheira. Greta e Jennifer levantaram o olhar com curiosidade.
O impacto da voz fez o jovem estremecer e estancar de imediato, arregalando os olhos diante da rigidez militar de Joseph.
— Perdoe-me... — Thomas balbuciou, passando a mão pelo rosto suado e engolindo o restante do desespero. — Eu perdi o controle.
Joseph aproximou-se devagar, apoiando uma das mãos pesadas no ombro de Thomas com uma frieza inabalável:
— Mantenha a cabeça no lugar, garoto. Se você sucumbir ao pânico agora, o sacrifício de todos nós terá sido em vão. Franz já está no encalço dela?
— Franz a acompanhou até a plataforma e já deve estar retornando — Thomas respondeu, a voz rouca, tentando manter um controle que há muito tempo não possuía.
— As credenciais dele abrem portas na estação, mas não têm valor algum dentro de um vagão em movimento — Joseph retrucou sem piedade, encurtando o espaço entre os dois. — E quando os fiscais da fronteira passarem conferindo as listas nominais? Como ela se defende sem papéis?
— Eu não sei, Joseph! — Thomas explodiu num sussurro exausto, desabando os ombros enquanto soltava o ar devagar. — A única coisa que nos resta agora é torcer para que ela chegue viva aos trilhos de Budapeste.
Estação Central de Viena — Naquele mesmo instante.
No interior da cabine de primeira classe, o calor do aquecedor a vapor contrastava com os primeiros flocos de neve que começavam a se desmanchar contra o vidro duplo da janela. Lena mantinha a testa encostada no painel frio, os olhos fixos na movimentação do cais.
Lá fora, sob a fuligem cinzenta, uma mulher de xale escuro observava dois filhos pequenos que corriam em círculos, rindo e chutando a neve acumulada no piso de cimento. A cena perfurou o peito de Lena com a força de um espinho antigo. Durante anos, sua infância com Stefan e seus pais parecera apenas uma sombra distante, consumida pelo trabalho forçado e pelo luto. Agora, a cada quilômetro que se aproximava de Budapeste, a promessa de reencontrar o irmão queimava em seu peito — um fio frágil de coragem que sustentava sua sanidade.
A cabine era revestida em mogno escuro e veludo verde-musgo, com duas poltronas estofadas frente a frente e uma mesa estreita de latão polido ao centro.
A porta de correr de vidro fosco foi puxada de supetão.
— Passagens e comprovantes de trânsito, por favor — a voz ríspida do condutor cortou seus pensamentos. O homem envergava um uniforme escuro de botões prateados, quepe rígido e segurava um alicate perfurador de metal cromado.
Lena permaneceu imóvel por um instante, ainda absorta na imagem da família lá fora.
O funcionário deu um passo à frente, batendo com a ponta do perfurador na moldura de madeira:
— A passagem, senhorita. Agora.
Ela voltou à realidade num solavanco, a respiração presa no peito.
— Perdão... — balbuciou, abrindo com dedos trêmulos a bolsa que Jennifer lhe entregara. Puxou o bilhete de primeira classe e o estendeu ao condutor.
O homem examinou o bilhete com frieza burocrática, aplicou a perfuração com um estalo metálico e seco, devolvendo o papel:
— Boa viagem.
A porta fechou-se novamente. Pouco depois, o apito estridente da locomotiva soou no cais, acompanhado pelo rangido pesado das engrenagens. O trem deu o primeiro solavanco, ganhando velocidade sobre os trilhos cobertos de gelo. O estômago de Lena deu um nó; ela estava finalmente fora do alcance imediato de Thomas e do refúgio que a acolhera.
Foi quando a porta da cabine correu novamente.
Uma mulher jovem, de postura aristocrática e elegância impecável, entrou no compartimento. Trajava um casaco estruturado de lã nobre cor de vinho, luvas de pelica e um chapéu adornado com uma pena escura que emoldurava traços finos e altivos. Ela acomodou uma mala de couro italiano no suporte superior e sentou-se na poltrona em frente a Lena.
Apesar do porte refinado, a recém-chegada respirava com dificuldade. Tinha a pele empalidecida e os olhos marejados, traindo uma aflição profunda que tentava disfarçar com um sorriso fraco e polido.
