A Reacionária

19 A RUÍNA DA GRAÇA



Viena, Subsolo da Antiga Cervejaria de Ottakring — 9 de maio de 1945.

O ar cheirava a malte podre, cal úmida e fumo áspero de cigarro sem filtro.

Stefan Goldstein desceu o último degrau de concreto escorregadio amparado por um homem de porte forte e postura militar que não dissera uma única palavra durante todo o perigo do trajeto desde os arredores de Wittenberg. O garoto de doze anos usava um casaco de lã grosseira, três números maior que o seu corpo franzino, com as mangas dobradas até os nós dos dedos ainda manchados pelo ferro seco do sangue de uma bofetada que levara de um dos guardas da Gestapo. A têmpora esquerda ostentava uma crosta escura onde a coronhada abrira a pele; seus lábios estavam gretados pelo frio, e a poeira das estradas secundárias cobria seus cabelos como cinza fúnebre.

Ao final do corredor de tijolos curvos, uma pesada porta de ferro reforçada por travessas de carvalho foi aberta por dentro.

O salão subterrâneo era vasto, sustentado por arcos romanos de pedra escura. Mesas compridas de cavalete estavam repletas de mapas militares da província, peças de rádio transmissor desmontadas e pilhas de passaportes em branco com as capas desbotadas do antigo governo austríaco. Homens e mulheres de feições duras, armados com carabinas russas e pistolas automáticas capturadas, moviam-se em silêncio disciplinado.

Junto a uma mesa lateral, sob a luz amarelada de uma lamparina a carbureto, um homem de ombros largos, usando o uniforme cinza do Exército com as insígnias do regimento de infantaria arrancadas do colarinho, ergueu o rosto.

Era Joseph Bauer. As faixas de gaze branca sob a túnica ainda sangravam na altura da coxa direita — a marca indelével de um resgate feito às pressas —, mas seus olhos escuros brilharam com uma fagulha de alívio selvagem ao ver o menino cruzar a soleira.

— Stefan... — Joseph deu dois passos mancando, ajoelhando-se diante do garoto e segurando seus ombros com mãos pesadas e trêmulas. — Pelos cravos de Cristo, você está inteiro.

O garoto não chorou. Não havia lágrimas naqueles olhos castanhos; apenas uma fixidez assustadora, a rigidez de um animal que fora arrancado da própria toca no meio de uma tempestade de fogo. Ele olhou para o rosto marcado do sargento, o homem a quem o pai salvara na neve russa anos atrás e que tinha uma dívida de sangue com a sua família:

— Sargento Bauer... A minha casa. Eles atiraram no papai e na mamãe no pátio dos fundos. Eu ouvi os tiros. Meus pais, sargento... estão mortos.

Joseph baixou a cabeça por uma fração de segundo, a mandíbula travada com tanta força que os tendões do pescoço saltaram. Ele fechou os olhos, respirou o ar sulfuroso do porão e abraçou o menino com uma força desesperada:

— Eu sinto muito, garoto... Eu sinto tanto. Nós tentamos interceptar a ordem antes que ela saísse da Chancelaria, mas o destacamento da Gestapo de Wittenberg operou sob ordens diretas de Berlim.

Ao lado deles, o homem que trouxera Stefan ergueu as mãos enluvadas até a cabeça e puxou a balaclava de lã preta para cima, revelando seus traços marcados, o cabelo cortado rente e a expressão de quem carregava o peso de cem decisões difíceis. Era Friedrich Weizsäcker. Naquele ano, longe da liderança estratégica suprema que viria a exercer, ele ainda operava no campo de batalha, linha de frente da resistência.

Ele limpou a fuligem do rosto com o dorso da luva e encarou Bauer com uma severidade austera.

Stefan desvencilhou-se do abraço de Joseph devagar. Seus braços caíram ao lado do corpo, e ele encarou o sargento com uma urgência cortante, as palavras atropelando-se na garganta:

— Mas a Lena ainda está lá, Bauer! A Lena não foi levada pelos caminhões! Ela está escondida no vão da despensa, debaixo da saca de batatas vazia! Eu disse para ela não sair até eu bater três vezes na madeira! Nós temos que voltar agora! Peguem as armas, peguem o carro... Nós precisamos tirar a minha irmã de lá.

Friedrich deu um passo à frente, ajustando a gola da jaqueta de caça de couro marrom surrado. Ele olhou para a fragilidade física daquela criança com uma gravidade impiedosa.

