A Rainha dos Campos de Centeio
2 Prólogo - O Livro da Renovação
Notas iniciais
Os fatos narrados a seguir correspondem a um compêndio, um grupo de escritos encontrados na Montanha Escolhida dois anos depois da morte de Fatimah. Acredita-se que fora compilado por um de seus seguidores, de nome desconhecido, que teria recebido informações diretamente de Marvin, o guerreiro. Trata-se portanto, de um fato ocorrido após a demanda da grande mãe.
1. A missão de Marvin
1Marvin seguia para Queta, deixando o território paquistanês e se aproximando de Kandahar, a cidade afegã mais próxima. 2Já havia ultrapassado pelo menos três barreiras durante todo o caminho, pedindo sempre para que Fatimah, a misericordiosa, iluminasse o seu caminho e o deixasse cumprir a missão que ela própria havia lhe dado. 3Por muito tempo, enquanto dirigia o carro velozmente pelo deserto, Marvin se questionou a respeito de sua missão, duvidando de sua força de vontade e deixando transparecer a culpa pelo que havia sido feito.
4Mas ele era um servo, estava sendo guiado por uma força superior, da qual ele não podia compreender, que ia muito além de seu arrependimento mundano acerca da vida e tudo mais. 5Seus olhos estavam marejados, e durante toda a viajem ele se questionara mentalmente “Ó grande mãe, que tudo sabes. Fizera eu o que era realmente correto?”. 6E então logo em seguida entrava em profunda cólera, deixando que um rio de lágrimas escorresse por sua face, embaçando sua visão. 7Mas a escolhida era por demais sábia, e nos momentos em que Marvin mais titubeava, sua voz ecoava em sua cabeça, como se as nuvens estivessem se abrindo, transmitindo o som diretamente dos céus “Confie em mim, pois eu confio em você”.
8Nesses momentos, o homem pressionava o cabo do punhal manchado de sangue com ainda mais força e fé, respirando profundamente e acelerando o veículo, que levantava uma grande quantidade de poeira no deserto. 9Ao seu lado repousava uma AR-15 e uma pistola Desert Eagle, todas com munição suficiente para o que havia sido proposto. 10Dos curtos cabelos negros escorria um suor tenso, que lhe descia pela testa, quase alcançando os olhos. 11Marvin era considerado um homem belo, pela visão mundana. 12Sua pele era clara e sua ascendência europeia. 13Suas roupas eram tipicamente militares, assim como o veículo oficial que usava, pertencente às Forças Armadas do Paquistão. 14Corpulento, mas de coração bom, Marvin era um verdadeiro guerreiro, e em sua última missão resolvera abandonar em definitivo o exército dos homens, para se juntar ao exército do Altíssimo.
15“Que venham a mim aqueles de coração puro, destinados à glória, e que tenham total desprendimento com essa vida, pois essa vida nada mais é do que um mícron, se comparada à vida eterna na morada de Deus”. 16O soldado jamais se esquecera das palavras de Fatimah, palavras que tanto o encorajaram, e que a partir delas despertara em seu coração o desejo de buscar algo a mais. 17Estava apenas em um invólucro de carne, um simples avatar, que nada tinha importância se comparado às maravilhas do Reino dos Céus. 18Era essa morada que ele buscava, e por ela havia feito o que precisara ser feito. 19Seria lembrado por isso, um mártir, um dos grandes. Para as três religiões.
20O rádio fora ligado e dele pudera-se ouvir as notícias sobre o que a imprensa chamava de atentado terrorista, que havia acontecido há dois dias em Lahore, cidade paquistanesa próxima a Índia. 21O soldado sabia que não havia sido um atentado, e sim um despertar, um sacrifício de libertação, que só fazia aumentar a plenitude de sua causa. 22Sentia-se orgulhoso por fazer parte daquilo, por ter enfrentado os seus medos, por ter enfrentado governos, e por finalmente estar caminhando para a conclusão de tudo.
23Em meio ao terreno árido e o calor escaldante, Marvin enxergara a montanha perdida em meio ao mar de areia. 24Seguira as trajetórias que lhe foram dadas e chegara exatamente ao seu destino. 25O relógio marcava cinco horas da tarde, a noite começava a chegar, e a temperatura começava a baixar. 26O guerreiro parara o carro e olhara com vigor para a parede de pedras.
2. Marvin sobe a Montanha Escolhida
1Tomara pela bandoleira e prendera a AR-15 as costas, como um bom soldado assim o faria. 2A Desert Eagle fora posta no coldre, enquanto que o punhal, ainda manchado de sangue vivo, fora delicadamente preso em seu cinto. 3Um lenço negro lhe cobrira a face, protegendo-o do ar quente e arenoso, por demais prejudicial aos pulmões. 4O guerreiro queria se assegurar que nenhum fator externo iria atrapalhá-lo. 5Respirara então profundamente, colocando as duas mãos em concha sobre o rosto, e proferindo uma silenciosa, porém fervorosa prece. 6Utilizara a língua árabe, por saber que entre as mundanas, era a mais apreciada por Fatimah:
7“Ó grande mãe, ó ministra da misericórdia. 8Vós que me abençoara com sua presença, dando-me pessoalmente a maior de todas as missões, e por isso a mais difícil, não deixai que eu me perca agora que estou tão perto de alcançar a plenitude. 9Receba-me em seus braços, pois logo estarei contigo.”