Lena franziu a testa, a curiosidade sobrepondo-se à cautela:
— A senhora está bem?
— Sim... perfeitamente — a mulher respondeu, retirando um lenço de linho da bolsa para secar o canto dos olhos com movimentos delicados. — Apenas o peso de uma partida repentina.
Lena assentiu em silêncio e voltou a fitar a paisagem que começava a correr do lado de fora, onde os edifícios de Viena davam lugar a planícies cinzentas e cobertas de geada.
— Perdoe a indiscrição... mas qual é o seu nome? — a mulher perguntou de repente, a voz soando quase necessitada de contato humano.
O sangue de Lena gelou. A advertência de Thomas ecoou como um alarme em sua mente: não fale com ninguém, não chame atenção.
— Por que o interesse no meu nome? — Lena rebateu com rigidez, mantendo os braços cruzados sobre o sobretudo.
A mulher suspirou, guardando o lenço:
— Desculpe. Não pretendia parecer invasiva. Acontece que estou atravessando o dia mais devastador da minha vida... e o silêncio desta cabine estava tornando tudo mais insuportável. Se preferir não conversar, eu compreendo perfeitamente.
— Prefiro não dizer — Lena respondeu, seca.
— Tudo bem. Eu respeito o seu espaço — a mulher murmurou, virando o rosto para o vidro. Passaram-se alguns minutos até que ela completasse, sem encarar Lena: — Meu pai faleceu esta madrugada. Estou a caminho de Budapeste para os funerais dele. Ele era o meu chão, a única pessoa com quem eu podia ser verdadeiramente honesta neste mundo.
A dor genuína na voz da mulher desarmou parte das defesas de Lena. A lembrança de Wilhelm tomou-lhe o peito.
— Sinto muito pela sua perda — Lena disse, o tom suavizando-se.
— Obrigada — a mulher respondeu, esboçando um sorriso triste. — É exaustivo ter que manter a compostura o tempo todo. Eu só precisava conversar com alguém que não me enxergasse através do meu sobrenome ou da minha posição.
— Como todo o resto deste país parece fazer?
— Exatamente — a mulher concordou, fitando-a com intensidade. — A propósito, não precisamos de formalidades.
Lena hesitou. A carência de conexão humana, após anos de clausura e fuga, foi mais forte do que seu instinto de preservação.
— Meu nome é Lena.
A mulher ergueu ligeiramente as sobrancelhas, percorrendo o rosto de Lena com um escrutínio rápido e avaliador, antes de sorrir de canto:
— Um belo nome. É um diminutivo de algo mais formal?
— Não. Apenas Lena. Meus pais nunca foram adeptos de títulos compridos.
— Compreensível. Pelo visto, eram pessoas com ideais próprios — a mulher comentou, recostando-se no encosto de veludo. — Está viajando para encontrá-los na Hungria?
— Eles já se foram — Lena respondeu, o olhar escurecendo. — Morreram há muito tempo.
— Lamento... presumi que estivesse a caminho de um reencontro familiar.
— De certa forma, estou. Vou me encontrar com meu irmão mais velho. É uma história longa e complexa — Lena fez uma pausa, notando que a conversa avançava sem equilíbrio. — Mas a senhora ainda não se apresentou.
— Ah, claro... onde estão minhas maneiras? — a mulher riu de forma contida, ajeitando as abas do chapéu com uma naturalidade desconcertante. — Meu nome é Sabine. Sabine Rogojinski. Se acompanha os boletins do Ministério da Propaganda, talvez já tenha ouvido falar de mim como a sucessora encarregada das diretrizes culturais de Berlim. Mas, por favor... aqui dentro, prefiro ser tratada apenas como Sabine.
O ar sumiu instantaneamente dos pulmões de Lena.
As mãos dentro dos bolsos do sobretudo começaram a tremer incontrolavelmente, e o coração disparou como se quisesse romper as costelas. Diante dela, a menos de um metro de distância na cabine trancada de um trem, não estava uma passageira comum em luto: estava uma das figuras mais poderosas e temidas da cúpula do regime. E Lena acabara de lhe entregar seu nome de nascença.