— Não há caminhões voltando para Wittenberg, garoto — Friedrich declarou, a voz grave e firme ressoando pela abóbada de pedra.

Stefan virou-se para ele, o queixo erguido em puro desafio:

— Quem é o senhor?! Você não manda no Bauer! O meu pai era o Capitão Goldstein! Ele comandava o destacamento de infantaria!

— O seu pai está morto, garoto — Friedrich respondeu, sem elevar o tom, a verdade nua desabando como uma laje sobre o menino. — E você só está respirando o ar deste porão porque eu e três dos meus melhores homens arriscamos a própria pele e detonamos uma mina militar na rodovia para arrancar você daquele camburão antes que o levassem para a Polônia.

— Então voltem pela Lena! — Stefan deu um passo à frente, agarrando a manga de couro de Friedrich com as mãos ossudas, o desespero rompendo a armadura juvenil em um grito rouco: — Ela tem só seis anos! Ela tem medo do escuro! Ela está com fome debaixo daquelas tábuas! Vocês têm homens armados aqui! O Bauer nos prometeu que iria nos proteger. Todos nós! O meu pai disse que a Orchestra protegeria a nossa família!

Joseph levantou-se com dificuldade, apoiando a mão na mesa para não desabar sobre a perna ferida:

— Friedrich... nós podemos enviar uma equipe leve de reconhecimento. Dois homens em uma motocicleta com documentos falsos da intendência...

— Cale a boca, Bauer — Friedrich cortou-o com um olhar de gelo. — O perímetro de Wittenberg foi declarado zona de contenção militar absoluta esta manhã. Há dois regimentos da SS montando barreiras com arame farpado em todas as vias de acesso. A casa dos Goldstein foi confiscada pelo patrimônio do Estado. Se colocarmos um pé naquele quadrante agora, perderemos a célula inteira por causa de uma criança que provavelmente já foi encontrada e levada pelos serviços de triagem municipal.

Stefan arregalou os olhos. A recusa bateu em seu peito com a violência de uma segunda execução. Ele olhou para Joseph, buscando o herói que sobrevivera a Stalingrado, buscando o homem que o pai resgatara da morte:

— Bauer... Por favor. Você me disse uma vez que cuidaria de nós quando o papai estivesse fora. Você jurou que protegeria a gente.

Joseph sustentou o olhar do menino. As lágrimas finalmente brotaram nos olhos escuros do veterano de guerra, descendo silenciosas pelas marcas de pólvora de seu rosto. Ele deu meio passo à frente, ergueu as mãos abertas e baixou a cabeça, a voz quebrando em um fio miserável de impotência:

— Eu sinto muito, Stefan... Eu sinto tanto. Eu não posso. Não há como chegar até ela.

O silêncio desabou sobre as catacumbas de Ottakring.

Stefan recuou dois passos. Suas mãos soltaram o casaco de couro de Friedrich. Ele olhou para as armas nas mesas, olhou para os mapas, olhou para os homens adultos que sussurravam sobre revolução e percebeu a monstruosidade daquele mundo: ninguém viria. Ninguém salvaria a menina no escuro. A promessa que ele deixara cravada nas tábuas do assoalho apodreceria na cal de Wittenberg junto com o sangue de seus pais.

Algo estalou e quebrou irremediavelmente dentro do peito do garoto de doze anos. Uma sombra fria, densa e definitiva desceu sobre suas feições, apagando o restante da infância como quem sopra uma vela curta. Ele não gritou mais. Não suplicou. Ele apenas ergueu o queixo, cravou os olhos secos na escuridão dos arcos de pedra e permitiu que a cinza daquela guerra construísse a carcaça de um homem que jamais voltaria a confiar na luz do dia.

— Se vocês não podem fazer nada, então eu vou.

Stefan deu dois passos em direção à saída, mas a mão enluvada de Friedrich fechou-se como um grilhão de ferro sobre o seu ombro, travando o garoto no lugar com uma força esmagadora.

— Solte-me! — Stefan se contorceu, desferindo um soco inútil contra o peito de couro de Friedrich. — Me solta!

— Olhe para mim, garoto — Friedrich ordenou, mantendo a voz num tom baixo, frio e inabalável, sem soltar o ombro do menino. — Se você der dez passos fora deste porão, o primeiro patrulheiro na esquina vai te arrastar pelo pescoço. Se tentar chegar a Wittenberg sozinho, estará morto antes do anoitecer. É isso o que você quer? Morrer na calçada para que sua irmã nunca seja encontrada?

