A Rainha dos caras maus

1 O dia de uma rainha!!!


Oi. Você está aí? Bom, mesmo que não esteja, eu vou falar mesmo assim. Porque, tipo, eu sou a rainha aqui, e rainha fala quando quer. Eu sou Lulu. Mas você já pode me chamar de Rainha dos Caras Maus, porque é isso que eu sou. E, olha, não é um título que eu inventei não, tá? É oficial. Tipo, tem até uma coroa e tudo. Bem, a coroa é de papelão, mas isso é detalhe.


Você deve estar se perguntando: "Quem são os caras maus?" Ah, essa é a parte legal. Ou a parte estranha. Depende do seu ponto de vista. Dois anos atrás, o mundo virou de cabeça pra baixo. Do nada, um monte de gente começou a ficar... esquisita. Eles têm umas manchas pelo corpo, tipo aquelas pintas que o vovô tem, só que maiores e mais feias. Eles não comem ninguém, graças a Deus, mas adoram uma bagunça. Quebram tudo, gritam, viram carros... é tipo um carnaval, só que sem música e com mais destruição.


E sabe o que é mais estranho? Eu consigo controlar eles. Tipo, eu falo "ei, para de quebrar aquela janela" e eles param. Ou eu falo "vai pegar aquela bicicleta pra mim" e eles vão. É como se eu fosse a chefe deles. A rainha. E, olha, eu não sei por que isso acontece. Nem eu! Eu só acordei um dia e pensei "ei, seria legal se eles me obedecessem" e... eles obedeceram. Pronto. Foi assim.


Hoje foi um dia normal. Tipo, normal pra mim, que já não sei mais o que é normal. Eu acordei no meu "castelo", que na verdade é uma loja de departamentos abandonada. Eu escolhi esse lugar porque tem muita coisa legal aqui: roupas, brinquedos, até uma seção de maquiagem que eu adoro. Eu pintei as paredes com tinta spray, coloquei umas cortinas velhas nas janelas e fiz uma cama gigante com um monte de travesseiros. É o meu trono, basicamente.


Meus caras maus ficam lá fora, fazendo... sei lá, o que eles fazem. Às vezes eu deixo eles entrarem, mas só se eles se comportarem. Tipo, sem quebrar nada, sem gritar, sem fazer bagunça. Eles obedecem, mas eu sei que eles preferem ficar lá fora, onde podem fazer o que quiserem.


Hoje eu decidi dar uma volta pelo bairro. Eu gosto de explorar, sabe? Ver o que tem por aí. Eu peguei minha mochila rosa (é a minha favorita) e chamei dois dos meus caras maus pra me acompanhar. Eu chamo eles de Bob e Fred. Não sei se esses são os nomes deles de verdade, mas é o que eu decidi chamar. Bob é alto e magro, com uma mancha grande no rosto. Fred é baixinho e tem manchas nos braços. Eles são meio que meus guarda-costas.


A gente saiu andando pelas ruas, passando por carros abandonados, lojas quebradas e prédios cheios de plantas crescendo pelas paredes. É estranho, mas eu acho bonito. Tipo, a natureza tá tomando conta de tudo de novo. É como se o mundo estivesse se reinventando.


Enquanto a gente andava, eu fiquei pensando em como tudo mudou. Dois anos atrás, eu era só uma menina normal. Ia pra escola, brigava com minha irmã mais velha, assistia desenho na TV... e agora eu sou a rainha de um monte de gente esquisita que obedece cada palavra minha. É meio louco, né?


De repente, Bob parou. Ele ficou olhando pra algo no chão. Eu me aproximei e vi que era um rádio. Um rádio velho, todo quebrado, mas ainda funcionando. Eu peguei ele e liguei. No começo, só tinha estático, mas então eu ouvi uma voz. Uma voz de verdade, de alguém que não era infectado.


"Alguém... alguém está aí? Por favor, se alguém estiver ouvindo... precisamos de ajuda."


Eu fiquei parada, olhando pro rádio. Bob e Fred também olharam, como se estivessem entendendo o que estava acontecendo. Eu nunca tinha ouvido alguém falando assim, tão desesperado.


"Oi?" eu disse, meio sem saber o que fazer. "Tem alguém aí?"


A voz parou por um segundo, e então respondeu: "Sim! Sim, estamos aqui! Por favor, você pode nos ajudar?"


Eu olhei pra Bob e Fred, e eles olharam de volta pra mim, como se estivessem esperando uma ordem. Eu não sabia o que fazer. Eu nunca tinha falado com alguém assim antes.


"Onde vocês estão?" eu perguntei, tentando parecer confiante.


"Estamos... estamos num prédio perto do centro. Por favor, você pode vir até aqui?"


Eu fiquei em silêncio por um momento, olhando pro rádio. Eu não sabia se devia confiar nessa voz. Mas, ao mesmo tempo, eu estava curiosa. Quem era essa pessoa? O que eles queriam?


"Tá bom," eu disse finalmente. "Eu vou aí. Mas, olha, se for uma armadilha, vocês vão se arrepender. Eu tenho os meus caras maus, e eles não perdoam."


A voz ficou em silêncio por um segundo, e então respondeu: "Entendido. Por favor, venha logo."


Eu desliguei o rádio e olhei pra Bob e Fred. "Vamos lá, pessoal. Parece que a rainha tem um novo desafio."


A gente começou a caminhar em direção ao centro. Eu não sabia o que ia encontrar, mas eu estava animada. Finalmente, algo diferente estava acontecendo. Algo que poderia mudar tudo.


Enquanto a gente andava, eu fiquei pensando no que eu ia fazer. Eu não sou má, sabe? Eu só gosto de brincar. Mas, talvez, essa fosse a chance de fazer algo realmente importante. Algo que mostrasse que eu não sou só uma menina com uma coroa de papelão.


Mas, ao mesmo tempo, eu não queria perder o controle. Eu gosto de ser a rainha. Gosto de ter os meus caras maus. E eu não queria que ninguém tirasse isso de mim.


Quando a gente chegou perto do centro, eu vi o prédio onde a voz disse que estavam. Era um prédio alto, com janelas quebradas e uma placa que dizia "Hospital Municipal". Eu nunca tinha entrado lá antes.


"Tá bom, pessoal," eu disse pra Bob e Fred. "Vamos lá. Mas fiquem de olho aberto, tá? Se tiver alguma coisa errada, a gente vaza."


Eles balançaram a cabeça, como se entendessem. E então a gente entrou no prédio.


Dentro, estava escuro e silencioso. Eu acendi uma lanterna que eu carrego na mochila e comecei a subir as escadas. A cada passo, eu sentia o coração bater mais forte. Eu não sabia o que ia encontrar, mas eu sabia que isso poderia mudar tudo.


Quando a gente chegou no último andar, eu vi uma porta entreaberta. Eu me aproximei e empurrei ela devagar.


Dentro, havia um grupo de pessoas. Eles estavam magros, com olhos cansados, mas pareciam aliviados de me ver.


"Você... você é a garota do rádio?" um deles perguntou.


Eu balancei a cabeça, tentando parecer confiante. "Sim. Eu sou Lulu. A Rainha dos Caras Maus."


Eles olharam pra mim, e então pra Bob e Fred, que estavam atrás de mim. Eu vi o medo nos olhos deles, mas também vi esperança.


"Por favor," um deles disse. "Você pode nos ajudar?"


Eu fiquei em silêncio por um momento, olhando pra eles. Eu não sabia o que dizer. Eu não sabia o que fazer.



Mas então eu sorri. "Claro que posso. Afinal, eu sou a rainha, né?"


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.