Apartamento dos Müller – minutos depois
A porta da sala permanecera trancada após a discussão áspera. Joseph Bauer caminhou até o aparador, serviu-se de uma dose rasa do conhaque barato que Thomas mantinha em uma garrafa de vidro lapidado e empurrou o outro copo na direção do anfitrião.
— Beba — ordenou Joseph, a voz soando não como um convite, mas como uma prescrição militar. — Suas mãos estão tremendo como as de um sentinela no primeiro dia de fogo.
Thomas pegou o copo, engolindo o líquido de uma vez só. O ardor desceu pela garganta, mas nada parecia capaz de queimar o nó de gelo que se instalara em seu peito desde a partida de Lena. Ele encostou-se no batente da janela, fitando a neblina que engolia as torres de Viena.
— Você fala como se carregar o destino de Lena fosse um dever natural, Bauer — murmurou Thomas, a voz rouca, sem fitá-lo. — Você mal a conhecia quando ela fugiu do complexo. Por que essa obsessão em arriscar tudo por ela? Por que esse fardo?
Joseph deu um sorriso seco, quase imperceptível, encarando o fundo âmbar do próprio copo antes de levantar os olhos escuros diretamente para a nuca de Thomas.
— Quem fala, não é garoto?
— Para mim é diferente...
— Você que pensa. Eu vi o Capitão Wilhelm erguer um homem dos mortos com as próprias mãos, garoto.
As costas de Thomas enrijeceram. Ele não se virou, mas a respiração estancou no peito.
— Dezembro de 1942 — Joseph continuou, o tom descendo para uma gravidade cavernosa, arrastada pelo eco de trincheiras distantes. — O bolsão de Stalingrado estava selado. O 6º Exército estava cercado pelo Exército Vermelho a trinta graus abaixo de zero. Nós comíamos serragem, ração de cavalo podre e a pólvora dos próprios cartuchos para enganar o estômago. Numa tarde, durante o contra-ataque de tanques russos em Gumrak, um morteiro explodiu na trincheira do meu pelotão. Meus tímpanos estouraram, a terra me soterrou até o peito e estilhaços rasgaram a minha coxa direita de ponta a ponta.
Joseph deu um passo à frente, a voz preenchendo o cômodo com uma crueza quase física:
— Ninguém resgatava ninguém naquele inferno, Thomas. As ordens expressas eram poupar munição e abandonar os feridos graves para que os vivos recuassem. Eu estava sangrando até a morte, sentindo a dormência do gelo subir pelas minhas pernas, rezando para que uma bala perdida me levasse antes que os russos chegassem com as baionetas. Mas aí a terra se mexeu. Duas mãos enluvadas me arrancaram dos escombros como se eu fosse um fardo de palha. Era Wilhelm.
Thomas apertou os nós dos dedos contra o mármore do parapeito até ficarem brancos.
— O Capitão Goldstein não tinha obrigação nenhuma de voltar — Joseph sussurrou, agora parado a um passo de Thomas. — Ele já estava no perímetro seguro da ferrovia. Mas ele rastejou de volta por quatrocentos metros sob fogo cruzado de metralhadoras Maxim. Ele me amarrou com o próprio cinto, estancou a minha artéria com um pedaço rasgado da túnica dele e me arrastou pela neve vermelha até o último vagão hospitalar que conseguiu decolar antes que a pista fosse capturada. Ele levou três estilhaços nas costas fazendo isso. Quando eu acordei num hospital de campanha em Rostov e tentei agradecer, sabe o que ele me disse?
Joseph fez uma pausa. O silêncio na sala era tão denso que o tique-taque do relógio parecia uma marreta.
— Ele disse: 'Eu tenho dois filhos, sargento. Se um dia eu tombar nesta terra sem Deus, eu quero apenas que outro homem faça por eles o que fiz por você hoje'.
Uma lágrima espessa e pesada rompeu os olhos de Thomas, descendo silenciosamente por sua bochecha. Ele cerrou os dentes com força, cobrindo o rosto com a mão direita para abafar o choro convulsivo que ameaçava romper sua garganta. Os ombros tremiam.