Stefan parou de se debater, a respiração ruidosa e descontrolada. Ele cravou os olhos lacrimejantes de ódio nas feições marcadas de Friedrich, tremendo de fúria:

— Eu prometi ao meu pai que protegeria a Lena. — a voz do menino falhou, rasgando a garganta. — E eu não vou falhar com essa promessa.

— E para cumprir a promessa você precisa estar vivo — Friedrich respondeu sem piscar, encarando o garoto com uma gravidade implacável. — Mas escute com atenção: se você for agora, desarmado, ignorante e movido pelo desespero, não terá chance alguma. Você será apenas mais uma carcaça na vala comum.

Friedrich inclinou-se ligeiramente, aproximando o rosto do de Stefan para que cada palavra ficasse gravada na memória do menino:

— Mas se você ficar... nós vamos te ensinar a andar entre eles sem ser visto. Vamos te ensinar a atirar, a mentir, a forjar documentos e a usar a farda deles contra eles mesmos. Nós vamos te treinar e te infiltrar no coração do sistema. Se quer resgatar a sua irmã e destruir quem destruiu a sua casa, Stefan, você precisará deixar de ser uma vítima e se tornar uma arma.

O silêncio voltou a pesar sobre o porão de Ottakring.

Stefan sustentou o olhar do homem que acabara de salvar sua vida e, ao mesmo tempo, destruíra suas ilusões infantis. A raiva em seus olhos não desapareceu, mas metamorfoseou-se em algo mais denso e calculista. O garoto parou de resistir ao toque de Friedrich, engoliu o nó na garganta e assentiu devagar, selando ali o seu destino com a resistência.

Apartamento dos Müller, Centro de Viena — 1963. Presente.

O relógio de carvalho da sala bateu as oito badaladas da manhã, mas o som parecia abafado pela tempestade que se instalara no centro do cômodo.

Lena Goldstein permanecia de pé, a dois passos da soleira da porta aberta. O sobretudo de lã preta gotejava água da chuva sobre o piso de taco polido, desenhando um pequeno círculo escuro ao redor de suas botas desgastadas. Suas mãos tremiam levemente, não pelo frio que trouxera da viagem noturna na caçamba de carvão, mas pela raiva vulcânica que fazia seu peito arfar sob o tecido grosso do casaco.

Na mão direita, ela erguia a carta lacrada com cera vermelha — o papel amarelado agora amassado pela força de seus dedos.

Thomas Müller não se levantou da poltrona de veludo verde.

Ele permanecia jogado contra o espaldar, o corpo desleixado, a camisa de linho desabotoada até a metade do peito, revelando a pele pálida e tensa. Na mão direita, descansava o copo baixo de conhaque, com dois dedos de um líquido escuro e morno; a garrafa sobre a mesa de centro estava quase vazia. Seus cabelos estavam desgrenhados pela noite maldormida no sofá, e olheiras arroxeadas emolduravam seus olhos, conferindo-lhe a aparência de um homem que acabara de sobreviver ao próprio sepultamento.

Ao redor dele, o apartamento ecoava o vazio deixado pela partida definitiva de Jennifer: a aliança de ouro ainda brilhava solitária sobre o aparador de mogno; os cinzeiros transbordavam; o ar estava impregnado de álcool barato e ausência.

— Como você pôde, Thomas? — a voz de Lena cortou a sala, não como um grito histérico, mas como um sussurro afiado, carregado de uma indignação que tremia em cada sílaba. — Como você teve a coragem de olhar nos meus olhos nesta mesma sala, fingir que era meu protetor, servir-me café e me colocar em um trem para Budapeste sob a promessa de que eu encontraria o meu irmão no final da linha vivo?

Thomas não se moveu. Ele levou o copo de conhaque aos lábios devagar, deu um gole curto, sentindo o ardor descer pela garganta sem apagar a dor que lhe corroía as têmporas, e pousou o vidro sobre a mesa de centro com um baque surdo.

Ele respirou fundo pelo nariz, fitando o tapete entre as botas de Lena. Manteve-se em silêncio. Uma mudez de pedra, inquebrável, exasperante.

A apatia dele agiu como querosene nas chamas da jovem. Lena deu dois passos largos à frente, invadindo o espaço da sala até parar a um palmo da mesinha de centro, projetando o corpo sobre ele:

— Responda! — ela explodiu, a voz ecoando pelas paredes do apartamento 503. — Você sabia o tempo todo! Você sabia que o Stefan nunca colocaria os pés naquela estação! Você combinou com aquela idosa nas catacumbas para que ela me entregasse uma carta de despedida! Você montou um teatro para me descartar do outro lado da fronteira como se eu fosse um pacote que precisava ser despachado antes que a Gestapo batesse na sua porta!