10Preparado física e emocionalmente, Marvin começara a escalar a Montanha Escolhida. 11O monte era íngreme, ideal como esconderijo, já que suas cavernas penetravam toda a montanha, perdendo-se em labirintos de centenas de metros, grandes corredores que podiam ser usados para se alcançar o outro lado do paredão. 12Além disso, sua composição era dura, rígida, porém lisa, o que dificultava uma investida silenciosa, como a de Marvin, que só podia ser feita escalando-a.
13Apesar de toda a dificuldade, o guerreiro fora movido por sua fé e instinto, por isso conseguira chegar sem maiores problemas ao ponto mediano da montanha, por onde adentraria um túnel, marcado previamente com três pedras negras, popularmente conhecidas como pedras de raio. 14Limpando a poeira das vestes, Marvin avistara as pequenas pedras, e tivera certeza de que seu caminho era abençoado por forças superiores. 15Sorrindo, seguira pelo túnel estreito e escuro, sabendo que nenhuma sentinela iria surpreendê-lo, já que Fatimah havia lhe alertado sobre isso também.
16Após alguns metros, o túnel o levara a um grande corredor, iluminado por uma tocha, que aparentemente havia sido colocada ali há pouco tempo, provavelmente por saberem que a noite estava se aproximando. 17O ar era rarefeito, mas um mecanismo de engenharia no teto de pedra, naquele mesmo corredor, fazia com que uma pequena quantidade de ar, suficiente para manter todos que estivessem ali com vida, circulasse por todo o ambiente. 18O corredor estava vazio, então Marvin seguiu, e seus olhos que antes estavam vermelhos de lágrimas, agora eram pintados por um brilho que só enfatizava o seu tom cinzento.
19Depois de trinta metros em meia luz, o soldado finalmente começara a ouvir um burburinho, um som de vozes há poucos passos de onde ele se encontrava. 20Diminuindo a passada, Marvin seguiu, deixando o corredor e alcançando uma grande abertura, no coração da montanha, onde um grupo de pessoas se reunia ao redor de uma fogueira. 21O primeiro a avistá-lo fora um homem barbudo, de meia idade e túnica branca com grandes manchas vermelhas. 22Bradando em árabe, ele tomara uma .50 nas mãos, direcionando-a a Marvin e chamando a atenção de todos os outros.
23Nesse momento, iluminado pela grandiosidade da ministra da misericórdia, o guerreiro lembrara-se das palavras de sua condutora, que em grande sabedoria, havia previsto que algo assim pudesse ocorrer. 24“Mostre a eles sua marca, a marca que apenas os que me seguem a possuem e somente os que me amam conseguem compreender. 25Assim que a verem, saberão que você é um deles”. 26E assim fora feito, com as mãos erguidas em sinal de rendição, o guerreiro bradara em árabe, percebendo que todos ali eram daquela região.
27“Fui enviado pela mãe! Fui enviado pela Mãe! Ela me marcou, vejam! Ela me marcou”. 28Atônitos, o grupo que antes se mostrara hostil fora tocado pelas palavras do guerreiro, e dando-lhe um voto de confiança, verificaram se o que ele dizia era verdade. 29Ao se aproximaram, confirmaram o que Marvin lhes dissera. 30Atrás de sua orelha havia uma marcação feita à lâmina, representando uma runa muito antiga. 31A runa babilônica da paz.
32Todos então se regozijaram, e o soldado fora convidado a se juntar ao grupo de onze homens e três mulheres, sentando-se todos ao redor da fogueira.
3. O caminho para o Altíssimo. O último desejo de Fatimah.
1Tendo conquistado a confiança dos homens e das mulheres ali presentes, Marvin juntara-se a eles no singelo jantar daquele início de noite. 2Contando com as saídas de ar para mantê-los com oxigênio e protegidos do frio a baixo de zero que fazia no deserto, os Filhos de Fatimah, como assim eram chamados, podiam se dar ao luxo de assar carne, sem que fossem detectados por qualquer inimigo que estivesse do lado de fora, e também sem se asfixiarem com a fumaça oriunda da fogueira.
3Comeram carne de coiote, tomaram leite e entoaram cânticos ao Divino, exaltando toda a sua beleza e magnitude. 4Ali estavam, em sua maioria, integrantes de suporte que haviam realizado o sacrifício de libertação em Lahore. 5Os verdadeiros mártires haviam sucumbido junto às bombas, e aquela altura já estavam ao lado da grande mãe. 6O grupo inclusive, ainda não havia tomado conhecimento da partida de Fatimah, rumando para o seu descanso eterno, e quando Marvin lhes dissera, todos, sem exceção, começaram a chorar copiosamente.