Joseph apoiou uma mão pesada e áspera sobre o ombro do rapaz, apertando-o com firmeza:
— Eu não vou deixar que nada aconteça com aquela garota, rapaz. E o mesmo vale para você.
Do outro lado do corredor, na cozinha estreita e iluminada apenas por uma lâmpada amarelada de filamento, o vapor da chaleira chiava baixinho sobre o fogão esmaltado.
Jennifer despejou água fervente sobre a erva de hortelã em duas canecas de louça, as mãos inquietas traindo a tempestade que a consumia por dentro. Greta mantinha-se sentada à mesa de fórmica, os cotovelos apoiados e os olhos atentos, observando a anfitriã como quem estuda a estrutura de uma ponte prestes a ceder.
— Ele não vai perdoar a si mesmo se algo acontecer àquela garota — Jennifer soltou de repente, a voz saindo como uma confissão que ardera tempo demais atrás dos dentes.
Greta aceitou a caneca que lhe foi estendida, fitando o vapor que subia:
— É natural. Há uma dívida de sangue envolvida nessa fuga, senhora Müller.
— Não é só isso, Greta... Você não entende — Jennifer virou-se, apoiando as costas na pia, os braços cruzados num abraço apertado ao próprio peito, os olhos marejados de uma mágoa contida e amarga. — O Thomas vive em um universo que eu não consigo alcançar. Quando nos casamos, eu achava que ele era apenas um homem discreto, um profissional dedicado da polícia que chegava em casa cansado e precisava de café quente e silêncio. Mas a verdade é que ele nunca esteve inteiramente nesta casa.
— Viver na clandestinidade exige um isolamento cruel — Greta pontuou com suavidade.
— Não é a clandestinidade! É a alma dele! — Jennifer desabafou, o tom oscilando entre a revolta e a tristeza profunda. — O Thomas opera em uma estratosfera moral e intelectual que me faz sentir minúscula. Cada olhar dele parece carregar o peso da Europa inteira, cada decisão dele é sobre vida e morte, sobre grandes ideais e sacrifícios supremos... E onde eu fico nisso tudo? Eu sou a mulher que arruma a cama e conta os trocados para o mercado. Ao lado de pessoas como a Lena, que sobreviveu ao inferno com aquela coragem silenciosa, ou ao lado dos fantasmas que ele persegue... eu me sinto descartável. Uma espectadora medíocre na tragédia gloriosa do meu próprio marido.
Greta deu um gole lento no chá, encarando a dona da casa com um olhar despido de complacência:
— Uma tragédia gloriosa só parece bonita quando você sobrevive para contá-la, Jennifer. Eu vi homens com esse mesmo 'nível moral' terminarem pendurados em ganchos de açougue nos porões da Gestapo. Eles não são deuses. São homens quebrados que só sabem andar para a frente porque, se pararem para olhar para trás, enlouquecem com a quantidade de cadáveres. O que Thomas tem por você não é desprezo por estar abaixo. É o desespero de manter você limpa da sujeira que consome a alma dele. Não inveje a dor de quem está no fogo.
Jennifer engoliu em seco, encarando a mulher loira que ocupara o lugar de Lena. O silêncio voltou a reinar entre as duas, quebrado apenas pelo gotejar ritmado da torneira sobre a cuba de ferro.
Trilhos para Budapeste – horas depois
A noite desabara sobre os campos da Europa Central como um manto negro e congelante. Do lado de fora do trem expresso, a nevasca rugia furiosa contra as chapas de aço, embaçando os vidros duplos com grossas camadas de gelo.
Dentro da cabine privativa de primeira classe, Sabine Rogojinski finalmente sucumbira à exaustão física e ao luto. A mulher do Ministério da Propaganda dormia profundamente, a cabeça repousada sobre uma almofada de veludo encostada na janela, o casaco cor de vinho cobrindo-lhe o corpo, a respiração pesada e compassada.
Lena Goldstein permaneceu imóvel por mais vinte minutos, testando a profundidade daquele sono com o bater suave dos sapatos no tapete. Sabine nem sequer piscou.