Thomas fechou os olhos por um segundo. A mandíbula travou-se sob a pele tensa, mas ele continuou imóvel, os braços repousados nos braços da poltrona, recusando-se a sustentar a inquisição da mulher à sua frente.

— Você não tem vergonha?! — Lena atirou a carta amassada contra o peito dele. As folhas bateram na camisa desabotoada de Thomas e caíram sobre o seu colo. — Eu passei dezoito anos trancada em uma fazenda de trabalho forçado, apanhando dos capatazes do Andreas Weber, comendo restos de sopa azeda, sustentada por uma única certeza: a de que o meu irmão estava vivo e viria me buscar! E você... você me roubou até mesmo o direito de chorar sobre o túmulo dele no momento certo! Quem é você para decidir quando a minha esperança deve morrer?

Thomas continuou em silêncio. Seus dedos envolveram novamente o copo de conhaque, os nós dos dedos empalidecendo pela pressão, enquanto o peito de Lena subia e descia em uma respiração entrecortada pelo pranto que ameaçava transbordar.

Antiga Livraria Central, Porão Comercial — Naquela mesma hora.

A claridade cinzenta do amanhecer filtrava-se com dificuldade pelas frestas do assoalho superior, iluminando a poeira densa que dançava sobre os milhares de livros empoeirados empilhados até o teto abobadado.

Heinrike Weber abriu os olhos devagar. Seu corpo inteiro doía; as costelas pareciam moídas pela rigidez do colchão de palha sobre o qual passara a noite, enrolada em um cobertor militar que cheirava a naftalina e mofo de caserna.

O som de vozes masculinas, baixas e ásperas, chamou sua atenção.

A dez metros dali, junto a uma mesa de madeira iluminada por uma lamparina a óleo, Franz Krüger e Joseph Bauer conversavam em sussurros tensos. Joseph apoiava o peso do corpo na perna esquerda, apontando com o dedo indicador para uma planta cartográfica da ferrovia ocidental:

— A patrulha da alfândega reforçou a guarnição em Sankt Pölten — Bauer murmurava, a voz rouca de quem passara a madrugada acordado. — A Gestapo está parando até caminhões de transporte de leite. Se colocarmos a viúva em um transporte comercial agora, ela será interceptada antes de cruzar o Danúbio.

— Ela não pode permanecer aqui, Joseph — Franz respondeu com frieza pragmática, limpando os óculos de leitura com uma flanela. — O cerco sobre o distrito de Grinzing estourou ontem com a prisão do Schulz. O cão de Berlim, Schneider, está farejando cada palmo da cidade. Se a polícia política descobrir este depósito antes de evacuarmos o material de imprensa clandestina, perderemos todo o arquivo da província. A mulher é um peso morto.

Heinrike sentou-se no catre com cuidado. O veneno da humilhação queimou em suas entranhas. Um peso morto. Ela, que comandara banquetes para ministros de estado e decidira o destino de centenas de trabalhadores nas indústrias do marido, estava sendo discutida como um fardo descartável por dois homens maltrapilhos da clandestinidade.

Com movimentos lentos, ela colocou os pés no chão de tábuas. Calçou os sapatos partidos, levantou-se e deu três passos em direção à porta lateral dos fundos — uma saída de serviço que dava para um beco estreito de descarga de papel.

— Eu não daria mais um passo em direção àquela fechadura se prezasse pela integridade do seu pescoço, senhora Weber — a voz de Joseph Bauer ressoou pelo porão, sem que ele sequer virasse a cabeça em sua direção.

Heinrike paralisou com a mão a centímetros do trinco de ferro. Ela girou nos calcanhares, os olhos faiscando com um desespero aristocrático:

— Eu não sou prisioneira desta seita de assassinos! Vocês me tiraram da serraria dizendo que eu estava livre, depois você me arrastou para dentro deste buraco de ratos! Eu quero sair! Eu tenho propriedades na Baviera, tenho contas em bancos neutros na Suíça! Eu posso comprar a minha passagem para fora deste continente sem precisar da caridade da sua corja!