7O mais ancião do grupo, porém, encerrara as lágrimas primordialmente, erguendo-se em uma pedra, e chamando a atenção de todos, para que pudesse iniciar o seu discurso. 8De barba branca longa, também utilizava uma túnica alva, que se estendia até os pés. 9Era conhecido apenas como Ahmed, um afegão que se juntara a causa após sua cidade ter sido invadida pelos inimigos terrenos. 10Com o rosto tomado por cicatrizes e rugas, o velho sábio começara a falar:
11“Não fiquem tristes irmãos, pois a morte é apenas uma passagem, um mícron, como a grande mãe sempre ressaltou. 12Assim como fora profetizado ocorrera, ela morrera por todos nós, cumprindo sua demanda terrena. Fatimah agora irá nos guiar dos céus, ao lado dos dois grandes pais e do Altíssimo. 13Além disso, enviara o irmão Marvin em uma grande missão, que ainda não nos fora revelada. 14Tenho certeza que algo grande ainda está reservado a nós, e será por intermédio desse guerreiro, que saberemos qual fora o último desejo de Fatimah”. 15E assim seguira: “Diga-nos, grande soldado, qual o último desejo de nossa grande mãe?”.
16Sabedor de que havia chegado a hora, e de que não havia espaço para hesitações, Marvin erguera-se do solo, e em movimentos rápidos, tão velozes quanto um piscar de olhos, dera início àquilo que responderia ao questionamento de Ahmed. 17O último desejo de Fatimah.
18Sacara primeiro a Desert Eagle, atirando três vezes contra o peito de Ahmed, que estava de braços abertos e o olhava com fulgor de esperança em suas íris cansadas. 19Antes que qualquer um ali pudesse reagir, largara a pistola e utilizara a AR-15 para disparar em rajada contra o grupo, abatendo-os antes mesmo que qualquer outro tiro, que não o de suas armas fosse impetrado. 20Os corpos desfalecidos tombaram no chão, manchando a caverna com o rubro de seus sangues. 21O último desejo da grande mãe se cumprira. 22A missão daqueles pobres coitados havia chegado ao fim.
23Exatamente como a de Marvin. Chegara a hora de encontrar o Altíssimo.
4. O fogo que renova. A palavra nunca morre.
1Tomado pelo vigor de sua missão, e pela felicidade de ter feito exatamente aquilo que Fatimah havia lhe pedido, Marvin sentira que todo o peso que outrora lhe tomara conta, havia deixado totalmente o seu corpo. 2Estava leve, pronto para subir aos céus, pronto para ser aclamado como um do grandes. 3Como um grande guerreiro.
4Ainda seguindo as instruções da ministra misericordiosa, o guerreiro buscara no interior da caverna, em um túnel adjacente no lado oeste do grande salão de pedra que ocupavam, uma pequena passagem, que levava a outro túnel. 5Lá, sete motocicletas e três quadriciclos com pneus próprios para o terreno arenoso estavam resguardados, assim como sete tonéis de combustíveis, prontos para um plano de fuga, caso o grupo que ali estava fosse cercado pelos inimigos. 6O túnel fora preparado para que os veículos pudessem ser conduzidos pelo lado de dentro, saindo por uma passagem que os levaria ao lado de fora da montanha, exatamente do outro lado do paredão, defronte ao deserto.
7Utilizando sua força, Marvin arrastara três galões para o salão de pedra, onde os corpos dos Filhos de Fatimah jaziam, mortos pela vontade da mãe. 8O guerreiro abrira um a um, despejando o líquido sobre os cadáveres, além de jogar também sobre todos os papéis, mapas e informativos que ali se encontravam, e todo e qualquer documento ligado ao ocorrido em Lahore. 9Em seguida, jogara um pouco do combustível sobre a própria cabeça, banhando-se como assim fizera nas águas sagradas do Potomac, quando, há dois anos fora batizado ante os partidários de Fatimah. 10Fizera isso sorrindo, pois era a vontade da grande mãe.
11Tomara nas mãos uma das tochas que encontrara presa a parede, tão logo havia escalado a montanha, e antes de finalmente concluir sua missão, dissera em voz alta, ainda em árabe: “Prostro-me ante de ti, grande mãe, e por ti realizo tal sacrifício. 12Fiz sua vontade, e assim como um filho obedece a mãe, eu obedeci cegamente a teus comandos, pois só os tolos contestam a vontade do Altíssimo. 13Estou pronto para ser acolhido em teus braços, e sei que esse é apenas o começo da grande renovação. 14O mundo irá mudar depois disso, pois tu plantara a semente. 15Que seja feita a vossa vontade. Sua palavra seguirá, pois a palavra nunca morre”.
16Jogara então a tocha sobre o combustível, e as chamas tomaram conta do lugar. 17O fogo da renovação lambera as paredes de pedra, queimando os corpos e os papéis, e eliminando os demais vestígios da presença dos Filhos de Fatimah. 18Sentado em uma pedra, a mesma em que Ahmed discursara, Marvin levara as mãos em concha sobre o rosto, enquanto o fogo lhe consumia a carne, levando embora lentamente o seu corpo, a sua vida terrena.
19O guerreiro partira para junto do Altíssimo, cumprindo com êxito sua missão, pois assim como dissera, a palavra nunca morre. 20Já que o fim é apenas o princípio.
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