O terror da revelação ainda pulsava como ácido no cérebro de Lena: ela entregara seu verdadeiro nome à sucessora ideológica de Goebbels. Ficar trancada naquela cabine até o amanhecer era uma sentença de morte calculada em marcha lenta. Assim que a mulher despertasse e ligasse o nome e aparência dela às listas de busca que circulavam em Berlim, o trem seria parado no primeiro posto militar e ela seria arrastada para os trilhos.
Com movimentos cirúrgicos, Lena levantou-se. Apanhou sua bolsa tiracolo com cuidado para que as fivelas de metal não tilintassem, contornou a mesinha e deslizou a porta de vidro fosco milímetro a milímetro. Escorregou para o corredor acarpetado e fechou a porta atrás de si, soltando o ar que prendera no peito.
O corredor do vagão-leito estava fracamente iluminado por arandelas amareladas que balançavam com o sacolejo do trem. O rangido metálico das engrenagens criava um ruído constante e opressor.
Lena ajustou o sobretudo preto e começou a caminhar na direção contrária, pretendendo misturar-se aos passageiros das classes inferiores nos vagões comuns. Mas, ao virar a esquina estreita que dava acesso ao fole de transição entre os comboios, estancou abruptamente.
Surgindo da fresta escura do outro vagão, uma silhueta imponente avançava: um soldado da Gestapo em serviço de escolta, portando a braçadeira vermelha com a suástica, coldre rígido no cinto e uma prancheta de metal sob o braço.
Lena virou as costas num reflexo instantâneo, tentando fingir que apenas procurava o toalete daquele setor.
— Ei! A senhora! — a voz áspera do soldado cortou o ruído do trem como uma chibata. — Pare onde está!
Lena congelou os passos, o coração batendo na garganta. Respirou fundo uma vez, compôs a postura e virou-se devagar, forçando uma expressão de estranhamento polido:
— Algum problema, guarda?
O soldado aproximou-se a passos pesados. Era um homem de queixo quadrado, olhar predatório e dentes manchados de fumo. Ele a mediu de cima a baixo, os olhos detendo-se no casaco escuro e na ausência de qualquer broche ou insígnia formal:
— O trânsito nos corredores da primeira classe está suspenso durante a ronda noturna. Documento de identificação e salvo-conduto de trânsito, por favor.
— Eu estava apenas buscando um pouco de ar fresco — ela respondeu, a voz perigosamente firme, sustentando o olhar. — Minhas credenciais ficaram na cabine com a minha bagagem. Se me der licença, irei buscá-las imediatamente.
Ela deu meio passo para trás, preparando o corpo para o retorno.
— Não tão rápido — o guarda deu um passo largo, a mão direita descendo com naturalidade para a coronha da pistola no coldre, a prancheta de metal batendo contra a sua coxa. — Ninguém circula desacompanhado sem credenciais neste trem. Você vai comigo até o posto do condutor para checagem da lista nominal.
O guarda estendeu o braço para agarrar o pulso enluvado de Lena.
O instinto de fuga falou mais alto do que qualquer cálculo. Lena puxou o braço para trás com um solavanco violento, girou nos calcanhares e disparou pelo corredor acarpetado em direção ao vagão-restaurante, os passos ecoando sobre o assoalho de madeira.
— Pare! Parada! — o soldado berrou, o som das botas pesadas iniciando a perseguição imediata logo atrás dela.
O terror cego injetou adrenalina nos músculos de Lena. O corredor parecia um túnel interminável que balançava com a velocidade do trem. Ela alcançou a pesada porta sanfonada de metal entre os vagões, puxou a maçaneta com as duas mãos e atravessou o espaço entre as composições, onde o vento gelado e a neve cortante chicotearam seu rosto como agulhas de vidro.
Atrás dela, a porta bateu com violência quando o soldado a escancarou:
— Sentinela! Parem essa mulher!
Lena arrombou a porta de entrada do vagão-restaurante com o ombro. O salão estava quase vazio àquela hora da madrugada, exceto por dois garçons recolhendo toalhas e, em uma mesa de canto, um oficial de alta patente da Polícia de Fronteiras da Baviera, saboreando um conhaque enquanto lia relatórios.