Joseph virou-se devagar, apoiando a mão na coronha da pistola no cinto. Seus olhos castanhos percorreram a figura devastada da mulher com uma compaixão austera que a irritou mais do que qualquer insulto:

— A senhora não compreendeu a sua própria situação, senhora Weber. As suas propriedades na Baviera foram bloqueadas pelo Ministério do Armamento sob intervenção emergencial. O seu nome encabeça a lista de pessoas procuradas por deserção de bens estratégicos. Se a senhora cruzar aquela porta e colocar os seus sapatos caros na calçada da Herrengasse, não durará cinco minutos. A Gestapo não vai levá-la para um hotel; vai levá-la para uma prisão, onde o Major Hormählen fará a senhora assinar uma confissão de alta traição antes de mandá-la para a forca para encobrir a própria negligência na segurança das fábricas.

Heinrike engoliu em seco, as costas batendo contra a madeira da porta.

— Você não tem para onde ir, senhora Weber — Franz completou, sem tirar os olhos do mapa. — O seu mundo dourado morreu junto com o seu marido naquela casa. A única coisa que separa a sua carcaça de uma vala comum é a paciência da Orchestra. Sente-se e tome o seu chá. Quando a nossa rota estiver limpa, nós decidiremos o que fazer com você.

Heinrike olhou para a maçaneta fria, depois olhou para a penumbra do porão. Suas pernas vacilaram, e ela deslizou devagar pelas tábuas da porta até sentar-se no chão de poeira, abraçando os próprios joelhos em uma mudez derrotada.

Residência da Família Schulz, Bairro de Grinzing — Naquela mesma manhã.

O som da faca de prata cortando a casca grossa do pão de centeio era o único ruído na espaçosa sala de jantar da família Schulz.

A luz pálida da manhã de outono entrava pelas janelas altas de vidro bisotado, iluminando o pó que flutuava no ar e a prataria polida sobre a toalha de linho impecavelmente engomada. A mesa estava posta com manteiga fresca, compota de ameixa e uma cafeteira de porcelana soltando vapor aromático — o retrato imutável da prosperidade burguesa austríaca que sobrevivera a todas as guerras sacrificando a própria decência.

Sentado à cabeceira, o velho Schulz mantinha as mãos pousadas sobre a toalha. O jornal matinal repousava dobrado ao lado de seu prato, intacto. Suas feições, marcadas pelas rugas profundas de uma noite em claro, tremiam levemente a cada vez que seus olhos buscavam o outro lado da mesa.

Ali estava Erich.

O rapaz vestia uma camisa civil de flanela xadrez e calças escuras. O hematoma na têmpora esquerda, resultado da hospitalidade dos agentes da Gestapo na garagem da Morzinplatz, agora adquirira um tom esverdeado e feio. Seus olhos estavam fundos, cercados por olheiras escuras, mas seus movimentos eram metódicos, lentos, desprovidos de qualquer hesitação. Ele passava a manteiga sobre o pão com a precisão mecânica de um soldado engraxando o ferrolho de uma arma.

A mãe de Erich, sentada à direita do filho, empurrava a compota na direção do rapaz com mãos trêmulas:

— Coma mais um pedaço, meu filho... Você precisa recuperar as forças. Eu pedi ao leiteiro que trouxesse creme fresco esta manhã...

— Estou satisfeito, mãe. Obrigado — Erich respondeu, a voz plana, serena e distante como a de um estranho que ocupava aquele assento por conveniência temporária.

O patriarca pigarreou. O som seco pareceu quebrar a porcelana da sala. Ele moveu as mãos sobre a mesa, os dedos entrelaçando-se num gesto de súplica contida, os lábios abrindo-se com uma dificuldade penosa:

— Erich...

O jovem não ergueu os olhos do prato. Continuou mastigando o centeio com calma.

— O Capitão Fischer esteve aqui ontem porque cumpria ordens de serviço do regimento territorial — o patriarca tentou articular, a voz falhando em um tom defensivo e trêmulo. — Eu sou um veterano da Marinha Imperial, Erich. Eu conheço o rigor das leis marciais desta província... Se eu tivesse resistido à abordagem, se eu tivesse desafiado a autoridade do tribunal na soleira daquela porta, os agentes teriam levado a sua mãe para a triagem e confiscado esta casa. Eu fiz o que qualquer homem sensato faria para preservar a integridade da família...

Erich engoliu o último pedaço de pão. Pousou a faca de prata ao lado do prato com um estalo suave e limpo. Limpou os lábios com o guardanapo de linho, dobrou o tecido com precisão geométrica e, pela primeira vez desde que descera do quarto, levantou os olhos para o pai.

Não havia rancor na face de Erich. Não havia o fogo juvenil da revolta ou o veneno da acusação direta. Havia apenas um vácuo absoluto, uma mudez de calcário que fez o velho recuar os ombros contra o espaldar da cadeira como se tivesse levado uma bofetada em praça pública.

Erich não respondeu. Nem uma palavra. Nem um suspiro de reprovação.

Ele simplesmente levantou-se da mesa, beijou a testa da mãe com uma ternura silenciosa, deu as costas para a cabeceira e caminhou em direção ao corredor dos fundos, deixando o patriarca sozinho diante de seu prato frio, consumido pelo peso esmagador de um silêncio que nenhuma honra militar conseguiria quebrar.

Quarto de Dieter Schneider, Bairro de Alsergrund — Naquela mesma hora.

A fumaça espessa dos cigarros sem filtro formava uma névoa azulada sob a lâmpada de metal articulada da escrivaninha.

Dieter Schneider não trocara de roupa desde a noite anterior. A camisa preta de gola alta estava aberta no colarinho, as mangas arregaçadas revelando os antebraços pálidos onde veias azuis pulsavam com a tensão do cálculo contínuo. Sobre o tampo de madeira, dois arquivos volumosos estavam abertos lado a lado, cercados por dezenas de fichas datilografadas, certidões militares desbotadas e fotografias em preto e branco presas por clipes de ferro enferrujado.

De pé junto à porta trancada, com as mãos cruzadas nas costas da túnica e a submetralhadora a tiracolo, um soldado jovem da Gestapo mantinha a posição de vigia, observando o homem de Berlim com um misto de respeito e pavor supersticioso.

Dieter segurava uma lupa com cabo de osso em uma das mãos e um lápis de grafite vermelho na outra.

— Olhe para isso, soldado — Dieter murmurou, a voz saindo macia, arrastada, como se dividisse um segredo matemático com o ar da sala. — O cérebro humano é uma máquina extraordinária na criação de mentiras complexas, mas ele invariavelmente tropeça na simplicidade da própria arrogância.

O soldado deu meio passo à frente, hesitante:

— Encontrou a conexão com a fazenda, Herr Investigador?

Dieter soltou uma risada curta, desprovida de humor, batendo com a ponta do lápis vermelho sobre a primeira ficha:

— A fazenda é apenas uma casca, rapaz. Eu estou olhando para a anatomia de um fantasma.

Ele puxou o dossiê da esquerda:

— Aqui nós temos o Dossiê 4402/W: Stefan Goldstein. Filho primogênito do traidor Wilhelm Goldstein, executado sumariamente em Wittenberg em maio de 1945. Descrição física colhida no registro escolar do regimento: cabelos castanho-claros tendendo ao loiro acinzentado, olhos castanhos com traços miúdos, conformação maxilar pronunciada, ossatura robusta herdada do pai.

Dieter moveu o lápis para a direita, pousando a ponta sobre a fotografia de serviço de Thomas Müller:

— E aqui nós temos o nosso brilhante Investigador de Viena aos dezoito anos: Thomas Müller. Cabelos da mesma tonalidade exata. A mesma linha de mandíbula rígida. A mesma cicatriz sutil na têmpora esquerda que o fotógrafo da polícia tentou suavizar com o pó-de-arroz na emissão da carteira funcional de 1953.

Dieter inclinou o corpo sobre a mesa, os olhos azuis faiscando sob o foco de luz:

— Há um padrão aqui, soldado. Um padrão invisível para os burocratas da intendência que só enxergam carimbos, mas escandaloso para quem entende a anatomia da sobrevivência. Stefan foi dado como morto após seu comboio ser atacado pelos radicais da Orchestra. Mas não há corpo. Anos depois, surge Thomas Müller. Sem passado... Apenas, existindo. Quem são os pais dele? Com quem estudou? Onde estudou? Como um homem tão importante assim não tem histórico?

— Entendo. Senhor. Realmente algo curioso. — Disse o soldado.

Dieter deu um leve sorriso de canto. Não de satisfação, mas de curiosidade. Ele precisava desvendar aquele mistério que estava bem aos seus olhos.

Apartamento dos Müller, Centro de Viena — Naquele mesmo instante.

A carta amassada continuava sobre o colo de Thomas, o papel amarelado brilhando sob a claridade cinzenta que entrava pela vidraça da sala de visitas.

Lena não recuara um milímetro. Seus braços permaneciam cruzados sobre o peito, a postura rígida, a respiração forçada denunciando a fúria que lutava para não se transformar em soluços:

— Quem era o Stefan para você, Thomas? — a pergunta veio carregada de uma desconfiança cortante. — Como um investigador da polícia distrital de Viena... um homem que desfila com a farda cinza pelas avenidas e almoça com oficiais da segurança... conseguiu uma carta assinada pelo meu irmão?