O guarda da Gestapo irrompeu no salão segundos depois, estendendo a mão para agarrar a gola do casaco de Lena:
— Peguei você, sua cadela subversiva...!
Antes que os dedos de couro a tocassem, Lena projetou o próprio corpo contra a mesa do oficial da Baviera. O copo de cristal tombou, espalhando conhaque sobre os papéis do oficial, e Lena caiu de joelhos ao lado da cadeira dele, agarrando a manga da túnica do veterano, em prantos histéricos, com uma aflição desmedida estampada no rosto:
— Pelo amor de Deus, senhor! Me proteja! — ela gritou, a voz ecoando por todo o vagão, trêmula e aos soluços. — Esse homem... esse animal me seguiu desde a minha cabine! Ele tentou me puxar para o compartimento de bagagens, me apalpou à força e disse que se eu gritasse diria que sou uma espiã! Por favor, meu senhor, não deixe ele me tocar!
O oficial bávaro levantou-se num ímpeto de fúria marcial, empurrando a cadeira para trás. Ele encarou o soldado da Gestapo que ainda avançava com a mão estendida e a respiração arfante.
— Abaixe essa mão imunda imediatamente, soldado! — o oficial rugiu, a voz de trovão fazendo as taças no balcão vibrarem. — Quem pensa que é para perseguir e violentar uma passageira de primeira classe sob a minha jurisdição?!
O soldado estancou, os olhos arregalados, a prancheta caindo no chão:
— Senhor... não é nada disso! Essa mulher não tem documentos, ela fugiu da minha abordagem e...
— Cale a maldita boca! — o bávaro deu um passo à frente, cruzando o peito condecorado diante de Lena, que continuava encolhida no chão, soluçando convulsivamente. — Vocês, cães da Gestapo, acham que o uniforme do partido lhes dá o direito de assediar damas desacompanhadas nos comboios do Reich?! Eu vi você avançar sobre ela com as mãos abertas!
— Major, o senhor não compreende, a lista de busca...
— Eu disse fora daqui! — o homem apontou o dedo indicador para a porta de metal com uma ferocidade que não admitia réplica. — Se você der mais um passo em direção a esta senhora, eu mesmo enfio uma bala no meio da sua testa por conduta desonrosa em zona de trânsito e apresento o seu cadáver ao comandante do regimento em Budapeste! Retire-se agora para o seu posto!
O soldado da Gestapo empalideceu. Olhou para o oficial condecorado, olhou para Lena — que escondia o rosto entre as mãos, trêmula —, percebeu que não venceria aquela disputa de patentes e bateu os calcanhares num cumprimento humilhado e ríspido. Girou sobre si mesmo e bateu em retirada, cruzando a porta com passos apressados.
O oficial bávaro abaixou-se, oferecendo a mão enluvada com uma cortesia paternal para ajudar Lena a se erguer:
— Está tudo bem agora, senhorita. Aquele cão não se aproximará mais de você. Venha, vou ordenar que o condutor tranque a sua cabine pelo lado de fora para a sua segurança até o desembarque.
Lena aceitou a mão do homem, as pernas ainda tremendo sob o impacto da fuga, murmurando agradecimentos entre lágrimas que agora eram de puro alívio. Ela ganhara a noite.
Arredores de Viena — Alvorada do dia seguinte.
A luz fraca e cinzenta do amanhecer filtrava-se por entre as vigas podres do mezanino do galpão de carga da antiga serraria. O som de correntes arrastadas e o estalo metálico de uma chave pesada girando na tranca romperam o silêncio fúnebre do confinamento.
A porta de tábuas grossas foi empurrada para o lado, rangendo nos gonzos enferrujados.
No interior da cela, Heinrike Weber ergueu o rosto devagar. Estava sentada sobre o catre de palha, com os cabelos desgrenhados e as roupas manchadas de fuligem, mas os olhos castanhos ainda guardavam a mesma fagulha de ódio e ressentimento.
Joseph Bauer permaneceu no vão da porta. Não trazia a bandeja de comida, nem a navalha de combate. As mãos descansavam nos bolsos do sobretudo de lã escura. Ele deu meio passo para trás, apontando o queixo na direção do corredor livre que descia para o pátio:
— Pode ir, senhora Weber. Está livre.