Thomas não levantou a cabeça. Seus dedos continuaram acariciando a borda do copo de vidro grosso, os nós dos dedos rígidos.

— Ele era um membro da Orchestra, não era? — Lena insistiu, a voz elevando-se um tom, quebrando o silêncio fúnebre do apartamento. — Você cooperava com ele na clandestinidade! Você usava o seu distintivo para acobertar as rotas dele enquanto ele preparava aquele refúgio em Budapeste? Diga a verdade, Thomas! Olhe para mim e responda!

Thomas soltou o ar devagar pelos lábios entreabertos, mas permaneceu imóvel. A mudez dele era uma muralha de calcário.

— Você é um covarde — Lena cuspiu as palavras com um desprezo visceral, dando meio passo em direção ao corredor. — Um covarde que se esconde atrás de copos de conhaque enquanto as pessoas que realmente tiveram coragem de lutar morrem nas sombras! Eu vou sair desta casa, vou procurar o Franz Krüger e vou revirar cada beco desta cidade até encontrar o túmulo do meu irmão!

Quarto de Dieter Schneider, Bairro de Alsergrund.

Dieter virou a página do inquérito de Wittenberg de 1945, batendo com a lupa sobre o relatório de ocorrência emitido pela polícia de segurança da província da Saxônia:

— Aqui está o relatório do comboio de transporte de prisioneiros atacado na rodovia leste em sete de maio de 1945 — Dieter leu em voz alta, o tom adquirindo a cadência fria de um diagnóstico de necropsia. — 'A viatura de transporte militar sofreu emboscada com explosivos de alta potência e disparos de fuzilaria automática atribuídos a elementos sediciosos da rede Orchestra. Veículo tombado na vala lateral. Três guardas executados sumariamente. Os corpos dos prisioneiros subversivos foram carbonizados ou destroçados no interior da caçamba pelos rebeldes...'

Dieter ergueu os olhos da página, fitando o soldado com uma expressão de triunfo sombrio:

— Stefan Goldstein foi dado como oficialmente morto pelo tribunal de Wittenberg naquela mesma tarde. A certidão de óbito foi realmente emitida...

Ele bateu com a ponta do lápis no rodapé da folha:

— ...mas cadê o corpo, soldado? Onde estão os laudos odontológicos que comprovariam a presença dos dentes de um garoto de doze anos entre as cinzas de três guardas adultos? Onde está o registro de sepultamento individual? Não existe! Não há sepultura, não há laudo, não há fragmento ósseo catalogado pelo serviço médico! A Orchestra não atacou aquele caminhão para libertar prisioneiros comuns; ela atacou com precisão cirúrgica para resgatar o herdeiro do homem que conhecia todas as rotas logísticas da província!

Apartamento dos Müller, Centro de Viena.

A paciência de Lena esgotou-se por completo.

Ela deu dois passos largos de volta ao centro da sala, parando exatamente à frente da poltrona, estendendo a mão trêmula para segurar a gola da camisa amarrotada de Thomas, forçando-o a erguer o rosto:

— Como ele era, Thomas? — ela exigiu, as lágrimas finalmente rompendo o controle e descendo livres pelas suas bochechas pálidas. — Você o conheceu! Você esteve com ele antes dele morrer! Diga-me como o meu irmão era aos vinte e tantos anos?

Thomas sentiu o tecido da camisa ser puxado pelos dedos desesperados de Lena. Ele foi obrigado a encará-la nos olhos.

A proximidade física daquele rosto — as mesmas sobrancelhas finas de Mia, a mesma curvatura firme do lábio inferior que Wilhelm possuía — atingiu o peito de Thomas com a violência de uma carga de baioneta. Todo o conhaque do mundo, todas as mentiras acumuladas em mais de uma década de farda e distintivo desmoronaram sob o calor daquele contato.

Uma lágrima solitária, espessa e quente brotou no olho esquerdo de Thomas, escorrendo devagar pelo sulco de sua bochecha até pingar sobre a gola aberta.

Lena estancou. Seus dedos afrouxaram o tecido da camisa dele. Ela deu meio passo para trás, a respiração presa na garganta, fitando aquela lágrima com uma perplexidade atônita:

— Thomas...?

Ela aproximou-se devagar, ajoelhando-se lentamente sobre o tapete desgastado ao lado da poltrona, os olhos azuis cravados no rosto do investigador como se tentasse enxergar através de uma máscara de gesso que começava a rachar sob o sol:

— Por que você está chorando assim...? O que você está escondendo de mim?

Quarto de Dieter Schneider, Bairro de Alsergrund.

Dieter puxou a certidão de batismo de Thomas Müller, emitida pelo cartório militar provisório da Baixa Áustria em 1950, e colocou-a sob a lente da lupa:

— Data de nascimento declarada de Thomas Müller: 14 de setembro de 1933. Cidade natal: Linz.

Ele abriu a ficha escolar original de Wittenberg, datada de 1941:

— Data de nascimento de Stefan Goldstein: 14 de março de 1933.

O soldado da Gestapo arregalou os olhos na penumbra da porta:

— O mesmo ano... Meses diferentes. Mas isso pode ser apenas um espantalho plantado.

— E o mais fascinante, meu caro soldado — Dieter continuou, a voz descendo para um sussurro terrivelmente divertido —, é que eu solicitei uma checagem emergencial por teletipo aos arquivos paroquiais da diocese de Linz há três horas. Sabe o que os padres responderam? Não existe nenhum registro de nascimento, batismo ou comunhão para um Thomas Müller nascido naquela província entre 1930 e 1935. Nada! Nenhum registro civil!

Dieter levantou-se num movimento fluido, ajeitando a camisa preta, os olhos faiscando com a certeza absoluta da presa encurralada:

— Com isso, só podemos chegar a duas conclusões, ou Thomas Müller realmente existiu, mas seus registros de infância foram apagados para manter a descrição ou...

Apartamento dos Müller, Centro de Viena.

Lena estava agora com as duas mãos repousadas sobre os joelhos de Thomas, fitando-o com um pavor reverente, as peças daquele quebra-cabeça monstruoso unindo-se na velocidade de um raio em sua mente.

— Thomas... — ela sussurrou, a voz trêmula, quase inaudível sob o tique-taque do relógio. — O Stefan... o Stefan realmente está morto?

Thomas ergueu o rosto devagar.

Seus olhos estavam vermelhos, transbordando lágrimas que desciam sem controle pelas faces pálidas, quebrando a rigidez que sustentara por toda a vida adulta. Ele não desviou o olhar; encarou Lena com uma dor tão crua, tão dilacerante, que o ar da sala pareceu gelar ao redor dos dois.

Thomas respirou fundo pelo nariz, puxando o ar como se emergisse de um afogamento interminável. Sua voz saiu rouca, profunda e quebrada:

— Sim, Lena... O Stefan realmente morreu.

Lena soltou um gemido sufocado, levando as duas mãos à boca, as lágrimas caindo sobre o colo de Thomas, o peito sacudindo em um choro convulsivo e desesperado diante da confirmação definitiva de sua orfandade.

Thomas estendeu as duas mãos trêmulas e envolveu o rosto de Lena com uma ternura infinita — o mesmo toque firme, o mesmo calor que ela sentira no pátio de Wittenberg antes que os caminhões chegassem:

— Ele realmente morreu quando foi arrancado da própria casa pela Gestapo, Lena... Ele morreu quando não conseguiu voltar para bater três vezes na madeira e tirar você daquele assoalho... Ele morreu na culpa de ter deixado a irmãzinha de seis anos para trás enquanto salvava a própria pele...

Lena paralisou. O choro travou em sua garganta. Os olhos azuis arregalaram-se em choque absoluto, as pupilas dilatadas enquanto o cérebro processava aquelas palavras impossíveis: as três batidas na madeira. Ninguém sabia daquele código. Ninguém na terra conhecia aquela promessa além do menino de doze anos que correra para a despensa.

— Não... — ela balbuciou num fio de voz, o peito parando de bater. — Não pode ser...

Thomas curvou os lábios em um sorriso triste, banhado em lágrimas, a voz saindo limpa, despida de qualquer disfarce:

— Quem nasceu no lugar dele... para carregar essa culpa e construir uma ponte segura para você atravessar... foi o Thomas Müller. Mas eu cumpri minha promessa ao papai, eu voltei para Viena, eu voltei para te resgatar, minha irmã.

Quarto de Dieter Schneider, Bairro de Alsergrund.

Dieter girou sobre os calcanhares com uma ferocidade militar absoluta, apontando o dedo indicador para a porta:

— Soldado! Mobilize o destacamento de choque da Gestapo imediatamente! Cerquem o quarteirão da Herrengasse e tragam-me o Investigador Thomas Müller! Agora!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.