Heinrike não se mexeu de imediato. Piscou várias vezes contra a luz do corredor, desconfiada, buscando o truque, a armadilha ou a execução sumária que esperava desde o primeiro dia.
— O que disse? — ela sussurrou, a voz seca.
— A senhora ouviu perfeitamente — Joseph respondeu, o tom plano e desprovido de qualquer inflexão emocional. — O inquérito sobre as fábricas mudou de mãos e os nossos interesses táticos já não dependem da sua permanência aqui. O portão dos fundos está aberto e a estrada para Baden está desobstruída.
Heinrike colocou-se de pé com lentidão, as articulações estalando pelo frio da madrugada. Ela ajeitou as dobras do vestido amassado, ergueu o queixo numa última demonstração de dignidade aristocrática e caminhou até a saída.
Ao cruzar o batente, ela parou a centímetros de Joseph. Olhou-o fixamente nos olhos — um escrutínio longo, pesado, carregado de todo o desprezo que cultivara pelos homens da Orchestra, mas também de uma mudez atônita por estar saindo dali com a própria garganta intacta.
Joseph sustentou o olhar sem qualquer afetação.
Heinrike não disse uma única palavra. Deu as costas ao veterano, desceu os degraus de madeira da escadaria e cruzou o pátio da serraria a passos firmes, sem olhar uma única vez para trás, engolida pela névoa da floresta que cercava os arredores de Viena.
Budapeste – naquela manhã
O rangido agudo e prolongado das sapatas de freio contra as rodas de aço sacudiu a composição, arrancando Lena de um sono leve e entrecortado por pesadelos.
Ela abriu os olhos devagar. A luz pálida da manhã inundava a cabine através do vidro agora limpo da neve.
Sentada à sua frente, Sabine Rogojinski já estava completamente desperta e arrumada. Vestia o chapéu impecável, retocara o pó-de-arroz no rosto e ajeitava as luvas de pelica nas mãos com a precisão geométrica de uma autoridade de estado. Não havia mais vestígios das lágrimas da noite anterior; a máscara de controle do Ministério da Propaganda estava perfeitamente restaurada.
— Bom dia, Lena — Sabine saudou com um sorriso educado e formal, sua voz soando cristalina na cabine aquecida. — Espero que tenha conseguido descansar apesar do balanceio dos trilhos.
Lena sentou-se ereta, passando a mão pelos cabelos para ajeitá-los, mantendo o coração sob rédeas curtas:
— Bom dia, senhora Rogojinski. Sim, consegui.
Do lado de fora, a arquitetura imponente e os arcos monumentais da Estação Keleti de Budapeste deslizavam lentamente pela janela. Os apitos dos fiscais húngaros e o vozerio da multidão já ecoavam na plataforma úmida. O trem finalmente dera o último tranco e parou.
Sabine levantou-se, pegou sua elegante mala de couro italiano e deu dois passos até a porta de correr. Antes de puxar o trinco, virou-se mais uma vez para Lena, inclinando a cabeça com uma polidez distante:
— Espero sinceramente que encontre o seu irmão nesta cidade, Lena. E que o destino dele seja mais pacífico do que o deste continente. Adeus.
— Adeus, Sabine — Lena respondeu num fio de voz.
A mulher deslizou a porta e desapareceu no fluxo de passageiros da primeira classe.
Lena esperou que o corredor esvaziasse, apanhou sua mala humilde e a bolsa com o dinheiro que Thomas e Jennifer lhe deram e desceu os degraus de ferro do vagão.
Ao pisar no concreto cinzento da plataforma de Budapeste, uma rajada de vento frio e cortante vinda do Rio Danúbio atingiu seu rosto. Ela parou por um segundo, respirando o ar de um novo país. Viena ficara para trás. As Indústrias Weber ficavam para trás. O nome do irmão queimava em seu bolso no bilhete amarrotado deixado por Thomas. Ela dera o primeiro passo em terra estrangeira, a caçada continuava, mas a distância entre ela e a única família que lhe restara no mundo acabara de ser reduzida a um punhado de quarteirões.
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